UNIVERSIDADE
FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA
O Efeito do Software Educativo no Desenvolvimento
da Ortografia pela Criança
Trabalho apresentado por Patrícia Vasconcellos,
sob orientação da Prof.(a). Lúcia Browne Rego,
na disciplina Monografia 2, da graduação
do curso de Psicologia da UFPE
Mesmo que eu fale em línguas,
A dos homens e a dos anjos,
Se me falta o amor,
Sou um metal que ressoa, um címbalo retumbante.
Mesmo que tenha o dom da profecia,
O saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento,
Mesmo que tenha a fé mais total,
A que transporta montanhas,
Se me falta amor, nada sou.
(Epístola de São Paulo aos Coríntios,
13, 1-2)
"Para os meus filhos
Gabriela, Rodrigo e Pedro,
razão de ser da minha vida."
AGRADECIMENTOS
Às crianças, por compartilharem conosco a sua construção
do aprender;
Às professoras, por nos permitirem um trabalho com liberdade;
À mestra e amiga, orientadora deste trabalho, por nos fazer
“devorá-lo” (a nível psicanalítico);
Ao mestre, exemplo vivo de determinação, que há
muito vem sendo o nosso guia nas descobertas do uso da informática
na educação;
Às empresas que nos apoiaram através dos recursos tecnológicos
utilizados;
À minha família, por ter compreendido e apoiado este
momento;
Aos companheiros de “viagem”, por terem nos ajudado a
transformar o nosso sonho/desejo de ser Psicóloga, em realidade.
1. Resumo
Este trabalho teve por objetivos realizar a análise de softwares
educativos que se propunham a trabalhar a língua portuguesa
na área de ortografia e empreender um estudo piloto de intervenção
para como este artefato pedagógico poderia apoiar o ensino
das regras ortográficas.
Para a elaboração do projeto aprofundamos os nossos
conhecimentos nas questões de ortografia e no uso do computador
como uma ferramenta pedagógica de auxílio ao professor.
Além disso, adquirimos alguns softwares nacionais que se propunham
a trabalhar questões de ortografia e os exploramos nas suas
diferentes atividades, selecionando para a nossa intervenção
o software Ortografando II, da Byte & Brothers.
Fizemos intervenção junto a crianças das primeiras
e segundas séries. Realizamos um pré-teste e um pós-teste
com ditados de palavras inventadas, enfatizando as regras ortográficas
de uso do R, como instrumento de verificação da eficácia
do software. Elaboramos um desenho experimental com quatro grupos:
o grupo 1, com atividades no computador, sem intervenção
da facilitadora, utilizando a lista de palavras do software selecionado
(Ortografando II), com a opção para palavras com r/rr;
o grupo 2, com atividades no computador, sem intervenção
da facilitadora, utilizando a lista de palavras criada por nós
no software selecionado (Ortografando II), com o direcionamento para
palavras com r/rr; o grupo 3, com atividades no computador, com intervenção
da facilitadora, utilizando a lista de palavras criada por nós
no software selecionado (Ortografando II), com o direcionamento para
palavras com r/rr e o grupo 4, que não realizou tarefas no
computador. O desenho experimental refletiu a nossa preocupação
com a possibilidade do software educativo facilitar por si só
ou com a intervenção do professor a aquisição
das regras ortográficas pelas crianças.
Apesar de só termos tido uma sessão com cada criança
no computador, observamos que o grupo de crianças com as quais
fizemos uma reflexão ao final do uso do software sobre as questões
de ortografia apresentaram um índice maior de aquisição
da regra do rr no pós-teste comparativamente às crianças
que trabalharam com o computador sem nenhuma intervenção.
Além disso, esse grupo de crianças conseguiu, também,
explicitar da regra do rr em todos os seus contextos.
2. Introdução
Estudos Lingüísticos e Psicolingüísticos
de Ortografia
Estudos psicolingüísticos realizados nas últimas
décadas demonstram que o processo de leitura e escrita envolve
muito mais que codificação/decodificação
de símbolos e coordenação motora. Estes estudos
apontam para uma “lógica” da criança durante
a evolução de sua concepção do que seja
ler e escrever.
Os estudos de Ferreiro (1985) nos mostram como a criança concebe
o processo de escrever e que escrever é muito mais do que grafar
corretamente. Ferreiro nos alerta para uma questão da escrita
ser concebida como um sistema de representação e que
sua aprendizagem é uma apropriação de um novo
objeto de conhecimento, sendo, assim, uma aprendizagem conceptual.
O sistema alfabético de escrita tem por objetivo a simbolização
da linguagem por um grupo e, portanto, é um objeto construído
culturalmente. Como todo sistema de representação, baseia-se
em uma construção mental, com regras próprias.
Ferreiro (1985) nos diz que “escrever não é transformar
o que se ouve em formas gráficas, assim como ler também
não equivale a reproduzir com a boca o que o olho reconhece
visualmente”.
Ao se deparar com este objeto social - a escrita -, a criança
elabora hipóteses que evoluem de um estágio a outro
até a concepção alfabética de escrita
(Ferreiro, 1985):
· Primeiro Nível: as crianças procuram formas
de diferenciar o desenho da escrita, detêm-se sobre a quantidade
mínima de letras em uma palavra e variações
qualitativas internas (uma palavra tem que ter letras diferentes);
· Segundo Nível: as crianças procuram fazer
diferenciação entre os escritos (mais letras se um
objeto for grande, menos letras para objetos pequenos, mesma cadeia
de letras não pode representar coisas diferentes);
· Terceiro Nível: a criança fonetiza a representação
escrita, relacionando o padrão sonoro da palavra à
sua representação escrita; aqui, a criança
evolui por três etapas:
· silábica: cada sílaba da palavra corresponde
a uma letra;
· silábica-alfabética: algumas letras ainda
podem passar por sílabas, enquanto outras representam unidades
sonoras menores (fonemas);
· alfabética: a similaridade do som implica uma
similaridade de letras.
Ao atingir a concepção alfabética da escrita,
a criança supõe que cada letra corresponde a um som.
Porém, isto nem sempre é verdadeiro na língua
portuguesa e a criança precisa entrar em contato com situações
que a façam refletir sobre estes casos, pois o estágio
alfabético não constitui o último passo na concepção
de escrita.
Os estudos de Lemle (1991) e Faraco (1992) têm em comum uma
preocupação com a análise e a descrição
das relações entre o sistema gráfico e fonológico
da língua portuguesa, bem como com as dificuldades que as variações
do sistema alfabético proporcionam à criança
em seu processo de aquisição da língua escrita.
Segundo Faraco (1992), o sistema gráfico da língua portuguesa
apresenta algumas relações possíveis entre as
unidades sonoras e as unidades gráficas. Há as relações
biunívocas e as relações cruzadas.
Nas relações biunívocas, cada unidade sonora
corresponde a uma unidade gráfica e esta unidade gráfica
só representa aquela unidade sonora. Por exemplo, a unidade
sonora | p | é sempre representada pela unidade gráfica
(letra) p; e a letra p só representa a unidade sonora | p |.
Estas relações apresentam uma regularidade absoluta.
Nas relações cruzadas, uma unidade sonora pode corresponder
a diversas gráficas, como a unidade sonora | ã | que
pode ser representada por ã (irmã), por am (campo),
por an (planta); ou uma unidade gráfica pode corresponder a
várias unidades sonoras, como a letra r que pode representar
a unidade sonora | R | (erre forte - rato) ou a unidade sonora | r
| (erre fraco - parada) .
Porém, nas relações cruzadas são poucos
os casos de arbitrariedade, onde seria necessária uma memorização
da grafia das palavras. O que ocorre é um elevado grau de previsibilidade
determinada pelo contexto (posição da unidade sonora
ou da unidade gráfica na sílaba ou palavra). Então,
Faraco nos aponta para a possibilidade de se ensinar ortografia tornando
explícitas estas regras de contexto, sem esquecer que o ensino
sistemático da grafia deve sempre começar pelas palavras
mais regulares e mais freqüentes, pois este ensino é “apenas
parte do processo mais amplo de domínio da linguagem escrita
e deve estar sempre subordinado a este”.
Faraco (1992) nos esclarece que o som /R/ do português, o
erre forte, que aparece em palavras como “rua” é
sempre representado pela letra “r” quando no início
da palavra, no final de sílabas e quando entre vogal e consoante;
porém, quando este som aparece entre duas vogais, passa a ser
representado pelo dígrafo “rr”. Por outro lado,
o som /r/ do português, o erre fraco, que aparece em palavras
como “careta” é sempre representado pela letra
“r”. Aqui temos o caso em que um único som /R/
pode ser representado por mais de uma unidade gráfica (“r”
ou “rr”) e uma unidade gráfica (a letra “r”)
pode representar mais de uma unidade sonora (/r/ ou /R/).
Carraher (1985), em um estudo com crianças de 1a a 4a série,
mostrou-nos que 90% dos erros ortográficos produzidos refletiam
um sujeito que pensa e gera hipóteses, categorizando-os em:
(a) erros de transcrição de fala (pente, como penti);
(b) erros de supercorreção (ouviu, como ouvio);
(c) ausência de marcação da nasalização
(nuvem, como nuvei);
(d) erros por não considerar as regras contextuais (queda,
como ceda);
(e) erros ligados à origem das palavras (gelo, como jelo);
(f) erros nas sílabas complexas (clima, como quilima);
(g) erros por troca de letras (fome, como vome).
Neste trabalho foram utilizadas palavras conhecidas (reais) e palavras
inventadas ou pseudo-palavras, com o objetivo de neutralizar o efeito
da memorização das palavras e da real compreensão
das regras ortográficas (capacidade gerativa) nas palavras
inventadas, visto que a grafia correta de palavras conhecidas não
retrata a compreensão da regra ortográfica, pois a criança
pode escrever corretamente uma palavra à qual já tenha
sido exposta outras vezes e que já a tenha memorizado (palavras
treinadas). As pseudo-palavras têm a função de
permitir verificar se a criança está de fato usando
um princípio ortográfico gerativamente.
Nunes (1992) mostrou que as regras de contexto não são
todas adquiridas ao mesmo tempo, não se podendo falar em um
determinado “estágio ortográfico”, pois
uma mesma criança comete erros de transcrição
de fala em uma dada situação e de supercorreção
em outra. Há diferenças no processo de leitura e escrita
de palavras, sendo este último mais difícil, podendo-se
observar ainda que as pistas semânticas influenciam mais a leitura
que a escrita.
Monteiro (1995) também encontrou uma maior facilidade da leitura
sobre a escrita no seu estudo, ao verificar a aquisição
das regras ortográficas do uso do S, do R, do G e do Q, com
crianças de alfabetização a 4a série.
Neste trabalho também foram utilizados ditados com palavras
conhecidas e palavras inventadas. Outro aspecto que merece ser destacado
é a existência de uma hierarquia na aquisição
das regras ortográficas, bem como a ocorrência de níveis
semelhantes de desempenho para aquisição de cada uma
das regras. No caso, a regra mais fácil de ser adquirida foi
a do uso do Q, seguida pela do uso do G e do R, tendo como a mais
difícil o uso do S. Além disso, ficou evidente a influência
da idade/escolaridade nos resultados, apesar de diferenças
significativas só ocorrerem a cada dois anos (as mudanças
evolutivas mais acentuadas ocorreram da alfabetização
para a 1a série). As crianças tiveram muito mais facilidade
em trabalhar as palavras conhecidas, o que demonstra que a aprendizagem
nas escolas está se dando de forma muita mais cumulativa (por
memorização) do que pelo uso gerativo das regras ortográficas.
Como nos alerta Monteiro, “muitas crianças estão
escrevendo e lendo palavras corretamente, sem ter consciência
do princípio ortográfico em questão, mesmo quando
esse princípio permite a compreensão”.
Rego (1996) realizou um estudo com crianças de primeira e
terceira séries de uma escola particular e de segunda e quarta
séries de uma escola pública da cidade do Recife, investigando,
através de ditados com palavras reais e pseudo-palavras, a
aquisição pelas crianças das regras ortográficas
do R, do GU e do QU. Estas palavras foram cuidadosamente selecionadas
para verificar as diferentes hipóteses das crianças
na elaboração das diferentes regras de contexto do português.
O erro, neste estudo, foi considerado como “refletindo as tentativas
da criança para compreender as regras de contexto em nossa
ortografia” (Rego, 1996).
Com relação à regra do uso do R, as crianças
foram classificadas em seis categorias de desempenho, de acordo com
o nível de compreensão da regra ortográfica:
(a) Categoria 1: A criança usava a letra r em todos os contextos,
não aparecendo o rr;
(b) Categoria 2: A criança havia tomado conhecimento do dígrafo
rr, mas não tinha a menor idéia do som nem do contexto
a que o emprego do dígrafo estava vinculado;
(c) Categoria 3: A criança vinculava o rr à representação
do som /R/ e o r à representação do som /r/;
(d) Categoria 4: A criança vinculava o rr principalmente
num contexto intervocálico, porém sem muita consistência,
ora deixando de colocar o rr para representar o som /R/ entre vogais
ora colocando rr entre consoante e vogal;
(e) Categoria 5: A criança utilizava consistentemente o dígrafo
rr para representar o som /R/ entre vogais e entre consoantes e
vogais;
(f) Categoria 6: A criança utilizava o dígrafo rr
para representar o som /R/ no contexto intervocálico.
A hipótese da categoria 1 foi muito freqüente na segunda
série da escola pública e na primeira da escola particular
e que ainda permaneceu em muitas crianças da quarta série
da escola pública e na terceira da escola particular, sendo
esta hipótese mais freqüente no início do ano letivo
do que no final. A categoria 2 de desempenho foi mais freqüente
no início do ano letivo das séries mais avançadas,
o que pode indicar que “este tipo de desempenho pode aparecer
a partir de uma maior exposição da criança à
escrita” (Rego, 1996). A hipótese de desempenho da categoria
3 foi menos freqüente, mas também apareceu em ambas as
escolas. A categoria 4 de desempenho tanto representava a criança
que estava quase adquirindo o domínio completo da regra, como
uma criança que ainda iria fazer generalizações
inadequadas quanto ao uso do dígrafo rr para representar o
som /R/ também entre consoante e vogal. A categoria 5, ao lado
da categoria 1, foi a que apareceu com maior freqüência
em ambas as escolas, principalmente no final do ano letivo da terceira
série da escola particular e da quarta série da escola
pública. Portanto, ao final do primeiro grau menor, este foi
um erro ainda encontrado com bastante freqüência. No entanto,
ao final da quarta série da escola pública apenas 13%
das crianças demonstraram ter atingido claramente o uso do
rr para representação do som /R/ no contexto intervocálico
(categoria 6); já na escola particular, isso aconteceu com
apenas 10% das crianças da terceira série.
Rego (1996) nos esclarece que “na língua portuguesa,
o contexto do som /R/ entre consoante e vogal não é
muito freqüente, sendo mais difícil a criança entrar
em contato com esta restrição do uso do R. Um outro
aspecto é que além da posição na palavra
ser semelhante ao /R/ intervocálico, em palavras como ‘genro’
e ‘honra’ o ‘n’ tem apenas a função
de nasalizar a vogal precedente. O som consonantal, portanto, não
existe e do ponto de vista fonético, o que escutamos equivale
a duas vogais”.
Melo (1997), em sua proposta alternativa para o ensino da ortografia,
lembra-nos que nenhuma prática pedagógica é neutra
e esta prática “deve concretizar e precisar os aspectos
do desenvolvimento pessoal do aluno que devem ser promovidos, as aprendizagens
específicas mediante as quais isto pode ser alcançado
e o plano de ação mais adequado para consegui-lo”.
Num enfoque mais tradicional, o ensino sistemático da língua
escrita entende que a aprendizagem da mesma ocorrerá como um
processo mecânico de automatização progressiva
de decodificação/codificação; por isso
são comuns os exercícios repetitivos para a memorização
e são trabalhados a percepção, a psicomotricidade,
os treinos ortográficos e o aprendizado gradativo de letras
e sons. Já o enfoque construtivista de aprendizagem, assume
como pressuposto que os processos de desenvolvimento individual e
a aprendizagem da experiência humana são culturalmente
organizados, além de que toda aprendizagem significativa possibilita
que a criança construa o conhecimento atribuindo-lhe significado.
Apesar de posturas teóricas diferentes, tanto as escola tradicionais
como as construtivistas trabalham em todas as séries do primeiro
grau menor as mesmas regras ortográficas. Salientamos que este
dado, por si só, já é um ponto para uma maior
reflexão na forma de se ensinar ortografia para as crianças.
Adotando o enfoque construtivista, Melo realizou um estudo com crianças
de 1a e 2a série (a regra ortográfica trabalhada foi
a do uso do R), procurando, nas atividades propostas, considerar a
hipótese da criança, desenvolver a sua habilidade metacognitiva,
favorecer a interação e estabelecer o papel do professor
como mediador nas etapas de aquisição.
Nas atividades, as crianças entravam em contato com os diversos
contextos do uso do R e eram levadas a discutir sobre as possíveis
regras para sua utilização; quando alguma palavra não
se adequava às regras já construídas o grupo
refletia e elaborava novas regras. Ao final das atividades, as crianças
haviam adquirido a regra e não houve casos de regressão.
Porém, é importante salientar que o estudo também
indicou que não há transferência de aprendizagem
de uma regra para outra e que o domínio de uma regra não
garante o domínio ou avanço nas demais. E, como nos
mostra Melo, “a ortografia, ao contrário do que a maioria
das instituições de ensino acreditam, pode ser compreendida
e melhor aprendida pela construção e explicitação
dos seus princípios”.
Fica então a questão de como o professor deve ensinar
ortografia aos seus alunos, fazendo com que os mesmos compreendam
o porquê da grafia das palavras. Infelizmente, para muitos professores
a ortografia tem sido mais um objeto de avaliação do
que de ensino. Os estudos apontam que a estabilidade na aquisição
das regras ortográficas dependem do desenvolvimento da capacidade
de explicitá-las (Morais, 1996). Portanto, a questão
é como a escola pode intervir junto aos alunos para explicitar
este saber ortográfico de forma a promover a sua aquisição
pelos alunos, pois na maioria das vezes as práticas pedagógicas
apresentam a escrita como algo a ser contemplado, reproduzido e, não,
como um objeto que pode ser experimentado e transformado.
Como afirma Rego (1996), “ensinar a ler e a escrever também
envolve ensinar ortografia”. Acreditamos que para aprender ortografia
a criança precisa compreender como a ortografia funciona e
não apenas memorizar palavras.
Informática na Educação
O homem é um ser que está sempre em contínua
relação de criação e de controle com a
natureza, relação esta mediada por instrumentos: é
um ser tecnológico.
A tecnologia faz parte do arsenal cultural de um povo. “Entender
que tecnologia é um produto sócio-cultural e que serve,
além disso, como ferramenta física e simbólica
para vincular-se e compreender o mundo que nos rodeia é uma
derivação importante do pensamento de Vygotsky. ...
Encontrar, na tarefa docente cotidiana, um sentido para a tecnologia,
um para quê. Este “para quê” tem conexão
com a idéia original do verbo tictein, com a idéia de
criação, de dar à luz, de produzir.” (Litwin,
1997)
O verbo grego tictein, que significa “criar, produzir, conceber,
dar à luz”, é a raiz das palavras “técnica”
e tecnologia”. Para os gregos, a técnica [techné]
tinha um significado amplo, pois envolvia não apenas os instrumentos
e as matérias-primas, mas o produtor - autor da idéia
-, inserido dentro de um contexto ético e social, onde sempre
se indagava como e por que se produzir um valor de uso.
Diversos autores situam a origem da Tecnologia Educacional na década
de 50, onde a ênfase era voltada para o meio, para o instrumento
– “variável mágica que aplicada a todo ensino,
a todo aluno, a qualquer grau, para qualquer matéria e com
qualquer objetivo, daria os resultados desejados” (Pérez
Gómez, 1983 in: Litwin, 1997), o que condiz com o modelo produtivo
vigente em que era necessário um grande número de trabalhadores
para realizarem tarefas rotineiras, sem questionamentos; era a época
da simplificação e da massificação, onde
havia um grande distanciamento entre produto/produtor.
A escola da modernidade ainda produz um aluno para aquela outra época,
“um indivíduo capaz de seguir ordens com atenção,
não-questionador, capaz de fazer algo sem se preocupar/interrogar
por que é feito desse modo e não de outro, sempre confiante
em que há alguém que já pensou por ele como fazer,
e capaz de se esforçar para fazer o melhor em seu posto de
linha de montagem”. (Toffler, 1981, in: Oliveira, 1996)
O modelo de produção baseado em linha de montagem vem
sendo gradualmente abandonado e a escola também questiona a
sua estrutura, já que congelada há mais de um século,
inibe a utilização, de forma crítica e criativa,
dos conhecimentos por ela transmitidos. Nas novas relações
de trabalho, o trabalhador deve ser capaz de trabalhar cooperativamente,
de analisar e sintetizar conhecimentos e de gerar novas soluções
a partir da flexibilização do seu pensamento. Essa nova
escola vai exigir uma mudança no papel do professor que deverá
funcionar como um intermediário no processo de aquisição
e elaboração de conhecimentos pelos alunos. A tecnologia
vem sendo apontada como uma alternativa de promoção
dessa mudança na estrutura escolar.
A tecnologia não é boa nem má por si. As novas
tecnologias, por si mesmas, não transformam as estruturas sociais,
incorporam-se a elas. “Produzir tecnologia não é
somente ‘inventar um novo aparelho’, é questionar
a tecnologia feita para a escola e o que faz a escola com as produções
tecnológicas. É vincular tecnologia e didática.
É vincular tecnologia e cultura.” (Litwin, 1997)
A tecnologia não é uma panacéia para a reforma
do ensino, mas ela pode ser um catalisador significativo para a mudança.
Para aqueles que procuram soluções simples e inovadoras,
a tecnologia não é a resposta. Para aqueles que buscam
uma ferramenta poderosa para apoiar ambientes de aprendizagem colaborativos,
a tecnologia tem um enorme potencial.
O uso do computador, enquanto instrumento tecnológico, na
educação está sempre associado a milagres ou
a revoluções. O computador, por si só, não
é um agente de mudanças. Se para o professor, ensinar
é transmitir conhecimento, é fixar regras, o computador,
com todos os seus recursos de multimídia (som, imagem, animação),
será apenas uma versão moderna da máquina de
ensinar skineriana. Nele, softwares, ditos educativos, transmitirão
informações de forma muito atrativa, farão exercícios
de fixação de conteúdos com um controle preciso
sobre a quantidade de erros de cada aluno (sem se preocupar com a
qualidade do erro) e proporcionarão a todos a falsa idéia
de modernização. O que acontece de fato, na grande maioria
das vezes, é uma modernização conservadora, onde
o “espírito” revolucionário do uso do computador
é subvertido pelo sistema educacional vigente e convertido
em instrumento de sua consolidação.
O computador só poderá ser um instrumento de auxílio
na prática pedagógica do professor se ele estiver preparado
para o seu uso. Porém, “a conclusão universal
da literatura sobre tecnologia e formação de professores
é que a formação de professores, especialmente
antes de iniciarem sua carreira, não os está preparando
para trabalharem em salas de aula ricas em tecnologia”. (Willis
& Mehlinger, 1996, in: Sanhholtz & Ringstaff & Dwyer,
1997). Os treinamentos que existem (capacitações e pós-graduações)
concentram-se em hardware e software, e não sobre a conexão
entre computadores e currículo.
Nas salas de aula ricas em tecnologia, o que ocorre é uma
mudança de paradigma, pois o professor tende a ensinar do jeito
que aprendeu e neste novo ambiente isto não funciona, já
que a instrução passa a ser centrada no aluno, e não
no currículo, as tarefas tendem a ser mais colaborativas do
que tarefas individuais, e a aprendizagem torna-se um processo mais
ativo que passivo. A implementação da tecnologia inspira
os professores a utilizarem tarefas e materiais mais complexos em
sua instrução. Aprender a ensinar utilizando ambientes
ricos em tecnologia implica em mudanças muito mais complexas
que apenas as tecnológicas, pois a tecnologia é um catalisador
para a mudança nos processos em sala de aula, porque propicia
um rumo diferente, uma mudança no contexto que sugere formas
alternativas de operação. A inovação instrucional
envolve não apenas uma mudança nas pessoas, mas também
mudanças na cultura organizacional.
Os computadores exercem um fascínio sobre as crianças,
pois a possibilidade de se representar o real pelo virtual, permite
sua leitura sob diversos ângulos, tornando-o muito mais rico
e conhecido, já que estimula ao mesmo tempo os diversos sentidos
das crianças e as pesquisas já comprovaram que se aprende
melhor quando isto ocorre (Oliveira, 1996).
Com o uso da tecnologia em sala de aula, aumenta o burburinho entre
os alunos, pois eles conversam, questionam, descobrem. O professor
já não é mais a única fonte de conhecimento
(pois os alunos encontram suas respostas em softwares ou na Internet),
já não controla mais quem pergunta, quem responde, já
não sabe tudo e tem que estar preparado para este desinvestimento
de poder. O planejamento de suas aulas não pode mais seguir
o esquema tradicional utilizado até então.
Pesquisas indicam que o gerenciamento em sala de aula é identificado
como o fator mais importante na influência sobre a aprendizagem
do aluno em salas ricas em tecnologia (Sanhholtz & Ringstaff &
Dwyer, 1997), o que vem apoiar a nossa posição de desmistificação
da máquina e valorização da relação
professor/aluno.
Estudos em Inteligência Artificial (IA) buscam a construção
de uma máquina que imite o ser humano. Para isto, os pesquisadores
em neurociências procuram esclarecer alguns mecanismos do funcionamento
cerebral, como os que comandam o desenrolar das operações
cognitivas. Porém, é importante que salientemos que
uma máquina não será jamais uma pessoa, “uma
máquina não será jamais um sujeito com consciência
de si mesmo, não evoluirá, não saberá
tirar partido de suas experiências, modificar seu comportamento
ou corrigir seus erros” (Cordié, 1996).
Os cientistas em IA apresentam como exemplo de uma máquina
“pensante” os Sistemas Especialistas, sistemas “inteligentes”,
que fornecem respostas aos problemas dos seus usuários, aumentam
os seus conhecimentos e corrigem possíveis erros. Ao fazermos
uma análise crítica destes sistemas, podemos observar
que todas estas modificações acontecem dentro de um
sistema fechado e que as articulações entre os conhecimentos
são feitas baseadas apenas no mecanismo lógico-formal
dos processos cognitivos do ser humano.
Porém, desde que Freud nos trouxe “a peste”, sabemos
que o ser humano não é constituído apenas pelos
mecanismos racionais e conscientes do seu cérebro. Há
a dimensão inconsciente que sempre permeia esta constituição.
E, máquina alguma, poderá ser o “sujeito”
($) (sujeito barrado pelo recalcamento) de Lacan.
Etimologicamente, inteligência vem do latim legere, escolher.
A questão da escolha está no centro das operações
intelectuais. Cordié (1996) esclarece:
“Lacan dá a inter-legere o sentido de ‘ler entre
as linhas’. Ele nos lembra, através disso, que o entendimento
se situa bem além das palavras e de seu sentido literal;
o outro discurso, aquele do inconsciente, impregna não somente
os sonhos, mas participa, de forma ativa, nas operações
cognitivas. Ser inteligente é saber ler entre as linhas,
entender o que é dito além das palavras.”
Etimologicamente, inteligência vem do latim legere, escolher.
A questão da escolha está no centro das operações
intelectuais. Cordié (1996) esclarece:
“Lacan dá a inter-legere o sentido de ‘ler entre
as linhas’. Ele nos lembra, através disso, que o entendimento
se situa bem além das palavras e de seu sentido literal; o
outro discurso, aquele do inconsciente, impregna não somente
os sonhos, mas participa, de forma ativa, nas operações
cognitivas. Ser inteligente é saber ler entre as linhas, entender
o que é dito além das palavras.”
Identificando a linguagem como o instrumento da inteligência,
podemos entender que a linguagem humana não pode ser neutra,
“não sendo jamais este estoque de palavras armazenadas
à maneira de um programa de computador; ela é, desde
o início, carregada de afetos em razão da situação
mesma em que se encontram o neonato e o bebê” (Cordié,
1996).
Compreender, portanto, é uma operação que toca
no mais essencial da constituição do ser. Por isso,
máquina alguma poderá pensar como um ser humano, pois
jamais o conhecimento “produzido” por ela será
capaz desta dimensão inconsciente que envolve a inteligência
e o processo de aprender.
Foi o conceito psicanalítico de transferência, que pôde
ser estendido à relação professor-aluno, a grande
contribuição da Psicanálise à Educação,
pois a partir dele, observou-se que na escola, como na vida, também
se aprende por “amor a alguém”. A partir da análise
da relação professor-aluno se pode pensar no que faz
um aluno aprender, no que o faz acreditar no professor.
O ser humano não aprende sozinho. O processo de aprendizagem
sempre supõe a relação de uma pessoa (o aprendiz)
com outra que ensina (o professor); aprender é aprender com
alguém, que será colocado numa determinada posição
de suposto saber. Freud (citado em Kupfer, 1992) nos mostrava:
“No decorrer do período de latência, são
os professores e geralmente as pessoas que têm a tarefa de
educar que tomarão para a criança o lugar dos pais,
do pai em particular, e que herdarão os sentimentos que a
criança dirigia a esse último na ocasião do
Complexo de Édipo. Os educadores, investidos da relação
afetiva primitivamente dirigida ao pai, se beneficiarão da
influência que esse último exercia sobre a criança.”
A ênfase freudiana não está concentrada nos conteúdos
cognitivos a serem transmitidos do professor para o aluno, mas no
campo que se estabelece entre professor/aluno, uma relação
que primeiramente foi dirigida ao pai. Transferência é
nome dado pela Psicanálise a este campo. Só assim o
professor pode tornar-se a figura a quem serão endereçados
os interesses dos alunos. A transferência se produz quando o
desejo de saber do aluno se liga à pessoa do professor, que
passa a ser depositário de algo que pertence ao aluno, esvaziando-se
enquanto pessoa. Porém, não se pode ignorar que este
professor tem também o seu próprio inconsciente e que
fica difícil a relação com o aluno, visto que
foi ele mesmo (o aluno) quem revestiu o professor de poder e que agora
precisa que o professor o liberte.
Kupfer (1992) ressalta que “o encontro entre o que foi ensinado
e a subjetividade de cada um é o que torna possível
o pensamento renovador, a criação, a geração
de novos conhecimentos. Esse mundo desejante, que habita cada um de
nós, estará sendo preservado cada vez que um professor
renunciar ao controle, aos efeitos de seu poder sobre seus alunos”.
Observamos, assim, ser impossível a substituição
da pessoa-professor pela máquina-instrutor, ainda que os computadores
se sofistiquem a nível de hardware e os softwares se tornem
cada vez mais atrativos, pois a aprendizagem envolverá sempre
a subjetividade de dois sujeitos em relação. Ensinar
não é apenas transmitir conteúdos e aprender
não é apenas memorizá-los.
Informática e Ortografia
Fazendo um recorte, no processo ensino/aprendizagem do conteúdo
ortografia, a prática dos professores tem refletido a concepção
de aprendizagem como memorização de conhecimentos, uma
vez que práticas alternativas que possibilitem a construção
das regras ortográficas pelo aluno não fazem parte do
cotidiano das escolas (Melo, 1997).
Que contribuições podem trazer os softwares destinados
ao ensino da língua para a aprendizagem da ortografia? A resposta
para esta pergunta requer não só uma análise
dos recursos oferecidos por estas ferramentas pedagógicas como
estudos de intervenção que venham a esclarecer o efeito
do seu uso na sala de aula, manipulando-se também o papel a
ser exercido pelo professor.
3. Metodologia
No presente estudo, a testagem do uso do software para ensinar regras
ortográficas obedeceu às seguintes etapas:
Etapa 1: Análise dos Softwares para o Estudo da
Língua Portuguesa
Ao resolvermos escolher um software que trabalhasse com o ensino
da ortografia fomos a lojas especializadas e adquirimos alguns, baseando-nos
no que era dito nas caixas de embalagem. Os softwares que analisamos
foram:
Ortografando II, da Byte & Brothers (1997)
Adquirimos a versão escolar, com o manual para o professor.
Este software tem a autoria e a orientação pedagógica
de Melanie Grunkraut e se propõe a ser um software educativo.
Na apresentação do trabalho, no manual, a autora salienta
que o software surgiu a partir de sua vivência pessoal num trabalho
clínico em Psicopedagogia e que tem por objetivos o estudo
da gramática, vocabulário, ortografia e desenvolvimento
da escrita.
O software possui 10 atividades diferentes, com três níveis
de dificuldades. O programa simula uma batalha espacial e a cada atividade
o jogador (guerreiro espacial) acumula pontos (com os seus acertos)
que são trocados por armas para a batalha final.
Propõe-se a trabalhar questões de ortografia, em atividades
como cruzadinhas, forca; tem uma atividade para familiarização
do teclado.
Quero Aprender - Português da Ática (1996)
Este software teve a orientação pedagógica
da Editora Ática e produção técnica, a
nível de informática, realizada pela Byte & Brothers.
Propõe-se a trabalhar com classes gramaticais de palavras
em uma frase; apresenta níveis de dificuldades diferentes (de
acordo com a série do primeiro grau menor); tem atividades
em forma de jogos para trabalhar a classe gramatical das palavras;
pode ser adaptado para trabalhar questões de ortografia, a
partir da intervenção do professor.
Sherlock, produzido pelo SENAC (1994)
Gostaríamos de salientar que o Sherlock foi projetado pelo
Prof. David Carraher, do Departamento de Psicologia da UFPE, em ambiente
do sistema operacional DOS.
Trabalha na forma de um jogo, onde o aluno tem que descobrir palavras
que estejam escondidas no texto; já traz alguns textos e sugestões
de atividades no trabalho com o ensino de línguas; pode ser
adaptado para trabalhar questões ortográficas, a partir
da intervenção do professor
Escrevendo ao Pé da Letra, da Expoente (1996)
Em forma de jogo, o programa apresenta atividades que se propõem
a facilitar o aprendizado de regras ortográficas.
Adotamos como critérios para análise dos programas
os seguintes itens:
· Recursos computacionais utilizados
Ao analisarmos os softwares sob este aspecto, observamos quais recursos
de som e imagem eram utilizados, pois acreditamos que se estes recursos
forem contemplados a criança poderá se apropriar do
conceito (conteúdo) utilizando-se de todos os seus sentidos.
· Flexibilidade de uso por parte do professor
Observamos se o software permitia a inserção de dados
por parte do professor, pois acreditamos ser de fundamental importância
a criação de um contexto de uso do software a partir
de um diagnóstico dos alunos feito pelo professor e o planejamento
das formas de intervenção para que os alunos possam
superar as suas dificuldades.
· Facilidade de uso por parte do aluno
Analisamos se os programas eram de fácil navegação,
com instruções de uso na própria tela e com mensagens
que facilitassem o seu uso pelo aluno.
· Material de apoio
Observamos quais os materiais de apoio que acompanhavam os softwares
e que orientavam a instalação, bem como material com
sugestões de atividades pedagógicas para o professor.
· Concepção teórica sobre aprendizagem
Através das atividades propostas pelos programas, analisamos
se a concepção de aprendizagem era a de transmissão/assimilação
de conhecimentos - com exercícios de fixação
de conteúdos - ou se era uma abordagem construtivista com atividades
que ajudassem o aluno a elaborar suas próprias hipóteses
a respeito do conteúdo apresentado. Verificamos, também,
qual o enfoque dado ao erro do aluno, pois acreditamos que o erro
é inerente ao processo de aprendizagem e que retrata as concepções
do aluno sobre o seu objeto de estudo e, portanto, não deve
ser encarado como algo a ser banido.
· Concepção teórica sobre ortografia
Procuramos observar se os programas traziam os problemas de aquisição
das regras ortográficas como um processo memorização
de palavras, bastando que as crianças entrassem em contato
com a grafia das palavras ou se propunham atividades que levassem
a criança a uma compreensão das regras, contemplando
os diversos contextos das regras ortográficas.
Podemos analisar os softwares, de acordo com os critérios
estabelecidos:
· Recursos computacionais utilizados
Os softwares da Ática e do SENAC estão em disquete;
já os da Expoente e da Byte & Brothers estão em
cd-rom. O programa da Expoente solicita ao usuário, após
sua instalação, que modifique o arquivo Autoexec.bat
do sistema, com a inserção de uma nova linha de comando,
não fazendo esta alteração automaticamente. Os
outros fazem as modificações de instalação
necessárias.
O Sherlock não apresenta recursos de multimídia e sua
apresentação não incorporou ainda as características
dos programas projetados para ambiente Windows, já que foi
projetado para ambiente DOS.
Os outros programas analisados apresentam recursos de multimídia
com som, imagem e animação, apesar da configuração
de vídeo ser a de 256 cores. Isto apenas nos alerta para um
dos problemas mais complexos da informática: a velocidade.
Logo, tudo fica superado e incompatível, tanto no nível
de hardware como no de software.
· Flexibilidade de uso por parte do professor
Os softwares Sherlock, o da Ática e o Ortografando II permitem
a inserção de dados por parte do professor (textos,
frases e listas de palavras, respectivamente), o que dá uma
maior flexibilidade de uso, pois o professor pode contextualizar o
conteúdo a ser trabalhado para a realidade dos seus alunos.
· Facilidade de uso por parte do aluno
Não achamos satisfatório o nível de interação
com o usuário (o aluno) de todos os softwares. Às vezes,
ficamos diante do programa sem saber o que fazer, onde clicar. De
todos, o Ortografando II foi o que apresentou um melhor conjunto de
mensagens, não nos deixando perdidos na “navegação”
das telas.
Salientamos, porém, que não achamos “tão
simples” trabalhar com estes programas, pois tivemos alguns
problemas para configuração de hardware e nos perguntamos
o que faria um professor leigo em informática num momento destes.
Verificamos que em muito nos facilitou a nossa formação
em Informática, pois tínhamos, quase sempre, o “olho
clínico” necessário para a resolução
do problema.
· Material de apoio
Apenas o da Expoente não vem acompanhado por uma “manual”
com a descrição do software, suas principais atividades,
e instruções para instalação. Adquirimos
a versão para professores do Ortografando II e, por isso, o
seu manual de apoio é de muito melhor qualidade que os outros,
com sugestões de atividades e com os erros/soluções
mais comuns, apesar de não estar muito clara a fundamentação
teórica de cada atividade proposta.
· Concepção teórica sobre aprendizagem
Apesar das embalagens apresentarem um discurso que foge um pouco ao
ensino tradicional da ortografia, percebemos que a teoria que fundamenta
os softwares analisados é a de que a aprendizagem se dá
por repetição e por condicionamento (reforço
positivo, nos acertos, e negativo, nos erros).
Apenas o Sherlock dá um tratamento diferenciado ao erro, não
o apontando como uma “falha” - apesar de não fazer
o tratamento deste erro. Nos outros programas, todos apresentados
na forma de jogo, o erro é visto como algo que deve ser eliminado,
pois o jogador (aluno) perde pontos, é “enforcado”,
“assassinado”. Aqui não importa qual o erro que
foi cometido, o que ele indica da forma de pensar do aluno e, sim,
quantos erros o aluno já cometeu. O Sherlock não registra
os pontos de cada jogador, nem permite que as descobertas das palavras
de um determinado texto possam continuar em um outro momento; além
disso, não possui um corretor ortográfico nem recursos
de um processador de textos na sua opção de Edição
de Textos.
· Concepção teórica sobre ortografia
Quanto ao conteúdo, o software da Ática trabalha com
três tarefas nas quais a criança vai, por acerto e erro,
descobrindo a classe gramatical das palavras apresentadas; não
há distinção entre os diversos tipos de pronome.
Existe um banco de dados com algumas sentenças, classificadas
palavra a palavra gramaticalmente. O professor pode inserir novas
frases, fornecendo a classe gramatical de cada uma das palavras das
mesmas. Por se tratar de um software voltado para questões
gramaticais, não o colocamos entre as nossas opções
de escolha.
Quanto à concepção de ortografia, os programas
apresentam atividades que facilitam de forma lúdica a memorização
de palavras na sua grafia correta, ainda que permitam a seleção
de trabalho para uma determinada regra ortográfica. Não
conseguimos perceber como as atividades propostas pelos softwares
poderiam ajudar os alunos a explicitarem as regras ortográficas
trabalhadas, visto que as pesquisas apontam ser este o caminho para
uma aprendizagem real da ortografia.
Poderíamos resumir a nossa análise na tabela abaixo
(Tabela 1):
Tabela 1 - Análise dos Softwares
| Critérios |
Ortografando
II (Byte & Brothers) |
Quero Aprender
(Ática) |
Sherlock (SENAC) |
Escrevendo
ao Pé da Letra (Expoente) |
| Recursos Computacionais |
MUITO BOM |
BOM |
REGULAR |
BOM |
| Flexibilidade de Uso |
MUITO BOM |
REGULAR |
MUITO BOM |
RUIM |
| Facilidade de Uso |
BOM |
RUIM |
BOM |
RUIM |
| Material de Apoio |
BOM |
REGULAR |
MUITO BOM |
NÃO ANALISADO |
| Visão de Aprendizagem |
Dependerá da atuação
do professor |
Tradicional |
Dependerá da atuação
do professor |
Tradicional |
| Visão de Ortografia |
Memorização / Intervenção
criativa do professor |
NÃO ANALISADO |
Dependerá da atuação
do professor |
Memorização |
Etapa 2: Seleção do Software para o Estudo
Piloto
Dentre as opções disponíveis, optamos por trabalhar
com o programa Ortografando II, pois este se propunha a trabalhar,
especificamente, questões de ortografia. Priorizamos, também,
a sua flexibilidade de inserção de dados por parte do
professor, permitindo a elaboração de contextos específicos,
e a sua facilidade de uso pelo aluno.
O Sherlock, apesar de tratar o erro do aluno como uma etapa do processo
de aprendizagem e de permitir um trabalho de regras ortográficas
pela manipulação de textos, não se apresentava
como um software para questões de ortografia.
O software Ortografando II simula uma batalha espacial, onde nas
suas diversas atividades, o guerreiro espacial (o jogador) vai conquistando
pontos para a grande batalha, que só pode ser jogada se o jogador
tiver passado por todas as atividades (Figura 1).
Figura 1 - Tela para a escolha da atividade do Ortografando II

Quando o jogador não escreve corretamente a palavra (o erro)
é punido das mais diversas formas, como ser enfocado, receber
um tiro, ser queimado. Tudo isto está atrelado a uma jogo que
envolve história do Brasil, da América Latina e do mundo.
O software permite a intervenção do professor com a
inserção de listas de palavras, acontecimentos históricos;
há ainda a impressão de algumas atividades (cruzadinhas,
caça-palavras, etc.) (Anexo V). Cada palavra da lista deve
vir acompanhada de uma dica (descrição) que aparecerá
em cada uma das atividades de jogo. O programa já vem com duas
mil palavras, mas as mesmas não podem ser impressas.
Só conseguimos imprimir a lista de palavras do software devido
aos nossos conhecimentos de informática, pois observamos que
a extensão do arquivo da lista de palavras do Ortografando
II era de um banco de dados do software Access (da Microsoft), abrimos
o arquivo das duas mil palavras no Access e copiamos coluna da lista
de palavras para o software Word (da Microsoft), imprimindo as palavras.
O jogador pode trabalhar a acentuação das palavras
e/ou a ortografia das palavras (aqui há uma classificação
por discriminação auditiva - k/g, p/b, t/d, ch/j, f/v,
l/r, m/n, r/rr, ão/am - e discriminação visual
- sons x, sons s, l/u, g/j, h inicial, g/gu, li/lh).
A inserção de uma nova lista de palavras é uma
atividade simples, possibilitando a inserção de “dicas”
tanto com textos como com imagens. Cada palavra da nova lista deve
ser categorizada de acordo com os critérios de classificação
do software especificados anteriormente (Figura 2).
Figura 2 - Tela para inserção de uma nova lista
de palavras

Constatamos, entretanto, que o programa selecionado apresentava erros
de programação (erros técnicos na área
de informática) e o programa travava o computador. A opção
de inserção de listas de palavras não estava
sendo executada corretamente. Digitamos 41 palavras, para o trabalho
da regra ortográfica R, e o programa não salvou os nossos
dados. A opção ão/am só estava disponível
na inserção de novas listas, não sendo possível
a sua escolha nas opções de diferentes formas de randomização
de palavras (que palavras serão sorteadas para o trabalho nas
diversas atividades).
Entramos em contato com a empresa que nos vendeu o produto e o técnico
responsável pela área enviou um fax para a Byte &
Brothers (São Paulo) relatando os problemas encontrados. Um
representante da sua equipe técnica nos telefonou pedindo desculpas
e agradecendo o relato e nos prometeu uma versão sem os problemas
identificados ainda para julho/97. A empresa nos solicitou que enviássemos
um mail relatando o nosso trabalho.
Questionamos o problema da qualidade e do respeito ao consumidor
em nosso país, pois já existem milhares de cópias
deste programa comercializadas em todo o Brasil. Isto nos mostra que
os professores só estão utilizando o Ortografando II,
na configuração original, sem alteração
alguma, e, por isso, sem descobrir os erros.
A versão correta do software chegou às nossas mãos
em setembro/97, fato que atrasou o nosso trabalho de intervenção
na escola.
Salientamos que o manual de apoio pedagógico poderia ser melhor
trabalhado, tanto no aspecto técnico da informática
quanto nos conceitos psicopedagógicos que se propõe
a abordar. Ocorreram erros em relação à parte
de informática que não estão relatados no manual.
Quanto à parte pedagógica, o manual do professor, por
exemplo, orienta os professores a só usarem a abordagem da
ortografia com discriminação auditiva, nível
1, para as primeiras e segundas séries, sem uma fundamentação
desta posição ou, ainda, orienta para que se use a atividade
FORCA primeiro e não explica o porquê.
Etapa 3: O Uso do Software Ortografando II
Como o estudo de Melo (1997) apresenta uma proposta alternativa do
ensino da ortografia, onde o aluno é capaz de compreender a
regra ortográfica e dela se apropriar, resolvemos verificar
se esta forma de trabalhar também é possível,
utilizando-se o computador (software educativo) como um instrumento
pedagógico e que diferenças ocorreriam com o seu uso.
A intervenção foi realizada com alunos das 1as e 2as
séries, abordando-se as regras de uso da letra R (como no estudo
de Melo (1997)).
Pré-teste
Foi aplicado um pré-teste em agosto/97, com um ditado (o mesmo
de Melo (1997)) de palavras inventadas (Anexo I) em seis classes (turmas
A, B e C, das1as e 2as séries) de uma mesma escola. O uso de
pseudo-palavras no ditado foi uma tentativa de minimizar o fator ‘memorização’
na grafia correta das palavras, privilegiando a geratividade das mesmas.
A classificação de categorias adotada na análise
do pré-teste foi a do estudo de Rego (1996):
(a) Categoria 1: apenas a letra r para todos os contextos;
(b) Categoria 2: aparece o dígrafo rr, sem a criança
saber ao certo onde utilizá-lo;
(c) Categoria 3: a criança utiliza a letra r, para o som
/r/ e o dígrafo rr, para o som /R/;
(d) Categoria 4: a criança utiliza o dígrafo rr, entre
vogais ou ainda entre consoante e vogal, sem muita consistência;
(e) Categoria 5: a criança já utiliza o dígrafo
rr, com o som /R/, entre vogais, de forma consistente, mas ainda
o utiliza entre consoante e vogal no meio da palavra;
(f) Categoria 6: aquisição da regra.
Elaboração da nossa lista de palavras
Inicialmente tivemos que elaborar uma lista de palavras diferente
da que era apresentada pelo software, pois a partir da análise
da lista de palavras do software Ortografando II (Anexo III) verificamos
que a probabilidade de ocorrência de todas as regras de contexto
(com relação ao uso do R) não é a mesma,
já que encontramos:
65,9%, no contexto | r |, entre vogais, como em “caro”;
20,5%, no contexto | R |, no início da palavra, como em “rua”;
0,8%, no contexto | R |, entre consoante e vogal, como em “honra”;
12,8%, no contexto | R |, entre vogais, como em “carro”.
Observamos que é fundamental que a criança entre em
contato com todas as possibilidades das regras ortográficas
para o uso do R, pois só assim conseguirá apreender
todas as situações.
Na elaboração da lista de palavras que inserimos no
programa (Anexo IV), tivemos a preocupação de equilibrar
a distribuição das palavras em todos os contextos do
uso do R, para que a criança entrasse em contato com todos
eles e pudesse refletir sobre as regras. A nossa distribuição
foi:
34,0%, no contexto | r |, entre vogais, como em “caro”;
15,1%, no contexto | R |, no início da palavra, como em “rua”;
18,9%, no contexto | R |, entre consoante e vogal, como em “honra”;
32,0%, no contexto | R |, entre vogais, como em “carro”.
Podemos observar as diferenças de distribuição
das palavras nos diversos contextos do uso do R entre a nossa lista
de palavras e lista do software no gráfico abaixo:
Gráfico 1 – Distribuição das palavras
das listas nos diversos contextos do R

Distribuição nos grupos
As crianças foram distribuídas em 4 grupos, procurando-se
a homogeneidade inter-grupal, levando-se em consideração
os critérios de idade, escolaridade (série), desempenho
acadêmico em língua portuguesa (média aritmética
do primeiro semestre do ano letivo) e categoria do pré-teste:
· grupo 1 (G1), com atividades no computador, sem intervenção
da facilitadora, utilizando a lista de palavras do software selecionado
(Ortografando II), com a opção para palavras com r/rr;
· o grupo 2 (G2), com atividades no computador, sem intervenção
da facilitadora, utilizando a lista de palavras criada por nós
no software selecionado (Ortografando II), com o direcionamento
para palavras com r/rr;
· grupo 3 (G3), com atividades no computador, com intervenção
da facilitadora, utilizando a lista de palavras criada por nós
no software selecionado (Ortografando II), com o direcionamento
para palavras com r/rr;
· o grupo 4 (G4), que não realizou tarefas no computador.
A Tabela 2 resume a distribuição das 52 crianças
emparelhadas, segundo os critérios já especificados,
para o estudo piloto de intervenção.
Tabela 2 - Distribuição das crianças nos
grupos de intervenção
| G1 |
G2 |
G3 |
G4 |
TOTAL |
| 13 |
13 |
13 |
13 |
52 |
Sessões com o software Ortografando II
As atividades do Ortografando II selecionadas para o trabalho foram:
jogo da forca, jogo de palavras cruzadas, jogo de digitação
(nestas atividades a criança não tinha uma visualização
completa da grafia das palavras, o que diminuiu o fator memorização
na sua aprendizagem) e jogo de quebra-cabeça.
Elaboramos um roteiro de intervenção que foi seguido
com todas as crianças. Começávamos lhes dizendo,
individualmente, que iríamos trabalhar com um jogo que se propunha
a ensinar ortografia, mais especificamente o uso do R, e lhes perguntávamos
se sabiam quando se usava r/rr; as respostas delas eram registradas
numa folha de papel, assim como o nome, a data, a hora do início
e do final da tarefa, todas as palavras que apareciam no jogo e qual
a atividade que elas mais gostaram. Ao final, perguntávamos
se o jogo havia lhes mostrado alguma regra para o r/rr que não
conheciam. Quando a criança era do grupo G3 (com nossa intervenção),
ao final do jogo, instigávamos a criança a refletir
sobre a lista de palavras apresentadas para ver se todas se enquadravam
nas regras anteriormente explicitadas por ela ou se seria necessário
reformulá-las.
Pós-teste
Como nos estudos de Melo, após as sessões houve um
pós-teste (em novembro/97), com uma comparação
inter-grupos e intra-grupos.
No momento do pré-teste, as crianças reclamaram da
quantidade de palavras a serem escritas, alegando que ficava muito
cansativo. Por isso, no pós-teste restringimos nossa lista
apenas às palavras que estavam relacionadas ao contexto do
uso do R (Anexo II).
Apesar do pareamento inicial com 52 crianças, ficamos para
a análise final com apenas 33 crianças, pois não
tivemos compatibilidade de horário com as crianças das
turmas da tarde e uma professora não se envolveu no trabalho.
Além disso, devido a atividades em sala de aula, as professoras
não liberaram as crianças para as intervenções
com o computador. Este ponto alterou o nosso planejamento inicial
de fazermos intervenções com crianças de diversas
categorias ortográficas, com 6 sessões por criança,
restringindo o nosso grupo.
Ao final, tivemos a seguinte distribuição de crianças
(Tabela 3):
Tabela 3 - Distribuição das crianças nos
grupos de intervenção no pós-teste
| G1 |
G2 |
G3 |
G4 |
TOTAL |
| 06 |
09 |
09 |
09 |
33 |
4. Resultados Observados na Intervenção
Piloto
O gráfico abaixo mostra a distribuição das crianças,
por categoria, nos grupos de intervenção, nos momentos
de pré e pós testes:
Gráfico 3 - Distribuição de crianças
por grupos/categorias nos pré e pós testes

Podemos observar que no momento do início das sessões
com o software (logo após o pré-teste), todos os grupos
de intervenção apresentavam uma distribuição
homogênea quanto às categorias de desempenho nas regras
do R, com crianças nas categorias 3, 4 e 5, pareadas por idade,
escolaridade, desempenho escolar em língua portuguesa e categoria
no pré-teste.
Porém, ao encontrarmos estas crianças no pós-teste
esta homogeneidade já não existia. O número de
crianças em cada grupo sofreu modificações (pelas
dificuldades já relatadas) e o pareamento dos grupos quanto
às categorias não foi mantido.
No pós-teste não encontramos mais criança alguma
na categoria 3, situação observada no início
do nosso estudo. Houve apenas dois casos de regressão. Em um
deles a criança regrediu da categoria 4 para a categoria 1,
após o trabalho com a nossa lista de palavras, sem a intervenção
da facilitadora (G2). Poderíamos levantar a hipótese
da criança ter generalizado o uso de apenas um erre para o
som /R/, no meio da palavra, ainda que entre vogais, visto que teve
um grande percentual de exposição a palavras que apresentavam
o contexto cRv, situação esta que poderia fazê-la
refletir sobre esta ‘regra’ do uso do R. O outro caso
de regressão ocorreu no G3, com uma criança que regrediu
da categoria 5 para a categoria 4; porém, a criança
apresentava-se com problemas emocionais no momento da intervenção
com o software e no pós-teste, ficando este dado sem a isenção
necessária para sua explicitação. Observamos,
ainda, que a grande maioria das crianças evoluiu na sua concepção
sobre o uso do R.
Das 10 crianças que terminaram na categoria 6, 8 trabalharam
com atividades no computador e 2 ficaram apenas com a professora;
10% estavam no grupo G1, 30% estavam no G2, 40% no G3 e 20% no G4.,
como podemos observar no gráfico abaixo:
Gráfico 2 – Distribuição das crianças
que atingiram a categoria 6 no pós-teste

Considerando apenas as crianças que trabalharam com o computador
e que atingiram a categoria 6 (8 crianças), 87,5% delas trabalharam
com a nossa lista de palavras (com e sem intervenção
da facilitadora), sendo que deste grupo de crianças que atingiram
a categoria 6 e utilizaram atividades no computador com a nossa lista,
57,1% tiveram a intervenção da facilitadora no trabalho
com o computador.
Análise Qualitativa das Sessões de Intervenção
Como a nossa intervenção foi realizada numa escola
particular da cidade do Recife, todas as crianças do trabalho
piloto já haviam tido contato com o computador e o manuseavam
com facilidade.
Em todos os nossos encontros, independentemente da categoria do
pré-teste em que as criança foram enquadradas, as crianças
responderam que o jogo não havia mostrado nada que as fizesse
mudar as regras originais que haviam apresentado.
As crianças do grupo G3, ao darem esta resposta, eram estimuladas
pela facilitadora a pesquisarem se todas as palavras apresentadas
(que haviam sido anotadas) correspondiam às regras iniciais
definidas por elas (que também haviam sido anotadas); todas
perceberam que havia o contexto de palavras como em “honra”,
mas não descobriram logo qual o motivo desta grafia. Então,
começávamos a escrever quais as letras que apareceram
antes e depois do rr (a, o, u, i, e) e todas as crianças perceberam
que eram as vogais, explicitando a regra, que já “sabiam”,
de que “só se escreve rr entre vogais com o som não
tremido”.
Apenas uma criança, categorizada como 5 no pré-teste,
refletiu sobre as regras do uso do R no momento do jogo (e não
no final, com nossa intervenção), pois na atividade
de palavras-cruzadas, quando apareceu a primeira palavra com cRv,
ela a escreveu com 2 erres e ao notar que não haveria quadrinhos
suficientes para a palavra, voltou e percebeu a consoante, dizendo
que havia lembrado que só se escreve com 2 erres entre vogais
(erre não vibrante), refazendo as regras neste momento e grafando
corretamente as palavras até o final do jogo. Além dessa
criança, nenhuma outra conseguiu refletir sobre as regras do
uso do R sem a nossa intervenção, mesmo quando era confrontada
com contextos de R que refutavam as regras explicitadas por ela no
início da atividade (isto só foi possível quando
a nossa lista foi utilizada, pois a do software não contempla
de forma eqüitativa todos os contextos).
No software Ortografando II, cada palavra inserida na lista a ser
trabalhada, deve ser acompanhada de uma descrição da
mesma, uma pista, que será utilizada nas diversas atividades
do jogo. Percebemos que as dicas utilizadas pelo programa em sua lista
de randomização para o uso do R não eram muito
claras para as crianças, pois muitas ficavam mais voltadas
para elas do que para a grafia da palavra em si. Por exemplo, para
a palavra “varre”, a dica era “verbo varrer na terceira
pessoa do singular do presente do indicativo”; muitas crianças
ainda não dominavam estes contextos gramaticais. A redação
do texto das nossas dicas ainda poderia ser mais bem elaborada, apesar
de não envolvermos conceitos gramaticais nas mesmas.
Ressaltamos que não utilizamos todas as atividades do software,
selecionando apenas, na ordem, forca, palavras-cruzadas, digitação
e quebra-cabeça.
Na atividade FORCA (Figura 3) a criança deveria clicar com
o mouse a letra que formaria a palavra que ela deveria descobrir a
partir da “dica” apresentada pelo jogo (o par palavra/dica
teria sido inserido por nós, se a criança estivesse
trabalhando com a nossa lista, ou seria fornecido pelo software, se
a lista trabalhada fosse a do Ortografando II).
Figura 3 - Tela da atividade FORCA

Mais uma vez, o erro não foi tratado como uma etapa do processo
de aprendizagem, pois quando a criança errava, o guerreiro
sofria penalidades, como podemos observar na Figura 4.
Figura 4 - Tela da atividade FORCA no momento do erro da criança
A atividade seguinte à FORCA, foi a de PALAVRAS-CRUZADAS.
Nela a criança iria digitando as letras que formavam a palavra
que ela deveria descobrir a partir da “dica” dada. Não
havia penalidades se ocorresse o erro, mas também o software
não indicava que palavra estava errada (Figura 5).
Figura 5 - Tela da atividade PALAVRAS-CRUZADAS

Em seguida, a criança trabalhava com a atividade DIGITAÇÃO,
onde deveria digitar, a partir do teclado, a palavra que aparecia
no vídeo, o mais rápido possível; se errasse
a digitação da palavra, o monstro do jogo acordaria
(Figura 6). Nesta atividade, uma criança digitou com erro uma
palavra e o monstro acordou, gerando grande ansiedade na criança
que quis sair deste jogo, pois ficou com “medo do monstro”
(Figura 6).
Figura 6 - Tela da atividade DIGITAÇÃO

A última atividade trabalhada pela criança era a de
QUEBRA-CABEÇA, onde ela deveria clicar com o mouse em cima
da palavra que correspondesse à “dica” que aparecia
na tela (Figura7).
Figura 7 - Tela da atividade QUEBRA-CABEÇA

À medida que a criança clicava a palavra correspondente
à “dica”, o software ía formando uma figura
(Figura 8).
Figura 8 - Tela da atividade QUEBRA-CABEÇA com a figura
formada

A atividade preferida pelas crianças foi a de quebra-cabeça.
Também não utilizamos a opção de som,
pois além do computador ter ficado instalado num local com
outras pessoas trabalhando, não teríamos esta opção
(a de locução) para as palavras da lista inserida por
nós.
É importante que salientemos que só realizamos um encontro
com cada criança, com duração média de
20 min., o que pode ter prejudicado os nossos dados, visto que as
crianças que foram apenas expostas ao software (utilizando
a nossa lista), poderiam ter refletido sobre os diversos contextos
do uso do R, principalmente o cRv, se tivessem tido a oportunidade
de se confrontarem mais vezes com os mesmos.
Percebemos que o software foi eficiente a partir do momento que pudemos
manipular a nossa lista de palavras, já que nela o percentual
de palavras com cRv era significativo. Nas intervenções
com as crianças utilizando a nossa lista de palavras (G2 e
G3), todos os contextos de grafia do R apareceram. Nas intervenções
com a lista do Ortografando II (G1), o contexto | R |, entre consoante
e vogal, como em “honra”, só apareceu uma única
vez. Se a criança só tivesse contato com o ensino da
ortografia a partir desta lista, não seria estimulada a atingir
a categoria 6 do estudo de Rego (1995), permanecendo, provavelmente,
no contexto de grafar com “rr” o som | R | no meio da
palavra, ainda que entre consoante e vogal, visto que não teria
oportunidade de refletir sobre o contexto cRv.
Apesar de em todas as sessões com a nossa lista de palavras
todos os contextos do uso do R serem contemplados, as crianças
não refletiram sobre a elaboração da regra sem
a intervenção da facilitadora (com exceção
de uma criança).
Embora o software gravasse em arquivo a situação de
cada jogador (aluno), esse registro se dava apenas a nível
de pontuação, não sendo gravadas informações
como os tipos de erros cometidos nem os caminhos percorridos no software
(rastreamento da criança). Se o programa fizesse esse acompanhamento,
poderia avaliar quais as palavras que deveriam fazer parte do vocabulário
a ser trabalhado com cada criança que a levasse a se confrontar
com palavras que provocassem uma reflexão sobre sua concepção
da regra ortográfica em questão. Além disso,
esse material poderia ser muito útil ao professor, pois o ajudaria
a planejar atividades em sala direcionadas para as situações
de aprendizagem de cada criança.
5. Conclusões
Compreendemos a aprendizagem como um processo que envolve sempre
uma relação entre sujeitos, permeada pela subjetividade
de cada um, e que é o aprendiz quem constrói o seu processo
de aprendizagem. Verificamos, porém que o ser humano é
um ser tecnológico, no sentido de que cria e transforma a natureza,
pelo uso de instrumentos. Desta forma, o computador, com o uso de
softwares educativos de qualidade, pode ser um instrumento na práxis
do professor, como uma alternativa para trabalhar com seus alunos
um determinado conteúdo. Nunca, porém, poderá
ser o instrumento.
Cada etapa do processo de aprendizagem possui uma lógica própria
e os “erros” apresentados pelos alunos são a expressão
desta forma de pensar. Por isso, é importante que identifiquemos
esta lógica e ajudemos os alunos a superar as etapas para a
construção do seu conhecimento. E as regras ortográficas
não fogem a este esquema. Para que o aluno aprenda ortografia
é necessário que ele compreenda ortografia e se aproprie
das regras ortográficas da língua portuguesa.
A realidade dos softwares brasileiros ainda está longe de
satisfazer os pressupostos básicos de uma teoria de aprendizagem
que considere o aluno como sujeito pensante e construtor de seu conhecimento
e o erro como uma etapa do processo de aprendizagem.
O software Ortografando II se propõe a ensinar o conteúdo
ortografia com a concepção de que se pode ajudar as
crianças na memorização da grafia correta das
palavras e de que a criança pode fixar sozinha as regras aprendidas
em sala fazendo exercícios nos jogos propostos pelos programas,
tudo isto de uma forma lúdica e prazerosa. Esta abordagem pode
ser útil nos casos em que não existe previsibilidade
da ortografia devido às regras de contexto, fazendo-se necessária
a memorização das palavras, pois as atividades apresentadas
pelo software podem ajudar os alunos a fixar a grafia correta das
palavras.
Sentimos necessidade de um maior aprofundamento teórico nosso
nas questões de ortografia, pois observamos, por exemplo, que
a categorização das palavras das listas em discriminação
auditiva e visual, mereceria uma análise mais detalhada a partir
dos estudos de Faraco (1992).
Observamos que o software Ortografando II pode ser um instrumento
de auxílio ao professor em sua prática pedagógica,
pois permite a inserção do contexto de trabalho do professor,
que pode trabalhar ao lado do aluno e ajudá-lo a construir
o seu próprio conhecimento. Porém, sem a intervenção
do professor, o software não apresentou de imediato resultados
positivos na aprendizagem da regra do R, quer no trabalho com a lista
de palavras dele quer com a nossa lista de palavras (com palavras
distribuídas eqüitativamente nos diferentes contextos
do R), pois as crianças, apesar de confrontadas com palavras
que invalidavam as regras explicitadas por elas não refletiram
sobre uma nova possibilidade de regras. Salientamos, entretanto, que
o tempo de exposição livre ao software foi muito restrito
e que, talvez, uma longa e isolada exposição, no caso
da nossa lista, pudesse favorecer uma reflexão por parte das
crianças quanto aos diferentes contextos do R. Talvez, a intervenção
da facilitadora tenha apenas acelerado o processo de reflexão
do aluno.
Um aspecto que merece ser analisado é a questão do
tratamento do erro, pois no jogo do software Ortografando II, o erro
gera perda de pontos, imagens torturantes, associações
de fracasso e é encarado como algo que deve ser banido. Um
software educativo de qualidade deve permitir o registro do tipo de
erro e, então, apresentar para a criança (jogador) desafios
que a ajudem a superar a lógica que provoca esse erro, avançando
no seu processo de aprendizagem, e não apenas registrá-lo
quantitativamente, como perda de pontos (ou de notas, como na prática
pedagógica tradicional).
Salientamos a necessidade da formação de uma equipe
interdisciplinar no desenvolvimento destes programas, pois os técnicos
de informática não entendem do conteúdo que estão
“colocando” no programa nem de psicologia do desenvolvimento.
É preciso que os setores de Educação e Psicologia
se comprometam a desenvolver softwares realmente educativos.
Apesar do software escolhido ter ganho prêmios pela sua facilidade
de uso e interatividade, não achamos tão simples a sua
utilização por um professor leigo. Acreditamos que muito
nos ajudou a nossa formação anterior em informática,
pois sabíamos o que queríamos investigar, onde mexer
no programa para solucionar alguns dos problemas detectados. Este
é um ponto que merece ser ressaltado porque a formação
dos professores que estão em sala de aula não envolve
o aspecto técnico da informática e dificulta a utilização
dos programas com seus alunos.
Foi graças a esta formação que conseguimos acessar
a lista de palavras do Ortografando II, o que nos possibilitou uma
análise das palavras que estavam relacionadas com as regras
ortográficas do uso do R e a conseqüente concepção
teórica que fundamentava esta escolha de palavras.
O nosso desenho experimental não conseguiu seguir o planejado,
pois não havíamos previsto as dificuldades de uma intervenção
experimental com o uso do computador em uma escola; verificamos que
o tempo médio de intervenção com cada criança
(20 min.) interrompia o trabalho da professora com sua classe e nem
sempre os alunos podiam vir trabalhar no computador. O período
de realização das nossas intervenções
coincidiu com o trabalho da Feira de Conhecimentos e os alunos tinham
muito trabalho em grupo.
A escola oferece às crianças aulas de dança,
artes, educação física e inglês, não
sendo permitida a nossa intervenção nestes momentos.
Todos estes fatores inviabilizaram um maior número de sessões
por criança no trabalho no computador, o que prejudicou os
nossos resultados, visto que não temos o dado da influência
do tempo de exposição da criança ao software
selecionado.
Um problema que tivemos que solucionar foi a disponibilidade de um
microcomputador, com drive de cd-rom, para a utilização
do software com as crianças, já que a escola não
dispunha de um para viabilizar as intervenções.
A nossa intervenção teve um caráter experimental
e, nessa escola, o computador não faz parte das salas de aula;
por conseguinte, os professores e os alunos não estão
envolvidos em ambientes ricos em tecnologia. Acreditamos que se o
computador fizesse parte do cotidiano da escola, os resultados alcançados
com o uso do software Ortografando II, com a intervenção
do professor junto a seus alunos, poderia dar resultados muito animadores,
visto que o professor poderia criar diversos contextos de trabalho
(através da inserção de listas diferentes), adaptando-os
às necessidades de cada aluno, poderia planejar trabalhos diversificados
apoiados nas atividades que permitem a impressão de jogos (Anexo
V), poderia selecionar a atividade a ser trabalhada de acordo com
o enfoque que desejasse, poderia, enfim, trabalhar um conceito sob
diversos ângulos, utilizando recursos de multimídia (som,
imagem, animação), além da virtualidade do objeto
em estudo, permitindo que as crianças se apropriassem deste
objeto usando todos os seus sentidos.
Concluímos que o computador, com o uso de um software educativo
que permita a interação professor-aluno-computador,
pode ser um instrumento de mediação da aprendizagem
eficaz, visto que possibilita a expressão de um conteúdo
a ser trabalhado, sob ângulos diversos (com os recursos de multimídia),
o que promove uma melhor aproximação do conteúdo
pelos alunos, mas nunca poderá substituir o professor nesta
relação de ensino/aprendizagem.
Apesar da ampla divulgação na mídia de que os
computadores podem “revolucionar” o ensino, são
poucos os dados de pesquisa na área. Assim, acreditamos que
este trabalho pode contribuir com dados mais “realistas”
sobre os efeitos do uso do computador, com ou sem a intervenção
de um facilitador, no ensino de um determinado conteúdo escolar
(no caso, a ortografia). Apontamos, porém, para a necessidade
de estudos e acompanhamentos sistemáticos por um intervalo
de tempo mais longo, pois no nosso estudo piloto não analisamos
a questão da influência do tempo de exposição
da criança ao software para a aquisição das regras
ortográficas em todos os contextos de uso do R.
6. Referências
ÁTICA (1996). Português (Coleção Quero
Aprender). São Paulo: Ática Multimídia e Byte
& Brothers (software educativo)
AZEVEDO, I. B. (1997) O prazer da produção científica;
diretrizes para a elaboração de trabalhos acadêmicos.
5a ed. - Piracicaba: Editora Unimep
CARRAHER, D.W. (1994). Investigando Textos com Sherlock. São
Paulo: SENAC (software educativo)
CARRAHER, T.N. (1985). Explorações sobre o desenvolvimento
da Ortografia no Português. Psicologia, Teoria e Pesquisa; Universidade
de Brasília; vol. 1,pp. 269-285
CORDIÉ, Anny (1996). Os atrasados não existem: psicanálise
de crianças com fracasso escolar. – Porto Alegre: Artes
Médicas
CYSNEIROS, P.G. (1997). A Assimilação da Informática
pela Escola Pública. (texto não publicado) - Paraíba:
UFPB
EXPOENTE (1996). Escrevendo ao Pé da Letra 1.0. Paraná:
Sistema Expoente de Ensino (software educativo)
FARACO, C.L. (1992). Escrita e Alfabetização - São
Paulo: Contexto
FERREIRO, Emília (1985). Reflexões sobre Alfabetização
- São Paulo: Cortez
GOODMAN, Y.(org.) (1995). Como as crianças constroem a leitura
e a escrita: perspectivas piagetianas - Porto Alegre: Artes Médicas
GRUNKRAUT, M. (1997). Ortografando II. São Paulo: Byte &
Brothers (software educativo)
KUPFER, Maria Cristina (1992). Freud e a Educação: o
mestre do impossível - São Paulo: Scipione
LITWIN, E. (org.) (1997) Tecnologia Educacional: política,
histórias e propostas - Porto Alegre: Artes Médicas
MELO, K. (1997). Uma proposta alternativa para o ensino de ortografia.
Tese de Mestrado: Mestrado de Psicologia da UFPE
MONTEIRO, A. (1995). A Aquisição de Regras de Contexto.
Tese de Mestrado: Mestrado de Psicologia da UFPE
NUNES, T. (1992). Leitura e Escrita: Processos e Desenvolvimento.
in: E. Alencar (org.) Novas Contribuições da Psicologia
aos Processos de Ensino Aprendizagem - São Paulo: Cortez
OLIVEIRA, V. (org.) (1996). Informática em Psicopedagogia -
São Paulo: SENAC
REGO, L.L.B. (1996). Compreendendo a Ortografia: O uso dos dígrafos
“rr”, “qu”, “gu”, por crianças
e suas implicações pedagógicas. Coleção
Qualidade do Ensino. Secretaria de Educação do Estado
de Pernambuco
SANHHOLTZ, J. & RINGSTAFF, C. & DWYER, D. (1997) Ensinando
com Tecnologia: criando salas de aula centradas nos alunos - Porto
Alegre: Artes Médicas
|