UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA

PARADIGMAS DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA:
Como saber se o saber é sabido?

Trabalho apresentado na disciplina
Metodologia Científica,
coordenada pelo Prof. Antônio Roazzi,
pelas alunas Maria Izabel Dantas
Antonino Carvalho e
Patrícia Vasconcellos Pires Ferreira.

Introdução

É sabido que o século XX foi praticamente dominado pelo paradigma cartesiano do primado da razão. Do elogio da razão e da crítica da emoção. Somos todos filhos dessa escola criada por Descartes, à volta da dúvida metódica e do primado racionalista. Viveu entre 1596 e 1650, mas as suas idéias mantiveram-se praticamente intocáveis e de pé, até quase o século XXI.

Foi com ele que aprendemos o que era a ciência, o método científico (no singular), a objetividade. Foi esse Discurso do Método que marcou a ciência deste século. Aprendemos a pensar com a cabeça e não com o coração; desumanizamos, desantropomorfizamos a ciência. Fizemos uma ciência essencialmente racionalista, cognitivista.

Arrumamos também assim o mundo duma forma muito dualista: razão/emoção; racional/irracional; instruído/analfabeto. E assim continuamos a pensar, ainda, por vezes, hoje. Surgem já diversos trabalhos a mostrar a importância das emoções na memória, na relação humana, na inteligência, na aprendizagem, mas continuamos filhos de Descartes porque continuamos a dividir o conhecimento a preto e branco: objetivo/subjetivo.
Recuemos um pouco para percebermos o contexto que permite que a obra de Descartes se torne diretora da ciência até quase ao século XXI. Para o pensamento medieval, a realidade que nos cerca e de que tomamos conhecimento pelos sentidos, era inquestionável quanto à sua existência. Era um realismo que partia essencialmente do postulado dogmático de que essa realidade existia fora de nós. Para o pensamento moderno, que Descartes inaugura e que vigora em todo o século XX, a realidade exterior a nós próprios passa a ser questionada e problematizada. Descartes recomenda que se reconheça a realidade como objetiva não porque "os sentidos a percebam ou a inteligência a contemple, mas porque a razão a garante".

Só é real o que é racional, e o que é sensorial não é racional, logo, não é real. É este o primado da Razão que afasta a emoção dos paradigmas científicos fortemente durante o século XX. É o "penso logo existo" que impera na ciência. O "sinto, logo existo", esse é um risco que só agora os cientistas assumem.

T.S. Kuhn e Paul Feyerabend, argumentam que a observação está «contaminada pela teoria», com o que pretendem dizer que as nossas teorias anteriores influenciam as observações que fazemos e a importância que lhes atribuímos. Daqui inferem que muitas vezes teorias científicas diferentes são «incomensuráveis», no sentido em que não há nenhum conjunto de proposições observacionais teoricamente neutras que possa fazer decidir entre elas. Um corolário disto, para Kuhn e Feyerabend, é que a verdade científica objectiva não é alcançável mesmo ao nível dos observáveis, quanto mais ao nível dos inobserváveis. Kuhn argumenta que a história da ciência apresenta uma sucessão de «paradigmas», conjuntos de pressupostos e exemplos representativos que condicionam o modo como os cientistas resolvem problemas e compreendem os dados, e que apenas são substituídos, em «revoluções científicas» ocasionais, quando os cientistas mudam de uma crença teórica para outra.

Além disso, alguns filósofos detectam um padrão de convergência, argumentando que as teorias científicas que se sucedem a outras aproximam-se cada vez mais da verdade.

POSITIVISMO

“As coisas estão no mundo.
Eu que preciso aprender.”
Paulinho da Viola

Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo, que ocupa, mais ou menos, a segunda metade do mesmo século, espalhado em todo o mundo civilizado. O positivismo representa uma reação contra o apriorismo, o formalismo, o idealismo, exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos. Entretanto, o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do idealismo e do pensamento moderno em geral, defendendo, mais ou menos, o absoluto do fenômeno. "O fato é divino", dizia Ardigò. A diferença fundamental entre idealismo e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação, uma unificação da experiência mediante a razão; o segundo, ao contrário, quer limitar-se à experiência imediata, pura, sensível, como já fizera o empirismo. Daí a sua pobreza filosófica, mas também o seu maior valor como descrição e análise objetiva da experiência - através da história e da ciência - com respeito ao idealismo, que alterava a experiência, a ciência e a história. Dada essa objetividade da ciência e da história do pensamento positivista, compreende-se porque elas são fecundas no campo prático, técnico, aplicado.

Além de ser uma reação contra o idealismo, o positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências naturais, particularmente das biológicas e fisiológicas, do século XIX. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos daquelas ciências à filosofia, como resolvedora do problema do mundo e da vida, com a esperança de conseguir os mesmos fecundos resultados. Enfim, o positivismo teve impulso, graças ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais, que dominaram o mesmo século XIX. Sendo grandemente valorizada a atividade econômica, produtora de bens materiais, é natural se procure uma base filosófica positiva, naturalista, materialista, para as ideologias econômico-sociais.

O positivismo admite, como fonte única de conhecimento e critério de verdade, a experiência, os fatos positivos, os dados sensíveis. Nenhuma metafísica, portanto, como interpretação, justificação transcendente ou imanente, da experiência. A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização das ciências. A lei única e suprema, que domina o mundo concebido positivisticamente, é a evolução necessária de uma indefectível energia naturalista, como resulta das ciências naturais.

Auguste Compte é considerado o fundador do Positivismo. De acordo com esse paradigma de investigação a realidade existe de forma externa ao indivíduo e pode ser apreendida pelos sentidos (realismo ingênuo). Os positivistas acreditam na neutralidade da ciência e buscaram métodos objetivos para compreendê-la e explicá-la. Há o observador e o objeto a ser estudado. Os métodos trabalhavam com a verificação de hipóteses, dentro de processos experimentais e análise quantitativas.

NEOPOSITIVISMO

“A verdade alivia mais do que machuca.
E estará sempre acima de qualquer falsidade
como o óleo sobre a água.”
Miguel de Cervantes

O neopositivismo surgiu a partir das críticas feitas ao positivismo quanto à viabilidade de uma verdade única e da possibilidade de apreensão direta da realidade. Para os neopositivistas, a realidade é uma aproximação, ou seja, existe uma realidade, mas ela é percebida de forma diferente por diferentes pessoas a partir do contexto no qual estão inseridas (realismo crítico). Os neopositivistas acreditam que as experimentações podem ser realizadas em ambientes naturais, porém não podem ser verificadas e, sim, sujeitas à falsificabilidade, de acordo com o conceito de Popper, havendo a substituição da exigência de verificabilidade dos enunciados pela falsificabilidade das hipóteses.

Quando deve ser considerada científica uma teoria? Qual o critério que determina o status científico de uma teoria? Há uma condição fundamental para que qualquer hipótese tenha o estatuto de teoria científica, essa hipótese tem de ser falsificável. Popper refere claramente que o problema que o preocupa não é determinar quando é verdadeira ou aceitável uma teoria, mas sim "distinguir a ciência da pseudo-ciência, sabendo muito bem que por vezes a ciência erra e a pseudo-ciência acerta".

Popper negava toda e qualquer tentativa de construir uma lógica indutiva. As suas principais objeções à lógica indutivista são as tradicionais. No raciocínio indutivo passamos de um caso (isto é, de um juízo particular) para todos os casos (isto é, para um juízo universal). Qual a legitimidade lógica do "salto" que efetuamos nas inferências indutivas? O que nos autoriza a realizar semelhante tipo de raciocínio? Se os juízos da experiência são sempre particulares e contingentes (isto é, a relação que neles se estabelece entre o sujeito e o predicado é particular e contingente), como se pode formular um juízo universal e necessário que legitime as pretensões das ciências de possuírem leis com um caráter universal e necessário (únicas que permitirão a previsão)? Em termos estritamente lógicos, a conclusão de um argumento não pode ter maior extensão ou conteúdo do que aquilo que é afirmado nas premissas.

O autor nos diz que: “Tendo rejeitado a tese de que as proposições científicas podem ser verificadas (...), Popper tenta reconstruir a lógica da ciência de forma a que somente a lógica dedutiva seja suficiente para avaliar as proposições científicas. Esta reconstrução dá lugar a um novo critério de demarcação”.

Podemos tentar resumir os critérios aceites por Popper para determinar o estatuto científico de uma teoria, aos seguintes princípios (Marques, 2002):

· Uma teoria que não é susceptível de refutação não é considerada científica. A irrefutabilidade não é uma virtude mas sim um vício.
· Todo o teste ou contrastação é uma tentativa para refutar uma teoria. Neste sentido, a testabilidade equivale à refutabilidade. Algumas teorias são mais testáveis e, por isso, estão mais expostas à refutação.
· A descoberta de novos fatos que estão de acordo com as predições de uma teoria, não confirmam por si só a teoria mas única e exclusivamente a corroboram. Uma teoria que é corroborada, quando passa um teste ou contrastação, isto é, quando uma observação cujo resultado poderia eventualmente refutar a teoria não se confirma, robustece a própria teoria sem no entanto a confirmar.

Será útil relembrar, que o critério de refutabilidade imposto por Popper, não consiste num critério de sentido ou significação, mas sim no traçar de uma linha divisória entre o discurso científico e outros tipos de conhecimento. As afirmações de caráter metafísico não possuem estatuto científico na medida em que não são susceptíveis de ser falsificadas; o seu caráter de sentido ou significação não é posto em causa; é este fato que nos permite diferenciar Popper das posições assumidas pelos autores do positivismo lógico. "(...) A tarefa primordial para uma demarcação entre a ciência e a metafísica consiste em libertar a metafísica. (...) É ridículo proibir que se fale de qualquer coisa que não pertença à ciência. Foi o que o Círculo de Viena tentou fazer. O Círculo de Viena estabeleceu interdições e decretou: só se pode falar de ciência, tudo o resto é absurdo."
"(...) O bem mais precioso do homem são as idéias. Nunca temos idéias suficientes. Daquilo que nos ressentimos é da escassez de idéias. E as idéias são um bem prestimoso, por isso, devemos tratar a metafísica com respeito e discutir – talvez das suas idéias surja alguma coisa. (...)"

De acordo com as idéias de Popper, toda observação é guiada pela teoria e a pressupõe. Uma boa teoria é aquela que faz afirmações de muito amplo alcance sobre o mundo e que, ao ser testada, resiste à falsificação. Porém, o progresso da ciência ocorre quando uma teoria é falsificada e outra surge em seu lugar. Devido a essa posição, nunca se pode afirmar que uma teoria é verdadeira.

Nesse paradigma científico a exigência de verificabilidade dos enunciados é substituída pela de falsificabilidade das hipóteses.

Marques (2002) nos diz que:

“Popper propõe uma leitura da evolução do conhecimento que corta com a narrativa de uma progressiva sucessão de observações e de teorias, sugerindo em alternativa que se veja a história da ciência como um desenvolvimento problemático em que, através de tentativas e erros, se vão resolvendo uns problemas e inventando outros.

Popper criticou aquilo a que chamou o mito do "observatismo", vigente no modelo de investigação positivista, segundo o qual a observação pode ser fonte segura do conhecimento. Segundo Popper, por detrás da idéia de indução, encontra-se a convicção errada de que o investigador pode observar e experimentar a realidade sem pressupostos e sem preconceitos. Não se pode admitir que o espírito do investigador se comporte como uma tábua rasa, já que tal seria ignorar o fato de que sempre se observa e se experimenta em função de problemas, teorias e modelos que condicionam a investigação. Quer na vida quotidiana quer na ciência, a observação não é o primeiro passo; há sempre algo que orienta o conhecimento – antecipações e expectativas na vida quotidiana; teorias no plano da ciência. É falso que o cientista parte de observações, tentando generalizá-las.

O método científico processa-se de outro modo, numa tentativa de provar a falsidade (e não a verdade) das hipóteses de que parte, verificando até que ponto elas resistem a hipóteses contrárias.”

Porém devemos ficar atentos à tese de falsificacionismo, pois uma tese que hoje é considerada falsa pela comunidade científica pode ser considerada verdadeira num outro período da história, numa outra comunidade científica.

Tanto o positivismo como o neopositivismo consideram que existe uma realidade e uma verdade científica. Aqui ainda não são consideradas as idéias de Kunh sobre paradigmas nem as ideais da influência da ciência no contexto social.

TEORIA CRÍTICA

“Não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um no corpo do outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade.”
Paulo Freire

A “teoria crítica” , como costuma ser chamado o conjunto dos trabalhos da Escola de Frankfurt, é uma expressão da crise teórica e política do século XX, refletindo sobre os seus problemas com uma radicalidade sem paralelo. Por isso, os trabalhos de seus pensadores exerceram grande influência, direta em alguns casos, indireta noutros, sobre os movimentos estudantis, sobretudo na Alemanha e nos Estados Unidos, nos fins da década de 60.

A história desse grupo de pensadores pode ser iniciada com a fundação do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, sob direção de Carl Grünberg, que permaneceu no cargo até 1927. Grünberg abria o primeiro número do Arquivo de História do Socialismo e do Movimento Operário (publicação que fundou em 1911), salientando a necessidade de não se estabelecer privilégio especial para esta ou aquela concepção, orientação científica ou opinião de partido. Grünberg estava convencido de que qualquer unidade de pontos de vista entre os colaboradores prejudicaria os fins críticos e intelectuais da própria iniciativa. Posteriormente, já na direção da Revista de Pesquisa Social, ele próprio se consideraria um marxista, mas entendendo essa posição não em seu sentido apenas político-partidário, mas em seu significado científico; o conceito “marxismo” servia-lhe para descrição de um sistema econômico, de uma determinada cosmovisão e de um método de pesquisa bem definido. Essa postura inicial de Grünberg – vinculada a uma “escola” de pensamento, mas ao mesmo tempo entendendo-a em sua dimensão crítica e como perspectiva aberta – constitui, de modo geral, a tônica do pensamento dos elementos do grupo de Frankfurt.

Na Teoria Crítica o foco da investigação é a interação, não o dado em si. A partir dessa perspectiva a objetividade é impossível de ser atingida, pois há sempre uma interdependência entre o pesquisador e o objeto de estudo. A realidade só pode ser acessada em partes, a partir de seu contexto histórico (realismo histórico). As pesquisas científicas não são neutras, tendo sempre um impacto na sociedade. Aqui há uma preocupação com a melhoria do contexto social.

Quinton (2002) nos mostra que:

“A teoria crítica foi inspirada pela rejeição de Georg Lukács da doutrina marxista ortodoxa, segundo a qual as idéias e crenças dos indivíduos humanos são determinadas totalmente pelas circunstâncias sócio-econômicas. Os especialistas propriamente ditos da teoria crítica — Horkheimer, Adorno, Marcuse e, na geração subseqüente, Habermas — puseram de parte a identificação positivista da racionalidade com o espírito científico, pelo menos na sua aplicação ao homem e à sociedade. Pensaram, neste domínio, que é indispensável apreender as coisas, à maneira de Hegel, como uma totalidade, e não em função dos seus fragmentos abstratos. A influência de Nietzsche está ainda presente, ao defenderem que a linguagem e as idéias podem ser empregues como instrumentos de dominação, porque criadoras de uma ‘falsa consciência’.”

As evidentes intenções políticas da teoria crítica tornaram-na desinteressante para os filósofos analíticos, comprometidos com uma posição neutral.

A teoria crítica pretende ultrapassar o subjetivismo, visando a descobrir o conteúdo cognoscitivo da práxis histórica. Os fatos sensíveis, por exemplo, vistos pelos positivistas como possuidores de um valor irredutível, são, para Horkheimer, “pré-formados socialmente de dois modos: pelo caráter histórico de objeto percebido e pelo caráter histórico do órgão que percebe”.

A crítica do positivismo científico e filosófico, empreendida por Habermas, é inseparável de sua luta contra o objetivismo tecnocrático. O positivismo e o tecnicismo não passam, para ele, de duas faces da mesma e ilusória moeda ideológica: tanto um, como outro, não seriam mais que “manchas turvas no horizonte da racionalidade”.

CONSTRUTIVISMO

“Nossas crenças podem ser alteradas pelo poder e efeito direto da experiência pessoal. Você á capaz de começar a entender alguma coisa quando experimenta a essência dessa coisa. Sua crença, então, se transforma em conhecimento.”
Brian Weiss

Para os construtivistas a realidade não é mais vista em termos de verdadeiro/falso, mas como um processo com maior complexidade, maior sofisticação, dentro de uma perspectiva temporal. Não existe uma realidade, mas várias, sendo as mesmas construídas a partir dos referenciais dos sujeitos.

A preocupação é com o processo, a interação, não com os resultados em si; o resultado é uma interpretação (relativismo). Nem há a avaliação da verdade (verificação) nem a falsificação de hipótese; o que se busca é o entendimento do mundo, em toda a sua complexidade.

Dentro dessa abordagem o pesquisador é um facilitador que procura aflorar o que está dentro das cabeças das pessoas, através de procedimentos interpretativos, frutos da construção entre o observado e o observador, não havendo independência entre eles.

O principal representante dessa perspectiva é o antropólogo norte-americano Clifford Geertz que propõe a observação de outras culturas desde uma compreensão dos vários aspectos pelos quais os membros de uma sociedade constroem um determinado tipo de conduta. Nesse sentido, as narrativas e o comportamento teatralizado dos indivíduos, segundo papéis constituídos pelas relações interpessoais e com o meio ambiente, constituem a característica simbólica da atuação política de cada um.

Silva (2002) nos diz que para Geertz a cultura já surge com o significado de um sistema simbólico formado pelas interação entre os indivíduos e destes com a comunidade. Nesse sentido, Geertz critica todo tipo de abordagem mecanicista que ignore as condições históricas originais da organização social, o envolvimento afetivo, o papel do indivíduo e suas necessidades básicas. A cultura como um produto de símbolos, por outro lado, não seria o resultado de mecanismos cognitivos internos, mas a resposta pública ao relacionamento social. A lógica da vida real e não a lógica intrínseca de um conjunto formal de símbolos é que deveria ser objeto de estudo antropológico, que tem maior proximidade com uma interpretação crítica literária. Geertz procura, portanto, compreender o comportamento humano e sua sociedade como quem lê um texto, visando resgatar de modo "hermenêutico" o significado de uma cultura. Em poucas palavras, o que está em jogo é a capacidade do investigador das culturas se colocar no lugar do outro, em sua tarefa interpretativa. Tudo isso, teria sido deixado de lado pela antropologia clássica e pela ciência cognitiva até a época da publicação da crítica geertziana. Desde o início, então, Geertz nota quanto a interpretação introspectiva da mente foi estigmatizada como algo fantasioso e de difícil conceituação. Contra isso, as teorias psicológicas e sociais baseadas no método da física, procuraram descrever as atividades mentais sem recorrer a conceitos subjetivos. Nesse contexto, os critérios científicos de objetividade se antepunham a toda forma de subjetividade, instanciando a disputa secular entre o materialismo e o dualismo. Por um lado, o medo de um subjetivismo obscurantista antropológico, carregava a ênfase num mecanicismo artificial, vinculado às leis da física e moral.

Glasersfeld (1996) nos diz que o construtivismo é um modo de pensar, não uma descrição do mundo, é um modelo hipotético; não faz afirmações ontológicas; não se propõe a descrever nenhuma realidade absoluta, mas só os fenômenos de nossa experiência.

O autor fala de sua experiência de viver entre falantes de diversas línguas e de cedo ter compreendido que para o falante de uma língua qualquer, sua maneira de ver o mundo é a ‘correta’. Depois de um tempo, chega-se à conclusão de que cada grupo pode estar certo no que diz respeito ao próprio grupo, e de que não existe ‘certeza’ além dos grupos.

Para os céticos dos séculos XVI, XVII, XVIII não havia nenhum problema em que a ciência criasse modelos racionais, mas sempre seriam modelos de nosso mundo de experiência e não do mundo real. Glasersfeld, citando Vico, afirma que “os seres humanos só podem conhecer o que eles mesmos criaram” e complementa:

“Fomos apanhados, pois, num paradoxo. Queremos acreditar que somos capazes de conhecer algo sobre o mundo externo, mas jamais podemos dizer se tal conhecimento é ou não verdadeiro, já que, para estabelecer esta verdade, deveríamos fazer uma comparação que simplesmente não podemos fazer. Não temos maneira de chegar ao mundo externo senão através de nossa experiência dele; e, ao ter essa experiência, podemos cometer os mesmos erros; por mais que o víssemos corretamente, não teríamos como saber que nossa visão é correta.”

Isto significa que tudo que chamamos de conhecimento se cria ou se constrói a partir de um material que já é acessível ao sujeito que conhece.

Os construtivistas, se pudessem, jamais usariam o verbo ser, substituindo-o pelo estar, por acreditarem na transitoriedade das construções de conhecimento.

Glasersfeld nos esclarece que:

“Quando os críticos dizem que o construtivismo nega a realidade, não a nega: a única coisa que faz é sustentar que se pode conhecer uma realidade independente. O construtivismo não formula declarações ontológicas. Não nos diz como é o mundo, só nos sugere uma maneira de pensá-lo e nos fornece uma análise de operações que gera uma realidade a partir da experiência.”

Para concluir, citamos Shakespeare, que parece ter conhecido tudo isso perfeitamente. Utilizando a palavra “pensamento” em vez de “conhecimento”, ele escreveu:

“Mas o pensamento é escravo da vida, e o tempo de vida que temos é uma bufonaria; e o tempo, que domina o mundo inteiro, deve deter-se um dia.”

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A nossa viagem pelos caminhos dos paradigmas científicos não foi um processo tranqüilo. O mar de informações nos deixou bastante agitadas, pois nos confrontamos com questões até então não pensadas.

Somos frutos de uma sociedade positivista, onde aprendemos que existe uma única realidade que nos chegava pronta, validada pela ciência, para ser reproduzida, nunca questionada e re-construída.

A possibilidade de falsificação de uma “verdade científica” nunca nos foi claramente apresentada enquanto cidadãos comuns, apesar de ter sido amplamente divulgada entre os cientistas. Aceitávamos os “avanços” científicos sem questionar as conseqüências dos mesmos para a sociedade.

Alguns dos cientistas começaram a compreender o seu papel social e perceberam que a ciência não poderia assumir o papel de neutralidade. Buscou-se uma ciência que, através dela e com ela, pudesse participar ativamente da transformação da realidade.

Até esse ponto do percurso, temos a concepção de uma realidade externa ao observador. Entretanto nos deparamos hoje com prováveis realidades, consideradas a partir de um contexto, das experiências e percepções dos sujeitos que interagem, onde o real é construído de forma transitória.

Percebemos que o paradigma dominante (positivismo / neopositivismo) nos grandes centros de pesquisa científica ainda é extremamente valorizado. Em contrapartida, estamos inseridos num mundo cheio de diversidade e complexidade, onde as mudanças ocorrem a todo momento. Precisamos de construtores de realidades, não de reprodutores de esquemas ditados pelo “suposto saber científico”.

A partir de nossas reflexões sobre os paradigmas de investigação científica, terminamos com as indagações: para que serve a ciência senão para atender às nossas necessidades? para que serve a ciência senão para construir a humanidade?

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Chauí, M. (1995). Convite à Filosofia. 5a. ed. – São Paulo: Ática
Gardner, J. (1995). O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. – São Paulo: Companhia das Letras
Marques, A. A Doutrina do Falseamento em Popper. http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/popper5.htm em 23/08/2002
Modelos Científicos e Práticas Educativas: (breve incursão no séc. XX) http://www.a-pagina-da-educacao.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=671 em 04/09/2002
O Círculo de Viena e o Empirismo Lógico. http://www.fafich.ufmg.br/~scientia/art_mauro2.htm em 01/09/2002
O Positivismo. http://www.mundodosfilosofos.com.br/comte.htm em 30/08/2002
O que é Epistemologia. http://www.terravista.pt/FerNoronha/2265/epistemologia.htm em 01/09/2002
Petraglia, I. (2001). “Olhar sobre o olhar que olha”: complexidade, holística e educação. – Petrópolis, RJ: Vozes
Problemas da filosofia da ciência. http://critica.no.sapo.pt/fil_fildaciencia.html em 30/08/2002
Quinton, A. Filosofia continental. http://critica.no.sapo.pt/fil_filcontinental.html em 04/09/2002
Roazzi, A. (2002). Paradigmas de investigação. Texto em preparação para discussão na disciplina Metodologia Científica do Mestrado de Psicologia Cognitiva da UFPE
Glasersfeld, E. (1996). A construção do conhecimento. Em Schnitman, D. F. (org.) Novos paradigmas, cultura e subjetividade. – Porto Alegre: Artes Médicas
Silva, A. R. Filosofia contemporânea. http://www.discursus.250x.com/textos/geertz.html em 04/09/2002
Solomon, R.; Higgins, K. M. (2001). Paixão pelo saber: uma breve história da filosofia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira