ABRACADABRA, PROFESSOR (A)!!

Patrícia Vasconcellos Pires Ferreira

Apesar da apresentação profissional, acho importante contar um pouco da minha história porque acredito que vocês precisam saber de que lugar, quais as referências, qual o contexto que a pessoa que está aqui se situa.
O poema que me apresenta é o de Fernando Pessoa:

“Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe o quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
porque alta vive.”

Tenho quase 40 anos e três filhos. A maternidade me deu muito prazer. Fiz minha primeira formação em Ciência da Computação, na época dos dinossauros. Depois comecei o curso de Administração de Empresas porque queria algo mais humano do que a frieza dos bits e bytes. Deixei o curso para assumir um cargo de chefia na Elógica (empresa pioneira no uso de microcomputadores em Recife – PE), no seu início. Faço parte da história dos microcomputadores. Fui para Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) para trabalhar como Analista de Sistemas e por lá fiquei durante 11 anos. Comecei um mestrado em Informática, mas chorava quando ouvia “se ... então ...”, porque esse dia não voltaria mais e eu estudava essas coisas que não ajudavam ninguém. Participei do Projeto Educom / PE, sob a orientação do Prof. Paulo Gileno. Mas havia uma grande inquietação da minha parte: como as pessoas se desenvolvem, como se relacionam com o mundo, como aprendem? Por isso, fui fazer Psicologia, com ênfase na área escolar. Surgiu a primeira especialização em Informática na Educação e participei. Na especialização me surpreendi com uma colocação dos educadores: poderia o computador substituir o professor? Nunca consegui compreender essa questão, pois para mim o computador é uma máquina, cuja função é tratar dados armazenados na forma de bits, e a relação professor-aluno é muito mais que isso. Compactuo com Chaplin:

Mais do que máquinas,
precisamos de humanidade.
Mais do que inteligência,
precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudes a vida será de violência
e tudo estará perdido.

Como não considerar a subjetividade na relação ensino-aprendizagem?
Devido a essa postura, comecei minha formação na área de dificuldades de aprendizagem com Alicia Fernández e atuo em consultório trabalhando com crianças que denunciam seu mal-estar através desse sintoma. Trabalhei, também, como psicóloga escolar, numa experiência inovadora, participando da equipe de coordenação pedagógica, em uma escola particular de Recife. Foi lá que comecei a me preocupar com a formação dos professores. Decidi, então, que investiria minha energia em programas que tivessem como objetivo cuidar do professor / professora, em resumo, dar dengo aos professores, para usar uma expressão bem nordestina. Hoje, além das atividades de consultório e de formação de professores, tenho estudado a Psicologia Transpessoal e iniciei meu mestrado tentando estabelecer uma relação entre os contos de fadas e as dificuldades de aprendizagem. Raul Seixas traduz bem o meu percurso profissional:

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante,
do que ter sempre aquela velha opinião formada sobre tudo.

Agora que vocês já sabem como fui construindo as idéias que hoje trago para discussão, gostaria que tivessem em mente que vamos refletir um pouco sobre a magia que ocorre no momento em que uma pessoa ensina e outra pessoa aprende.
Como acredito que todo processo de aprendizagem envolve a nossa subjetividade, vamos começar fazendo uma viagem no tempo, através de uma espécie de jornada de fantasia.

“Feche os olhos. Procure ficar sentado numa posição confortável. Inspire lentamente o ar. Solte-o com tranqüilidade. Inspire... Expire... Inspire... Expire... Agora, procure nas suas lembranças a época em que você era criança e estava chegando a hora de ir para a escola. Como você se sente? Quais são as suas expectativas? Como é o seu primeiro dia de aula? Como é sua professora? Sua escola? Seus colegas? O que você mais gosta de fazer na escola? O que mais lhe incomoda? Quais as recordações mais agradáveis? Quais os momentos mais difíceis? O tempo vai passando e agora está na hora de você escolher sua profissão. Como você faz essa escolha? Por que ser professor / professora? O tempo passa mais um pouco e está na hora do vestibular? Como você se sente? Agora você já está na faculdade. Quais são as suas expectativas? O que tem de bom? O que tem de ruim? Como você supera as dificuldades? Como são os bons professores? O tempo passa mais um pouco e você conclui o seu curso: você é professor / professora. Você vai para a sala de aula como profissional pela primeira vez. Como você se sente? Quais são seus medos? Quais são suas expectativas? Como você se relaciona com seus alunos? Como você se prepara para o encontro com eles? Lembre-se de um momento difícil. Como você se posiciona? Lembre-se de um momento especial? Como você se sente? Como você tem se cuidado para ser um bom professor? Você tem investido no seu crescimento profissional? Como você tem investido no seu desenvolvimento enquanto pessoa? Quanto do professor / professora que tinha sonhos quando se formou ainda existe em você agora?”

Agora que nos conectamos com nossa subjetividade, podemos começar a refletir sobre a nossa postura enquanto profissional de ensino-aprendizagem e nossa relação com nossos alunos.

Então, podemos nos perguntar: qual a função da escola no mundo globalizado e informatizado do século XXI? Fernando Hernández nos dá uma possível resposta:

“... A função da Escola não é só transmitir ‘conteúdos’, mas também facilitar a construção da subjetividade para as crianças e adolescentes que se socorrem nela, de maneira que tenham estratégias e recursos para interpretar o mundo no qual vivem e chegar a escrever a sua própria história.”

Como, enquanto agentes dessa escola, devemos agir para despertar no nosso aluno essa paixão, esse “tesão” por aprender?

Para Freud, a paixão pelo saber origina-se da curiosidade infantil sobre sua origem. DE ONDE VIEMOS? “Qual é a minha origem em relação ao desejo de vocês?” PARA ONDE VAMOS? “Por que me puseram no mundo, para atender a quais expectativas e esperando que eu me torne o quê?”
Freud (in: Três ensaios sobre a sexualidade) nos diz que “A criança se apega aos problemas sexuais com uma intensidade imprevista, e se pode mesmo dizer que esses são os problemas que DESPERTAM sua inteligência.” Ao final do Complexo de Édipo a investigação sexual é reprimida. Porém, parte de sua energia é sublimada em Pulsão de Saber. Agora a criança quer conhecer o mundo.
Aprender é aprender com alguém, que será colocado numa determinada posição de suposto saber. Freud (citado em Kupfer, 1992) nos mostrava:

“No decorrer do período de latência, são os professores e geralmente as pessoas que têm a tarefa de educar que tomarão para a criança o lugar dos pais, do pai em particular, e que herdarão os sentimentos que a criança dirigia a esse último na ocasião do Complexo de Édipo. Os educadores, investidos da relação afetiva primitivamente dirigida ao pai, se beneficiarão da influência que esse último exercia sobre a criança.”

A ênfase freudiana não está concentrada nos conteúdos cognitivos a serem transmitidos do professor para o aluno, mas no campo que se estabelece entre professor/aluno, uma relação que primeiramente foi dirigida ao pai. Transferência é nome dado pela Psicanálise a este campo. Só assim o professor pode tornar-se a figura a quem serão endereçados os interesses dos alunos. A transferência se produz quando o desejo de saber do aluno se liga à pessoa do professor, que passa a ser depositário de algo que pertence ao aluno, esvaziando-se enquanto pessoa.

Cordié (1992) nos diz que o professor só pode fazer nascer o amor pelo saber, quando ele próprio conhece essa paixão. Não aprendemos de qualquer um, aprendemos daquele a quem outorgamos confiança e direito de ensinar. Na escola, como na vida, também se aprende por “amor a alguém”. Ensinar não é apenas transmitir conteúdos e aprender não é apenas memorizá-los.

Alicia Fernández, em toda sua obra, mostra-nos que para aprender precisamos de dois personagens: o ensinante e o aprendente e do vínculo estabelecido entre eles.

Então, precisamos estar atentos para o fato de que nossa subjetividade é fundamental para a relação ensino-aprendizagem com nosso aluno. Nossa subjetividade e a dele. Precisamos de competência em nossa área de atuação, nos conteúdos. Precisamos cuidar de nossa subjetividade. Precisamos entender de processos de desenvolvimento psicológico. Precisamos entender de processos cognitivos. Precisamos entender de relações grupais. Precisamos entender de contextos culturais. Precisamos entender de tecnologia. Como dar conta de tudo isso? Nos nossos ombros são depositadas as esperanças por uma revolução social. “O caminho para o desenvolvimento é a educação.” Mas como estamos sendo ancorados diante de tantas demandas?

Uma terapia nos ajuda a cuidarmos de nossa subjetividade. Cursos nos ajudam na formação profissional. Idas a teatros, cinemas e livrarias ampliam o nosso universo cultural.

Mas como fazer tudo isso com o salário que ganhamos? Como dar conta de toda essa demanda e ainda ter tempo para nossa vida pessoal, nossa família, nossos amigos?

Sonho com uma escola onde o professor tivesse que dar aulas pela manhã. Algumas tardes ele teria para estudar e preparar aulas. Outras tardes ele teria livre para passear, relaxar, ler, brincar. Essa escola cuidaria do professor: teria espaços de meditação, tai-chi, ginástica, massagem, natação, manicure, biblioteca. O professor poderia ter aulas de dança, música, teatro, artes. A escola teria convênio com videolocadoras. Haveria ciranda de cds e de livros. Uma utopia? Talvez, por enquanto. Mas grandes empresas multinacionais já fazem um pouco disso tudo, porque descobriram que funcionários mais felizes, produzem mais. Imaginem a importância de professores mais felizes, já que a aprendizagem envolve a subjetividade dos ensinantes e dos aprendentes!!

O professor bem cuidado e feliz poderia trabalhar por uma escola mais colorida, bonita, alegre, onde os alunos pudessem circular e trabalhar de uma forma mais prazerosa. No planejamento de aula, tempo para brincar, para ler, para refletir e discutir. Um ritmo que permitisse momentos de expansão e de contenção. Planejamento que trabalhasse o conteúdo, o sentimento, o corpo, a subjetividade, a cooperação, a percepção das relações no Universo.

Quando falamos em conteúdos curriculares, precisamos estar abertos à pergunta: quais? Hoje são tantos os saberes científicos que não podemos mais ficar presos a um currículo determinado há muito tempo atrás, dentro de um modelo positivista de sociedade. Dom Hélder nos ensina a sua pedagogia:

Não ensine a seu filho que as estrelas não são do tamanho que parecem ter: maiores que a Terra!
São lâmpadas que os anjos acendem todos os dias assim que o sol começa a escurecer ...
Não diga a seu filho que as asas dos anjos só existem em sua imaginação.
Já vi meu anjo em sonho e posso jurar que ele tem asas claras que até parecem feitas de luz.
Não encha a cabeça de seu filho ensinando-lhe hipóteses precárias que amanhã de nada servirão.
Povoe de beleza o olhar inocente de seu filho.
Dê-lhe uma provisão de bondade que chegue para a marcha da vida.
Infunda-lhe na alma o amor de Deus - e tudo o mais, por acréscimo, ele terá.

Banimos a subjetividade de nossas escolas; priorizamos a razão. Tiramos da religião o poder de explicar o mundo; colocamos outros deuses no lugar: os cientistas. Caímos no vazio. Não estamos mais felizes. As crianças são as primeiras a denunciar esse desequilíbrio. Já não podem mais brincar, já não podem mais ficar sem fazer nada porque têm que cumprir uma agenda superlotada para que tenham sucesso no futuro mundo competitivo. Estão sozinhas. Adoecem. Como educadores também não estamos felizes. Temos a sensação de fracasso.
Não podemos continuar nos preocupando, na escola, apenas com o desenvolvimento da racionalidade das crianças. Nicholas Negroponte, coordenador do MIT, em entrevista ao programa de televisão Roda Viva, comentou que não nos lembramos do professor da nossa infância que tinha a melhor metodologia de ensino; lembramo-nos daquele que afagou a nossa cabeça quando estávamos tristes ou preocupados.
Don Tapscott, autor de best-seller Geração Digital, à revista VEJA – Vida Digital (19 de abril de 2000) comenta que os professores, assim como os pais, “nunca devem substituir o tempo que passam com as crianças por um computador, pois a chave para uma boa educação ainda é a leitura e as brincadeiras com as crianças.”. Toquinho, poeticamente, transmite-nos essa mensagem de amor na sua Casa de Brinquedos:

Chegamos, filho.
É aqui. Prepare-se.
Aqui você vai descobrir um vale encantado
vai chegar na caverna misteriosa
e vai conhecer o estranho laboratório do cientista louco.
E eu queria lhe dizer uma coisa. Não esqueça, filho.
Uma rosa não é uma rosa. Uma rosa é o amanhã,
uma mulher o canto de um homem.
Uma rosa é uma invenção sua.
O mundo é uma invenção sua.
Você lhe dá sentido. Você o faz bonito. Você o cobre de cores.
Um brinquedo, o que é um brinquedo?
duas ou três partes de plástico, de lata ...
Uma matéria fria, sem alegria, sem História ...
Mas não é isso, não é, Filho?
Porque você lhe dá vida,
Você faz ele voar, viajar ...
Vamos, filho.
Sabe que lugar é esse?
É um lugar de sonhos.
Uma casa de brinquedos.
Vamos entrar.

Acredito que uma educação que se reconecte com a inteireza do ser humano, nos seus aspectos bio-psico-social-espiritual, é um dos caminhos. E nós educadores somos os líderes desse processo mágico. Rubem Alves nos aponta um caminho:

“O educador é parte de uma tarefa mágica, capaz de encantar crianças e adolescentes, o que é bem diferente de simplesmente dar aula. Dar aula é só dar alguma coisa. Ensinar é muito mais fascinante.

Que mágico, dentro de nós, será capaz de conduzir o fogo do amor pela ciência? Que estórias contamos para explicar nossa dedicação? Que mitos celebramos que mostrem aos jovens o futuro que desejamos?”

Com a nossa superioridade científica, esquecemos que não somos donos do planeta e do universo. Somos parte desse sistema. Destruímos o planeta, estabelecemos a violência. Buscamos a Paz. O que fazer?

Estamos vivendo no início de um novo milênio. Um milênio que busca a integração, a harmonia e o equilíbrio. Desvendamos o universo. Vamos em busca de nós mesmos. A física quântica nos traz, enquanto ciência, um conhecimento místico milenar: somos todos energia e o que fizermos afetará todo o sistema. Acredito que se unirmos nossas energias esse mundo de amor e paz será possível. Compartilho com vocês esse trecho da Bíblia:

Mesmo que eu fale em línguas,
A dos homens e a dos anjos,
Se me falta o amor,
Sou um metal que ressoa, um címbalo retumbante.
Mesmo que tenha o dom da profecia,
O saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento,
Mesmo que tenha a fé mais total,
A que transporta montanhas,
Se me falta amor, nada sou.
(Epístola de São Paulo aos Coríntios, 13, 1-2)

Convido vocês a COMPARTILHAREM comigo a música de Jorge Vercilo.
Abracadabra, professor(a)!

Em tudo que é belo
Música e letra: Jorge Vercilo
Eu ainda acredito
num futuro mais bonito,
que o novo é bem-vindo
e o amor é infinito.

Eu ainda acredito
que nem tudo está perdido,
que o sorriso é sagrado
e aqui é o paraíso
e que tudo estava errado
sobre o dia do juízo.

Eu ainda acredito
no carinho invés do grito,
na doçura dos meninos
que no fundo todos somos.

Eu ainda acredito
nos heróis adormecidos,
nessa força que revolta
e nos faz ficar erguidos
cada vez que nos sentimos
derrotados e punidos.

Eu ainda acredito
que depois da tempestade
sempre vem a calmaria
e consigo a liberdade.

Eu ainda acredito
em objetos luminosos,
que há vida no universo,
outras luas, outros povos,
eu ainda acredito.

Eu ainda acredito
nas florestas e nos índios,
na bravura das leoas,
na alegria dos golfinhos.
Eu ainda acredito
no galope do unicórnio,
acredito em gnomos
e no vôo dos tucanos
e no canto das baleias
alegrando os oceanos.

Eu ainda acredito
na justiça lá de cima,
na verdade e na vida
como o som de uma rima.
E em tudo que é belo
e em tudo que é nobre
como as cores do arco-íris
quando a chuva se descobre
e agradece iluminada
pelo sol de ouro e cobre.

Sei, talvez eu seja visto
como ingênuo ou demagogo,
inocente ou pervertido,
um hipócrita, um louco.
No entanto eu insisto
nesta chama que consome,
eu ainda acredito
porque sofro com a fome,
porque ainda sou um homem.

Referências Bibliográficas

Cordié, A. (1996). Os atrasados não existem: psicanálise de crianças com fracasso escolar – Porto Alegre: Artes Médicas

Fernández, A. (1990). A inteligência aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. – Porto Alegre: Artes Médicas

Fernández, A. (1994). A mulher escondida na professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporalidade e da aprendizagem. – Porto Alegre: Artes Médicas Sul

Fernández, A. (2001a). O saber em jogo: a psicopedagogia propiciando autorias de pensamento. – Porto Alegre: Artmed

Fernández, A. (2001b). Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicação – Porto Alegre: Artmed

Fernández, A. (2001c). Psicopedagogia em psicodrama: morando no brincar. – Petrópolis, RJ: Vozes

Freud, S. (1900). Três ensaios sobre a sexualidade. In: Obras Completas, Imago

Kupfer, M. C. (1992). Freud e a educação: o mestre do impossível. 2a. ed. – São Paulo: Scipione

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Bel. em Ciência da Computação e em Psicologia, Psicóloga Clínica, Especialista em Informática na Educação e em Psicologia Transpessoal, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva da UFPE.
patricia@caleidoscopio.psc.br