ABRE-TE
SÉSAMO! - Uma escola de gente feliz
No meu trabalho em consultório
como Psicóloga Clínica, recebo muitas crianças
e adolescentes que apresentam o ‘diagnóstico’
de dificuldades de aprendizagem. Os sintomas são descritos
como dispersão, hiperatividade, preguiça, falta
de interesse e tantos outros que apontam para as lacunas das
crianças e adolescentes. Sempre que surge esta situação
fico me perguntando se essa não seria uma espécie
de epidemia. Pais desolados, professores desestimulados e
alunos sofrendo. O que está acontecendo no nosso modelo
de sociedade para que tantos jovens apresentem o sintoma de
dificuldades de aprendizagem?
A primeira coisa que percebo quando
começo o trabalho com a maioria destes alunos-problema
é que são muito inteligentes, curiosos, criativos
e que estão buscando uma forma de assumirem sua singularidade.
Como pode acontecer de uma criança com déficit
de atenção ficar uma hora bem concentrada na
montagem de um quebra-cabeça? Como pode uma criança
hiperativa ficar uma hora deitada numa rede ouvindo um conto
de fadas? Como pode uma ‘criança burra’
criar com tanto prazer e originalidade um desenho maravilhoso?
Onde está o problema?
Pensemos nos atores sociais envolvidos na situação:
família – criança –escola, todos
inseridos no contexto social mais amplo, a sua comunidade.
O que espera a família
de uma escola quando matricula o seu filho nesta instituição?
As escolas, quando surgiram, tinham o papel de transmitir
as informações acumuladas e valorizadas pela
sociedade, de modo a garantir a sua transmissão, e,
também preparas os alunos para o seu ingresso no mercado
de trabalho. Será que hoje poderíamos ainda
atribuir-lhes o mesmo papel? Então, podemos nos perguntar:
qual a função da escola no mundo globalizado
e informatizado do século XXI? Fernando Hernández,
educador espanhol, dá-nos uma possível resposta:
“... A função
da Escola não é só transmitir ‘conteúdos’,
mas também facilitar a construção da
subjetividade para as crianças e adolescentes que se
socorrem nela, de maneira que tenham estratégias e
recursos para interpretar o mundo no qual vivem e chegar a
escrever a sua própria história.”
A sociedade do século XXI
apresenta-se rica em formas atrativas de transmissão
de informação: televisão, computadores,
internet, jornais, revistas, espaços culturais. Como
articular o antigo modelo de escola - associado a uma linha
de montagem de fábrica, com setores compartimentados,
produção seqüencial e um mesmo ritmo para
todos – com a realidade que se apresenta? Como diferenciar
o homem da máquina, a criação do automatismo?
Quantos pais não exibem com orgulho o seu filho realizando
a façanha de contar até 100, sendo tão
pequenininho! Quantos pais não solicitam às
escolas que passem mais dever de casa, porque só se
aprende treinando e repetindo!Lembro-me da cena do filme Tempos
Modernos de Charles Chaplin quando o operário ‘enlouquece’
por não agüentar mais a pressão da produção
e do ritmo e me pergunto se não existiriam muitos ‘Chaplins’
nestes alunos encaminhados para acompanhamento clínico
em consultórios especializados.
Howard Gardner, com a sua teoria
das Inteligências Múltiplas, apontou inúmeras
possibilidades de trabalho na sala de aula, favorecendo o
desenvolvimento de todas as crianças e adolescentes.
Uma criança que tem um enorme potencial na sua Inteligência
Corporal não teria necessariamente o mesmo potencial
na expressão de sua Inteligência Lingüística,
de acordo com a teoria. O que fazer com essa informação
já que a maioria dos modelos curriculares de nossas
escolas ainda apresenta uma grade (grade mesmo, no sentido
de prisão!!) curricular que valoriza as Inteligências
Lógico-Matemática e Lingüística?
Como valorizar a diversidade? Como resgatar a singularidade?
Como devemos agir para despertar no aluno a paixão,
o “tesão” por aprender?
Para Sigmund Freud, a paixão
pelo saber origina-se da curiosidade infantil sobre sua origem.
DE ONDE VIEMOS? “Qual é a minha origem em relação
ao desejo de vocês?” PARA ONDE VAMOS? “Por
que me puseram no mundo, para atender a quais expectativas
e esperando que eu me torne o quê?”. E as escolas
abordam estes temas – Vida e Morte – no seu cotidiano
escolar? Alicia Fernández, psicopedagoga argentina,
em toda sua obra, mostra-nos que para aprender precisamos
de dois personagens: o ensinante e o aprendente e do vínculo
estabelecido entre eles. Anny Cordié, psicanalista
francesa, diz-nos que o professor só pode fazer nascer
o amor pelo saber, quando ele próprio conhece essa
paixão. Não aprendemos de qualquer um, aprendemos
daquele a quem outorgamos confiança e direito de ensinar.
Na escola, como na vida, também se aprende por “amor
a alguém”. Ensinar não é apenas
transmitir conteúdos e aprender não é
apenas memorizá-los.
Quando falamos em conteúdos
curriculares, precisamos estar abertos à pergunta:
quais? Hoje são tantos os saberes científicos
que não podemos mais ficar presos a um currículo
determinado há muito tempo atrás, dentro de
um modelo positivista de sociedade. Dom Hélder nos
ensina a sua pedagogia:
Não ensine a seu filho
que as estrelas não são do tamanho que parecem
ter: maiores que a Terra!
São lâmpadas que os anjos acendem todos os dias
assim que o sol começa a escurecer ...
Não diga a seu filho que as asas dos anjos só
existem em sua imaginação.
Já vi meu anjo em sonho e posso jurar que ele tem asas
claras que até parecem feitas de luz.
Não encha a cabeça de seu filho ensinando-lhe
hipóteses precárias que amanhã de nada
servirão.
Povoe de beleza o olhar inocente de seu filho.
Dê-lhe uma provisão de bondade que chegue para
a marcha da vida.
Infunda-lhe na alma o amor de Deus - e tudo o mais, por acréscimo,
ele terá.
Banimos a subjetividade de nossas
escolas; priorizamos a razão. Tiramos da religião
o poder de explicar o mundo; colocamos outros deuses no lugar:
os cientistas. Caímos no vazio. Não estamos
mais felizes. As crianças são as primeiras a
denunciar esse desequilíbrio. Já não
podem mais brincar, já não podem mais ficar
sem fazer nada porque têm que cumprir uma agenda superlotada
para que tenham sucesso no futuro mundo competitivo. Estão
sozinhas. Adoecem. Como educadores também não
estamos felizes. Temos a sensação de fracasso.
Não podemos continuar
nos preocupando, na escola, apenas com o desenvolvimento da
racionalidade das crianças. Acredito que uma educação
que se re-conecte com a inteireza do ser humano, nos seus
aspectos bio-psico-social-espiritual, é um dos caminhos.
E nós educadores somos os líderes desse processo
mágico. Rubem Alves nos aponta uma possibilidade:
“O educador é parte
de uma tarefa mágica, capaz de encantar crianças
e adolescentes, o que é bem diferente de simplesmente
dar aula. Dar aula é só dar alguma coisa. Ensinar
é muito mais fascinante.
Que mágico, dentro de nós, será capaz
de conduzir o fogo do amor pela ciência? Que estórias
contamos para explicar nossa dedicação? Que
mitos celebramos que mostrem aos jovens o futuro que desejamos?”.
Sonho com uma escola onde professores
e alunos felizes poderiam trabalhar por uma escola mais colorida,
bonita, alegre, onde os alunos pudessem circular e trabalhar
de uma forma mais prazerosa. No planejamento de aula, tempo
para brincar, para ler, para refletir e discutir. Um ritmo
que permitisse momentos de expansão e de contenção.
Planejamento que trabalhasse o conteúdo, o sentimento,
o corpo, a subjetividade, a cooperação, a percepção
das relações no Universo. Temos que nos lembrar
que educar é algo mais que fixar conteúdos sem
significados que logo serão esquecidos; educar é
contribuir para a formação de cidadãos
felizes que consigam viver em harmonia, que saibam trabalhar
em equipe, que respeitem as diferenças, que ousem e
criem.
Este modelo de escola não
estaria voltado para o objetivo de fazer os alunos passarem
no vestibular ou na decoreba das informações,
como denuncia Gabriel o Pensador em sua música Estudo
Errado:
Manhê! Tirei um dez na
prova me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem me reprova
Decorei toda a lição Não errei questão
Não aprendi nada de bom Mas tirei dez (boa filhão!)
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Decoreba: esse é o método de ensino Eles me
tratam como ameba e assim eu num raciocino
Não aprendo as causa e conseqüências só
decoro fatos Desse jeito até história fica chato
A escola dos meus sonhos estaria
envolvida com o objetivo de criar um espaço de confiança
que permitisse a autoria na construção da aprendizagem,
o resgate do tesão de aprender e a formação
de verdadeiros seres humanos, plenos e felizes. Neste lugar
mágico os alunos poderiam conhecer todos os tesouros
do Universo. Abre-te Sésamo!
Para saber mais:
• Bossa, N. (2002). Fracasso escolar: um olhar psicopedagógico.
Porto Alegre: Artmed
• Cordié, A. (1996). Os atrasados não
existem: psicanálise de crianças com fracasso
escolar. – Porto Alegre: Artes Médicas
• Dolto, F. (1998). Os caminhos da educação.
- São Paulo: Martins Fontes
• Fernandez, A. (2001a). O saber em jogo: a psicopedagogia
propiciando autorias de pensamento. – Porto Alegre:
Artmed
• Fernandez, A. (2001b). Os idiomas do aprendente: análise
de modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios
de comunicação. – Porto Alegre: Artmed
• Freud, S. (1989). Inibições, sintomas
e ansiedade (1926). In: Edição standard brasileira
das obras completas de Sigmund Freud. - 2ª. ed. –
Rio de Janeiro: Imago, vol. XX
• Freud, S. (1989). Três ensaios sobre a sexualidade
(1900). In: Edição standard brasileira das obras
completas de Sigmund Freud. - 2ª. ed. – Rio de
Janeiro: Imago, vol. VII
• Kupfer, M. C. (2001). Educação para
o futuro: psicanálise e educação. 2a.
ed. – São Paulo: Escuta
La Taille, Y.; Oliveira, M. K.; Dantas, H. (1992). Piaget,
Vygotsky e Wallon: teorias psicogenéticas em discussão.
– São Paulo: Summus
• Mrech, L. M. (1998). Além do sentido e do significado:
a concepção psicanalítica da criança
e do brincar. In: Kishimoto, T. M. (org.). O brincar e suas
teorias. – São Paulo: Pioneira
• Scoz, B. (org.) (2000). (Por) uma educação
com alma: a objetividade e a subjetividade nos processos ensino
/ aprendizagem. – Petrópolis, RJ: Vozes
• Wadsworth, B. J. (1993). Inteligência e afetividade
da criança na teoria de Piaget. 2. ed. – São
Paulo: Pioneira
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