UNIVERSIDADE
FEDERAL DE PERNAMBUCO
PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
PARADIGMAS DE INVESTIGAÇÃO
CIENTÍFICA:
Como saber se o saber é sabido?
Trabalho apresentado na disciplina
Metodologia Científica,
coordenada pelo Prof. Antônio Roazzi,
pelas alunas Maria Izabel Dantas
Antonino Carvalho e
Patrícia Vasconcellos Pires Ferreira.
Introdução
É sabido que o século XX foi
praticamente dominado pelo paradigma cartesiano do primado da razão.
Do elogio da razão e da crítica da emoção.
Somos todos filhos dessa escola criada por Descartes, à volta
da dúvida metódica e do primado racionalista. Viveu
entre 1596 e 1650, mas as suas idéias mantiveram-se praticamente
intocáveis e de pé, até quase o século
XXI.
Foi com ele que aprendemos o que era a ciência, o método
científico (no singular), a objetividade. Foi esse Discurso
do Método que marcou a ciência deste século. Aprendemos
a pensar com a cabeça e não com o coração;
desumanizamos, desantropomorfizamos a ciência. Fizemos uma ciência
essencialmente racionalista, cognitivista.
Arrumamos também assim o mundo duma forma muito dualista:
razão/emoção; racional/irracional; instruído/analfabeto.
E assim continuamos a pensar, ainda, por vezes, hoje. Surgem já
diversos trabalhos a mostrar a importância das emoções
na memória, na relação humana, na inteligência,
na aprendizagem, mas continuamos filhos de Descartes porque continuamos
a dividir o conhecimento a preto e branco: objetivo/subjetivo.
Recuemos um pouco para percebermos o contexto que permite que a obra
de Descartes se torne diretora da ciência até quase ao
século XXI. Para o pensamento medieval, a realidade que nos
cerca e de que tomamos conhecimento pelos sentidos, era inquestionável
quanto à sua existência. Era um realismo que partia essencialmente
do postulado dogmático de que essa realidade existia fora de
nós. Para o pensamento moderno, que Descartes inaugura e que
vigora em todo o século XX, a realidade exterior a nós
próprios passa a ser questionada e problematizada. Descartes
recomenda que se reconheça a realidade como objetiva não
porque "os sentidos a percebam ou a inteligência a contemple,
mas porque a razão a garante".
Só é real o que é racional, e o que é
sensorial não é racional, logo, não é
real. É este o primado da Razão que afasta a emoção
dos paradigmas científicos fortemente durante o século
XX. É o "penso logo existo" que impera na ciência.
O "sinto, logo existo", esse é um risco que só
agora os cientistas assumem.
T.S. Kuhn e Paul Feyerabend, argumentam que a observação
está «contaminada pela teoria», com o que pretendem
dizer que as nossas teorias anteriores influenciam as observações
que fazemos e a importância que lhes atribuímos. Daqui
inferem que muitas vezes teorias científicas diferentes são
«incomensuráveis», no sentido em que não
há nenhum conjunto de proposições observacionais
teoricamente neutras que possa fazer decidir entre elas. Um corolário
disto, para Kuhn e Feyerabend, é que a verdade científica
objectiva não é alcançável mesmo ao nível
dos observáveis, quanto mais ao nível dos inobserváveis.
Kuhn argumenta que a história da ciência apresenta uma
sucessão de «paradigmas», conjuntos de pressupostos
e exemplos representativos que condicionam o modo como os cientistas
resolvem problemas e compreendem os dados, e que apenas são
substituídos, em «revoluções científicas»
ocasionais, quando os cientistas mudam de uma crença teórica
para outra.
Além disso, alguns filósofos detectam um padrão
de convergência, argumentando que as teorias científicas
que se sucedem a outras aproximam-se cada vez mais da verdade.
POSITIVISMO
“As coisas estão no mundo.
Eu que preciso aprender.”
Paulinho da Viola
Ao idealismo da primeira metade do século XIX se segue o positivismo,
que ocupa, mais ou menos, a segunda metade do mesmo século,
espalhado em todo o mundo civilizado. O positivismo representa uma
reação contra o apriorismo, o formalismo, o idealismo,
exigindo maior respeito para a experiência e os dados positivos.
Entretanto, o positivismo fica no mesmo âmbito imanentista do
idealismo e do pensamento moderno em geral, defendendo, mais ou menos,
o absoluto do fenômeno. "O fato é divino",
dizia Ardigò. A diferença fundamental entre idealismo
e positivismo é a seguinte: o primeiro procura uma interpretação,
uma unificação da experiência mediante a razão;
o segundo, ao contrário, quer limitar-se à experiência
imediata, pura, sensível, como já fizera o empirismo.
Daí a sua pobreza filosófica, mas também o seu
maior valor como descrição e análise objetiva
da experiência - através da história e da ciência
- com respeito ao idealismo, que alterava a experiência, a ciência
e a história. Dada essa objetividade da ciência e da
história do pensamento positivista, compreende-se porque elas
são fecundas no campo prático, técnico, aplicado.
Além de ser uma reação contra o idealismo, o
positivismo é ainda devido ao grande progresso das ciências
naturais, particularmente das biológicas e fisiológicas,
do século XIX. Tenta-se aplicar os princípios e os métodos
daquelas ciências à filosofia, como resolvedora do problema
do mundo e da vida, com a esperança de conseguir os mesmos
fecundos resultados. Enfim, o positivismo teve impulso, graças
ao desenvolvimento dos problemas econômico-sociais, que dominaram
o mesmo século XIX. Sendo grandemente valorizada a atividade
econômica, produtora de bens materiais, é natural se
procure uma base filosófica positiva, naturalista, materialista,
para as ideologias econômico-sociais.
O positivismo admite, como fonte única de conhecimento e critério
de verdade, a experiência, os fatos positivos, os dados sensíveis.
Nenhuma metafísica, portanto, como interpretação,
justificação transcendente ou imanente, da experiência.
A filosofia é reduzida à metodologia e à sistematização
das ciências. A lei única e suprema, que domina o mundo
concebido positivisticamente, é a evolução necessária
de uma indefectível energia naturalista, como resulta das ciências
naturais.
Auguste Compte é considerado o fundador do Positivismo. De
acordo com esse paradigma de investigação a realidade
existe de forma externa ao indivíduo e pode ser apreendida
pelos sentidos (realismo ingênuo). Os positivistas acreditam
na neutralidade da ciência e buscaram métodos objetivos
para compreendê-la e explicá-la. Há o observador
e o objeto a ser estudado. Os métodos trabalhavam com a verificação
de hipóteses, dentro de processos experimentais e análise
quantitativas.
NEOPOSITIVISMO
“A verdade alivia mais do que machuca.
E estará sempre acima de qualquer falsidade
como o óleo sobre a água.”
Miguel de Cervantes
O neopositivismo surgiu a partir das críticas feitas ao positivismo
quanto à viabilidade de uma verdade única e da possibilidade
de apreensão direta da realidade. Para os neopositivistas,
a realidade é uma aproximação, ou seja, existe
uma realidade, mas ela é percebida de forma diferente por diferentes
pessoas a partir do contexto no qual estão inseridas (realismo
crítico). Os neopositivistas acreditam que as experimentações
podem ser realizadas em ambientes naturais, porém não
podem ser verificadas e, sim, sujeitas à falsificabilidade,
de acordo com o conceito de Popper, havendo a substituição
da exigência de verificabilidade dos enunciados pela falsificabilidade
das hipóteses.
Quando deve ser considerada científica uma teoria? Qual o
critério que determina o status científico de uma teoria?
Há uma condição fundamental para que qualquer
hipótese tenha o estatuto de teoria científica, essa
hipótese tem de ser falsificável. Popper refere claramente
que o problema que o preocupa não é determinar quando
é verdadeira ou aceitável uma teoria, mas sim "distinguir
a ciência da pseudo-ciência, sabendo muito bem que por
vezes a ciência erra e a pseudo-ciência acerta".
Popper negava toda e qualquer tentativa de construir uma lógica
indutiva. As suas principais objeções à lógica
indutivista são as tradicionais. No raciocínio indutivo
passamos de um caso (isto é, de um juízo particular)
para todos os casos (isto é, para um juízo universal).
Qual a legitimidade lógica do "salto" que efetuamos
nas inferências indutivas? O que nos autoriza a realizar semelhante
tipo de raciocínio? Se os juízos da experiência
são sempre particulares e contingentes (isto é, a relação
que neles se estabelece entre o sujeito e o predicado é particular
e contingente), como se pode formular um juízo universal e
necessário que legitime as pretensões das ciências
de possuírem leis com um caráter universal e necessário
(únicas que permitirão a previsão)? Em termos
estritamente lógicos, a conclusão de um argumento não
pode ter maior extensão ou conteúdo do que aquilo que
é afirmado nas premissas.
O autor nos diz que: “Tendo rejeitado a tese de que as proposições
científicas podem ser verificadas (...), Popper tenta reconstruir
a lógica da ciência de forma a que somente a lógica
dedutiva seja suficiente para avaliar as proposições
científicas. Esta reconstrução dá lugar
a um novo critério de demarcação”.
Podemos tentar resumir os critérios aceites por Popper para
determinar o estatuto científico de uma teoria, aos seguintes
princípios (Marques, 2002):
· Uma teoria que não é susceptível
de refutação não é considerada científica.
A irrefutabilidade não é uma virtude mas sim um vício.
· Todo o teste ou contrastação é uma
tentativa para refutar uma teoria. Neste sentido, a testabilidade
equivale à refutabilidade. Algumas teorias são mais
testáveis e, por isso, estão mais expostas à
refutação.
· A descoberta de novos fatos que estão de acordo
com as predições de uma teoria, não confirmam
por si só a teoria mas única e exclusivamente a corroboram.
Uma teoria que é corroborada, quando passa um teste ou contrastação,
isto é, quando uma observação cujo resultado
poderia eventualmente refutar a teoria não se confirma, robustece
a própria teoria sem no entanto a confirmar.
Será útil relembrar, que o critério de refutabilidade
imposto por Popper, não consiste num critério de sentido
ou significação, mas sim no traçar de uma linha
divisória entre o discurso científico e outros tipos
de conhecimento. As afirmações de caráter metafísico
não possuem estatuto científico na medida em que não
são susceptíveis de ser falsificadas; o seu caráter
de sentido ou significação não é posto
em causa; é este fato que nos permite diferenciar Popper das
posições assumidas pelos autores do positivismo lógico.
"(...) A tarefa primordial para uma demarcação
entre a ciência e a metafísica consiste em libertar a
metafísica. (...) É ridículo proibir que se fale
de qualquer coisa que não pertença à ciência.
Foi o que o Círculo de Viena tentou fazer. O Círculo
de Viena estabeleceu interdições e decretou: só
se pode falar de ciência, tudo o resto é absurdo."
"(...) O bem mais precioso do homem são as idéias.
Nunca temos idéias suficientes. Daquilo que nos ressentimos
é da escassez de idéias. E as idéias são
um bem prestimoso, por isso, devemos tratar a metafísica com
respeito e discutir – talvez das suas idéias surja alguma
coisa. (...)"
De acordo com as idéias de Popper, toda observação
é guiada pela teoria e a pressupõe. Uma boa teoria é
aquela que faz afirmações de muito amplo alcance sobre
o mundo e que, ao ser testada, resiste à falsificação.
Porém, o progresso da ciência ocorre quando uma teoria
é falsificada e outra surge em seu lugar. Devido a essa posição,
nunca se pode afirmar que uma teoria é verdadeira.
Nesse paradigma científico a exigência de verificabilidade
dos enunciados é substituída pela de falsificabilidade
das hipóteses.
Marques (2002) nos diz que:
“Popper propõe uma leitura da evolução
do conhecimento que corta com a narrativa de uma progressiva sucessão
de observações e de teorias, sugerindo em alternativa
que se veja a história da ciência como um desenvolvimento
problemático em que, através de tentativas e erros,
se vão resolvendo uns problemas e inventando outros.
Popper criticou aquilo a que chamou o mito do "observatismo",
vigente no modelo de investigação positivista, segundo
o qual a observação pode ser fonte segura do conhecimento.
Segundo Popper, por detrás da idéia de indução,
encontra-se a convicção errada de que o investigador
pode observar e experimentar a realidade sem pressupostos e sem preconceitos.
Não se pode admitir que o espírito do investigador se
comporte como uma tábua rasa, já que tal seria ignorar
o fato de que sempre se observa e se experimenta em função
de problemas, teorias e modelos que condicionam a investigação.
Quer na vida quotidiana quer na ciência, a observação
não é o primeiro passo; há sempre algo que orienta
o conhecimento – antecipações e expectativas na
vida quotidiana; teorias no plano da ciência. É falso
que o cientista parte de observações, tentando generalizá-las.
O método científico processa-se de outro modo, numa
tentativa de provar a falsidade (e não a verdade) das hipóteses
de que parte, verificando até que ponto elas resistem a hipóteses
contrárias.”
Porém devemos ficar atentos à tese de falsificacionismo,
pois uma tese que hoje é considerada falsa pela comunidade
científica pode ser considerada verdadeira num outro período
da história, numa outra comunidade científica.
Tanto o positivismo como o neopositivismo consideram que existe uma
realidade e uma verdade científica. Aqui ainda não são
consideradas as idéias de Kunh sobre paradigmas nem as ideais
da influência da ciência no contexto social.
TEORIA CRÍTICA
“Não há ensino sem pesquisa e
pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um no corpo do
outro. Enquanto ensino continuo buscando, reprocurando. Ensino porque
busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para constatar,
constatando, intervenho, intervindo educo e me educo. Pesquiso para
conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar
a novidade.”
Paulo Freire
A “teoria crítica” , como costuma ser chamado
o conjunto dos trabalhos da Escola de Frankfurt, é uma expressão
da crise teórica e política do século XX, refletindo
sobre os seus problemas com uma radicalidade sem paralelo. Por isso,
os trabalhos de seus pensadores exerceram grande influência,
direta em alguns casos, indireta noutros, sobre os movimentos estudantis,
sobretudo na Alemanha e nos Estados Unidos, nos fins da década
de 60.
A história desse grupo de pensadores pode ser iniciada com
a fundação do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt,
sob direção de Carl Grünberg, que permaneceu no
cargo até 1927. Grünberg abria o primeiro número
do Arquivo de História do Socialismo e do Movimento Operário
(publicação que fundou em 1911), salientando a necessidade
de não se estabelecer privilégio especial para esta
ou aquela concepção, orientação científica
ou opinião de partido. Grünberg estava convencido de que
qualquer unidade de pontos de vista entre os colaboradores prejudicaria
os fins críticos e intelectuais da própria iniciativa.
Posteriormente, já na direção da Revista de Pesquisa
Social, ele próprio se consideraria um marxista, mas entendendo
essa posição não em seu sentido apenas político-partidário,
mas em seu significado científico; o conceito “marxismo”
servia-lhe para descrição de um sistema econômico,
de uma determinada cosmovisão e de um método de pesquisa
bem definido. Essa postura inicial de Grünberg – vinculada
a uma “escola” de pensamento, mas ao mesmo tempo entendendo-a
em sua dimensão crítica e como perspectiva aberta –
constitui, de modo geral, a tônica do pensamento dos elementos
do grupo de Frankfurt.
Na Teoria Crítica o foco da investigação é
a interação, não o dado em si. A partir dessa
perspectiva a objetividade é impossível de ser atingida,
pois há sempre uma interdependência entre o pesquisador
e o objeto de estudo. A realidade só pode ser acessada em partes,
a partir de seu contexto histórico (realismo histórico).
As pesquisas científicas não são neutras, tendo
sempre um impacto na sociedade. Aqui há uma preocupação
com a melhoria do contexto social.
Quinton (2002) nos mostra que:
“A teoria crítica foi inspirada pela rejeição
de Georg Lukács da doutrina marxista ortodoxa, segundo a qual
as idéias e crenças dos indivíduos humanos são
determinadas totalmente pelas circunstâncias sócio-econômicas.
Os especialistas propriamente ditos da teoria crítica —
Horkheimer, Adorno, Marcuse e, na geração subseqüente,
Habermas — puseram de parte a identificação positivista
da racionalidade com o espírito científico, pelo menos
na sua aplicação ao homem e à sociedade. Pensaram,
neste domínio, que é indispensável apreender
as coisas, à maneira de Hegel, como uma totalidade, e não
em função dos seus fragmentos abstratos. A influência
de Nietzsche está ainda presente, ao defenderem que a linguagem
e as idéias podem ser empregues como instrumentos de dominação,
porque criadoras de uma ‘falsa consciência’.”
As evidentes intenções políticas da teoria crítica
tornaram-na desinteressante para os filósofos analíticos,
comprometidos com uma posição neutral.
A teoria crítica pretende ultrapassar o subjetivismo, visando
a descobrir o conteúdo cognoscitivo da práxis histórica.
Os fatos sensíveis, por exemplo, vistos pelos positivistas
como possuidores de um valor irredutível, são, para
Horkheimer, “pré-formados socialmente de dois modos:
pelo caráter histórico de objeto percebido e pelo caráter
histórico do órgão que percebe”.
A crítica do positivismo científico e filosófico,
empreendida por Habermas, é inseparável de sua luta
contra o objetivismo tecnocrático. O positivismo e o tecnicismo
não passam, para ele, de duas faces da mesma e ilusória
moeda ideológica: tanto um, como outro, não seriam mais
que “manchas turvas no horizonte da racionalidade”.
CONSTRUTIVISMO
“Nossas crenças podem ser alteradas pelo
poder e efeito direto da experiência pessoal. Você á
capaz de começar a entender alguma coisa quando experimenta
a essência dessa coisa. Sua crença, então, se
transforma em conhecimento.”
Brian Weiss
Para os construtivistas a realidade não é mais vista
em termos de verdadeiro/falso, mas como um processo com maior complexidade,
maior sofisticação, dentro de uma perspectiva temporal.
Não existe uma realidade, mas várias, sendo as mesmas
construídas a partir dos referenciais dos sujeitos.
A preocupação é com o processo, a interação,
não com os resultados em si; o resultado é uma interpretação
(relativismo). Nem há a avaliação da verdade
(verificação) nem a falsificação de hipótese;
o que se busca é o entendimento do mundo, em toda a sua complexidade.
Dentro dessa abordagem o pesquisador é um facilitador que
procura aflorar o que está dentro das cabeças das pessoas,
através de procedimentos interpretativos, frutos da construção
entre o observado e o observador, não havendo independência
entre eles.
O principal representante dessa perspectiva é o antropólogo
norte-americano Clifford Geertz que propõe a observação
de outras culturas desde uma compreensão dos vários
aspectos pelos quais os membros de uma sociedade constroem um determinado
tipo de conduta. Nesse sentido, as narrativas e o comportamento teatralizado
dos indivíduos, segundo papéis constituídos pelas
relações interpessoais e com o meio ambiente, constituem
a característica simbólica da atuação
política de cada um.
Silva (2002) nos diz que para Geertz a cultura já surge com
o significado de um sistema simbólico formado pelas interação
entre os indivíduos e destes com a comunidade. Nesse sentido,
Geertz critica todo tipo de abordagem mecanicista que ignore as condições
históricas originais da organização social, o
envolvimento afetivo, o papel do indivíduo e suas necessidades
básicas. A cultura como um produto de símbolos, por
outro lado, não seria o resultado de mecanismos cognitivos
internos, mas a resposta pública ao relacionamento social.
A lógica da vida real e não a lógica intrínseca
de um conjunto formal de símbolos é que deveria ser
objeto de estudo antropológico, que tem maior proximidade com
uma interpretação crítica literária. Geertz
procura, portanto, compreender o comportamento humano e sua sociedade
como quem lê um texto, visando resgatar de modo "hermenêutico"
o significado de uma cultura. Em poucas palavras, o que está
em jogo é a capacidade do investigador das culturas se colocar
no lugar do outro, em sua tarefa interpretativa. Tudo isso, teria
sido deixado de lado pela antropologia clássica e pela ciência
cognitiva até a época da publicação da
crítica geertziana. Desde o início, então, Geertz
nota quanto a interpretação introspectiva da mente foi
estigmatizada como algo fantasioso e de difícil conceituação.
Contra isso, as teorias psicológicas e sociais baseadas no
método da física, procuraram descrever as atividades
mentais sem recorrer a conceitos subjetivos. Nesse contexto, os critérios
científicos de objetividade se antepunham a toda forma de subjetividade,
instanciando a disputa secular entre o materialismo e o dualismo.
Por um lado, o medo de um subjetivismo obscurantista antropológico,
carregava a ênfase num mecanicismo artificial, vinculado às
leis da física e moral.
Glasersfeld (1996) nos diz que o construtivismo é um modo
de pensar, não uma descrição do mundo, é
um modelo hipotético; não faz afirmações
ontológicas; não se propõe a descrever nenhuma
realidade absoluta, mas só os fenômenos de nossa experiência.
O autor fala de sua experiência de viver entre falantes de
diversas línguas e de cedo ter compreendido que para o falante
de uma língua qualquer, sua maneira de ver o mundo é
a ‘correta’. Depois de um tempo, chega-se à conclusão
de que cada grupo pode estar certo no que diz respeito ao próprio
grupo, e de que não existe ‘certeza’ além
dos grupos.
Para os céticos dos séculos XVI, XVII, XVIII não
havia nenhum problema em que a ciência criasse modelos racionais,
mas sempre seriam modelos de nosso mundo de experiência e não
do mundo real. Glasersfeld, citando Vico, afirma que “os seres
humanos só podem conhecer o que eles mesmos criaram”
e complementa:
“Fomos apanhados, pois, num paradoxo. Queremos acreditar
que somos capazes de conhecer algo sobre o mundo externo, mas jamais
podemos dizer se tal conhecimento é ou não verdadeiro,
já que, para estabelecer esta verdade, deveríamos
fazer uma comparação que simplesmente não podemos
fazer. Não temos maneira de chegar ao mundo externo senão
através de nossa experiência dele; e, ao ter essa experiência,
podemos cometer os mesmos erros; por mais que o víssemos
corretamente, não teríamos como saber que nossa visão
é correta.”
Isto significa que tudo que chamamos de conhecimento se cria ou
se constrói a partir de um material que já é
acessível ao sujeito que conhece.
Os construtivistas, se pudessem, jamais usariam o verbo ser, substituindo-o
pelo estar, por acreditarem na transitoriedade das construções
de conhecimento.
Glasersfeld nos esclarece que:
“Quando os críticos dizem que o construtivismo nega
a realidade, não a nega: a única coisa que faz é
sustentar que se pode conhecer uma realidade independente. O construtivismo
não formula declarações ontológicas.
Não nos diz como é o mundo, só nos sugere uma
maneira de pensá-lo e nos fornece uma análise de operações
que gera uma realidade a partir da experiência.”
Para concluir, citamos Shakespeare, que parece ter conhecido tudo
isso perfeitamente. Utilizando a palavra “pensamento”
em vez de “conhecimento”, ele escreveu:
“Mas o pensamento é escravo da vida, e o tempo
de vida que temos é uma bufonaria; e o tempo, que domina
o mundo inteiro, deve deter-se um dia.”
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A nossa viagem pelos caminhos dos paradigmas científicos
não foi um processo tranqüilo. O mar de informações
nos deixou bastante agitadas, pois nos confrontamos com questões
até então não pensadas.
Somos frutos de uma sociedade positivista, onde aprendemos que existe
uma única realidade que nos chegava pronta, validada pela ciência,
para ser reproduzida, nunca questionada e re-construída.
A possibilidade de falsificação de uma “verdade
científica” nunca nos foi claramente apresentada enquanto
cidadãos comuns, apesar de ter sido amplamente divulgada entre
os cientistas. Aceitávamos os “avanços”
científicos sem questionar as conseqüências dos
mesmos para a sociedade.
Alguns dos cientistas começaram a compreender o seu papel
social e perceberam que a ciência não poderia assumir
o papel de neutralidade. Buscou-se uma ciência que, através
dela e com ela, pudesse participar ativamente da transformação
da realidade.
Até esse ponto do percurso, temos a concepção
de uma realidade externa ao observador. Entretanto nos deparamos hoje
com prováveis realidades, consideradas a partir de um contexto,
das experiências e percepções dos sujeitos que
interagem, onde o real é construído de forma transitória.
Percebemos que o paradigma dominante (positivismo / neopositivismo)
nos grandes centros de pesquisa científica ainda é extremamente
valorizado. Em contrapartida, estamos inseridos num mundo cheio de
diversidade e complexidade, onde as mudanças ocorrem a todo
momento. Precisamos de construtores de realidades, não de reprodutores
de esquemas ditados pelo “suposto saber científico”.
A partir de nossas reflexões sobre os paradigmas de investigação
científica, terminamos com as indagações: para
que serve a ciência senão para atender às nossas
necessidades? para que serve a ciência senão para construir
a humanidade?
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
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São Paulo: Ática
Gardner, J. (1995). O mundo de Sofia: romance da história da
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em 23/08/2002
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em 01/09/2002
Petraglia, I. (2001). “Olhar sobre o olhar que olha”:
complexidade, holística e educação. – Petrópolis,
RJ: Vozes
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Quinton, A. Filosofia continental. http://critica.no.sapo.pt/fil_filcontinental.html
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Roazzi, A. (2002). Paradigmas de investigação. Texto
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Científica do Mestrado de Psicologia Cognitiva da UFPE
Glasersfeld, E. (1996). A construção do conhecimento.
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Silva, A. R. Filosofia contemporânea. http://www.discursus.250x.com/textos/geertz.html
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Solomon, R.; Higgins, K. M. (2001). Paixão pelo saber: uma
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Brasileira
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