Brincadeira
de criança:
uma atividade cultural

Introdução
Este trabalho tem por objetivo analisar
a brincadeira de um grupo de crianças no pátio do edifício
em que moram, a partir da perspectiva da brincadeira como uma atividade
cultural, segundo as discussões da psicologia soviética,
tendo como seus representantes Leontiev e Vygotsky.
A metodologia utilizada foi a análise
qualitativa, a partir do registro videográfico e sua posterior
análise microgenética, tendo como embasamento o trabalho
já desenvolvido por Meira (1994):
“A análise qualitativa
de processos cognitivos e da aprendizagem exige o exame de transformações
relativamente sutis e rápidas nas relações
entre ações (e.g., discursivas e gestuais) e a estrutura
de situações específicas. A videografia (estudo
da atividade através de filmagens em vídeo) e análise
microgenética (estudo detalhado da evolução
das relações entre agentes e situações)
combinam-se para formar um modelo de coleta e análise de
dados que permite uma interpretação robusta e consciente
dos mecanismos psicológicos subjacentes à atividade
humana.”
Tentaremos, a seguir, fazer uma ponte entre
o registro realizado através desta técnica e a aprendizagem,
dentro da abordagem sócio-interacionista, citada acima.
Análise Microgenética
e Videografia
O método genético na análise
do desenvolvimento intelectual teve Jean Piaget como um dos seus principais
representantes. Lev Vygotsky considerou mais ampla a discussão
da análise genética, incluindo também como referenciais
os contextos sócio-histórico e microgenético
de análise. Dessa forma, faz-se necessário interpretar
o significado das ações e dos processos mentais humanos
através de uma análise do macro-contexto.
Meira (1994) afirma que “ações
cognitivas, comunicativas ou gestuais possuem influência em
virtude do significado que elas adquirem em contextos sócio-culturais
específicos”. Para essa abordagem, vê-se a necessidade
de considerar aspectos interacionais da atividade humana, como diálogos
entre seus participantes ou a produção colaborativa.
Essa forma de interpretar as ações e os processos mentais
humanos não se propõe a construir regras gerais, aplicáveis
a todos os seres humanos e, sim, identificar seus significados nas
atividades e situações específicas, sempre levando
em consideração o contexto em que ocorrem.
A abordagem microgenética interpretativa
proposta por Meira (1994) tem como características:
1. o exame detalhado de processos cognitivos-interacionais
deve acontecer sem comprometer a compreensão da atividade
como um todo;
2. ser, em grande parte, qualitativa no sentido da ênfase
na análise de protocolos (a transcrição das
ações e discurso registrados em vídeos, por
exemplo);
Tomando-se por base essas características
podemos apresentar narrativas e explicações dos fenômenos
investigados, tendo como princípios diretores da análise
microgenética a análise dos processos sendo mais informativa
que a descrição dos produtos e a inspeção
detalhada das ações, sem perder de vista o significado
da atividade em que tais ações estão situadas.
Meira (1994) defende a idéia de que a:
“videografia, o registro em vídeo
de atividades humanas, apresenta-se como uma ferramenta ímpar
para a investigação microgenética de processos
psicológicos complexos, ao resgatar a densidade de ações
comunicativas e gestuais.
(...)
A videografia não produz por si própria um registro
completo e final da atividade investigada, e que a coleta de dados
em vídeo não é um problema trivial que pode
ser reduzido à quantidade de filmes produzidos.”
Como qualquer outro instrumento de mediação
do homem com o seu ambiente, o vídeo favorece a análise
nos pontos já destacados, mas também oferece limitações
como no campo de visão – já que o olho humano
tem uma maior abrangência espacial - e no registro auditivo
– por não atuar com a seletividade do ouvido humano,
registrando todos os ruídos do ambiente -, não facilitando
uma análise “limpa” do fenômeno observado.
Por isso, um registro etnográfico (de acordo com as idéias
de Geertz (1989)) é recomendável, pois a combinação
das duas formas de registro propicia ao investigador um maior detalhamento
de informações sobre o fenômeno analisado.
Meira (1994) confirma que “uma das
vantagens da abordagem videográfica-microgenética, é
que através dela podemos construir uma compreensão profunda
sobre alguns casos significativos, ao invés de conclusões
supostamente amplas sobre muitos casos cujo significado compreendemos
apenas superficialmente.”
Entendemos que esta técnica de registro
de informações de um fenômeno a ser analisado
é extremamente fidedigna, no que se refere aos aspectos físicos.
Porém, não elimina a etapa de interpretação,
por parte do pesquisador, das informações registradas.
Como a interpretação é um processo subjetivo,
apesar de baseada em referenciais teóricos e não em
‘achismos’, não podemos garantir a construção
de uma ‘compreensão profunda’ e a possibilidade
de ‘conclusões supostamente amplas’.
Steir, citado por Grandesso (2000, p. 306),
afirma que “nossa pesquisa conta uma história sobre nós
mesmos.” Será um pouco da nossa história a contada
aqui.
Cultura
O termo ‘cultura’ é sempre
muito utilizado nos textos produzidos pela Psicologia Cognitiva que
têm como referencial teórico as idéias da psicologia
soviética (com Vygotsky como seu representante máximo).
Sentimos, então, a necessidade de especificar o que estamos
chamando de cultura no contexto desse trabalho, tomando como referência
o conceito de Geertz (1989):
“A cultura é um sistema
ordenado de significados e símbolos nos termos dos quais
os indivíduos definem seu mundo, expressam seus sentimentos
e fazem seus julgamentos”.
Seria a partir dos símbolos compartilhados
pela comunidade no qual está inserido que o indivíduo
‘apreende’ o seu mundo, constituindo-se enquanto sujeito,
e nele interfere, construindo assim a sua ‘realidade’,
num processo dinâmico de interações. Vygotsky
(1984) nos traz a abordagem dinâmica do conceito de cultura:
“A cultura não é
um sistema estático ao qual o indivíduo se submete,
mas como uma espécie de palco de negociações
em que seus membros estão em constante processo de recriação
e re-interpretação de informações, conceitos
e significados.”
Sirgado (2000) aponta para o ponto da psicologia
soviética, citando Leontiev, que a diferencia das demais correntes
psicológicas:
“A corrente sócio-histórica
concebe o psiquismo humano como uma construção social,
resultado da apropriação, por parte dos indivíduos,
das produções culturais da sociedade pela mediação
dessa mesma sociedade.”
O conceito de mediação, tão
central nos trabalhos de Vygotsky, está relacionado com qualquer
intervenção de um terceiro “elemento” que
possibilite a interação entre os “termos”
de uma relação.
Vygotsky aponta dois tipos de mediadores
externos: os instrumentos, orientados para regular as ações
sobre os objetos, e os signos, orientados para regular as ações
sobre o psiquismo das pessoas. Aprofundou seus estudos na relação
entre o pensamento e o sistema de signos da linguagem.
Para Vygotsky são os processos mentais
superiores que caracterizam o pensamento tipicamente humano. Esses
processos são mediados por sistemas simbólicos. Sendo
a linguagem o sistema simbólico básico de todos os grupos
humanos, a questão do desenvolvimento da linguagem e suas relações
com o pensamento ocupam lugar central na perspectiva sócio-histórica
defendida por este autor.
Aprendizagem e Cultura
A linguagem tem duas funções
básicas: a de intercâmbio social e a de pensamento generalizante.
Oliveira (2001) esclarece a função
da linguagem de intercâmbio social, como derivada da necessidade
do homem de se comunicar com os seus semelhantes; já a função
de pensamento generalizante é derivada da necessidade do homem
de ordenamento do real, agrupando-se todas as ocorrências de
uma mesma classe de objetos, eventos e situações sob
uma mesma categoria conceitual. A autora argumenta que é essa
função de pensamento generalizante que “torna
a linguagem um instrumento de pensamento: a linguagem fornece os conceitos
e as formas de organização do real que constituem a
mediação entre o sujeito e o objeto de conhecimento”.
Oliveira (2001) nos traz o percurso do desenvolvimento
da linguagem e do pensamento na concepção sócio-interacionista:
“Para agir coletivamente de forma
cada vez mais sofisticadas, o grupo humano tece de criar o sistema
de comunicação que permitisse troca de informações
específicas, e ação no mundo com base em significados
compartilhados pelos vários indivíduos empenhados
num projeto coletivo. O surgimento do pensamento verbal e da linguagem
como sistemas de signos é um momento crucial no desenvolvimento
da espécie humana, momento em que o biológico transforma-se
no sócio-histórico.”
Para Vygotsky, o desenvolvimento e a aprendizagem
são processos intimamente relacionados. Para ele, desde o nascimento
da criança, o aprendizado se relaciona com o desenvolvimento
e é “um aspecto necessário e universal do processo
de desenvolvimento das funções psicológicas culturalmente
organizadas e especificamente humanas” (Vygotsky, 2000). O pesquisador
russo não nega a existência da maturação
biológica, mas assume que é o aprendizado que possibilita
o despertar de processos internos de desenvolvimento que não
ocorreriam senão fosse o contato do indivíduo com certo
ambiente cultural.
Os processos de desenvolvimento e aprendizado
não ocorrem simultaneamente, pois o processo de desenvolvimento
avança de forma mais lenta e atrás do processo de aprendizado.
O desenvolvimento fica impedido de ocorrer na falta de situações
propícias ao aprendizado. Essa relação entre
aprendizado e desenvolvimento é fundamental na teoria de Vygotsky
e se cristaliza na formulação do conceito de zona de
desenvolvimento proximal.
Vygotsky (2000) define zona de desenvolvimento
proximal como:
“a distância entre o nível
de desenvolvimento real, que se costuma determinar através
da solução independente de problemas, e o nível
de desenvolvimento potencial, determinado através da solução
de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração
com companheiros mais capazes.”
Oliveira (2001) nos diz que:
“É o aprendizado que possibilita
o despertar de processos internos do indivíduo, liga o desenvolvimento
da pessoa à sua relação com o ambiente sócio-cultural
em que vive e à sua situação de organismo que
não se desenvolve plenamente sem o suporte de outros indivíduos
de sua espécie. E é essa importância que Vygotsky
dá ao papel do outro social no desenvolvimento dos indivíduos.”
Baquero (2001), citando Cole, define a zona
de desenvolvimento proximal como “a estrutura de atividade conjunta
em qualquer contexto no qual há participantes que exercem responsabilidades
diferenciais em virtude de sua distinta perícia.”
Leontiev (1981) desenvolveu o conceito de
atividade humana a partir de uma perspectiva sócio-interacionista.
Para ele:
· As atividades humanas são
formas de relação do homem com o mundo, dirigidas
por motivos, por fins a serem alcançados.
· A idéia de atividade envolve a noção
de que o homem orienta-se por objetivos, agindo de forma intencional,
por meio de ações planejadas.
· A atividade de cada indivíduo ocorre num sistema
de relações sociais e de vida social.
· “Os processos mentais humanos (as ‘funções
psicológicas superiores’) adquirem uma estrutura necessariamente
ligada aos meios e métodos sócio-historicamente formados
e transmitidos no processo de trabalho cooperativo e de interação
social.”
Leontiev (1981) analisa a estrutura da
atividade humana distinguindo três níveis de funcionamento:
a atividade propriamente dita, as ações e as operações.
A atividade é uma forma complexa de relação homem-mundo,
que envolve finalidades conscientes e atuação coletiva
e cooperativa. A atividade é realizada por meio de ações
dirigidas por metas, desempenhadas pelos diversos indivíduos
envolvidos na atividade. As operações referem-se ao
aspecto prático da realização das ações,
às condições em que são efetivadas, aos
procedimentos para realizá-las. Os processos psicológicos
do indivíduo, internalizados a partir de processos interpsicológicos,
passam a mediar a atividade do sujeito no mundo, numa interação
constante entre o psiquismo e as condições concretas
da existência do homem.
Estamos, então, tentando analisar
a atividade humana do brincar como um sistema das relações
sociais e o da atividade cognitiva interna.
Brincar
Entendo a atividade humana como uma forma
de intervenção no seu grupo social, tendo-se como base
a interação homem-mundo, assumimos o brincar como uma
forma da criança participar na cultura. Através da brincadeira,
principalmente nos jogos de faz-de-conta, a criança vai compreendendo
as formas de funcionamento da comunidade na qual está inserida.
Além de ser uma situação imaginária, o
brincar é também uma atividade regida por regras. As
regras da brincadeira fazem com que a criança se comporte de
forma mais avançada do que aquela habitual para sua idade.
Oliveira (2001) afirma que:
“No brinquedo a criança
comporta-se de forma mais avançada do que nas atividades
da vida real e também aprende a separar objeto e significado.
Tanto pela criação da situação imaginária
como pela definição de regras específicas,
o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança.”
Numa situação de brincadeira
a criança pode ‘assumir’ papéis sociais
que ainda não correspondem à sua realidade: brincar
de ‘ser motorista’, por exemplo, possibilita uma tentativa
de compreensão do mundo no qual está inserida. Na brincadeira
com outras crianças, a criança pode fazer ‘coisas’
que não faria sozinha: brincar de casinha, brincar de cozinhar,
brincar de mãe-filha. Então, a brincadeira por si só,
livre do direcionamento de um adulto, possibilita o desenvolvimento
da criança, já que a ajuda a ampliar o seu modo de estabelecer
relações com o seu contexto social e de compreender
o mundo.
Porém, a brincadeira também
é vista como uma possibilidade para a aprendizagem infantil.
Educadores planejam no seu dia-a-dia na sala de aula atividades do
brincar, com o objetivo de facilitar a aprendizagem dos seus alunos.
Kishimoto (1998) afirma que:
“A brincadeira tem papel preponderante
na perspectiva de uma aprendizagem exploratória, ao favorecer
a conduta divergente, a busca de alternativas não usuais,
integrando o pensamento intuitivo. Brincadeiras com o auxílio
do adulto, em situações estruturadas, mas que permitam
a ação motivada e iniciada pelo aprendiz de qualquer
idade, parecem estratégias adequadas para os que acreditam
no potencial do ser humano para descobrir, relacionar e buscar soluções.”
A imitação é uma
oportunidade da criança realizar ações que estão
além de suas próprias capacidades, o que contribui para
seu desenvolvimento. Só é possível a imitação
de ações que estão dentro da zona de desenvolvimento
proximal do sujeito. Dentro da perspectiva de Vygotsky, a imitação
não é mera cópia de um modelo, mas reconstrução
individual daquilo que é observado nos outros.
Análise da Brincadeira
Para realizarmos a análise da
brincadeira das crianças no pátio do prédio onde
moram, realizamos o seguinte percurso:
1. Chegamos no prédio onde as
crianças estavam brincando e explicamos que deveríamos
fazer um trabalho para a faculdade com crianças brincando;
solicitamos que brincassem e avisamos que iríamos filmar
as brincadeiras.
2. Depois da filmagem realizada, reunimo-nos inúmeras vezes
para assistirmos à filmagem da brincadeira, com o objetivo
de analisarmos o material a partir de uma perspectiva de aprendizagem,
tendo como referencial teórico um dos autores vistos na disciplina
(representantes da conhecida psicologia soviética).
3. Selecionamos alguns momentos que entendemos como significativos
e apresentamos a fita para a turma e para o professor; foram feitas
algumas observações que ‘iluminaram’ o
nosso caminho.
4. Elaboramos um ‘índice de eventos’, relacionando
momento a momento o desenrolar da brincadeira; como se tivéssemos
colocado em ‘câmara lenta’ a cena a ser trabalhada
por nós.
5. Buscamos mais referenciais teóricos para fundamentarmos
a nossa análise.
6. Assistimos à fita mais uma vez e discutimos ponto por
ponto o fragmento selecionado para análise.
7. Apresentamos as nossas interpretações.
Apresentamos, a seguir, uma descrição
da atividade realizada pelo grupo de crianças, entre 4 e 12
anos, no pátio do prédio onde moram.
1. A líder do grupo (criança
mais velha) organiza a atividade da brincadeira de cadeiras, onde
as crianças correm em círculo, ao redor de um certo
número de cadeiras (total de crianças – 1),
enquanto a líder canta uma música; quando a música
pára, as crianças tentam sentar nas cadeiras e a criança
que não conseguir sentar sai da brincadeira; é retirada
mais uma cadeira e a brincadeira recomeça até que
apenas uma criança sente na cadeira que restou.
2. Os demais participantes também coordenam a brincadeira
de cadeiras.
3. Na interação entre os participantes da brincadeira
vai sendo construída uma maior sofisticação
nas dicas da brincadeira.
4. A líder do grupo sugere uma nova brincadeira (esconder
a ‘peia’) e explica as regras para os participantes.
A brincadeira consiste em um dos membros do grupo colocar uma sandália
(a ‘peia’) atrás de qualquer um dos outros componentes
que devem ficar sentados em círculo, com os olhos fechados;
depois que a ‘peia’ é colocada, a criança
que a colocou avisa para todos abrirem os olhos e sai correndo;
o participante que achou a ‘peia’ atrás de si
deve se levantar e tentar pegar o que a escondeu, antes que este
se sente em seu lugar; caminhos não podem ser cortados e
os participantes correm sempre ao redor do círculo de crianças
sentadas.
5. Uma criança pequenina chega e todos param para brincar
com o bebê. Há uma parada na filmagem da cena.
6. Alguns membros do grupo se dispersam e começam outras
brincadeiras. Uma dupla de meninas começa a brincadeira de
bater com as mãos e repetir um verso (ededonha).
7. Outro bebê aparece e as crianças o trazem para frente
da câmara.
8. A líder tenta organizar novamente a brincadeira já
proposta por ela (esconder a ‘peia’ atrás de
alguém).
9. Uma das crianças mostra corporalmente como seria a regra.
10. Na hora da brincadeira uma criança infringe a regra e
é orientada pelos outros membros do grupo a agir da forma
correta, ou seja, de acordo com a regra combinada anteriormente.
11. A criança que vai esconder a ‘peia’ troca
informações com a líder.
12. As crianças perdem o interesse pela brincadeira.
13. Surge a idéia, proposta pela líder, da brincadeira
do mestre, onde uma criança sai do ambiente que as outras
estão e espera para ser chamada novamente; o grupo escolhe
um líder e esse vai determinar o movimento que todos os outros
devem repetir com ele; depois de algum tempo o movimento é
trocado pelo líder e todos devem fazer a troca também;
a criança que saiu do grupo deve descobrir quem está
sendo o líder.
14. Dessa vez, a líder também participa da brincadeira.
15. As outras crianças assumem a função de
liderança, em conjunto, sugerindo ao mestre que faça
as mudanças de movimento.
16. A líder diz que não quer ser professora quando
crescer.
17. Os membros do grupo negociam quem vai ser o mestre cochichando
entre eles.
18. Os participantes do grupo sugerem novos movimentos para o mestre.
19. A líder inicial do grupo fica na posição
de descobrir quem é o mestre na brincadeira.
20. É escolhida uma criança pequena (a mais nova do
grupo) para ser o mestre; uma criança mais velha tenta orientar
a mais nova quanto à mudança de movimentos a serem
imitados.
21. A líder descobre quem é o mestre.
22. O ‘clima’ é de alegria e descontração.
A atividade humana é tomada como
a unidade de análise adequada para a compreensão de
processos psicológicos porque inclui tanto o indivíduo
como seu ambiente culturalmente definido. Assim sendo, analisamos
a atividade da brincadeira como nossa unidade de análise para
observação de processos de aprendizagem ocorridos nas
crianças que participavam do brincar no pátio do edifício.
Observamos que uma mesma atividade humana
pode ser desempenhada por meio de diferentes cadeias de ações,
como no caso em que crianças diferentes assumiam a posição
de ‘escondedor’ da ‘peia’ e agiam de forma
diferente, mas atingindo o objetivo da brincadeira.
Entendemos que se analisássemos
apenas uma única ação, sem inclusão num
sistema coletivo da atividade, sem contextualizá-la, a ação
individual ficaria destituída de significado, visto que não
teríamos a noção do todo. Um exemplo dessa situação
é quando a líder do grupo vai sofisticando os sinais
de que vai parar de cantar a música e que todos deverão
tentar pegar a cadeira para se sentarem, na brincadeira das cadeiras.
Só percebemos a sofisticação porque acompanhamos
todo o processo.
O aspecto de ‘recriação’
da imitação pôde ser observado em diversos momentos
da brincadeira. Houve a brincadeira de seguir os movimentos do mestre
e cada criança imitava esse movimento de uma forma particular,
colocando um pouco do seu jeito ao realizar a repetição.
Uma ‘cena’ interessante em que a reconstrução
da imitação ocorreu, foi quando uma criança mais
velha tentou fazer o mestre – que era a menor criança
do grupo e estava participando das brincadeiras com a orientação
das crianças maiores – imitar um movimento sugerido por
ela; ele reagiu e fez o movimento, mas do seu jeito (imitação,
enquanto ação). Essa criança pequena, provavelmente,
não teria condições de participar de todas as
brincadeiras sugeridas pelo grupo se estivesse apenas com crianças
de sua idade ou se estivesse sem uma ‘mediação’
das crianças maiores. Ela ‘sabia brincar dessa brincadeira’,
desde que estivesse interagindo com pares mais experientes. Como podemos
observar, o brincar também cria uma zona de desenvolvimento
proximal na criança tendo enorme influência em seu desenvolvimento.
A criança que liderou a brincadeira
(era a mais velha dos participantes), no final da atividade quando
as outras crianças já estavam começando a se
dispersar, diz que não vai ser professora quando crescer. Entendemos,
então, que apesar de também está brincando com
o grupo de crianças menores, ela estava investida do ‘papel
de professora’, coordenando e orientando a participação
das demais crianças. Ela estava realizando, aqui, uma reconstrução
do que é ser uma professora, a partir de suas experiências
particulares e de suas possibilidades psicológicas criando
algo novo através da observação do outro (imitação,
enquanto atividade). Um outro aspecto importante quanto ao papel de
professora assumido pela líder do grupo é que durante
toda a atividade ela orientou, guiou, forneceu pistas, coordenou a
atividade. Baquero (2001) nos mostra que as modalidades de intervenção
docente são o fornecimento de pistas, a orientação,
a persuasão e a correção de pensamentos e estratégias
dos sujeitos. Todas essas intervenções foram realizadas
pela nossa ‘professora’, na mediação com
o grupo.
As crianças, interagindo no grupo,
tiveram muito respeito às regras estabelecidas pelos participantes
da atividade, demorando-se um certo tempo na fase da brincadeira correspondente
à ‘combinação de como vai ser a brincadeira’.
Discussão
Para Vygotsky, o processo chamado comumente
de aprendizagem inclui sempre aquele que aprende, aquele que ensina
e a relação entre eles. Essa interdependência
dos indivíduos envolvidos no processo foi observada em diversas
situações da atividade interpretada. Baquero (2001)
nos traz a citação de Vygostky:
“Ainda que se possa comparar a
relação brinquedo-desenvolvimento à relação
instrução-desenvolvimento, o brinquedo proporciona
um campo muito mais amplo para as mudanças quanto a necessidades
e consciência. A ação na esfera imaginativa,
numa situação imaginária, a criação
de propósitos voluntários e a formação
de planos de vida reais e impulsos volitivos aparecem ao longo do
brinquedo, fazendo do mesmo o ponto mais elevado do desenvolvimento
pré-escolar. A criança avança essencialmente
através da atividade lúdica. Somente neste sentido
pode-se considerar o brinquedo como uma atividade condutora que
determina a evolução da criança.”
Oliveira (2001) afirma que:
“A interação face
a face entre indivíduos particulares desempenha um papel
fundamental na construção do ser humano: é
através da relação interpessoal concreta com
outros homens que o indivíduo vai chegar a interiorizar as
formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico.
Portanto, a interação social, seja diretamente com
outros membros da cultura, seja através dos diversos elementos
do ambiente culturalmente estruturado, fornece a matéria-prima
para o desenvolvimento psicológico do indivíduo.”
Referências Bibliográficas
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escolar. – Porto Alegre: Artes Médicas
Geertz, C. (1989). A Interpretação
das Culturas. Rio de Janeiro: LTC
Grandesso, M. A. (2000). Sobre a reconstrução
do significado: uma análise epistemológica e hermenêutica
da prática clínica. – São Paulo: Casa do
Psicólogo
Kishimoto, T. M. (1998). Bruner e a brincadeira.
Em T. M. Kishimoto (Org.), O brincar e suas teorias (pp. 139-153).
São Paulo: Pioneira
Meira, L. (1994). Análise Microgenética
e Videografia: Ferramentas de Pesquisa em Psicologia Cognitiva. In:
Temas em Psicologia, No. 3
Oliveira, M. K. (2001). Vygotsky: aprendizado
e desenvolvimento – um processo histórico. – São
Paulo: Scipione
Sirgado, A. P. (2000). O conceito de mediação
semiótica em Vygotsky e seu papel na explicação
do psiquismo humano. In: Cadernos Cedes: Pensamento e Linguagem –
estudos na perspectiva da psicologia soviética, ano XX, no.
24. Unicamp, SP
Vigotski, L. S. (2000). A formação
social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos
superiores. - 6a. ed. – São Paulo: Martins Fontes
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