Os
Contos de Fadas na Psicoterapia Transpessoal com Crianças:
contando uma história
Patrícia Vasconcellos Pires Ferreira
O encanto do conto de fadas
Nossas crenças podem ser
alteradas pelo poder e efeito direto da experiência pessoal.
Você é capaz de começar a entender alguma
coisa quando experimenta a essência dessa coisa. Sua crença,
então, se transforma em conhecimento.
Brian Weiss
O estudo da Psicolingüística abriu-me um campo novo,
apesar de muito denso. Tudo era muito novo para mim e os conceitos
ainda não estavam conectados (para não negar o meu passado
na informática) na minha forma de ver o mundo.
Geração após geração, os contos
de fadas vão sendo contados oralmente, ou através dos
livros, de pais para filhos.
Mas, o que há nessa estrutura narrativa literária que
continua fascinando as crianças que param para escutá-los
– os contos de fadas – embevecidos?
No aconchego da hora de dormir ou nas salas das escolas há
sempre o momento de intimidade criado pela “hora do conto”,
onde as crianças têm a possibilidade de conexão
com locais sombrios, cavernas, florestas e medos, monstros, inimigos
poderosos - como as bruxas. Porém, o final é sempre
feliz, seja pelo retorno ao lar – já mais fortificadas
-, ou pela conquista e realizações dos sonhos e desejos,
ainda que com a ajuda de seres mágicos, como as fadas.
Intuitivamente, continuamos oportunizando para as crianças
esses momentos de magia. Talvez porque “saibamos” que
os contos de fadas falam a linguagem do coração e fazem
conexão direta com o inconsciente infantil, como nenhuma outra
linguagem.
Há medo, luta, conflito e a grande saída. Esses são
os mesmos elementos encontrados nas Matrizes Perinatais Básicas
(MPB), conceituadas por Grof (2000). Estamos quietos no útero,
começam as contrações (medo), surge a possibilidade
de saída (luta e conflitos); finalmente, a liberdade, a conquista
(a grande saída).
Devido às semelhanças observadas na estrutura narrativa
dos contos de fadas e no ciclo das Matrizes Perinatais Básicas,
resolvemos investigar os efeitos do uso dos contos de fadas e das
técnicas transpessoais do ciclo do nascimento (vivências
e mandalas) no processo terapêutico com crianças.
Estamos relatando aqui a experiência de um acompanhamento psicoterápico,
a partir de uma perspectiva transpessoal, com uma menina de sete anos
de idade, que nos foi encaminhada com a queixa de medos exacerbados.
Para a preservação da ética do sigilo clínico,
a criança recebeu o nome fictício de Violeta, em homenagem
à fada imaginária que a protege dos seus medos.
Num primeiro momento discutiremos a posição de ciência
que adotamos durante todo o trabalho. Em seguida discutiremos o modelo
psicológico desenvolvido por Stanislav Grof, no que se refere
mais especificamente ao seu conceito de Matrizes Perinatais Básicas
(MPB). Abordaremos, então, o papel do terapeuta transpessoal
na sua relação com seu cliente. Apresentaremos as idéias
de Bruno Bettelheim sobre os contos de fadas e a análise dos
símbolos a partir de Carl Jung. Faremos ainda uma breve discussão
das idéias de Léo Matos sobre mandalas. Enfim, descreveremos
o caminho percorrido e apresentaremos as nossas conclusões
e inquietações.
O nosso paradigma científico
A ciência, a ciência, a ciência...
Fernando Pessoa
A ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pesar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que a alma dá e tem.
O início do século XXI está nos trazendo grandes
inquietações sobre a forma como estamos compreendendo
o mundo e atuando sobre ele, quer seja na nossa vida pessoal, na nossa
vida em comunidade, na nossa atuação no planeta e, também,
na forma como estamos explicando cientificamente as relações
do mundo em que vivemos.
Desde Descartes acreditamos que através da razão poderíamos
conhecer objetivamente o mundo. Chegamos até a acreditar na
neutralidade do observador quanto ao fenômeno observado e na
separação observador/objeto observado.
Na tentativa de simplificarmos os fenômenos que desejávamos
compreender – e que em essência são complexos –
reduzimos nossa leitura de mundo aos aspectos racionais, lógicos,
objetivos. A realidade existiria e através dos nossos órgãos
do sentido seríamos capazes de apreendê-la e compreendê-la
racionalmente. A famosa máxima de Descartes “penso, logo
existo” imperou no nosso mundo científico até
bem pouco tempo, como a única alternativa possível de
leitura do mundo.
Nas ciências humanas, dentro desse paradigma da razão,
para uma explicação de um fenômeno observado ser
considerada científica, teria que ser provada racionalmente,
de acordo com critérios objetivos e aceitos como coerentes
com o paradigma corrente. Lutamos para tornar científica a
nossa compreensão de mundo e, para isso, adotamos os métodos
de ciências naturais como a física. O que encontrávamos
nas nossas observações de fenômenos humanos que
não fosse explicado pelo primado da lógica e da razão,
teria que ser ignorado ou não seria científico o nosso
trabalho. Precisávamos provar as nossas conclusões.
Depois, alguns pontos dessa forma de ver o mundo e a ciência
foram se modificando um pouco e passamos a acreditar que o observador
do fenômeno não seria tão neutro assim e que a
sua forma de explicar o mundo afetaria a sua compreensão do
fenômeno. Começamos, também, a usar o critério
de falseabilidade da teoria, ou seja, ela seria verdadeira até
que conseguíssemos suplantá-la com uma outra teoria
que explicasse de forma mais ampla os fenômenos observados.
Porém, a própria física nos mostrou que não
podemos simplificar e reduzir os fenômenos que se nos apresentam
no mundo, pois os próprios fenômenos físicos são
bem mais complexos do que poderíamos supor. A física
quântica no mostrou que somos ao mesmo tempo onda e partícula
e que somos todos feitos de um mesmo princípio vital, ocorrendo
permanentemente uma interação entre todos os componentes
desse espaço compartilhado.
Porém, até aqui, víamos dando uma ênfase
muito grande ao resultado observado. Começamos a perceber que
isso não dava conta de toda a complexidade dos fenômenos.
Compreendemos que a realidade não poderia mais ser vista em
termos de verdadeiro/falso, mas como um processo com maior complexidade,
maior sofisticação, dentro de uma perspectiva temporal.
Não existiria uma realidade, mas várias, sendo as mesmas
construídas a partir dos referenciais dos sujeitos.
A preocupação passa a ser com o processo, a interação,
não com os resultados em si; o resultado seria sempre uma interpretação
(relativismo). Não haveria a avaliação da verdade
(verificação) nem a falsificação de hipótese;
o que se buscaria, a partir dessa perspectiva de construção
de realidade, seria o entendimento do mundo, em toda a sua complexidade.
Dentro dessa abordagem, o pesquisador é um facilitador que
procura aflorar o que está dentro das cabeças das pessoas,
através de procedimentos interpretativos, frutos da construção
entre o observado e o observador, não havendo independência
entre eles.
A partir dessa perspectiva realizamos o nosso trabalho e ressaltamos
que o relato do nosso percurso é uma construção
única, gerada na interação terapêutica
e interpretada pela ótica singular da terapeuta. Por isso,
não acreditamos que essa experiência possa ser replicada,
nem pela terapeuta com outras crianças, nem por outros pares
de terapeutas-crianças. Cada caminho é apenas uma forma
de compartilharmos a vida e esse trabalho tem apenas o objetivo de
ser um caminho. Como já nos lembrava o filósofo grego
Heráclito, “o homem não passa duas vezes pelo
mesmo rio”. Nem eu, nem Violeta somos mais as mesmas, o nosso
“rio” não é mais o mesmo.
A cartografia da consciência de Stanislav
Grof
Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe o quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
porque alta vive.
Fernando Pessoa
Para Grof (2000), os fenômenos da mente não podem ser
explicados em termos da atual estrutura adotada pela psiquiatria e
pela psicologia, pois esta estrutura se limita à biografia
pós-natal e à visão do inconsciente individual
numa perspectiva freudiana. A partir de suas pesquisas psicodélicas,
o autor elaborou um mapa da mente contendo, além do nível
biográfico, dois outros transbiográficos: o domínio
perinatal, relacionado ao trauma do parto biológico; e o domínio
transpessoal, que explica fenômenos de identificação
com outras pessoas, animais e plantas e é, também, a
fonte de memórias ancestrais, raciais, filogenéticas
e cármicas, assim como de visões de seres arquetípicos
e de regiões mitológicas.
Biografia Pós-Natal e o Inconsciente Individual
O domínio biográfico da psique consiste de
nossas memórias da infância, adolescência e vida
adulta. Esse domínio foi amplamente discutido por Sigmund Freud
em toda a sua obra e já é bem conhecido da psiquiatria
e psicologia tradicionais. Porém, nesse domínio, Grof
introduz o conceito de COEX (condensed experience), como
um sistema de memórias com carga emocional, de diferentes períodos
de nossas vidas, que se assemelham pela qualidade da emoção
ou sensação física compartilhada. Cada COEX tem
um tema básico que permeia todas as suas camadas e que representa
seu denominador comum.
Grof (2000) nos diz:
“Em minha compreensão atual, cada uma das constelações
COEX parece estar posta e ancorada em um determinado aspecto do
trauma do nascimento. A experiência do parto biológico
é tão complexa e rica em emoções e sensações
físicas que contém, de forma prototípica, os
temas elementares da maioria dos sistemas COEX que se pode conceber.
Contudo, um sistema COEX típico vai mais além, e suas
raízes mais profundas consistem de várias formas de
fenômenos transpessoais, tais como experiências de vidas
passadas, arquétipos junguianos, identificação
consciente com vários animais e outros.
Agora vejo os sistemas COEX como princípios gerais de organização
da psique humana. (...) Eles podem influenciar a forma pela qual
percebemos a nós mesmos, a outras pessoas e ao mundo, e como
nos sentimos e agimos. Eles são as forças dinâmicas
por trás dos nossos sintomas emocionais e psicossomáticos,
dificuldades em relacionamentos com outras pessoas e comportamentos
irracionais.
Existe uma interação dinâmica entre os sistemas
COEX e o mundo externo. Os acontecimentos externos em nossa vida
podem ativar especificamente sistemas COEX correspondentes e, reciprocamente,
os sistemas COEX ativos podem nos fazer perceber e reagir de tal
forma que recriamos seus temas centrais em nossa vida atual.”
O Nível Perinatal do Inconsciente
Grof (2000) traz o conceito de consciência do nível
perinatal para as memórias que são acessadas a partir
do inconsciente e que são referentes ao momento do nosso nascimento,
trazendo conteúdos e sensações de morte e nascimento
e uma sensação terrível de confinamento, ameaça
à vida e uma luta pela sobrevivência.
O autor argumenta que a psicologia e a psiquiatria acadêmicas
rejeitam a possibilidade do bebê registrar os difíceis
momentos do parto com o argumento de que o córtex ainda não
está totalmente mielinizado. Porém, está provado
cientificamente que a capacidade de memória existe em muitas
formas de vida inferiores que não têm córtex.
Segundo Grof (2000):
“A quantidade de estresse emocional e físico envolvida
no nascimento sobrepuja claramente qualquer trauma pós-natal,
da primeira infância e infância. (...) Várias
formas de psicoterapia experimental têm compilado evidências
convincentes de que o parto biológico é o trauma mais
profundo de nossas vidas, e um acontecimento de suprema importância
psicoespiritual. Ele fica gravado em nossa memória em seus
mínimos detalhes, até o nível celular, e tem
um efeito profundo sobre nosso desenvolvimento psicológico.”
Quanto à conexão entre o nascimento e a morte, Grof
ressalta a importância da ameaça de vida que é
o nascimento, sendo o mesmo um fim de uma fase da vida da criança
– a vida aquática – e o início de uma nova
forma de vida, na qual é necessário respirar o ar.
Para Grof, seria importante experiências que possibilitassem,
no nível simbólico, a vivência do momento do nascimento.
De acordo com as suas idéias, no parto, a criança passa
por quatro padrões experienciais distintos (as Matrizes Perinatais
Básicas – Fig. 1), onde cada um deles está relacionado
com emoções, sensações físicas
e imagens simbólicas específicas. Ainda de acordo com
o autor “as MATRIZES PERINATAIS BÁSICAS, reforçadas
por experiências emocionais significativas da infância
e da vida adulta organizadas em sistemas COEX, podem moldar nossa
percepção de mundo, influenciar profundamente nosso
comportamento diário e contribuir para o desenvolvimento de
várias desordens emocionais e psicossomáticas”.

Fig. 1 – Matrizes Perinatais Básicas (extraído
de Grof (2000))
Os quatro padrões das matrizes perinatais básicas são
descriminados abaixo:
(a) Primeira Matriz Perinatal Básica (MPB I): União
Primordial com a Mãe
Essa matriz está relacionada com a vida intra-uterina anterior
ao trabalho de parto, onde as contrações ainda não
começaram. Podemos ter imagens de um “útero bom”,
onde tudo era harmonia e tranqüilidade, ou de um “útero
mau”, onde uma sensação de rejeição
ou inadequação era uma constante.
(b) Segunda Matriz Perinatal Básica (MPB II): Engolfamento
Cósmico e Sem Saída ou Inferno
Essa matriz está relacionada com o início do parto biológico,
onde as contrações comprimem o feto, mas ainda não
há a abertura do canal vaginal. O feto fica sendo ameaçado
com falta de oxigênio. Podemos ter imagens de solidão,
culpa, abandono, ou ainda, de prisão em uma situação
sem saída, como vítimas com eminente ameaça de
morte.
(c) Terceira Matriz Perinatal Básica (MPB III): A Luta de
Morte-Renascimento
Essa matriz está relacionada com o segundo estágio clínico
do parto biológico, que se caracteriza pela propulsão
através do canal de parto após a abertura do útero
e a descida da cabeça até a pélvis. O feto sofre
pressões mecânicas esmagadoras, dores e muitas vezes
um alto grau de anoxia e asfixia. Há uma intensa experiência
de ansiedade. No final desse estágio do parto, a experiência
fica menos violenta e perturbadora. Podemos ter imagens de explosões,
violências e fogo (transformação). A situação
é desafiadora e difícil, mas há esperança
e nos sentimos com possibilidade de fazer algo para aliviar a ansiedade.
(d) Quarta Matriz Perinatal Básica (MPB IV): A Experiência
de Morte-Renascimento
Essa matriz está relacionada com o final do parto biológico,
onde há a expulsão final do canal do parto e o corte
do cordão umbilical. O feto chega à luz. Podemos ter
imagens de libertação e de êxtase.
Grof (2002) ressalta a importância do caminho percorrido durante
o nosso nascimento:
“Nossa auto-definição e nossas atitudes em
relação ao mundo em nossa vida pós-natal são
altamente contaminadas por essa constante lembrança de vulnerabilidade,
inadequação e fraqueza que vivenciamos no nascimento.
Em certo sentido, nascemos anatomicamente, mas emocionalmente não
nos damos conta desse fato. O ‘morrer’ e a agonia durante
a luta para renascer refletem a dor e a ameaça à vida
presentes no processo do parto biológico. Contudo, a morte
do ego que precede o renascimento é a morte de nossos antigos
conceitos de quem somos e como é o mundo – que foram
forjados pela impressão traumática do nascimento e
são mantidos pela memória dessa situação
que permanece viva em nosso inconsciente.”
O Domínio Transpessoal da Psique
O significado literal do termo transpessoal é “transcendendo
o pessoal”. As experiências nesse nível se relacionam
com a transcendência das fronteiras do nosso corpo e do nosso
ego e das limitações do espaço tridimensional
e do tempo linear que restringem nossa percepção do
mundo nos estados comuns de consciência.
A tabela a seguir foi extraída de Grof (2000) e resume as principais
experiências transpessoais.
Tabela 1 – Experiências Transpessoais
Para Grof (2000), “as experiências transpessoais têm
muitas características estranhas que põem por terra
as mais fundamentais suposições metafísicas da
visão de mundo materialista e do paradigma newtoniano-cartesiano”.
O papel do terapeuta transpessoal
Chegamos, filho.
É aqui. Prepare-se.
Aqui você vai descobrir um vale encantado
vai chegar na caverna misteriosa
e vai conhecer o estranho laboratório do cientista louco.
E eu queria lhe dizer uma coisa. Não esqueça, filho.
Uma rosa não é uma rosa. Uma rosa é o amanhã,
uma mulher o canto de um homem.
Uma rosa é uma invenção sua.
O mundo é uma invenção sua.
Você lhe dá sentido. Você o faz bonito. Você
o cobre de cores.
Um brinquedo, o que é um brinquedo?
duas ou três partes de plástico, de lata ...
Uma matéria fria, sem alegria, sem História ...
Mas não é isso, não é, Filho?
Porque você lhe dá vida,
Você faz ele voar, viajar ...
Vamos, filho.
Sabe que lugar é esse?
É um lugar de sonhos.
Uma casa de brinquedos.
Vamos entrar.
Toquinho
Em todo contexto terapêutico é necessária a criação
de um ambiente de confiança e acolhimento para que o cliente
possa vivenciar seus sentimentos e emoções e re-significar
a sua história.
Jung, citado por Alt (2000), nos diz que:
“Ocorre um fato notável na psicoterapia: você
não pode decorar nenhuma receita e aplicá-la mais
ou menos adequadamente, mas só é capaz de curar a
partir de um ponto central; este consiste em compreender o paciente
como um todo psicológico e chegar a ele como um ser humano,
deixando de lado toda teoria e ouvindo atentamente o que quer que
ele venha a dizer.”
Dentro da perspectiva transpessoal, o terapeuta trabalha com um espectro
mais amplo de experiências humanas, pois considera os níveis
biográfico, perinatal e transpessoal. Sendo assim, além
de ter escuta e atuação junto aos “dramas”
biográficos do cliente, fazendo uma re-significação
de momentos importantes do seu ciclo vital (infância –
adolescência – vida adulta – velhice), o terapeuta
transpessoal deve estar atento aos níveis perinatal –
com todos os seus estágios – e a experiências transpessoais
de expansão da consciência.
É importante resgatar no cliente a sua intencionalidade e
o seu poder de transformação de si próprio e
de sua vida.
Bertolucci (1991) nos mostra que “o terapeuta transpessoal
precisa compartilhar com a pessoa a sua dificuldade em assumir a responsabilidade
perante a vida e ajudá-la a reconhecer que, embora não
tenha escolhido as circunstâncias sob as quais lhe é
dado viver, está escolhendo, a cada segundo, a forma de vivê-las”.
No trabalho com crianças, o terapeuta transpessoal precisa
de muita sensibilidade para compartilhar com a criança o seu
universo simbólico. O universo infantil é recheado de
fantasias e de magia e esse deve ser o caminho de acesso ao seu psiquismo.
Nessa fase do desenvolvimento, o cliente não apenas racionaliza
a sua fala; existe um grande poder de transformação
através das experiências vivenciadas no consultório.
A linguagem simbólica - dos contos de fadas, dos desenhos
e das brincadeiras envolvendo o corpo - é um instrumento poderoso
para re-significação dos seus medos e dilemas existenciais.
Fromm (1983) nos diz que:
“A linguagem simbólica é uma língua
em que as experiências íntimas, os sentimentos e pensamentos
são expressos como se fossem experiências sensoriais,
fatos do mundo exterior. É uma linguagem cuja lógica
difere da linguagem convencional que falamos de dia, uma lógica
em que as categorias dominantes não são o espaço
e o tempo, mas sim a intensidade e a associação. É
o único idioma universal jamais criado pela raça humana,
o mesmo para todas as criaturas e para todo o curso da história.
É uma língua com gramática e sintaxe próprias,
por assim dizer, e cujo conhecimento é imprescindível
para se poder entender o significado dos mitos, dos contos de fadas
e dos sonhos.”
O terapeuta transpessoal que trabalha com crianças deve estar
atento a essa linguagem e ajudar a criança a expressar os seus
medos e ansiedades através dela, integrando-os na sua psique,
num nível mais elevado de consciência.
Matos(1998) sintetiza de forma poética o papel do terapeuta
transpessoal:
“O ingrediente mais importante em terapia é o Amor.
Só agindo dentro de um contexto de Amor, Bondade e Compaixão
é que realmente seremos capazes de ajudar aos outros.”
A magia dos contos de fadas
Eu ainda acredito
nos heróis adormecidos,
nessa força que revolta
e nos faz ficar erguidos
cada vez que nos sentimos
derrotados e punidos.
Jorge Vercilo
Von Franz (1990) afirma que:
“Os contos de fada são a expressão mais pura
e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo.
Conseqüentemente, o valor deles para a investigação
científica do inconsciente é sobejamente superior
a qualquer outro material”.
Bettelheim (1980) coloca que “a tarefa mais importante e também
mais difícil na criação de uma criança
é ajudá-la a encontrar significado na vida”. Tomando
o caminho da literatura infantil como uma alternativa que facilite
a construção desse significado pela criança,
podemos observar que os contos de fadas têm alguns aspectos
que encantam a criança porque falam, de diferentes maneiras,
ao seu consciente, pré-consciente e inconsciente, na medida
que:
· Estimulam a imaginação da criança;
· Ajudam a criança a desenvolver a sua capacidade
intelectual;
· Vêm ao encontro das ansiedades e das aspirações
das crianças;
· Reconhecem suas dificuldades, mas sugerem soluções
para os problemas que perturbam as crianças.
Sendo assim, a mensagem que os contos de fadas transmitem à
criança é que “uma luta contra dificuldades graves
na vida é inevitável, é parte intrínseca
da existência humana – mas que se a pessoa não
se intimida, mas se defronta de modo firme com as opressões
inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os
obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa”. (Bettelheim,
1980)
Dessa forma, os contos de fadas falam para a criança sobre
seus dilemas existenciais e, por isso, são tão significativos
para a mesma, pois a ajudam a lidar com os problemas psicológicos
do crescimento e da integração de sua personalidade.
No mundo moderno, onde as crianças não têm mais
a segurança de uma família numerosa ou de uma comunidade
bem integrada, é importante oferecer para elas “imagens
de heróis que partiram para o mundo sozinhos e que, apesar
de inicialmente ignorando as coisas últimas, encontram lugares
seguros no mundo seguindo seus caminhos com uma profunda confiança
interior”. (Bettelheim, 1980)
Cavalcanti (2002, p. 43) nos faz uma análise poética
sobre a magia dos contos de fadas:
“... pensamos no conto de fadas como leitura própria
para se ampliar o universo interior, tocando com profundidade nas
lutas internas geradas no complexo conjunto dos sentimentos humanos.
As histórias que se constituem em contos de fadas extrapolam
a dimensão do maravilhoso porque se constroem a partir de
imagens metafóricas com infinita capacidade de gerar tensão,
provocando não somente o lúdico, mas também
o jogo antagônico e a busca de solução para
superação dos obstáculos.”
Nos contos de fadas o mal é tão onipresente quanto
a virtude e as crianças sabem que elas não são
sempre boas. O conto expressa opostos – bom e mau – que
estão integrados no todo da narrativa, cada um com seu papel.
Ao contarmos as histórias de fadas é sempre melhor
seguirmos a orientação da criança, já
que a preocupação do conto de fadas não é
com a informação útil do mundo exterior, mas,
fundamentalmente, com os processos interiores que ocorrem no indivíduo.
Bettelheim (1980) nos diz que:
“Os contos de fadas, à diferença de qualquer
outra forma de literatura, dirigem a criança para a descoberta
de sua identidade e comunicação, e também sugerem
as experiências que são necessárias para desenvolver
ainda mais o seu caráter. Os contos de fadas declaram que
uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa apesar
da adversidade – mas apenas se ela não se intimidar
com as lutas do destino, sem as quais nunca se adquire verdadeira
identidade. Estas histórias prometem à criança
que, se ela ousar se engajar nessa busca atemorizante, os poderes
benevolentes virão em sua ajuda, e ela o conseguirá.”
Ainda segundo o autor:
“O conto de fadas é terapêutico porque o paciente
encontra sua própria solução através
da contemplação do que a história parece implicar
acerca de seus conflitos internos neste momento da vida.”
No conto de fadas não é dito à criança
o que deve escolher, nem a criança é confrontada diretamente
com seus receios mais profundos. Tudo ocorre através da linguagem
simbólica, tão familiar à criança no seu
mundo de fantasia. No conto de fadas, diferentemente das fábulas,
não há a ‘moral da história’, mas
um enorme senso de justiça e, ainda, em oposição
aos mitos cujas histórias são trágicas e os finais
infelizes, os seus finais são sempre felizes, desde que o personagem
tome uma atitude ativa perante o desafio que enfrenta.
Nas histórias das fadas os personagens não têm
um nome e são referenciados de forma impessoal: uma moça,
um pai, uma madrasta, um lobo, uma fada, um gigante. Todos permanecem
anônimos, o que facilita os processos de identificação
e projeção (conceitos psicanalíticos).
Bettelheim (1980) argumenta que para os psicanalistas junguianos
essas histórias representam fenômenos psicológicos
arquetípicos, e simbolicamente sugerem a necessidade de uma
transformação para estados mais elevados de consciência.
Relacionando os contos de fadas aos arquétipos junguianos,
Bettelheim (1997) nos aponta o grande tema central dos contos de fadas:
o renascimento para um plano mais alto de existência, através
do domínio dos graus de desenvolvimento necessários
a essa trajetória.
O autor sugere que os contos de fadas só permitirão
uma integração dos conflitos e suas resoluções
para a criança se a mesma se mantiver desinformada das pressões
inconscientes às quais está respondendo quando torna
suas as soluções das histórias das fadas.
Bettelheim (1980) nos aponta a visão da criança dos
contos de fadas:
“A criança intuitivamente compreende que, embora estas
histórias sejam irreais, não são falsas; que
ao mesmo tempo em que os fatos narrados não acontecem na
vida real, podem ocorrer como uma experiência interna e de
desenvolvimento pessoal; que os contos de fadas retratam de forma
imaginária e simbólica os passos essenciais do crescimento
e da aquisição de uma experiência independente.”
Cada conto de fadas é um espelho mágico que reflete
alguns aspectos de nosso mundo interior, e dos passos necessários
para evoluirmos da imaturidade para a maturidade (Bettelheim, 1980).
Através do conto de fadas a criança aprende a ler sua
mente na linguagem das imagens, a única linguagem que permite
a compreensão antes de conseguirmos a maturidade intelectual
necessária a uma compreensão racional e lógica
do nosso mundo interior. A criança precisa ser exposta a essa
linguagem, e deve aprender a interpretá-la, ainda que intuitivamente,
para que atinja o pleno desenvolvimento de sua alma.
Nossa memória ancestral
Evidência objetiva e certeza são,
sem dúvida,
ideais muito bons para se trabalhar,
mas onde neste planeta iluminado pela lua
e visitado pelos sonhos são encontradas?
William James
Stein (2000) nos diz que para Jung existiria uma energia psíquica,
acumulada em milhões de anos da evolução humana,
que herdaríamos junto com o componente biológico do
nosso corpo. A essa fonte primária de energia e padronização
psíquica, Jung deu o nome de arquétipo. Para Jung, arquétipo
e instinto estão profundamente relacionados, pois a mente e
o corpo estão inter-relacionados de uma forma tão íntima
que se tornam quase inseparáveis.
Segundo o autor:
“Para discutir o arquétipo desde o ponto de vista
psicológico em lugar do filosófico ou metafísico,
temos que fundamentá-lo na vida, tal como é vivida
no corpo humano, onde também se entretece com a história
pessoal e o desenvolvimento psicológico. A teoria dos arquétipos
é o que torna platônico o mapa junguiano da alma; entretanto,
a diferença entre Jung e Platão é que Jung
estudou as Idéias como fatores psicológicos e não
como formas eternas ou abstrações.”
Para Jung, o mapa da alma é formado por várias camadas,
sendo a dos arquétipos a mais profunda. Nessa camada não
existe nada de individual ou único nos humanos e, sim, o inconsciente
coletivo, comum a todos os humanos, independente de sua raça,
cultura ou classe social. Aqui Jung traz o caráter de universalidade
das suas idéias.
Porém, o ser humano é também singular e a construção
dessa singularidade é o produto de uma luta pessoal pelo desenvolvimento
e aquisição da consciência.
Para Jung o desenvolvimento psicológico tem por objetivo uma
personalidade unificada, mas também única, um indivíduo,
uma pessoa indivisa e integrada. A esse processo de desenvolvimento
da psique Jung deu o nome de individuação.
Jung relacionou esse processo de individuação com o
mito do herói e atribui ao herói o papel de criador
da consciência. Stein (2000) afirma que:
“O herói é um padrão humano básico
– igualmente característico tanto de mulheres quanto
de homens – que exige o sacrifício da ‘mãe’,
significando uma atitude infantil passiva, e que assume as responsabilidades
da vida e enfrenta a realidade de um modo adulto. O arquétipo
do herói exige o abandono desse pensamento fantasioso infantil
e insiste em que se aceite a realidade de um modo ativo.”
Para Jung, nem todo material do inconsciente é produto de
uma repressão da consciência, mas os padrões dos
arquétipos estavam lá desde o começo.
“O homem ‘possui’ muitas coisa que ele não
adquiriu, mas herdou dos antepassados. Não nasceu tabula
rasa, apenas nasceu inconsciente.” (Jung, in: Obras Completas
Vol. IV)
A linguagem esquecida
Cada indivíduo deve procurar seu próprio
rumo em busca da paz e do equilíbrio,
não se conformando em viver pela metade, nem aceitando
carregar o fardo de angústias, culpas e conflitos.
Brian Weiss
A palavra mandala vem do sânscrito e é
composta de man, que significa ‘círculo’, e de
dala, que quer dizer ‘essência de si mesmo’.
De acordo com Léo Matos, o mandala tem por objetivo facilitar
a realização da pessoa como ser cósmico e a redescobrir
aquilo que ela já é.
O círculo do mandala representa a projeção da
auto-imagem, do ego, de quem a executa. O que está exterior
ao círculo representa o ambiente externo ao autor do mandala.
Para a interpretação do mandala devemos considerar
todo o seu conjunto: as cores, as formas, a pressão que foi
usada no lápis, o movimento e a posição do desenho
na folha. É muito importante o uso da intuição
na leitura de mandalas, pois a mesma não pode ser apenas intelectual.
Não há um manual de interpretação de
mandalas. Algumas cores são básicas – como o Amarelo,
representando a energia masculina, e o Azul, representando a energia
feminina -, bem como algumas formas arquetípicas – como
o Sol, masculino, e a Terra, feminino.
Não podemos generalizar e dizer que ‘isso’ no
mandala quer dizer ‘aquilo’. É necessário
que acompanhemos uma série deles para que possamos ter uma
noção do todo. Além disso, o mandala é
um mapa da psique no momento em que foi realizado o desenho e, como
tudo o mais, é transitório e flexível.
O desenho do mandala é um processo terapêutico por si
só, de acordo com Léo Matos, pois é um canal
para o fechamento de gestalts. É interessante que seu autor
se conecte com os sentimentos que o mandala envia para ele.
Após a realização de um mandala que desperte
sentimentos positivos, podemos sugerir ao seu autor que veja o mandala
de forma tridimensional e que faça a fantasia de estar entrando
nele; dessa forma é facilitada a realização de
uma viagem ao inconsciente e se procede como no sonho catártico
dirigido (técnica desenvolvida por Léo Matos, numa abordagem
de terapia transpessoal).
Se ao concluir um mandala seu autor não estiver se sentindo
bem, devemos sugerir que faça tantos quantos sejam necessários
para que surja a sensação de bem-estar.
É importante que lembremos que apesar de características
universais, cada ser humano é único em sua singularidade
e está imerso numa cultura. Por isso, todas as interpretações
de mandalas devem ser contextualizadas.
Compartilhando o caminho percorrido
Mesmo que eu fale em línguas,
A dos homens e a dos anjos,
Se me falta o amor,
Sou um metal que ressoa, um címbalo retumbante.
Mesmo que tenha o dom da profecia,
O saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento,
Mesmo que tenha a fé mais total,
A que transporta montanhas,
Se me falta amor, nada sou.
(Epístola de São Paulo aos Coríntios,
13, 1-2)
Esta é a parte do trabalho que convencionalmente se chama
de Metodologia. Se ainda estivesse assumindo o modelo positivista
de construção de conhecimento, teria que abordar objetivamente
o método que adotaria, articulado coerentemente com os meus
objetivos na pesquisa, bem como os critérios para a seleção
dos participantes da amostra e o procedimento adotado para a coleta
de dados. Deveria especificar com detalhes o material a ser utilizado
e a abordagem da análise dos dados, a partir da fundamentação
teórica que nortearia o trabalho.
Porém, a proposta para essa pesquisa foi trabalhar dentro
da abordagem da pesquisa qualitativa. Jacob (1993, citado por Grandesso
(2000, p. 301)) afirma que um dos aspectos metodológicos centrais
às epistemologias qualitativas é a crença na
impossibilidade de acesso a um conhecimento objetivo no qual o objeto
de estudo pudesse ser configurado independentemente das subjetividades
do pesquisador e do pesquisado.
Para Grandesso (2000), “os resultados de estudos qualitativos
decorrem do campo da intersubjetividade, na medida em que podem ser
definidos como produto da ação conjunta entre o pesquisador
e os participantes da pesquisa”. A ação conjunta
é um tipo especial de relação que se dá
na linguagem, em que o resultado é conseqüência
do processo da ação, não podendo ser “prevista”
de antemão, por quaisquer dos participantes.
Entendo que o trabalho teve como objetivo a compreensão da
linguagem dos contos de fadas, compartilhada numa relação
terapêutica, num processo de transcendência da infância
pela fantasia, através da reconstrução de significados.
Essa reconstrução de significados foi enfocada em temas
(COEX) que surgiram a partir da demanda da criança Violeta.
Perguntávamo-nos se os contos de fadas, aliados a técnicas
de Psicologia Transpessoal, que envolvessem o processo das matrizes
perinatais básicas, usados com crianças em momento terapêutico,
poderiam favorecer a solução de conflitos, ajudando
a conscientizá-los e liberá-los, através da ampliação
da consciência.
Se o uso dos contos de fadas favorecesse a conexão com os
processos das matrizes perinatais básicas então, através
do seu uso no processo terapêutico de crianças, os conflitos
das matrizes perinatais seriam mais plenamente vivenciados e “elaborados”,
pois “perceberiam” que por mais difícil que seja
a aventura a vitória sempre chegaria graças às
qualidades do personagem principal.
Estive na pesquisa com minhas pré-concepções
estabelecidas a partir do desempenho de meus papéis sociais
como o de psicoterapeuta, pesquisadora e cidadã.
Os participantes desse trabalho de pesquisa foram eu mesma, visto
que dentro da proposta de intersubjetividade não posso deixar
de me incluir no processo, e a criança Violeta, encaminhada
ao trabalho psicoterápico devido aos seus medos exacerbados.
O atendimento da criança foi individual (no período
de Agosto/2002 a Novembro/2002) e o trabalho foi realizado em uma
sala para acompanhamento psicoterápico, com poltronas, estantes,
tapete, almofadas, livros infantis, jogos, brinquedos.
No início do acompanhamento psicológico com a criança
tivemos uma sessão inicial com seus pais para o procedimento
básico de anamnese, onde procuramos saber informações
a respeito da sua vida, sendo as mesmas tanto objetivas (como foi
a gestação, como foi o parto, características
de seu desenvolvimento, quando começou a apresentar dificuldades
emocionais) como as referentes ao vínculo afetivo estabelecido
entre a criança e seus pais.
Na primeira sessão com a criança procuramos estabelecer
um bom rapport, situando-a quanto ao motivo de estar no consultório
e quanto ao trabalho com os contos de fadas.
Trabalhamos com os contos de fadas dos Irmãos Grimm em seu
formato original, seguindo a orientação de Bruno Bettelheim
(1980). Após a leitura de um determinado conto, escolhido pela
própria criança, estabelecemos um diálogo com
a mesma e desenvolvemos, também, atividades de desenhos e colagens
sobre os contos de fadas, além do desenho de mandalas.
Os mandalas foram analisados a partir das referências de Leo
Matos e foram realizadas em papel A3, com giz pastel.
Para atender ao objetivo do projeto, utilizamos a leitura dos contos
de fadas em vários momentos do acompanhamento psicológico
e registramos os comentários e as atividades das crianças
a respeito do conto. Acreditamos que as possibilidades de reconstrução
oferecidas pelos contos não foram esgotadas em uma única
sessão e desdobraram-se em outras sessões do nosso trabalho.
Como a queixa inicial eram os medos exacerbados da criança,
falamos várias sessões sobre eles e sugeri que inventasse
uma fada com poderes para afastá-los quando surgissem. Assim,
a criança criou a fada Violeta (Fig. 2) que era sempre invocada
quando os medos surgiam. Na sessão seguinte a fada ainda estava
presente, pois alguns medos ainda persistiam. Na sessão subseqüente,
a criança chegou toda feliz dizendo que Violeta havia cumprido
o seu papel e que agora já não existiam medos. Em homenagem
à fada Violeta, estou chamando a criança por esse nome.

O primeiro conto trabalhado foi o de João e Maria. Ao entrar
no consultório, Violeta já encontrou um caminho de bombons
que a levaria ao livro de Contos de Fadas dos Irmãos Grimm.
Perguntamos, então, qual a história que os bombons lhe
lembravam e ela respondeu João e Maria (Fig. 3).
Em seguida, sentamos no tapete, no meio das almofadas, e lemos o
conto. Durante a leitura, Violeta se aninhou nas almofadas, adotando
uma posição fetal. Violeta é uma criança
cujos pais são separados e havia uma perspectiva de mudança
de endereço, indo a mesma viver em outro país, longe
de seu pai, o que estava lhe gerando muita ansiedade.

Fig.
3 – Carta do tarô de João e Maria
Ao ser solicitada a fazer um desenho relacionado ao conto lido, Violeta
disse “eu não consigo”. Sugeri, então, que
escolhesse as cores que lhe lembravam da história; daí
surgiu o mandala (Fig. 4).

Um conto escolhido por Violeta, através das cartas do Tarô
da Criança Interior foi o do Rei Midas (Fig. 5). Esse conto
não estava no livro e foi contado por mim, a partir de minhas
recordações da história.

Fig.
5 – Carta do tarô de João e Maria
Ao final da leitura, Violeta desenvolveu uma atividade de colagem
de pedaços de papéis coloridos (Fig. 6). Quando terminou
de colar os pedacinhos de papel, Violeta achou o seu trabalho muito
bonito e comentou: “Às vezes a gente nem sabe o que está
fazendo”. Perguntei-lhe que outra coisa a gente faz e não
sabe que está fazendo; Violeta respondeu “quando a gente
está trelando”.

Fiz, então, a associação com o conto do Rei
Midas que também não sabia o que estava fazendo quando
pediu o dom do ouro. A mãe tem se queixado que Violeta está
se masturbando com freqüência. Depois pediu para lermos
uns livrinhos de uma coleção sobre Orientação
Sexual para Crianças. Ficou mais calma e repetiu que não
precisa mais da fada Violeta, pois não está mais com
os medos que tinha.
Ao chegar ao consultório, Violeta tinha muitas dúvidas
sobre como os bebês entram na barriga das mães. Sua mãe
me relatou que o conto de fadas preferido de Violeta era o de Chapeuzinho
Vermelho (Fig. 7). Após algumas sessões trabalhando
com os livrinhos sobre Orientação Sexual, Violeta afirmou
que já “enjoou” de Chapeuzinho Vermelho e que agora
o seu conto preferido era A Bela e a Fera (Fig. 8).

Numa outra sessão retomamos o seu interesse pelo conto A Bela
e a Fera. Como não o achamos no livro dos Irmãos Grimm,
sugeriu que lesse o conto A Pequena Vendedora de Fósforos,
dizendo-me que era uma história muito triste. Eu não
conhecia a história e comecei a lê-la, avisando-lhe que
eu poderia chorar, pois ficava emocionada com facilidade. No momento
em que a menina da história morreu, não fiquei triste
e não chorei, permanecendo tranqüila até o final.
Então, perguntei-lhe o que era triste na história e
ela respondeu que “até que não era tão
triste assim”. Falamos sobre a morte, sobre as transformações
que ocorrem quando se morre. Sugeri que fôssemos fazer o mandala
(Fig. 9)

Depois do desenho, perguntei-lhe se o desenho parecia com um de uma
história triste; ela sorriu e respondeu “parece com um
de uma história alegre”. Refletimos um pouco sobre a
morte ser triste ou alegre e sobre o fato de se ser pobre e não
ter o que comer (sua mãe tem enfrentado uma situação
econômica muito difícil desde a separação
e Violeta participa bastante das limitações que essa
situação provoca). Começou então uma história
sobre um pescador muito pobre que ia para o mar tentando pescar para
comer. Intitulou a história O Barco Mágico (Fig. 10).
Violeta contou que “o pescador saiu para pescar e veio uma tempestade;
o barco lutou com as altas ondas do mar, mas conseguiu vencer o mau
tempo e o pescador pegou um peixe bem grande”.

Na sessão em que lemos A Bela e a Fera, Violeta fez um desenho
dos portões do castelo (Fig. 11) e desenhou o sol, mas disse
que queria que fosse noite e desenhou a lua; depois desenhou muitas
estrelas e disse “não quero fazer de dia”. Se pudesse
ser um personagem da história, gostaria de ser a Bela, apesar
de ter medo da Fera querer lhe beijar.

Desenvolvemos, também, uma atividade de brincadeira na qual
a criança ficava presa em uma tenda, semelhante às de
acampamento (Fig. 12 e Fig. 13), e que tinha que sair desse ambiente,
passar por um túnel – feito com cadeiras e almofadas
(Fig. 14) -, e achar a saída.

Durante o período em que a criança ficava presa na
tenda, eu ficava comprimindo a criança na tenda e ela tinha
que fazer esforço para achar a saída e começar
a se movimentar. Quando percorria o túnel e saía, a
criança desenhava mandalas.
O objetivo dessa atividade é oportunizar a experiência
simbólica do nascimento biológico da criança,
procurando representar na brincadeira todo o ciclo das matrizes perinatais
básicas de Grof.
Na primeira vez que Violeta participou dessa brincadeira ela gostou
muito, pediu para fazê-la novamente, em outra sessão,
e desenhou o mandala (Fig. 15) abaixo.

Já na saída da sala, comentou “eu fiquei com
medo de não conseguir sair porque eu queria sair”.
Houve uma sessão em que brincamos da criança olhar o
desenho da fada Violeta e “fingir” que era ela, com quem
mantive um diálogo. A fada Violeta conversou sobre o porquê
de não ter medos e sobre como era bom ajudar as crianças
a vencerem os seus medos. A criança participou com alegria
desse jogo de faz-de-conta e disse que não fala com suas amigas
sobre a fada Violeta, apesar de saber que elas também têm
seus medos. Fez um desenho (Fig. 16) em que era um bebê e estava
na floresta da fada Violeta; hoje se sentia mais triste e se sentia
mais segura quando era bebê (quando os seus pais ainda estavam
casados). Perguntei-lhe se tivesse os poderes da fada Violeta, o que
faria e ela respondeu que juntaria os seus pais novamente.

Em uma sessão, sua mãe entrou e comentou que a criança
havia reiniciado a sua masturbação noturna e que isso
estava ocorrendo no momento em que ela (a mãe) havia reiniciado
uma rotina maior de trabalho e sua avó havia se submetido a
uma cirurgia. Quando a mãe se retirou da sala, conversei com
Violeta sobre o seu ranger de dentes ao dormir e lhe falei sobre como
outras crianças procuram aliviar a ansiedade que sentem, chupando
chupeta ou dedo, torcendo o cabelo, brincando com uma almofada ou,
ainda, tocando-se. Violeta falou que se tocava e conversamos sobre
essa sua forma de aliviar a tensão. O tema do nascimento surgiu
e trabalhamos com a coleção de Orientação
Sexual para Crianças que temos no consultório. Em seguida,
Violeta fez o mandala (Fig. 17), retratando seus ciúmes pelo
nascimento do irmão – pela primeira vez conseguiu verbalizar
a sua rivalidade fraterna, pois sempre assume uma posição
de proteção e cuidados para com o irmão mais
novo.

Começou a desenhar o mandala (Fig. 18) que representava o
seu parto; virou a folha e saiu desenhando outro mandala (Fig. 19),
colocando uma cor sobre a outra. Disse-lhe que poderia usar todo o
papel e riscou com vermelho e algumas cores soltas (rosa, azul, branco,
verde, amarelo).

Em seguida fomos repetir a brincadeira da tenda. Violeta perguntou
se eu pararia se ela dissesse para parar; respondi que pararia e começamos
a brincadeira com ela entrando na tenda. Comecei a apertá-la
e ela disse “tá bom”; depois saiu pela toca, atravessou
o túnel e me abraçou saltitante e feliz. Então,
Violeta desenhou o mandala (Fig. 20) abaixo.

O acompanhamento de Violeta continuou até o final de Dezembro/2002.
Em Janeiro/2003 entrou de férias e não precisou voltar,
já que seus medos cessaram e estava conseguindo expressar a
sua ansiedade com mais tranqüilidade.
Steir, citado por Grandesso (2000, p. 306), afirma que “nossa
pesquisa conta uma história sobre nós mesmos.”
Foi um pouco da minha história a contada aqui.
Era uma vez...
Acredito que não somos somente humanos,
nem mesmo seres humanos que,
eventualmente, desfrutam de experiências humanas. Possuímos
diversas
dimensões que podemos vivenciar e das quais podemos usufruir.
Temos em
nosso espírito possibilidades acima do tempo e das limitações
físicas. E há
muitas formas de entrar em contato com o Eu Superior que abrigamos.
Trata-se
de um caminho no qual quanto mais avançamos, mais nos tornamos
capazes de alcançar graus cada vez mais altos de espiritualidade.
Brian Weiss
Trabalhamos como terapeuta já há alguns anos e sempre
nos fascinou a facilidade das crianças para a linguagem simbólica.
A psicoterapia infantil é uma atividade mágica, mas
que requer muita sensibilidade, concentração e energia.
O que, então, diferencia uma terapeuta transpessoal que trabalha
com crianças de outra que não tem essa abordagem em
sua formação? O que fizemos de diferente do que vínhamos
fazendo ao longo dos anos?
As técnicas que usamos são quase as mesmas de todas
as outras terapeutas infantis: brincadeiras, desenhos, colagens, massa
de modelar, tinta, histórias infantis. Temos ainda os mandalas,
a troca de papéis, o sonho catártico diurno, entre outras.
Percebemos que o que diferencia uma terapeuta transpessoal é,
além da sua nova cartografia da mente, um olhar e uma escuta
para o processo de transcendência da criança. Não
temos como foco o nível biográfico apenas, ainda que
seja necessário um trabalho específico com a história
dessa vida da criança; o nível perinatal tem o registro
das marcas profundas do nascimento e está sempre surgindo na
terapia, nos detalhes mais importantes de um relato de história,
na origem de um medo, num sintoma corporal, num padrão de comportamento;
o nível transpessoal já está presente na criança,
com a “memória de vidas passadas”, com a presença
de arquétipos, com expansão da consciência, com
os questionamentos que sempre acompanharam os seres humanos desde
os primórdios da nossa existência no planeta Terra.
Escolhemos enfocar os contos de fadas porque sempre nos encantaram
e porque, desde o primeiro momento que tivemos contato com as idéias
de Grof sobre as matrizes perinatais básicas, estabelecemos
uma relação entre os contos e o seu nível perinatal.
Como não vincularmos a dificuldade de crescer, de enfrentar
o desconhecido, com o estado de fusão da MPB I? Como não
relacionarmos as histórias em que os personagens dos contos
estão presos em situações sem saída, com
a MPB II? Como não associarmos a luta dos heróis, enfrentando
o desconhecido e lutando pela sua vida, com a MPB III? Como não
compartilharmos com as crianças a alegria pela vitória
do pequeno indefeso que resolve os seus dilemas existenciais e renasce
forte, já que podemos comemorar o seu próprio nascimento
simbólico, como na MPB IV?
Porém, ao longo do trabalho com Violeta e da leitura mais
aprofundada das idéias de Jung e Grof, percebemos que além
da possibilidade da experiência simbólica do ciclo das
matrizes perinatais básicas – e conseqüente superação
e integração dos traumas do nascimento pela criança
-, as histórias das fadas nos falam do caminho que temos que
percorrer no nosso processo de individuação, a partir
do conceito de Jung.
Desde de pequenas as crianças começam a se perguntar
“Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? Quem criou os animais?
O que é morrer?”.
Fordham (2001) nos mostra que desde a primeira infância os
processos de individuação estão em ação,
sendo uma característica essencial do desenvolvimento.
Poderíamos relacionar os arquétipos de Jung, aos grandes
temas da COEX de Grof. Mais ainda. Poderíamos associar o processo
simbólico de re-experienciar o nosso nascimento pelo ciclo
das matrizes perinatais básicas - saindo da passividade do
biológico até chegarmos à luz na saída
do túnel e ao surgimento da vida em que precisamos ser ativos
no processo de respiração -, ao processo de individuação
do ser humano, que está sempre limitado pelo vai-e-vem entre
o instintivo e o espiritual.
Grof (2000) nos diz que:
“O simbolismo específico das experiências perinatais
vem do inconsciente coletivo, e não dos bancos de dados individuais.
Assim, pode extrair seu conteúdo de qualquer período
histórico, área geográfica e tradição
espiritual do mundo, independente da herança cultural ou
religiosa do indivíduo.”
São exatamente esses aspectos que a linguagem dos contos de
fadas captura com tanta sabedoria. O “Era uma vez” nos
remete para um tempo distante; temos ainda o “Em algum lugar
distante” que nos envia para um local incerto, bem longe do
nosso espaço geográfico atual. Protegidos pelo tempo,
pelo espaço e pelos personagens mágicos dos contos de
fadas, podemos nos identificar com eles e vivenciar os nosso dilemas
mais profundos, relacionados aos temas de nossas COEX, temas esses
comuns a todas as crianças de todas as culturas (medo da morte,
medo do abandono, rivalidade fraterna, relação com os
pais, complexo de inferioridade, desenvolvimento transpessoal e tantos
outros apresentados belamente nessas histórias), o que nos
sugeriria a sua origem no inconsciente coletivo.
É importante salientarmos que a conexão entre as experiências
perinatais, em seus vários estágios, e os temas simbólicos
não é baseada numa semelhança externa, mas no
fato de compartilharem os mesmos sentimentos emocionais e sensações
físicas.
Era uma vez... Violeta, uma linda menina que chegou ao nosso consultório
com medo de ladrões e de monstros, apesar de saber que o ladrão
não poderia entrar pela grade da janela e que monstros não
existem. Os seus pais são separados e sua mãe estava
pensando em ir morar num país distante junto com os dois filhos
(Violeta e seu irmão mais novo), o que a estava deixando muito
ansiosa e triste, com medo de ficar longe do pai. Porém, Violeta
não queria que sua mãe percebesse sua insatisfação,
pois sabia que para ela seria uma grande oportunidade profissional.
O primeiro passo para que os medos fossem sendo elaborados e integrados
em Violeta foi a possibilidade de falar sobre eles e re-significá-los.
Como ajudá-la a invocar a luz dourada que a envolvesse e a
protegesse nos momentos de medos e incertezas? Fomos buscar auxílio
no mundo da linguagem simbólica, no mundo da fantasia: surgiu
a Fada Violeta, com seus poderes mágicos, capaz de vencer qualquer
ladrão, qualquer monstro, fortificando a criança em
seus desafios. Falamos sobre a Fada Violeta, imaginamos como ela seria,
qual seria a cor de sua roupa, como seria o seu cabelo. Por fim, fomos
‘criar’ a Fada e surgiu o desenho da Fig.2 (pág.
21). No desenho do centro do círculo – que representa
o seu eu -, Violeta utilizou muito a cor lilás, que é
relacionada com o nível transpessoal; ao redor de Violeta,
o mundo externo, está bastante ameaçador, com cores
escuras e traçado não harmônico. Esse mandala
está retratando o momento de Violeta e sua esperança
no poder da Fada. Nas sessões seguintes, Violeta comentou que
sempre chamava pela Fada quando estava com medo. Até que em
uma sessão, disse-nos que não precisava mais do poder
da Fada porque não estava mais com medo. Lembramo-nos aqui
da invocação de um animal de poder para fortificar o
nosso mundo interior. Aqui, a Fada cumpriu esse papel.
Apesar da orientação de Bettelheim (1980) ser para
que a própria criança escolha seu conto de fadas, resolvemos
iniciar o trabalho com os contos através do conto João
e Maria, pois acreditamos na relação entre os acontecimentos
do mundo externo – no seu caso, o medo de separação
e abandono em relação aos pais e as dificuldades financeiras
enfrentadas por sua família -, e a riqueza do mundo interior
(aqui se aplica bem o conceito de COEX de Grof).
A mensagem implícita de João e Maria é que a
criança pode começar a confiar que algum dia dominará
por si própria os perigos do mundo, sem ser necessária
a presença dos pais. Então, a possibilidade de separação
dos mesmos torna-se menos ameaçadora e o seu processo de evolução
avança para um nível superior.
Violeta adorou o caminho de bombons feito por nós e a história.
No momento em que líamos a história, aninhou-se nas
almofadas. Quando sugerimos o desenho do mandala, estava muito mobilizada
e não conseguia entrar em contato com o seu mundo interior.
Desenhou então o mandala da Fig. 4 (pág. 21), apenas
com riscos separados, demonstrando elevado nível de ansiedade.
A tonalidade marrom marca todo o mandala, indicando uma necessidade
de segurança emocional, uma forte ligação com
as raízes da família e do lar e uma necessidade de segurança
gregária e doméstica.
Na sessão do conto Rei Midas, acreditamos na intuição
de Violeta e a estimulamos a escolher uma carta do Tarô da Criança
Interior (Fig. 5 – pág. 22). O conto não fazia
parte do livro dos Irmãos Grimm e contamo-lo oralmente. Violeta
o ouviu atentamente e depois fez seu trabalho de colagem (Fig. 6 –
pág. 22).
Através desse conto, Violeta pôde trazer à tona,
de forma disfarçada, o seu segredo da masturbação.
A colagem mostra ainda a não organização/integração
desse conflito à sua estrutura interior.
Uma das grandes perguntas de Violeta quando chegou para o trabalho
no consultório era de onde tinha vindo, como tinha entrado
na barriga da mãe. Segundo o depoimento de sua mãe,
o seu conto de fadas preferido era o de Chapeuzinho Vermelho. Depois
de atividades com a coleção de Orientação
Sexual para Crianças, Violeta esclareceu muitas das suas questões.
Sugerimos a leitura do seu conto ‘preferido’ e ela respondeu
que não era mais esse e, sim, o conto A Bela e a Fera.
Apresentado-nos uma das inúmeras possíveis interpretações
do conto de Chapeuzinho Vermelho, Bettelheim (1997) faz uma relação
entre o início da gravidez e o lobo:
“Como um feto entra no útero materno? pergunta-se
a criança, e decide que isso só pode ocorrer se a
mãe engolir alguma coisa, como o lobo.
(...)
Há uma excelente razão para que o lobo não
morra em conseqüência do corte no estômago que
liberta o que ele engoliu. O conto de fadas protege a criança
de uma ansiedade desnecessária. Se o lobo morresse quando
a barriga é aberta, como numa operação cesariana,
os ouvintes poderiam temer que uma criança, ao sair do corpo
da mãe, a matasse. Mas, como o lobo sobrevive à operação
e só morre devido às pedras pesadas, então
não há razão para ansiedades quanto ao parto.”
Como os contos de fadas não se relacionam com apenas o nível
biológico – apresentado até aqui -, gostaríamos
de ressaltar o vínculo de Chapeuzinho Vermelho com o nível
perinatal:
“Chapeuzinho Vermelho, quando cai na sedução
do lobo para agir de acordo com o princípio de prazer em
vez do da realidade, implicitamente retorna a uma forma de existência
anterior e mais primitiva. Numa forma típica dos contos de
fadas, a sua volta para um nível de vida mais primitivo é
exagerada, indo até a existência pré-natal no
útero, já que a criança pensa em extremos.”
(Bettelheim, 1997)
Podemos observar, então, como a história do lobo cumpriu
o seu papel para Violeta, ajudando-lhe a pôr ordem às
suas questões, enquanto não tinha informações
de um nível mais elevado. A partir do momento que houve a integração
do mundo externo ao seu mundo interior, o conto perdeu sua magia.
Agora as suas questões sexuais estavam ligadas à magia
do conto A Bela e a Fera, que segundo Bettelheim (1980) assegura à
criança a naturalidade da ligação edípica
com os pais, por um certo tempo, desde que, depois, durante seu processo
de desenvolvimento, a sua ligação seja transferida para
o amado. Para Bela, no conto, o contato com a Fera é repugnante.
Para a criança, o sexo é repugnante, às vezes
carregado de culpa. No caso de Violeta, além dos conflitos
edípicos, há a culpa pela masturbação.
O conto vem ao seu encontro para ajudá-la implicitamente a
organizar as suas questões interiores. O autor nos mostra que:
“Isto antecipa de séculos o enfoque freudiano de que
a criança vivencia o sexo como repulsivo enquanto seus anseios
sexuais estiverem ligados aos pais, porque só uma atitude
negativa quanto ao sexo pode fazer assegurar o tabu do incesto,
e com isto a estabilidade da família. Mas, depois de desligá-lo
dos pais e dirigi-lo a um companheiro de idade adequada no desenvolvimento,
os anseios sexuais parecem animalescos; ao contrário, são
vivenciados como lindos.”
Ao desenhar o mandala (Fig. 11 – pág. 24) após
a leitura desse conto, Violeta verbalizou que “não quero
fazer de dia”. Suspeitamos que estava se referindo à
sua masturbação noturna, o que nos foi confirmado em
sessão subseqüente, quando conversamos sobre o tema.
A cor que predomina no mandala é a cinza, associada nas interpretações
à culpa, o que está em conexão com o tema que
Violeta traz em relação à sua sexualidade. Há
ainda vários portões que protegem a entrada no castelo,
onde vivem Bela e a Fera.
Os contos de fadas fornecem exatamente o que a criança mais
precisa: começam exatamente onde a criança está
emocionalmente, mostram-lhe para onde ir e como fazê-lo.
A Pequena Vendedora de Fósforos foi o conto escolhido por
Violeta num outra sessão. A história conta as dificuldades
financeiras de uma criança que tenta vender os fósforos
numa noite de Natal. Com está muito frio, ela começa
a riscá-los para se aquecer e vai enxergando os acontecimentos
felizes que ocorrem em diversas situações natalinas.
Durante a noite de Natal, a menina morre e sua avó, já
falecida, vem ao seu encontro, aliviando-a de todas as suas preocupações.
Entendemos que o seu encantamento por esse conto deveu-se às
semelhanças entre as dificuldades financeiras e limitações
que a Vendedora enfrentava no conto e a sua realidade atual. Há
ainda a questão da morte, vista no conto como uma possibilidade
de transformação.
Violeta nos avisou que a história seria triste, mas na sua
leitura não imprimimos um tom de tristeza na hora da morte.
Conversamos sobre o tema ‘morte’ e, ao desenhar o mandala
(Fig. 9 – pág. 23), Violeta o fez com um traçado
bem suave, usando as cores azul e amarelo. O azul sugere calma e paz,
incitando a nossa intuição a entender o imenso esquema
do qual fazemos parte; o azul também está ligado à
mãe e à vida intra-uterina, onde nada nos falta e estamos
plenos; a tonalidade clara do azul pode sugerir amor incondicional,
zelo e compaixão. O amarelo é a cor do Sol e os eu poder
e calor são simbolizados nessa cor; sugere a capacidade de
compreender e imaginar coisas que não vê; para os junguianos,
o amarelo é a cor da intuição; está também
relacionado com a imagem do pai e com o princípio ativo; está
associado com o desenvolvimento da autonomia.
Essas possíveis interpretações do mandala correspondem
também ao momento de vida de Violeta, com um bom relacionamento
com o pai e se sentindo segura com a mãe. No nível transpessoal,
integrou de forma harmoniosa o tema ‘morte’. Quando foi
questionada sobre o sentimento que o mandala lhe transmitia, respondeu
que de alegria.
Violeta começou, então, uma história, à
medida que desenhava (Fig. 10 – pág. 24) em que um pescador
enfrentava os perigos do mar, lutava, sobrevivia e ainda conseguia
pescar peixe para alimentar a família.
Fordham (2001) nos mostra que a identificação e introjeção
das imagens dos contos de fadas pela criança são seletivas
e compreendem apenas as partes das imagens que a criança podem
usar e assimilar:
“É aqui que se supõe que os arquétipos
ativos no inconsciente entrem em operação, ajudando
o ego a produzir combinações ‘originais’
relevantes ao seu estágio de amadurecimento e à sua
reação aos pais.”
Os contos de fadas retratam o ciclo do desenvolvimento humano na
perspectiva junguiana de individuação e todo o ciclo
do mapa de Grof para o psiquismo humano. Na cartografia de Grof temos
o nível biográfico - com suas COEX, seus dilemas existenciais,
seus temas específicos -, o nível perinatal –
com todas as matrizes perinatais básicas, os arquétipos,
e o nível transpessoal – com a necessidade de transformação
e transcendência do ego. Jung, citado por Stein (2000), afirma
que a energia física dos instintos associada às imagens
arquetípicas ajudam a realizar:
“a meta espiritual para a qual tende a natureza inteira do
homem; é o mar em direção ao qual todos os
rios percorrem seus acidentados caminhos; é o prêmio
que o herói conquista em sua luta com o dragão”.
Bruno Bettelheim (1980) nos abriu um enorme caminho de possibilidades
de uso do conto de fadas no trabalho terapêutico com crianças,
incitando-nos a usá-los para confortá-las e estimulá-las
a imaginar um futuro de modo otimista, para que não fiquem
presas na impossibilidade de seu desenvolvimento:
“Embora a fantasia seja irreal, os bons sentimentos que ele
nos dá sobre nós mesmos e nosso futuro são
reais, e estes bons sentimentos reais são o de que necessariamente
necessitamos para sustentar-nos.
(...)
Nos contos de fadas, à diferença dos mitos, a vitória
não é sobre os outros, mas apenas sobre si mesmo e
sobre a vileza (principalmente a própria, que é projetada
como o antagonista do herói). É nisto que deveria
consistir a maturidade: uma pessoa a se governar sabiamente, e,
como conseqüência, vivendo feliz.”
A brincadeira com a tenda e o túnel procurou reviver simbolicamente
o momento do parto. Violeta gostou bastante de participar e desenhou
o mandala da Fig. 15 (pág. 25), onde escreveu FELIZ com cores
fortes; ao redor, um fundo azul claro e riscos vermelhos em torno
do nome, o que sugeriria uma certa agressividade no momento do nascimento,
apesar de um ambiente externo receptivo.
Na sessão em que Violeta brincou de ser a Fada e assumir o
seu poder, participou ativamente dessa troca de papéis e desenhou
o mandala da Fig. 16 (pág. 26), onde se colocava como bebê
na floresta da fada. O desenho nos traz um sentimento de harmonia
e segurança, com o verde – a cor do equilíbrio
– predominando; as árvores têm caules firmes e
suas raízes estão fortemente firmadas no chão.
Agora, Violeta, graças ao poder de sua Fada, pode transitar
com segurança nos lugares mais escuros e perigosos, como as
florestas, pois se sente segura para enfrentar sozinha, como está
no desenho, todos os perigos.
Ao falarmos sobre o toque no seu próprio corpo, em uma outra
sessão, Violeta assumiu essa postura com tranqüilidade.
Surgiu o tema do nascimento e fomos olhar os desenhos da coleção
infantil de Orientação Sexual, onde havia um deles que
mostrava todo o processo de gestação e nascimento e
uma criança com ciúmes do irmão mais novo. Violeta
fez, então, os mandalas das Fig. 17 (pág. 26), Fig.
18 (pág. 27) e Fig. 19 (pág. 27). No primeiro mandala,
Violeta utilizou um traçado com uma cor (marrom) sobre a outra
(verde escuro) e escreveu que estava com ciúmes; o mandala
nos transmite um sentimento de opressão e confusão,
sendo esse também o sentimento de Violeta para com seu irmão,
mas que não é assumido, sendo sempre a irmã boazinha
e cuidadora. Fez, em seguida, o segundo mandala retratando o seu parto
e utilizando a cor preta – símbolo da escuridão,
da morte, do mistério, do início obscuro de qualquer
processo de transformação e da passagem do nada para
o nascimento como ser humano; o preto é um símbolo para
o inconsciente e revela o processo de integração dos
aspectos obscuros e sombrios à percepção de quem
somos. Sobre o preto, Violeta usou o branco, dando um aspecto perolado
ao mandala, o que pode indicar um processo de síntese e que
a pessoa pode já ter vivenciado esse evento – o que era
o caso de Violeta. O terceiro e último mandala traz a agressividade
do vermelho, natural ao momento do parto, e cores suaves e agradáveis
a Violeta, o que está de acordo com o seu relato e o dos seus
pais quanto ao seu nascimento, como um momento muito feliz para todos.
Na repetição da brincadeira da tenda, a pedido de Violeta,
ela se divertiu bastante e fez o mandala da Fig. 20 (pág. 27),
onde escreveu ALEGRE e FELIZ, em azul e dourado, respectivamente.
Há um traçado em lilás, o que nos conecta com
a espiritualidade do momento e com o poder da transformação,
da morte – de um tipo de vida – e do nascimento –
para uma outra forma de viver.
A revivência simbólica do nascimento através
da brincadeira da tenda e o uso dos mandalas possibilitaram para Violeta
a re-significação do momento traumático do nascimento,
integrando-o intuitivamente ao seu mundo interior. Essa linguagem
simbólica foi, também, associada a informações
do mundo externo – quando do trabalho com os livros infantis
de Orientação Sexual – e com a fala da criança
e de seus pais.
Diante de tudo o que apresentamos e discutimos, acreditamos que o
uso de mandalas, vivências corporais, troca de papéis,
aliados aos contos de fadas, são ferramentas poderosas para
o desenvolvimento do mundo interior das crianças no caminho
de seu processo de individuação, além de ajudá-las
a integrar o trauma de seu nascimento ao seu universo psíquico.
Sugerimos trabalhos, onde outros contos possam ser usados e o desenvolvimento
de atividades que ajudem às crianças na integração
de seus conflitos e de sua alma nos níveis biográfico,
perinatal e transpessoal.
Onde encontrar mais informações
As coisas estão no mundo.
Eu é que preciso aprender.
Paulinho da Viola
Alt, C. B. (2000). Contos de fadas e mitos: um trabalho com grupos,
numa abordagem junguiana. – São Paulo: Vetor
Amarilha, M. (1997). Estão mortas as fadas? – Petrópolis,
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- São Paulo: Ágora
Bettelheim, B. (1980). A psicanálise dos contos de fadas.–
Rio de Janeiro: Paz e Terra
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femininos (extraído da obra A psicanálise dos contos
de fadas) – Rio de Janeiro: Paz e Terra
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os contos de fadas influenciam nossas vidas. – Rio de Janeiro:
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dinâmicas e vivências na ação pedagógica.
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leitura. –Porto Alegre: Artmed
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