UNIVERSIDADE
FEDERAL DE PERNAMBUCO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA COGNITIVA
Patrícia Vasconcellos Pires
Ferreira
Abordagem Psicológica do Problema de Aprendizagem Escolar:
O que nos ensina a criança que não aprende?
Dissertação apresentada ao
Programa de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva
da Universidade Federal de Pernambuco,
como requisito parcial para a obtenção
do grau de Mestre em Psicologia.
Orientador: Prof. Dr. Jorge Tarcísio da Rocha
Falcão.

Para Richard Bach, ‘longe é um lugar que
não existe’.
Também penso/sinto assim e, por isso, gostaria de dedicar esse
trabalho
aos meus primeiros mestres: meu pai e minha mãe,
Theophilo e Eremita.
Agradecimentos
O ato de agradecer tem algo de mágico, pois nos mostra o quanto
somos Uno e quantas pessoas estiveram ao nosso lado na conquista de
nossos objetivos. Por isso, a minha lista de agradecimentos vai ser
enorme. Gostaria de expressar o meu sentimento de gratidão
para:
A energia Divina, que sempre me inspirou e conduziu;
Almir, Gabriela, Rodrigo e Pedro, amados companheiros de viagem;
Henrique e Andréa, que me ensinaram a compartilhar;
Guiomar e Armando, que me ensinaram o amor pelos livros;
Rita e Maria, que me ensinaram o valor do cuidar;
Os meus mestres dos livros, pelas idéias que fizeram minha
cabeça ferver e meu coração bater mais rápido;
Os meus mestres escolares, que me conduziram com respeito;
Alba Guerra e Zeferino Rocha, mestres do inconsciente;
Os meus amigos, que entenderam minhas ausências;
Os meus primeiros orientadores, Paulo Gileno Cysneiros e Lúcia
Lins;
O meu amigo Ramón Oliveira, pela oportunidade de ficar chocada
com o tipo de texto que é uma dissertação;
Patrícia Lira, por me mostrar que era possível falar
de Freud nesse Programa;
Glória Carvalho, mestra e amiga, que me acolheu com doçura
no campo árido da pesquisa;
Béia, Priscila, Zebina, Henrique e Leonardo (SD), pelos momentos
compartilhados;
Jorge Falcão, meu querido orientador, por ter suportado as
minhas inquietações e ter compartilhado comigo encontros
inesquecíveis, onde eu recarregava as minhas energias e acreditava
que ainda valia a pena fazer ciência;
As escolas, as professoras e as crianças que compartilharam
comigo sua singularidade.
Para todos vocês, o meu eterno amor.
A ciência, a ciência, a ciência...
Fernando Pessoa
A ciência, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com quanto esforço dado ralha!
Contra o pesar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que a alma dá e tem.
In: Pessoa, F. (1981). Obra poética. – Rio de Janeiro:
Aguilar (p. 455)
FERREIRA, P. V. P. Abordagem Psicológica do Problema de Aprendizagem
Escolar: O que nos ensina a criança que não aprende?
(2004). 186 f. Dissertação (Mestrado) - Departamento
de Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2004.
Resumo
Este trabalho teve por objetivo investigar os problemas de aprendizagem
escolar de crianças da segunda série do Ensino Fundamental,
a partir do olhar da Psicologia, entrelaçando cognição
e afetividade. Apesar de o fracasso escolar ter múltiplas causas,
fizemos o recorte para a situação em que o mesmo assume
a forma de sintoma, denunciando, na linguagem da nossa sociedade,
o seu mal-estar. Entrevistamos professoras e seus alunos, seguindo
um roteiro básico, e solicitamos que os mesmos desenhassem
uma situação de ensino-aprendizagem; para as crianças
solicitamos, também, o desenho de suas famílias. Todos
esses dados foram interpretados tendo como corpo teórico principal
a proposição de Alícia Fernandez, segundo a qual
a criança que não consegue aprender pode estar se defendendo
de algo que não pode traduzir em palavras. Também baseamos
as nossas reflexões nas idéias de Jean Piaget, Sigmund
Freud, L. Vygotsky, Jerome Bruner, Antonio Damásio, Anny Cordié,
Sara Paim, no que se refere às possíveis articulações
entre a cognição e afetividade no processo de aprendizagem.
Observamos que as professoras têm a compreensão de que
o fracasso escolar de seus alunos pode ultrapassar as questões
pedagógicas, sendo perpassado pela afetividade. Por diferentes
caminhos, as crianças nos deram pistas das possíveis
causas do seu sintoma. Acreditamos que a Psicologia tem um importante
papel a desenvolver nas comunidades escolares, ajudando na compreensão
mais ampla do problema de aprendizagem, assim como, junto às
famílias, favorecendo uma re-elaboração da relação
da criança com a aprendizagem escolar.
Palavras-chaves: cognição; afetividade; fracasso escolar.
FERREIRA, P. V. P. Psychological boarding of the Problem of Pertaining
to school Learning: What in the child teaches to them who does not
learn? (2004). 186 f. Dissertation (Master) – Departamento de
Psicologia, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2004.
Abstract
This work had for objective to investigate the school learning problems
pertaining to children of second year of Basic School, from the Psychology
look, and its connection between cognition and affectivity. Although
the school failures have multiples causes, we made a cut out for situations
where it assumes the symptom form, denouncing, in the language of
our society, its malaise. We interview teachers and its pupils, following
a basic script, and request that the same ones drew one situations
of teach-learning; for children we request, also, the drawing of their
families. All these data had been interpreted having as main theory
body the idea of Alícia Fernandez, according to which children
who have learning problems can be defending yourself of something
that can not be translate in words. We also base ours reflections
in the ideas of Jean Piaget, Sigmund Freud, L. Vygotsky, Jerome Bruner,
Antonio Damásio, Anny Cordié, Sara Paim, in which there
is a possible link between cognition and affectivity in the learning
process. We observe that the teachers have a comprehension of pupils
school failure can be beyond question of learning, pass by the affectivity.
We believe that Psychology has an important paper to develop in the
pertaining to school communities, helping in comprehension ampler
of the problem of learning, as well as, together families, favoring
one re-elaboration of relation of child with the pertaining to school
learning.
Key-words: cognition; affectivity; failure pertaining to school.
1. Introdução
(a) Panorama geral
Crianças com dificuldades de aprendizagem estão sendo
uma constante nas escolas. Os professores responsabilizam as estruturas
familiares das crianças – os pais vivem ausentes, a família
não estimula a criança a aprender, os pais são
separados -, ou ainda, pontuam problemas nas próprias crianças
– dificuldade de concentração, problema neurológico,
déficit de inteligência ou ‘preguiça’
-.
Por outro lado, as famílias, assustadas com o mau resultado
escolar de seus filhos, procuram justificativas para o problema na
falta de formação dos professores, no enorme número
de alunos nas salas de aulas, na falta de estrutura das escolas, na
‘burrice’ dos filhos. Quando é ‘diagnosticada’
pela escola a dificuldade de aprendizagem da criança, a família
assume o mau resultado escolar e começa a longa peregrinação
pelos encaminhamentos técnicos que tentam ‘consertar’
o defeito da criança.
Mas o que está querendo dizer, simbolicamente, uma criança
que apresenta uma dificuldade para aprender na escola? O mau resultado
escolar, o não acompanhar a turma da escola no que diz respeito
aos conteúdos programáticos e ao ritmo das habilidades
a serem desenvolvidas pelo grupo, afeta a criança em sua totalidade.
Então, quem é essa criança que escolhe essa maneira
para sofrer? Qual foi a satisfação a que a criança
renunciou? E por que teve de renunciar a ela?
Ora o mau resultado escolar, representado muitas vezes pelas notas
baixas no boletim, pode ocorrer como uma reação ao sistema
educacional vigente, onde a criança é obrigada a assumir
uma postura de objeto e a se entregar ao sistema de produção
em massa da maioria de nossas escolas, ora pode ocorrer devido a causas
de ordem biológica, já que problemas nessa esfera podem
comprometer o desenvolvimento integral da criança, interferindo
assim em seu processo de aprendizagem. Existe ainda a possibilidade
de esse mau resultado escolar ocorrer devido a uma impossibilidade
simbólica do aprender, pois há algo no inconsciente
da criança que encontra no sintoma ‘dificuldade
de aprendizagem’ o caminho para revelar-se. É exatamente
a dificuldade de aprendizagem como sintoma que enfocamos na nossa
investigação e que é denominada por Fernandez
(2001b) de problema de aprendizagem.
Durante o nosso trabalho, estamos definindo as dificuldades de aprendizagem
como sendo fraturas no aprender, compartilhando a definição
de Fernandez (2001b, p. 52):
“Fomos estabelecendo uma diferença entre o fracasso
de aprendizagem, ancorado no sistema educativo, o qual, por isso,
preferimos chamar fracasso escolar, e o fracasso na aprendizagem
ancorado na criança e seu meio familiar. Reservamos o nome
de problema de aprendizagem apenas para esse último.”.
Em 1926, Freud (1989, v. XX, p. 107), em seu artigo Inibições,
Sintomas e Ansiedade, define um sintoma como derivado e substituto
de um impulso reprimido:
“A inibição tem uma relação especial
com a função, não tendo necessariamente uma
implicação patológica. Podemos muito bem denominar
de inibição a uma restrição normal de
uma função. Um sintoma, por outro lado, realmente
denota a presença de algum processo patológico. Assim,
uma inibição pode ser também um sintoma. O
uso lingüístico, portanto, emprega a palavra inibição
quando há uma simples redução de função,
e sintoma quando uma função passou por alguma modificação
inusitada ou quando uma nova manifestação surgiu desta.
Que existe uma relação entre a inibição
e a ansiedade é algo evidente. Algumas inibições
obviamente representam o abandono de uma função porque
sua prática produziria ansiedade.
(...)
No tocante às inibições, podemos então
dizer, em conclusão, que são restrições
das funções do ego que foram ou impostas como medida
de precaução ou acarretadas como resultado de um empobrecimento
de energia; e podemos ver sem dificuldade em que sentido uma inibição
difere de um sintoma, porquanto um sintoma não pode mais
ser descrito como um processo que ocorre dentro do ego ou que atua
sobre ele.
(...)
Um sintoma é um sinal e um substituto de uma satisfação
instintual que permaneceu em estado jacente; é uma conseqüência
do processo de repressão. A repressão se processa
a partir do ego quando este — pode ser por ordem do superego
— se recusa a associar-se com uma catexia instintual que foi
provocada no id.”
Então, o que está reprimido no inconsciente, quando
a criança faz o sintoma de problema de aprendizagem? Para Fernandez
(1990), as crianças que, não possuindo nenhum problema
orgânico, não conseguem aprender, estão se defendendo
contra algo que não podem traduzir em palavras. O não
aprender pode significar uma falta de possibilidade de conhecer sua
origem no mundo, uma recusa em denunciar o que não pode ser
dito (como um segredo familiar), uma recusa a ser devorado pelo Outro
(como uma mãe dominadora), uma tentativa de resgate de seu
lugar no mundo.
A partir dessas reflexões procuramos nesse trabalho aprofundar
a compreensão dos problemas de aprendizagem em contexto escolar,
construindo uma abordagem que sugeriu possíveis relações
entre as dimensões afetivas e cognitivas do pensamento no processo
de aprendizagem de uma criança. Procuramos, ainda, descrever
e analisar obstáculos à aprendizagem que se relacionassem
tanto com aspectos ligados à conceptualização
estrito senso, como com aspectos ligados à motivação
e atitude do aluno diante do conhecimento, à sua história
pessoal, ao seu acervo de experiências escolares e extra-escolares.
Partilhamos da posição de Mannoni e Lacan, referida
em Bossa (2002, p. 31), segundo a qual “as relações
do homem com o seu semelhante são determinadas pelo inconsciente
e essas mesmas relações são também determinadas
pelo contexto socioeconômico, político e, acrescentamos,
cultural”.
Sendo assim, acreditamos ser de fundamental importância que
o enfoque de nossa investigação contemplasse a subjetividade
do professor e a subjetividade do aluno, construídas a partir
do meio sócio-cultural em que estavam inseridos.
Por isso, selecionamos as idéias de Freud (no que se refere
ao homem como sujeito do inconsciente), de Piaget (quando entende
o homem como construtor de seu conhecimento), de Vygotsky (quando
coloca a importância do contexto cultural na formação
da subjetividade humana), de Bruner (quando nos traz a importância
do ‘historiar-se’ para o desenvolvimento da subjetividade
humana) e de Damásio (com suas contribuições
sobre as relações da razão e da emoção
no cérebro e na mente) como norteadoras do nosso trabalho.
Cordié, Paim e Fernandez nos ajudaram com articulações
entre as idéias das teorias e as práticas de atendimento
com crianças que apresentavam o sintoma ‘problema de
aprendizagem’. Reconhecemos o desafio e as dificuldades que
se apresentam quando tentamos dialogar com autores tão diversos,
onde, algumas vezes, os conceitos de cada um sobre determinado tema
tornam-se inconciliáveis com os dos outros. Além disso,
a Psicanálise apresenta um conjunto próprio de conhecimento
e, como não somos psicanalistas, não conhecemos seu
corpo teórico em profundidade. O que fizemos em nosso trabalho
foram tentativas de aproximações, parafraseando o mestre
Zeferino Rocha, nosso professor na graduação de Psicologia
na Universidade Federal de Pernambuco.
(b) Afetividade e Cognição
Afetividade e Cognição são dois eixos de trabalho
e pesquisa na Psicologia que durante muito tempo foram considerados
irreconciliáveis. Há não muito tempo atrás,
a ciência tomou para si a palavra de verdade sobre o funcionamento
do universo, do mundo e do homem, baseando-se em dados que pudessem
ser verificados com objetividade. Em relação ao campo
da Psicologia, começamos as investigações com
comportamentos observáveis, tendo como principal escola o Behaviorismo.
Sentimos, porém, a necessidade de compreendermos melhor o que
ocorria no interior do ser humano para que o mesmo manifestasse determinado
comportamento. Surgiu a Psicologia Cognitiva e passamos para o enfoque
dos processos cognitivos como a percepção, a memória,
o raciocínio lógico, a inteligência e a resolução
de problemas. O caminho seguido pela Psicologia nos ajudava na compreensão
do desenvolvimento do pensamento e da razão humana, como características
universais. Piaget foi um representante, por excelência, desse
caminho da Psicologia com seus estudos sobre a epistemologia genética.
Então, surgiu Vygotsky mostrando-nos que talvez nosso desenvolvimento
não seja tão universal assim, mas que seja extremamente
vinculado ao contexto cultural no qual estamos inseridos e bastante
influenciado por uma instrução formal.
Apesar de Freud desde o final do século XIX ter nos trazido
a “peste”, a Psicologia científica – objetiva
e baseada em dados concretos – continuou ignorando a dimensão
afetiva do ser humano; não dissemos que ela não existia,
mas entendemos que a razão humana poderia ser estudada sem
articulação alguma com os aspectos “emocionais”
do ser humano. Um outro ponto que não foi enfatizado nos estudos
psicológicos da razão humana foi o corpo. A Psicologia
Cognitiva “se esqueceu” de que todos os processos da razão
humana ocorrem num cérebro. Luria e seus colaboradores procuraram
diminuir essa lacuna e nos trouxeram contribuições importantes
para a compreensão dos processos neuropsicológicos do
ser humano.
Hoje, já no século XXI, a ciência tem nos mostrado
que não podemos continuar compreendendo o ser humano de uma
forma tão fragmentada, ou ainda, tão cartesiana, dividido
entre a emoção e a razão.
Damásio (1996, p. 195) nos diz que:
“Não vejo as emoções e os sentimentos
como entidades impalpáveis e diáfanas, como tantos
insistem em classificá-los. O tema é concreto, e sua
relação com sistemas específicos no corpo e
no cérebro não é menos notável do que
a da visão ou da linguagem.”.
Piaget (1996), com seus estudos sobre a epistemologia genética,
demonstrou, com rigor científico, o desenvolvimento cognitivo
infantil, dentro de uma perspectiva lógico-formal. Para Piaget
as atividades mentais, assim como as atividades biológicas,
têm como objetivo a nossa adaptação ao meio em
que vivemos. De acordo com Wadsworth (1993, p. 11):
“Piaget considerou o desenvolvimento cognitivo como tendo
três componentes: Conteúdo é o que a criança
conhece. Refere-se a comportamentos observáveis – sensório-motor
e conceitual – que refletem atividade intelectual. Pela sua
natureza, o conteúdo da inteligência varia consideravelmente
de idade para idade e de criança para criança. Função
refere-se àquelas características da atividade intelectual
– assimilação e acomodação –
que são estáveis e contínuas no decorrer do
desenvolvimento cognitivo. Estrutura refere-se às propriedades
organizacionais inferidas (esquemas) que explicam a ocorrência
de determinados comportamentos.”
Toda criança, a partir dessa perspectiva, nasceria com alguns
esquemas básicos – reflexos – e na interação
com o meio iria construindo o seu conhecimento a respeito do mundo,
desenvolvendo e ampliando seus esquemas. Os esquemas cognitivos do
adulto derivam dos esquemas da criança e os processos responsáveis
por essa mudança são assimilação e acomodação.
Assimilação é o processo cognitivo pelo qual
uma pessoa integra um novo dado perceptual, motor ou conceitual nos
esquemas ou padrões de comportamento já existentes.
A acomodação é a criação de novos
esquemas ou a modificação de velhos esquemas. Wadsworth
(1993, p. 7) nos diz que:
“A acomodação explica o desenvolvimento (uma
mudança qualitativa), e a assimilação explica
o crescimento (uma mudança quantitativa); juntos eles explicam
a adaptação intelectual e o desenvolvimento da estrutura
cognitiva.”
Apesar de entender que o desenvolvimento intelectual envolve sempre
os aspectos cognitivo e afetivo, Piaget considerava a afetividade
com um agente motivador da atividade intelectual e, também,
como um agente selecionador da mesma, pois acreditava que toda atividade
intelectual é sempre dirigida a objetos ou eventos particulares.
Na visão piagetiana essa escolha não é provocada
pelas atividades cognitivas, mas pela afetividade.
Piaget (1980, p. 103) nos diz:
“... a afetividade constitui a energética das condutas,
cujo aspecto cognitivo se refere apenas às estruturas. Não
existe, portanto, nenhuma conduta, por mais intelectual que seja,
que não comporte, na qualidade de móveis, fatores
afetivos; mas, reciprocamente, não poderia haver estados
afetivos sem a intervenção de percepções
ou compreensão, que constituem a estrutura cognitiva. A conduta
é, portanto, uma, mesmo que, reciprocamente, esta não
tome aquelas em consideração: os dois aspectos afetivo
e cognitivo são, ao mesmo tempo, inseparáveis e irredutíveis”.
De acordo com essa postura teórica, Wadsworth (1993, p. 23)
nos diz que “à medida que os aspectos cognitivos se desenvolvem,
há um desenvolvimento paralelo da afetividade. Os mecanismos
de construção são os mesmos. As crianças
assimilam as experiências aos esquemas afetivos do mesmo modo
que assimilam as experiências às estruturas cognitivas.
O resultado é o conhecimento”.Apesar de Piaget considerar
que o conhecimento é construído pela criança
em sua interação com o meio, acreditava que todas as
crianças se desenvolvem, através de estágios
– formas de apreensão da realidade – até
atingirem o pensamento formal, onde são capazes de pensar sobre
o pensar. Vygotsky concordava com Piaget a respeito da construção
de conhecimento pela criança e da importância de sua
ação sobre o meio. Porém, diferentemente de Piaget,
Vygotsky acreditava que o meio exerceria uma enorme influência
sobre o desenvolvimento infantil. Daí a importância que
Vygotsky deu à educação formal como uma maneira
de promoção desse desenvolvimento. Oliveira (2001, p.
38) nos mostra que para Vygotsky:
“A interação face a face entre indivíduos
particulares desempenha um papel fundamental na construção
do ser humano: é através da relação
interpessoal concreta com outros homens que o indivíduo vai
chegar a interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento
psicológico. Portanto, a interação social,
seja diretamente com outros membros da cultura, seja através
dos diversos elementos do ambiente culturalmente estruturado (ferramentas),
fornece a matéria-prima para o desenvolvimento psicológico
do indivíduo.”.
Concordando com Vygotsky quanto à importância da cultura
para a formação psicológica do indivíduo,
Bruner discute a idéia de que apesar da psicologia humana precisar
considerar o desenvolvimento humano enquanto processo biológico
intrínseco à espécie, essa mesma psicologia não
pode deixar de considerar os aspectos da cultura na qual todo ser
humano está inserido. Bruner (1997a) considera que existem
duas formas pelas quais as “instruções”
sobre como devemos nos desenvolver – enquanto humanos –
são repassadas de geração a geração:
uma é o genoma e a outra é a cultura. O homem está
sempre “condicionado” pelo seu genoma e pela sua cultura,
esta última oferecendo modos de desenvolvimento possíveis
para a atuação da sua maleável herança
genética.
Logo, a psicologia humana não poderia deixar de ser uma psicologia
cultural. Enfatiza Bruner (1997b, p. 141) que “dizer, então,
que uma teoria do desenvolvimento é independente da cultura
não é fazer uma afirmação errada, mas
absurda”.
Um outro ponto que esse teórico considera fundamental numa
visão cultural do desenvolvimento humano é o papel da
intersubjetividade – como os seres humanos passam a conhecer
a mente uns dos outros. Sugere, então, a idéia de psicologia
cultural, onde a realidade externa (objetiva) só pode ser conhecida
pelas propriedades da mente e pelos sistemas de símbolos nos
quais a mente se baseia. Um outro olhar de Bruner para as questões
subjetivas da mente está em suas considerações
sobre as relações existentes entre emoção
e sentimento e cognição, pois para ele a cognição
não os descarta e os representa nos processos de produção
de significados e em nossas construções da realidade.
Para Bruner (2001, p. 43) “a narrativa, a invenção
de histórias, é o modo de pensar e sentir que ajuda
as crianças e as pessoas a criar uma versão do mundo
no qual, psicologicamente, elas podem vislumbrar um lugar para si
– um mundo pessoal”. O autor entende a narrativa como
um modo de pensamento e como um veículo de produção
de significado. Para ele existem duas formas pelas quais os seres
humanos organizam e estruturam seu conhecimento do mundo: uma está
mais voltada para tratar as coisas físicas (pensamento lógico-científico);
a outra, para tratar de pessoas e de suas condições
(pensamento narrativo). Bruner acredita que como são características
universais, apesar de se manifestarem de formas diferentes em diferentes
culturas, têm suas raízes no genoma humano. As escolas
têm privilegiado o pensamento lógico-científico,
deixando para o pensamento narrativo um papel secundário. Porém,
a importância da narrativa para a coesão de uma cultura
é tão grande quanto o é para a construção
da história de um indivíduo. Então, precisamos
desenvolver nas crianças a habilidade de construção
e compreensão de narrativas, pois assim estaremos promovendo
sua compreensão de si própria e de seu lugar no mundo.
Para Piaget a afetividade atua no desenvolvimento intelectual na
forma de motivação e interesse; para Vygotsky, a afetividade
atua na construção das relações do ser
humano dentro de uma perspectiva social e cultural; já para
Bruner, a afetividade é fundamental para o desenvolvimento
humano, tanto no que se refere às questões intersubjetivas
quanto à forma do pensamento intuitivo ou narrativo, onde o
homem constrói a sua história através da elaboração
de significados compartilhados. Porém, todos esses autores
abordam apenas a dimensão consciente da mente humana. E a dimensão
inconsciente? Vamos a Freud.
Desde que Freud nos apresentou as suas idéias sobre o nosso
psiquismo, sabemos que o ser humano não é constituído
apenas pelos mecanismos racionais e conscientes de sua mente . Há
a dimensão inconsciente que sempre permeia esta constituição.
Então, para Freud, o pensamento humano está sempre articulado
com as dimensões consciente e inconsciente da mente.
Etimologicamente, inteligência vem do latim legere, escolher.
A questão da escolha está no centro das operações
intelectuais. Cordié (1996, p. 127 - 128) esclarece:
“Lacan dá a inter-legere o sentido de ‘ler entre
as linhas’. Ele nos lembra, através disso, que o entendimento
se situa bem além das palavras e de seu sentido literal;
o outro discurso, aquele do inconsciente, impregna não somente
os sonhos, mas participa, de forma ativa, nas operações
cognitivas. Ser inteligente é saber ler entre as linhas,
entender o que é dito além das palavras.”.
Para Freud, a paixão pelo saber origina-se da curiosidade
infantil sobre sua origem. DE ONDE VIEMOS? “Qual é a
minha origem em relação ao desejo de vocês?”
PARA ONDE VAMOS? “Por que me puseram no mundo, para atender
a quais expectativas e esperando que eu me torne o quê?”.
Em 1900, Freud, em seu texto Três ensaios sobre a sexualidade
(1989, vol. VII, p. 182), diz-nos que “A criança se apega
aos problemas sexuais com uma intensidade imprevista, e se pode mesmo
dizer que esses são os problemas que DESPERTAM sua inteligência”
(grifo nosso). Para ele, ao final do Complexo de Édipo a investigação
sexual é reprimida; porém parte de sua energia é
sublimada em Pulsão de Saber. Agora a criança quer conhecer
o mundo.
Vemos aqui que não podemos compreender o pensamento humano
a partir apenas de uma ótica racionalista, pois a afetividade
permeia todo esse processo, inclusive na sua dimensão inconsciente.
Dolle (1993, p. 123) nos diz que:
“Nada menos próximo da inteligência real do
que a inteligência segundo os psicólogos. Na primeira,
o coração, pelo menos, tempera o rigor dedutivo! Em
compensação, nada mais falso do que assimilar afetivamente
à subjetividade e atividade racional ou conhecimento à
objetividade. A interação sujeito-objeto vem a propósito
para retificar essas aberrações. É na dialética
interativa sujeito-objeto que se constitui e se constrói
a dialética da objetividade e da subjetividade onde se vê
que uma compreende sempre a outra, e reciprocamente.
...
Os sistemas de significação são afetivos, cognitivos,
sociais, biofisiológicos, isto é, especificamente
afetivos, cognitivos, etc., e interativamente afetivos, cognitivos,
etc.”.
Porém, Paim (1999, p. 13) nos mostra que as idéias
de Freud e Piaget não podem formar um único sistema:
“De um lado, a teoria genética da inteligência,
e, de outro, a psicanálise, são precisamente irredutíveis,
visto que uma apóia-se sobre a lógica da ação,
enquanto que a outra, sobre a realização do desejo,
estando as condições da verdade, para cada uma delas,
nas leis próprias a seus objetos”.
Dentro do contexto da educação, o entendimento sobre
as emoções e sobre seu papel na vida tem ocupado um
lugar secundário quando nos referimos à percepção,
à memória, ao pensamento e à linguagem. Oatley;
Nundy (2000, p. 226) nos mostram que:
“Além de oferecerem repertórios de prontidão
e ação para certos tipos de situações
que ocorram periodicamente na vida de nossa espécie (como
conquistas, perdas, frustrações, ameaças),
cada emoção também tem um efeito cognitivo:
ela influencia nossas interpretações de nosso ambiente
e torna disponíveis certos recursos cognitivos que permitem
que os indivíduos reformulem seus planos e ações
atuais.”
Para Wallon, afetividade e inteligência são duas funções
que estão intimamente relacionadas. Para ele, ambas têm
o seu desenvolvimento dependente da ação de dois fatores:
o orgânico e o social. Almeida (2002), discutindo o conceito
de afetividade na obra de Wallon, diz-nos que a mesma está
sempre relacionada aos estados de bem-estar e mal-estar do indivíduo,
manifestando-se através das emoções, das paixões
e dos sentimentos. A emoção é a forma de expressão
da afetividade que se constitui em reações instantâneas
e efêmeras que se diferenciam em alegria, tristeza, cólera
e medo.
Porém, como podemos aceitar que durante tanto tempo considerássemos
o desenvolvimento intelectual humano apenas na pequena fatia da dimensão
cognitiva? Como nos diz Donaldson (2000, p. 272):
“Interpretamos o mundo que encontramos, lutamos para ver
sentido nele, e esta atividade interpretativa é uma grande
parte do que queremos dizer com cognição. Ela produz
o que chamamos compreensão. Como poderia ser divorciada da
questão do que julgamos importante e das emoções
que surgem então? Se nós interpretamos mal alguma
coisa, emoções impróprias podem muito bem surgir,
e o resultado disso pode ser seriamente desastroso.”
Apesar de durante muito tempo a Psicologia ter “ignorado”
o cérebro como órgão responsável pela
realização das funções humanas razão
e afetividade, estudos recentes têm demonstrado como elas ocorrem
e, até, como se relacionam, a partir de uma visão neuropsicológica.
A ciência evolui e hoje podemos mapear o que acontece no cérebro
momento a momento, através de técnicas como a tomografia
computadorizada, o que não era possível com a técnica
de raio X.
Damásio (1996, p. 189) argumenta que:
“Não me parece sensato excluir as emoções
e os sentimentos de qualquer concepção geral da mente,
muito embora seja exatamente o que vários estudos científicos
e respeitáveis fazem quando separam as emoções
e os sentimentos dos tratamentos dos sistemas cognitivos.
...
Os sentimentos são tão cognitivos como qualquer outra
imagem perceptual e tão dependentes do córtex cerebral
como qualquer outra imagem.”.
Damásio é um dos autores que têm estudado a mente
humana numa perspectiva neuropsicológica, considerando a razão,
a emoção, a mente e o cérebro. Através
de estudos em pacientes com lesão cerebral temos podido compreender
a dimensão biológica das emoções e como
elas interferem no processo racional do ser humano. Um dos casos mais
conhecidos, o de Phineas Gage, demonstrou uma provável área
de interseção entre a razão e a emoção
na parte central do cérebro. Depois do acidente que lesionou
essa região, Gage não conseguiu mais se relacionar socialmente
de forma adequada, apesar de toda sua estrutura cognitiva ter sido
preservada.
Damásio (1996, p. 195-196) afirma que:
“... é importante percebermos que a definição
concreta de emoção e sentimento em termos cognitivos
e neurais não diminui sua beleza ou horror, ou seu estatuto
na poesia ou na música. Compreender como vemos ou falamos
não desvaloriza o que é visto ou falado. Compreender
os mecanismos biológicos subjacentes às emoções
e aos sentimentos é perfeitamente compatível com uma
visão romântica do seu valor para os seres humanos.”.
(c) Afetividade, cognição e cultura
Cordié (1996, p. 17) faz uma excelente análise do fracasso
escolar como uma patologia da sociedade moderna, fruto da rápida
transformação do mundo do trabalho numa sociedade cada
vez mais competitiva e tecnicizada:
“O fracasso escolar é uma patologia recente. Só
pôde surgir com a instauração da escolaridade
obrigatória no fim do século XIX e tomou um lugar
considerável nas preocupações de nossos contemporâneos
em conseqüência de uma mudança radical na sociedade.
(...) Não é somente a exigência da sociedade
moderna que causa os distúrbios, como se pensa freqüentemente,
mas um sujeito que expressa seu mal-estar na linguagem de uma época
em que o poder do dinheiro e do sucesso são valores predominantes.
(...) O fracasso escolar se tornou sinônimo de fracasso na
vida.”
Ainda segundo a autora, um sujeito – sujeito do inconsciente
– se constrói perseguindo ideais que são apresentados
a ele no decorrer de sua vida pelo seu ambiente familiar, pelo meio
sócio-cultural no qual está inserido, pelos valores
da sociedade à qual pertence.
Bossa (2002, p. 158) discute a construção do sintoma
“fracasso escolar”, argumentando que:
“Com o sintoma escolar, aprendemos que, quando a cultura postulou
para a escola um ideal de criança, acabou por impedir a emergência
do singular; daquilo que é, como diferença, distancia-se
do ideal. Se o sujeito está para além dos ideais,
se sua subjetividade está no que escapa ao existir da criança
no mundo atual, não resta outra solução senão
a de se fazer sujeito por meio de seu sintoma.
Na realidade, cada sociedade caracteriza-se precisamente por inventar
suas necessidades, bem como o conjunto de instituições
que irão satisfazê-las. A sociedade moderna, mediante
o seu ideal narcísico, inventou a escola para fazer das crianças
adultos racionais e honrados.
(...)
O ideal de completude e perfectibilidade que fundou a escola estabeleceu
uma relação imaginária entre professor e aluno
tal que o primeiro deve ensinar perfeitamente, e o outro, aprender
por completo. Tal ação não se coloca no campo
do possível, mas no campo do ideal e como tal está
fadada ao fracasso. Nesse sentido, a criança que faz fracassar
esse ideal de educação é excluída do
cotidiano escolar, torna-se um incômodo que apontará
para o fato de que o conceito de criança escolar, de criança
ideal, está dissolvendo-se no mundo atual. Dessa forma, há,
de um lado, crianças supostamente ideais, postas na condição
de puro objeto do desejo parental e social, e, de outro, crianças-problemas
que insistem em existir e apontar a ilusão do mundo criado
onipotentemente pelo homem moderno.”.
Esses ideais que constroem o sujeito são ‘comunicados’
a ele através da linguagem. É a linguagem que vai constituir
o sujeito, promovendo, inclusive, o seu desenvolvimento psíquico,
como nos mostra Vygotsky em sua obra sobre as relações
existentes entre o pensamento e a linguagem (Vygotsky, 2000).
Para o mestre soviético, pensamento e linguagem têm
raízes diversas, mas estão sempre imbricados um no outro.
Há um período pré-verbal do pensamento e um período
pré-intelectual da fala. Através da interação
com os seus pares na comunidade em que está inserida a criança
internaliza a fala exterior e constitui o pensamento verbal. Para
ele, o desenvolvimento do pensamento é determinado pela linguagem,
ou seja, pelos instrumentos lingüísticos do pensamento
e pela experiência sócio-cultural da criança,
sendo o crescimento intelectual da criança estritamente dependente
de seu domínio dos meios sociais de pensamento, isto é,
da linguagem. Dessa forma, o próprio desenvolvimento ocorre
do sócio-histórico para o biológico, onde a cultura
tem um papel determinante.
De acordo com Geertz (1989, p. 50), a cultura é:
“um sistema ordenado de significados e símbolos nos
termos dos quais os indivíduos definem seu mundo, expressam
seus sentimentos e fazem seus julgamentos”.
Seria a partir dos símbolos compartilhados pela comunidade
no qual está inserido que o indivíduo ‘apreende’
o seu mundo, constituindo-se enquanto sujeito, e nele interfere, construindo
assim a sua ‘realidade’, num processo dinâmico de
interações. Baquero (2001) discute a abordagem de Vygotsky
sobre o conceito de cultura, entendendo-a como um espaço em
que o indivíduo se transforma, incorporando os valores da cultura,
mas também, transforma-a e a recria.
Podemos relacionar aqui as idéias de Cordié sobre o
fracasso escolar como uma patologia da nossa sociedade e as idéias
de Vygotsky sobre a constituição da subjetividade a
partir das relações com a cultura: a nossa cultura está
exigindo de nossas crianças um sucesso na vida escolar. Então,
enquanto criança-aluna, como utilizar essa ‘linguagem’
para denunciar um mal-estar ou para ‘garantir’ uma singularidade?
O processo de internalização seria um processo de
constituição da subjetividade a partir de situações
de intersubjetividade, como comenta Oliveira (1992, p. 80):
“A passagem do nível interpsicológico para
o nível intrapsicológico envolve, assim, relações
interpessoais densas, mediadas simbolicamente, e não trocas
mecânicas limitadas a um patamar puramente intelectual.
(...)
A questão de formação da consciência
e a questão da constituição da subjetividade
a partir de situações de intersubjetividade nos remetem
à mediação simbólica e, conseqüentemente,
à importância da linguagem no desenvolvimento psicológico
do homem.”
Vygotsky (2000, p. 150) abordou a questão da linguagem através
do significado das palavras, pois para ele:
“O significado de uma palavra representa um amálgama
tão estreito do pensamento e da linguagem que fica difícil
dizer se se trata de um fenômeno da fala ou de um fenômeno
do pensamento. Uma palavra sem significado é um som vazio;
o significado, portanto, é um critério da ‘palavra’,
seu componente indispensável. Pareceria, então, que
o significado poderia ser visto como um fenômeno da fala.
Mas, do ponto de vista da psicologia, o significado de cada palavra
é uma generalização ou um conceito. E como
as generalizações e os conceitos são inegavelmente
atos do pensamento, podemos considerar o significado como um fenômeno
do pensamento. Daí não decorre, entretanto, que o
significado pertença formalmente a duas esferas diferentes
da vida psíquica. O significado das palavras é um
fenômeno de pensamento apenas na medida em que o pensamento
ganha corpo por meio da fala, e só é um fenômeno
da fala na medida em que está ligada ao pensamento, sendo
iluminada por ele. É um fenômeno do pensamento verbal
ou da fala significativa – uma união da palavra e do
pensamento.”
Oliveira (2001, p. 50) discute ainda a questão do significado
e do sentido de uma palavra:
“O significado propriamente dito refere-se ao sistema de
relações objetivas que se formou no processo de desenvolvimento
da palavra, consistindo num núcleo relativamente estável
de compreensão da palavra, compartilhado por todas as pessoas
que a utilizam. O sentido, por sua vez, refere-se ao significado
da palavra para cada indivíduo, composto por relações
que dizem respeito ao contexto de uso da palavra e as vivências
afetivas do indivíduo.”
Vygotsky (2000, p. 185) afirma, assumindo uma postura bastante freudiana,
que “todas as frases que dizemos na vida real possuem algum
tipo de subtexto, um pensamento oculto por trás delas. (...)
Assim, uma frase pode expressar vários pensamentos, um pensamento
pode ser expresso por meio de várias frases”. Quais os
sentidos, assumidos por cada criança em particular, de um problema
de aprendizagem?
Mas o que gera o pensamento? Vygotsky (2000, p. 187), mais uma vez
poeticamente, traz uma contribuição não muito
discutida pelos que estudam a sua obra:
“O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação,
isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses
e emoções. Por trás de cada pensamento há
uma tendência afetivo-volitiva, que traz em si a resposta
ao último ‘por que’ de nossa análise do
pensamento. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento
de outrem só é possível quando entendemos sua
base afetivo-volitiva.
Para compreender a fala de outrem não basta entender as suas
palavras – temos que compreender o seu pensamento. Mas nem
mesmo isso é suficiente – também é preciso
que conheçamos a sua motivação. Nenhuma análise
psicológica de um enunciado estará completa antes
de se ter atingido esse plano”.
Oliveira (1992, p. 76-77), citando Vygotsky, discute a idéia
rejeitada pelo mestre soviético de divisão entre o intelecto
e o afeto:
“A separação do intelecto e do afeto, enquanto
objetos de estudo, é uma das principais deficiências
da psicologia tradicional, uma vez que esta apresenta o processo
do pensamento como um fluxo autônomo de ‘pensamentos
que pensam a si próprios’, dissociado da plenitude
da vida, das necessidades e dos interesses pessoais, das inclinações
e dos impulsos daquele que pensa. Esse pensamento sem significado,
incapaz de modificar qualquer coisa na vida ou na conduta de uma
pessoa, como alguma espécie de força primeva a exercer
influência sobre a vida pessoal, de um modo misterioso e inexplicável.
Assim, fecham-se as portas à questão da causa e origem
de nossos pensamentos, uma vez que a análise determinista
exigiria o esclarecimento das forças motrizes que dirigem
o pensamento para esse ou aquele canal. Justamente por isso a antiga
abordagem impede qualquer estudo fecundo do processo inverso, ou
seja, a influência do pensamento sobre o afeto e a volição”.
Vemos aqui uma aproximação entre as idéias de
Vygotsky e o conceito freudiano de sujeito do inconsciente. De acordo
com René van der Veer e Jaan Valsiner (1996, p. 115), Vygotsky,
juntamente com Luria, entrou em contato com os escritos de Freud e
ficou fascinado:
“As idéias realmente originais de Freud faziam-no
comparável a Colombo: ambos descobriram um novo continente
e nenhum deles forneceu um mapa inteiramente confiável da
terra recém-descoberta.”.
Porém, o mestre soviético não aderiu à
visão de homem de Freud, entendendo-a como restritiva, já
que não ressaltava a função da sociedade na constituição
do ser humano. Na década de 1930, o movimento psicanalítico
soviético tem seu fim, não sem antes encontrar em Reich
uma argumentação para a conciliação indivíduo/sociedade,
como descrito por René van der Veer e Jaan Valsiner (1996,
p. 120-121):
“O inconsciente de uma pessoa também seria fortemente
influenciado pela sociedade em que ela vivesse, pois apenas as forças
consideradas inaceitáveis são suprimidas em determinada
sociedade. A censura exercida sobre a expressão de impulsos
inconscientes seria diferente em diversas culturas e períodos
de tempo, assim como o conteúdo do inconsciente.
(...) Tanto a supressão quanto a sublimação
de impulsos inconscientes do id estavam intimamente associadas aos
valores e normas da sociedade específica. Reich pôde
concluir, portanto, que a “psicanálise não pode
imaginar uma criança sem sociedade; ela conhece a criança
apenas como um ser social”.
Então, tendo como ‘matéria-prima’ para
seus pensamentos/desejos a linguagem construída internamente
a partir de suas relações interpessoais, o que pensa/deseja
uma criança que faz o sintoma do ‘não-aprender’,
já que um sintoma sempre revela a verdade de um sujeito? A
que significados e sentidos, na abordagem vigotskiana dos termos,
está ‘assujeitado’?
Ludwig Wittgenstein já alertava para a força da linguagem
no processo de “assujeitamento” do homem: “Os limites
da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”.
Lacan, citado por Cordié (1996, p. 26) nos aponta uma possibilidade
de resposta: “O sintoma da criança encontra-se em condições
de responder ao que há de sintomático na estrutura familiar”.
Vemos, então, uma criança aprisionada num sintoma
– linguagem encontrada para denunciar o seu mal-estar –
adequado à sua estrutura familiar e aos significados da sociedade
na qual está inserida. Mrech (1998, p. 156), citando Merleau-Ponty,
mostra-nos como a criança, ao longo da história da humanidade,
tem sido depósito de processos transferenciais dos adultos
em termos de conteúdos e formas:
“A história ajuda-nos a compreender esse fenômeno
de espelhos que intervém entre o adulto e a criança;
eles refletem-se como dois espelhos colocados indefinidamente um
diante do outro. A criança é o que acreditamos que
ela seja, o reflexo do que queremos que ela seja. Só a história
pode fazer-nos sentir até que ponto somos os criadores da
‘mentalidade infantil’.”
Mrech (1998, p. 159), assumindo uma posição psicanalítica,
mas aproximando-se de Vygotsky no que se refere ao processo de internalização
da fala, afirma que a criança internaliza a palavra dos adultos
que convivem com ela, acabando por acreditar na imagem que fazem dela.
Esse processo também acontece com os adultos que acreditam
que a imagem que fazem da criança é a própria
criança:
“... é bastante comum os professores confundirem
as imagens que as teorias psicológicas e pedagógicas
trazem, como sendo a criança. Eles acreditam que basta ter
um bom conhecimento teórico para saber como a criança
é, pensa e age. Há a confusão das imagens de
desenvolvimento do infantil ou das teorias com as próprias
crianças. ‘Esta criança é pré-silábica!’,
‘Ela está na etapa das operações concretas.’.
Eles acabam por confundir a imagem da criança universal trazida
pelas teorias com a criança em particular.”
Precisamos, assim, como nos mostra Bruner em toda sua obra, resgatar
a criança através de sua fala, de sua palavra –
carregada de significados e sentidos, pois, geralmente, a sua fala
está misturada às concepções que fazem
dela seus pais, seus professores e, até, seus ‘doutores’
(especialistas que têm a função de ‘curá-la/consertá-la’).
Faz-se necessário passar a palavra à criança
para que ela nos diga o que pensa, o que sente, como percebe o mundo
à sua volta, enfim, quem ela é. Dessa forma, ela pode
deixar de ser um mero reflexo – um objeto – dos desejos
e necessidades dos adultos, assumindo a posição de sujeito-autor,
de sua história e de sua vida, conforme discutido em Fernandez
(2001b).
(d) O problema de aprendizagem: a leitura de um sintoma
Para Fernandez (2001a, p. 36), o conceito de aprendizagem é
algo que transcende a dimensão cognitiva:
“Aprender é apropriar-se da linguagem; é historiar-se,
recordar o passado para despertar-se ao futuro; é deixar-se
surpreender pelo já conhecido. Aprender é reconhecer-se,
admitir-se. Crer e criar. Arriscar-se a fazer dos sonhos textos
visíveis e possíveis.”.
Fernandez (2001a, p. 42) nos diz que o ser humano para aprender deve
pôr em JOGO:
· Seu organismo, individual herdado;
· Seu corpo, construído especularmente;
· Sua inteligência, autoconstruída interacionalmente;
· A arquitetura do desejo, desejo que é sempre desejo
do desejo de outro.
Para a autora, as questões de aprendizagem e ensino envolvem
seres humanos que estão presentes nessa relação
com seu organismo, seu corpo, sua inteligência e seu desejo,
donde podemos concluir que a dimensão inconsciente sempre permeia
esse encontro e que toda relação de aprendizagem é
sempre intersubjetiva.
Para Fernandez (2001b, p. 55) toda aprendizagem ocorre através
do vínculo estabelecido entre o ensinante e o aprendente, onde
essas posições não correspondem a professor e
aluno, indicando, sim, um modo subjetivo de situar-se:
“Penso o sujeito aprendente como aquela articulação
que vai armando o sujeito cognoscente e o sujeito desejante sobre
o organismo herdado, construindo um corpo sempre em interseção
com outro (Conhecimento-Cultura...) e com outros (pais, professores,
meios de comunicação).
O conceito de sujeito aprendente constrói-se a partir de
sua relação com o conceito de sujeito ensinante, já
que são duas posições subjetivas, presentes
em uma mesma pessoa, em um mesmo momento.
(...)
Um sujeito constitui-se como autor (processo que é um contínuo,
nunca acabado e iniciado inclusive antes do nascimento) a partir
da mobilidade entre seus posicionamentos ensinantes e aprendentes”.
É importante destacar que ensinante não significa professor
e que aprendente não significa aluno, mas, sim, dois modos
de se posicionar frente à aprendizagem, numa mesma pessoa.
Ainda para a autora há uma diferença entre informação-conhecimento-saber.
A informação é algo pronto, que vem de fora,
não necessitando da implicação do sujeito para
estabelecer-se. O conhecimento é um processo construído
pelo sujeito, a partir das informações recebidas e do
seu saber inconsciente. Aprender seria um processo de apropriação
de uma informação, que é apenas um dado neutro,
sem vida, sendo objetivado em conhecimento que é transmissível
e ensinado, a partir de um saber próprio, único, constituído
a partir das interações com outras pessoas.
Segundo Fernandez (2001a, p. 63), “uma grande falha de
nossa educação refere-se à desqualificação
do saber e ao endeusamento do conhecimento”.
Então, para fazer-se sujeito-autor de seus pensamentos e
de seu processo de aprendizagem, o sujeito ensinante-aprendente precisa
pôr em jogo o seu organismo, o seu corpo, a sua inteligência
e o seu desejo, articulando, ainda, a informação recebida,
transformada em conhecimento objetivo, relacionada com o seu saber
subjetivo.
(e) Pressupostos metodológicos
Pretendemos desenvolver o nosso trabalho a partir de uma abordagem
descritivo-qualitativa.
Gostaríamos de pontuar que compartilhamos com a definição
de método de Guerra e Carvalho (2002, p. 33), quando afirmam
que entendem “método não como sendo um caminho
que conduza a um fim, mas como um percurso marcado por permanente
fluir de sucessões que se constroem e se destroem pela ação
do próprio tempo”.
Jacob (1993, citado por Grandesso (2000, p. 301)) afirma que um dos
aspectos metodológicos centrais às epistemologias qualitativas
é a crença na impossibilidade de acesso a um conhecimento
objetivo no qual o objeto de estudo pudesse ser configurado independentemente
das subjetividades do pesquisador e do pesquisado.
Para Grandesso (2000, p. 301), “os resultados de estudos qualitativos
decorrem do campo da intersubjetividade, na medida em que podem ser
definidos como produto da ação conjunta entre o pesquisador
e os participantes da pesquisa”. A ação conjunta
é um tipo especial de relação que se dá
na linguagem, em que o resultado é conseqüência
do processo da ação, não podendo ser “prevista”
de antemão, por quaisquer dos participantes.
Tomamos como nosso embasamento teórico fundamental a Psicanálise,
no que se refere a uma visão de sujeito permeada pelo conceito
do inconsciente freudiano. Surgem, então, questões quanto
à cientificidade da abordagem psicanalítica, visto que
o inconsciente não pode ser capturado, medido, verificado experimentalmente.
O nosso trabalho de investigação não poderia
ser replicado, no sentido estrito do termo, pois toda a análise
dos nossos dados foi baseada na interpretação construída
no momento do encontro investigadora-criança e investigadora-professora.
Não obstante, esforços de clarificação
operacional tentaram ser suficientes para uma retomada deste estudo.
Kupfer (2001, p. 27) nos mostra como a Psicanálise não
pode ser entendida com uma ciência dentro do paradigma científico
moderno quando afirma que “a Psicanálise, desde o princípio,
não opera com fatos observáveis, mas com interpretações,
com sentidos. Em uma palavra: com linguagem”.
Acreditamos, como Rey (2002, p. 28), que:
“A ciência não é só racionalidade,
é subjetividade em tudo que o termo implica, é emoção,
individualização, contradição, enfim,
é expressão íntegra do fluxo da vida humana,
que se realiza através de sujeitos individuais, nos quais
sua experiência se concretiza na forma individualizada de
sua produção.”
Estivemos na pesquisa com nossas pré-concepções
estabelecidas a partir do desempenho de nossos papéis sociais
como o de psicoterapeuta, pesquisadora e cidadã.
Compartilhamos as inquietações de Guerra e Carvalho
(2002, p. 15) quando dizem:
“Em nossas indagações, desconsideramos/desprezamos
qualquer produção cuja natureza das sínteses,
postulados ou totalizações a tornem fechadas sobre
si mesma, porque protegida por falsa couraça, constituída
de ilusórias verdades/certeza. Consideramos tal couraça
como sendo um mecanismo de proteção, que teria por
função evitar uma possível angústia
suscitada pela idéia de mudança. Teria ela, ainda,
uma força impeditiva à oxigenação/renovação/transformação
do saber.”
A metodologia utilizada foi a análise qualitativa, a partir
do registro videográfico e sua posterior análise, tendo
como embasamento o trabalho já desenvolvido por Meira (1994):
“A análise qualitativa de processos cognitivos e
da aprendizagem exige o exame de transformações relativamente
sutis e rápidas nas relações entre ações
(e.g., discursivas e gestuais) e a estrutura de situações
específicas. A videografia (estudo da atividade através
de filmagens em vídeo) e análise microgenética
(estudo detalhado da evolução das relações
entre agentes e situações) combinam-se para formar
um modelo de coleta e análise de dados que permite uma interpretação
robusta e consciente dos mecanismos psicológicos subjacentes
à atividade humana”.
O método genético na análise do desenvolvimento
intelectual teve Jean Piaget como um dos seus principais representantes.
Lev Vygotsky considerou mais ampla a discussão da análise
genética, incluindo também como referenciais os contextos
sócio-histórico e microgenético de análise.
Dessa forma, faz-se necessário interpretar o significado das
ações e dos processos mentais humanos através
de uma análise do macro-contexto.
Meira (1994) afirma que “ações cognitivas, comunicativas
ou gestuais possuem influência em virtude do significado que
elas adquirem em contextos sócio-culturais específicos”.
Para essa abordagem, vê-se a necessidade de considerar aspectos
interacionais da atividade humana, como diálogos entre seus
participantes ou a produção colaborativa. Essa forma
de interpretar as ações e os processos mentais humanos
não se propõe a construir regras gerais, aplicáveis
a todos os seres humanos e, sim, identificar seus significados nas
atividades e situações específicas, sempre levando
em consideração o contexto em que ocorrem.
A abordagem microgenética interpretativa proposta por Meira
(1994) tem como características:
1. o exame detalhado de processos cognitivos-interacionais deve
acontecer sem comprometer a compreensão da atividade como
um todo;
2. ser, em grande parte, qualitativa no sentido da ênfase
na análise de protocolos (a transcrição das
ações e discurso registrados em vídeos, por
exemplo);
Tomando-se por base essas características podemos apresentar
narrativas e explicações dos fenômenos investigados,
tendo como princípios diretores da análise microgenética
a análise dos processos sendo mais informativa que a descrição
dos produtos e a inspeção detalhada das ações,
sem perder de vista o significado da atividade em que tais ações
estão situadas.
Meira (1994) defende a idéia de que a:
“videografia, o registro em vídeo de atividades humanas,
apresenta-se como uma ferramenta ímpar para a investigação
microgenética de processos psicológicos complexos,
ao resgatar a densidade de ações comunicativas e gestuais.
(...)
A videografia não produz por si própria um registro
completo e final da atividade investigada, e que a coleta de dados
em vídeo não é um problema trivial que pode
ser reduzido à quantidade de filmes produzidos.”.
Como qualquer outro instrumento de mediação do homem
com o seu ambiente, o vídeo favorece a análise nos pontos
já destacados, mas também oferece limitações
como no campo de visão – já que o olho humano
tem uma maior abrangência espacial - e no registro auditivo
– por não atuar com a seletividade do ouvido humano,
registrando todos os ruídos do ambiente -, não facilitando
uma análise “limpa” do fenômeno observado.
Por isso, um registro etnográfico (de acordo com as idéias
de Geertz (1989)) é recomendável, pois a combinação
das duas formas de registro propicia ao investigador um maior detalhamento
de informações sobre o fenômeno analisado.
Meira (1994) confirma que “uma das vantagens da abordagem videográfica-microgenética,
é que através dela podemos construir uma compreensão
profunda sobre alguns casos significativos, ao invés de conclusões
supostamente amplas sobre muitos casos cujo significado compreendemos
apenas superficialmente.”
Entendemos que esta técnica de registro de informações
de um fenômeno a ser analisado é extremamente fidedigna,
no que se refere aos aspectos ‘físicos’. Porém,
não elimina a etapa de interpretação, por parte
do pesquisador, das informações registradas. Como a
interpretação é um processo subjetivo, apesar
de baseada em referenciais teóricos e não em ‘achismos’,
não podemos garantir a construção de uma ‘compreensão
profunda’ e a possibilidade de ‘conclusões supostamente
amplas’.
Steir, citado por Grandesso (2000, p. 306), afirma que “nossa
pesquisa conta uma história sobre nós mesmos”.
Foi um pouco da nossa história a contada aqui.
2. Objetivos
O objetivo geral desse trabalho foi aprofundar a compreensão
das dificuldades de aprendizagem em contexto escolar, construindo
uma abordagem que permitisse a consideração integrada
de aspectos cognitivos e afetivos. Nesse sentido, foram nossos objetivos
específicos descrever e analisar obstáculos à
aprendizagem que se relacionassem tanto com aspectos relacionados
à conceptualização estrito senso, como com aspectos
relacionados à motivação e atitude da criança
diante do conhecimento, à sua história pessoal, ao seu
acervo de experiências escolares e extra-escolares. Procuramos
enfocar quais os conteúdos programáticos que apresentavam
dificuldades de aprendizagem para a criança, nas diversas áreas
de conhecimento – Português, Matemática, Artes,
Educação Física, Ciências, História,
Geografia.
3. Metodologia
A proposta para essa pesquisa foi trabalhar dentro da abordagem global
de pesquisa qualitativa. Compartilhamos com Rey (2002) a sua abordagem
de pesquisa qualitativa em Psicologia:
“A epistemologia qualitativa é um esforço na busca
de formas diferentes de produção de conhecimento em
psicologia que permitam a criação teórica acerca
da realidade plurideterminada, diferenciada, irregular, interativa
e histórica, que representa a subjetividade humana.”
(p. 29)
“A abordagem qualitativa no estudo da subjetividade volta-se
para a elucidação, o conhecimento dos complexos processos
que constituem a subjetividade e não tem como objetivos a
predição, a descrição e o controle.”
(p. 48)
Entendemos, assim, que o nosso trabalho não nos apontou um
único caminho, nem uma única possibilidade de interpretação,
mas uma das possíveis, construída pelo nosso referencial
teórico como guia, nossa subjetividade e a dos participantes
da pesquisa.
3.1 Participantes
Participaram da pesquisa um grupo de nove crianças oriundas
de quatro turmas de segunda série do Ensino Fundamental de
três escolas particulares da cidade Recife (PE), crianças
estas caracterizadas como portadoras de problemas de aprendizagem,
a partir do encaminhamento da professora responsável e demais
membros da equipe pedagógica da escola e quatro professoras
que fizeram o encaminhamento das crianças.
A escolha por escolas da rede particular de ensino deveu-se à
nossa proposta de investigar o porquê das dificuldades de aprendizagem
de crianças que tinham espaço físico de moradia
adequado, estudavam em escolas com equipe pedagógica razoavelmente
capacitada e com o ambiente físico adequado, cujas famílias
investiam em material escolar, tinham acesso a atividades culturais
extra-classe e não apresentavam comprometimento biológico
identificável. Ou seja, crianças com qualidade básica
de vida adequada, apresentando mesmo assim, problemas de aprendizagem
na escola.
A Escola 1 está localizada em um bairro nobre da zona sul
de Recife e trabalha com Educação Infantil e Ensino
Fundamental (até a 8ª. série). O espaço
físico da escola é excelente. As famílias de
seus alunos apresentam um elevado poder aquisitivo. Os seus professores
têm uma boa formação profissional e contam com
o apoio do Serviço de Psicologia.
A Escola 2 se localiza em um bairro da zona norte de Recife e trabalha
com Educação Infantil e Ensino Fundamental (até
a 4ª. série).
O espaço físico é restrito. As famílias
de seus alunos apresentam um poder aquisitivo comparável ao
da classe média. Os seus professores ainda estão concluindo
a sua formação em Pedagogia e não há Psicóloga
Escolar.
A Escola 3 se encontra num bairro nobre da zona norte de Recife e
trabalha com Educação Infantil e Ensino Fundamental
(até a 8ª. série). O espaço físico
da escola é bom. As famílias de seus alunos apresentam
um elevado poder aquisitivo. Os seus professores têm uma excelente
formação profissional, já com cursos de Pós-Graduação,
e contam com o apoio do Serviço de Psicologia, o que promove
uma ‘escuta’ mais ampla das diferenças das crianças.
Há, nelas, uma certa paixão pelo que fazem e a certeza
de que as crianças ‘podem’. As crianças
selecionadas pela Escola 3 para a pesquisa são crianças
repetentes e que estão em pleno processo de reestruturação
de suas dificuldades.
Essa foi a distribuição dos participantes da pesquisa
(Tabela 1):
Tabela 1 – Distribuição de Professoras
e Alunos pelas Escolas
| Escola 1 |
Escola 2 |
Escola 3 |
| Professora 1 |
Criança 1 |
Professora 2 |
Criança 4 |
Professora 1* |
Criança 6 |
| |
Criança 2 |
|
Criança 5 |
Professora 2* |
Criança 7 |
| |
Criança 3 |
|
|
|
Criança 8 |
| |
|
|
|
|
Criança 9 |
* Essas professoras trabalham de forma integrada, conteúdos
específicos, com alunos de suas turmas de segunda série.
Optamos por trabalhar com crianças e professoras da segunda
série do Ensino Fundamental, pois, apesar da escolarização
formal se iniciar na primeira série do Ensino Fundamental,
é aí que começam a se cristalizar os problemas
de aprendizagem quanto ao conteúdo trabalhado na escola e os
professores constroem a sua avaliação quanto aos alunos
que apresentam esse sintoma e que precisam de uma intervenção
especial.
Tais crianças constituíram um grupo de nove participantes,
excluindo-se de tal grupo crianças que se enquadrariam em um
ou mais dos seguintes casos:
1. Diagnóstico psiconeurológico que caracterize síndromes
relacionadas a disfunções do sistema nervoso central
(e.g., epilepsias e disfunções eletroencefalográficas
em geral, síndromes degenerativas ou decorrentes de traumatismo
exógeno, síndromes decorrentes de evento puerperal traumático,
etc.).
2. Diagnóstico que caracterize perturbação de
desenvolvimento de origem cromossômico-genética (e.g.,
Síndrome de Down).
3. Retardo funcional de desenvolvimento cognitivo, aferido psicometricamente.
4. Comprometimento parcial ou total de funções sensoperceptivas.
Por outro lado, foram aspectos relevantes para a elegibilidade das
crianças participantes:
1. A criança era considerada unanimemente, pela professora
e demais membros da equipe pedagógica da escola, como tendo
problemas de aprendizagem sistemáticos, associados ou não
a problemas de disciplina e socialização.
2. As dificuldades escolares da criança eram reconhecidas pela
família, mesmo que esse reconhecimento ocorresse apenas a partir
das notas do boletim escolar, pois seria comum a família responsabilizar
a falta de estrutura da escola ou a má condução
pedagógica da professora como causa para as dificuldades apresentadas
pela criança, seu filho(a).
3.2 Material
Houve um roteiro para as entrevistas semidirigidas com as professoras
(Anexo A) e outro para as crianças (Anexo B), que nortearam
as nossas intervenções enquanto pesquisadora.
Os desenhos foram realizados em papel tamanho A3 com gizão
de cera (Anexo C – Desenhos das Professoras; Anexo D –
Desenhos das Crianças).
Os encontros com os participantes – professoras e crianças,
individualmente - foram videografados e analisados a partir da metodologia
desenvolvida por Meira (1994), no que se refere à análise
videográfica, apesar de não nos restringirmos à
análise microgenética, já que enfocamos todos
os momentos de nossas entrevistas com professoras e crianças.
Além dos desenhos de uma situação de ensino-aprendizagem,
das respostas às questões levantadas nas entrevistas,
das reflexões acerca dos problemas de aprendizagem de cada
criança, algumas professoras nos apresentaram material produzido
em sala de aula pelas crianças. Em algumas situações
o material nos foi entregue e foi objeto de análise. Um quadro
com um resumo das respostas e colocações de todos os
participantes da pesquisa está registrado nos Anexo E –
Professoras e Anexo F – Crianças.
Após cada encontro, registramos as nossas impressões
pessoais num “diário de pesquisa”. Acreditamos
que as informações aqui registradas foram muito úteis
no momento da análise e interpretação dos encontros
filmados com as professoras e as crianças.
3.3 Procedimento
Uma vez constituído o grupo de trabalho realizamos as seguintes
atividades:
3.3.1 Entrevistas dirigidas com as professoras das segundas séries
das escolas selecionadas (Anexo A), onde foi solicitado a cada uma
delas:
a) Desenhar uma situação em que uma pessoa ensina e
outra aprende.
· Utilizamos o recurso do desenho de uma situação
de ensino-aprendizagem onde a professora desenhou duas pessoas: uma
ensinando e outra aprendendo. Esse recurso é discutido em Fernandez
(1990) como uma técnica que permite a observação
das significações do aprender. O desenho é uma
forma de acesso ao psiquismo do sujeito, pois é sempre uma
expressão, uma projeção no espaço simbólico,
representado pela folha, no caso. Mèredieu (2002) nos traz
a reflexão da importância do desenho como um símbolo
da realidade psíquica não imediatamente acessível,
mas um objeto passível de interpretação, pois
“o que importa não é o grafismo propriamente dito,
mas o que ele designa, o sentido a que remete”. Embasando ainda
o uso da técnica do desenho como forma de investigação
do psiquismo, Campos (2000) nos apresenta dados de pesquisadores que
através do método de consistência interna validaram
o uso do desenho como uma possibilidade de compreensão das
projeções inconscientes do sujeito. Solicitamos o desenho
de uma situação genérica de aprendizagem, não
direcionando o desenho para uma situação de aprendizagem
na escola. Essa atividade foi desenvolvida com as professoras, pois
acreditamos na importância de uma reflexão, a partir
do desenho, sobre o que é ensinar e aprender pela educadora.
A partir dessa reflexão, a professora teve a possibilidade
de re-significar o sintoma – problema de aprendizagem escolar
– de seu(sua) aluno(a), além de poder também re-significar
as suas posições de ensinante e aprendente, no seu próprio
processo de aprendizagem.
(b) Associar as palavras abaixo a outras palavras.
Estivemos investigando as concepções, nem sempre conscientes,
da professora sobre conceitos relevantes dentro do processo de ensino-aprendizagem
de crianças numa escola (de acordo com as idéias de
Vygotsky de construção de sentido). A técnica
da associação de palavras, bem como de completação
de frases, foi introduzida por Carl Gustav Jung, conforme Quintaes
(2003), como forma de investigação do psiquismo. Fadiman;
Frager (1986, p. 63) ressaltam que “Jung introduziu-se na psicologia
profunda em virtude de seus experimentos com associação
de palavras. Ele desenvolveu grande perícia na interpretação
de associações e suas habilidades eram freqüentemente
impressionantes.”.
. Escola;
como a professora entendia a instituição escolar; qual
a sua função na sociedade;
. Casa;
como a professora percebia a sua casa;
. Criança;
qual o conceito de criança da professora – já
que são crianças os seus alunos;
. Família;
como a professora percebia o papel da família na sociedade
e em sua vida em particular;
. Professor(a);
como a professora compreendia a função do(a) profissional
de educação, procurando abordar os aspectos positivos
e os negativos dessa atividade profissional;
. Brincar;
qual o conceito da brincadeira para a professora, tanto em sua vida
particular como na sua sala de aula – o brincar como uma atividade
sua e ainda de seus alunos;
. Esconder;
como a professora se posicionava ante a possibilidade de não
mostrar tudo o que sabe, de esconder-se;
. Mostrar;
como a professora se posicionava ante a possibilidade de ter que mostrar
o que sabe, o que é;
. Ensinar;
qual o conceito de ensino para a professora; como se sentia ensinando:
. Aprender;
como a professora se posicionava frente ao ato de aprender; como se
sentia aprendendo.
b) Completar as frases abaixo:
. ‘O bom aluno é aquele que...’;
qual o conceito de bom aluno para a professora (o que pergunta, o
que obedece, o que se sai bem nas provas, etc);
. ‘A professora boa é aquela que...’;
qual o conceito de excelência profissional para a professora;
. ‘A boa escola é aquela que...’;
quais eram suas expectativas quanto a um bom ambiente de trabalho
para que o mesmo favorecesse o processo de ensino-aprendizagem de
seus alunos;
. ‘Eu me sinto fracassada quando...’;
quais eram as situações em que percebia que não
atingia os seus objetivos;
. ‘Eu gostaria de ensinar...’;
que conhecimento seu gostaria de compartilhar com outras pessoas;
. ‘Eu gostaria de aprender...’;
que conhecimento de outro gostaria de se apropriar, de construir.
c) Apresentar suas idéias a respeito de cada criança
por ela(s) encaminhada(s) para inclusão no grupo de participantes,
através de:
. Relato dos problemas de aprendizagem da criança;
como a professora estava percebendo os problemas de aprendizagem da
criança;
. Descrição de algo que a criança fazia bem;
depois de descrever as dificuldades que a criança estava tendo
para aprender os conteúdos escolares, a professora refletia
sobre as possibilidades de realização da criança,
conectando-se com seus aspectos saudáveis, com seu potencial
de criação;
. Apresentação do material pedagógico produzido
em sala de aula pela criança, como provas, livros e cadernos;
onde a professora relatava as dificuldades escolares da criança,
relacionando-as às várias situações de
avaliação;
. Relação dos conteúdos escolares em que a criança
apresentava problemas de aprendizagem;
onde a professora relatava os seus objetivos pedagógicos para
a criança e as dificuldades encontradas por ela;
. Reflexão sobre alternativas para a superação
das dificuldades de aprendizagem pela criança;
onde a professora refletia sobre as possibilidades da criança
e sobre as alternativas pedagógicas para a superação
do problema de aprendizagem da criança.
3.3.2 Entrevista semidirigida com cada criança-participante
individualmente (Anexo B). Enquanto pesquisadora, procuramos criar
um ambiente descontraído, onde a criança se sentisse
mais à vontade para a interação. A criança
foi solicitada a:
a) Contar a sua história de vida: tudo o que se lembrava
desde a primeira infância, incluindo fatos prazerosos e desprazerosos,
primeiras experiências escolares.
· Tivemos como proposta básica o resgate da fala da
criança, onde a mesma teve a oportunidade de historiar-se e
de re-significar o sintoma do problema de aprendizagem escolar.
b) Desenhar uma situação em que uma pessoa ensina e
outra aprende.
· Utilizamos o recurso do desenho de uma situação
de ensino-aprendizagem onde a criança desenhava duas pessoas:
uma ensinando e outra aprendendo. Esse recurso é discutido
em Fernandez (1990), conforme explicitado acima, sendo bastante utilizado
na fase inicial de trabalho com crianças que apresentam a queixa
escolar de problemas de aprendizagem. Solicitamos o desenho de uma
situação genérica de aprendizagem, não
direcionando o desenho para uma situação de aprendizagem
na escola, pois a prática clínica/escolar indica que
muitas vezes a criança traz uma produção em que
reconhece um momento de aprendizagem num contexto informal, como,
por exemplo, brincando com amigos ou interagindo com sua família.
Esse recorte foi importante porque possibilitou uma reflexão
sobre o sintoma, ressaltando para a criança que ela era capaz
de aprender em contextos além da escola.
c) Desenhar a sua família.
· Entendendo o sintoma ‘problema de aprendizagem’
a partir da obra de Alícia Fernandez (1990, 1994, 2001a, 2001b,
2001c) fez-se necessária uma compreensão da visão
da criança quanto às suas relações familiares.
Para isso, utilizamos a atividade do desenho da família (conforme
explicitado operacionalmente acima) que nos forneceu subsídios
para a interpretação da dinâmica de suas relações
familiares, a partir de técnicas psicológicas de interpretação
de desenhos infantis.
3.3.3 Entrevista dirigida com cada criança-participante individualmente
onde a mesma foi solicitada a:
a) Dizer uma coisa que faz bem;
a criança pôde se conectar com o seu potencial de realização,
saindo do enfoque de fracasso;
b) Dizer uma coisa que tem dificuldade de realizar:
a criança pôde refletir sobre a sua dificuldade de realizar
alguma tarefa;
c) Associar as palavras abaixo a outras palavras:
Estivemos investigando as concepções, nem sempre conscientes,
da criança sobre conceitos relevantes dentro do seu processo
de ensino-aprendizagem na escola:
. Escola;
como a criança entendia a instituição escolar;
qual a sua função na sociedade;
. Casa;
como a criança percebia a sua casa;
. Criança;
qual o seu conceito de criança;
. Família;
como a criança percebia o papel da família na sociedade
e em sua vida em particular;
. Professora;
como a criança percebia a professora;
. Brincar;
qual o conceito da brincadeira para a criança, quais as suas
brincadeiras favoritas;
. Esconder;
como a criança se posicionava ante a possibilidade de não
mostrar tudo o que sabia, de esconder-se;
. Mostrar;
como a criança se posicionava ante a possibilidade de ter que
mostrar o que sabia, o que era;
. Ensinar;
qual o conceito de ensino para a criança; como se sentia ensinando;
. Aprender;
como a criança se posicionava frente ao ato de aprender; como
se sentia aprendendo.
d) Completar as frases abaixo:
· ‘Eu mudaria na escola...’;
que aspectos de sua escola achava ruim e gostaria de mudar;
· ‘Eu mudaria no professor...’;
que aspectos de sua professora achava ruim e gostaria de mudar;
· ‘Eu mudaria na minha família...’;
que aspectos de sua família achava ruim e gostaria de mudar;
· ‘Eu mudaria em mim...’;
que aspectos seus achava ruim e gostaria de mudar;
· ‘Eu gostaria de aprender...’;
que coisas gostaria de aprender, não se restringindo apenas
à aprendizagem escolar.
4. Resultados
A análise feita sobre os dados coletados se compõe
de dois momentos fundamentais: um momento de descrição
(etapa descritiva), em que produções e dados de entrevista
são percorridos analiticamente, e um momento de síntese
interpretativa, em que tentamos articular os diversos fragmentos que
pudemos coletar. Tais etapas são descritas em detalhe nas seções
4.1 e 4.2 que se seguem.
Todas as escolas mostraram grande interesse em colaborar, pois demonstraram
ter a necessidade de saber mais sobre o tema. As professoras, apesar
de nem sempre apresentarem um conhecimento formal sobre as relações
existentes entre cognição e afetividade, sabiam, pelas
informações que já tinham sobre o tema, que os
problemas de aprendizagem de seus alunos não tinham como causas
únicas as dificuldades pedagógicas relacionadas aos
conteúdos escolares.
4.1 Etapa Descritiva
Nesta seção estamos relatando os nossos encontros com
todos os participantes da pesquisa – Professoras e Crianças,
com algumas observações sobre possíveis reflexões
da pesquisadora que serão retomadas na seção
seguinte de Síntese Interpretativa.
Nos fragmentos de protocolo transcritos com trocas entre a Pesquisadora
e os Participantes (Professoras e Crianças), as observações
da Pesquisadora virão sempre entre colchetes. Entendemos que
estas observações são parte fundamental de nossa
análise, pois são frutos da nossa construção
teórica e das nossas articulações com o que íamos
encontrando no momento das entrevistas.
Professora 1
A Professora 1 (Escola 1) é Pedagoga e trabalha há
nove anos ensinando crianças. No seu desenho de uma situação
de aprendizagem apresentou uma situação de sala de aula,
com crianças em círculo trabalhando com material concreto
o conceito de multiplicação (Anexo C – Fig. 1).
Na atividade de associação de palavras, fez as seguintes
relações:
Tabela 2 – Professora 1 - Associação
de palavras
| Escola |
Da Vila. |
| Casa |
A minha. |
| Criança |
Todas. |
| Família |
Uma construção; cada um tem a sua; a gente tem
que respeitar do jeito que é (demorou a responder, ficou
rindo, com o olhar distante). |
| Professor |
Eu admiro muito Saulo. |
| Brincar |
De boneca.
Esconder ... não sei... brincar de esconde-esconde com
as crianças. |
| Mostrar |
Minha pessoa; como eu sou. |
| Ensinar |
Adoro. |
| Aprender |
Também gosto muito; é uma descoberta. |
Na atividade em que teria que completar as frases fez as seguintes
associações:
Tabela 3 – Professora 1 – Completação
de frases
| O bom aluno é |
aquele que... se interessa. |
| A professora boa é aquela que... |
está sempre querendo se atualizar. |
| A boa escola é aquela que... |
(não perguntamos) |
| Eu me sinto fracassada quando... |
quando eu não consigo passar a idéia que eu queria. |
| Eu gostaria de ensinar... |
Brincando mais. |
| Eu gostaria de aprender... |
tanta coisa; eu gostaria de me aprofundar mais em matemática,
de conhecer algumas dinâmicas; eu gosto de fazer minhas
aulas brincando; sempre gosto de iniciar minha aula com uma dinâmica;
eu não gosto daquela aula monótona, passando o conteúdo,
mas de forma dinâmica. |
No nosso registro pessoal sobre a Professora 1 observamos, a partir
de seus relatos sobre as dificuldades dos alunos, que a mesma tem
informações sobre como a afetividade pode interferir
no processo de aprendizagem, como observaremos a seguir no recorte
de sua entrevista sobre a Criança 1 ([1] ... é de fundo
emocional, p. 54), sobre a Criança 2 ([1] ... É muito
emocional, p. 65) e sobre a Criança 3 ([9] Não, não
é orgânico. Eu acho que é emocional, mas eu ainda
não consegui descobrir o que é, p. 71). Porém,
falta ainda conhecimento sobre as possibilidades de intervenção
com seus alunos. Percebemos, também, que há um certo
policiamento seu para adotar posturas ‘pedagogicamente’
corretas, com as atividades em que se supõe uma fundamentação
no Construtivismo, tão em moda em nossas escolas, como podemos
observar em sua fala: “eu uso o quadro muito pouco”; “eu
evito o máximo usar o quadro”; “aula a gente dá
no chão” (conforme transcrição do encontro
com a Professora 1, detalhada nas observações das Crianças
1, 2 e 3, a seguir).
Professora 2
A Professora 2 (Escola 2) está cursando Pedagogia e trabalha
há treze anos ensinando crianças. Sua mãe era
professora e desde pequena ia para a sala de aula ajudá-la
com os alunos. É a primeira vez que está com a 2ª.
série e não está gostando muito, pois cobra dos
alunos um ritmo mais intenso; adotou a estratégia de colocar
o roteiro das atividades do dia no quadro como uma forma de guiar
o seu ritmo de trabalho (“faço muita conjectura e não
dá tempo”). No seu desenho de uma situação
de aprendizagem apresentou um adulto e uma criança pescando
num lindo dia de sol. (Anexo C – Fig. 2).
Na atividade de associação de palavras, fez as seguintes
relações:
Tabela 4 – Professora 2 - Associação
de palavras
Escola
|
Conhecimento. |
| Casa |
Implicações. |
| Criança |
Aprendizado. |
| Família |
Apego. |
| Professor |
Convicção. |
| Brincar |
Necessário. |
| Esconder |
Nada. |
| Mostrar |
Mostrar. |
| Ensinar |
Participar. |
| Aprender |
Vida. |
Na atividade em que teria que completar as frases fez as seguintes
associações:
Tabela 5 – Professora 2 – Completação
de frases
| O bom aluno é aquele que... |
coloca suas dúvidas. |
| A professora boa é aquela que... |
diz as suas fragilidades. |
| A boa escola é aquela que... |
se abre para ser ajudada com a família. |
| Eu me sinto fracassada quando... |
não sou ouvida. |
| Eu gostaria de ensinar... |
à 4a. série. |
| Eu gostaria de aprender... |
a ensinar à Educação Infantil. |
No nosso registro pessoal sobre a Professora 2 observamos, a partir
de seus relatos sobre as dificuldades dos alunos, que a mesma tem
poucas informações sobre como os aspectos afetivos podem
interferir no processo de aprendizagem. Também não tem
muitas estratégias de intervenção com seus alunos,
para que os mesmos superem suas dificuldades. A turma da Professora
2 estava vivendo um momento muito delicado, pois uma mãe agrediu
fisicamente um aluno no pátio da escola, acusando-o de ‘abuso
sexual’ com sua filha (os dois são colegas de turma).
Percebemos uma grande preocupação da professora em falar
as coisas ‘certas’, como quando, referindo-se a uma aluna,
comentou “é como eu, tenta organizar o pensamento para
não dizer o que o outro não espera, para atender à
expectativa do outro; ela tenta organizar e aí falta espontaneidade”
(conforme transcrição do encontro com a Professora 2,
detalhada nas observações das Crianças 4 e 5,
a seguir). Sentimo-nos como, nos nossos passados momentos de Psicóloga
Escolar, ouvíamos as professoras relatando, além das
dificuldades dos alunos, as suas próprias dificuldades.
Professora 3
A Professora 3 (Escola 3) é Pedagoga, com Especialização
em Educação Especial. Também trabalha na Rede
Municipal de Ensino de Recife, acompanhando crianças especiais.Está
fazendo uma formação no CPPL (Centro Pernambucano de
Psicanálise e Linguagem). Trabalha há dez anos ensinando
crianças. Compartilha com a Professora 4 o trabalho com duas
turmas da 2ª. série, sendo o seu maior enfoque a área
de Língua Portuguesa. No seu desenho de uma situação
de aprendizagem apresentou uma situação de sala de aula
que gosta muito: a Roda Literária (Anexo C – Fig. 3),
onde uma professora segura um livro que está lendo para seus
alunos. Comentou que nesses momentos as crianças trazem muitas
informações sobre o que está acontecendo em suas
famílias.
Na atividade de associação de palavras, fez as seguintes
relações:
Tabela 6 – Professora 3 - Associação
de palavras
Escola
|
Desafio. |
| Casa |
Conforto. |
| Criança |
Carinho. |
| Família |
Aconchego. |
| Professor |
Tranqüilidade. |
| Brincar |
Relaxar. Faz tempo que não brinco. |
| Esconder |
Mentira. |
| Mostrar |
Entusiasmo. |
| Ensinar |
Viver. |
| Aprender |
Viver. |
Na atividade em que teria que completar as frases fez as seguintes
associações:
Tabela 7 – Professora 3 – Completação
de frases
| O bom aluno é aquele que... |
se dispõe a trocar. |
| A professora boa é aquela que... |
está disposta a acolher. |
| A boa escola é aquela que... |
ensina para a vida. |
| Eu me sinto fracassada quando... |
não chego ao meu aluno (suas questões). |
| Eu gostaria de ensinar... |
às crianças em situação de risco. |
| Eu gostaria de aprender... |
tudo o que me faz crescer profissionalmente e pessoalmente. |
No nosso registro pessoal sobre a Professora 3 observamos, a partir
de seus relatos sobre as dificuldades dos alunos, que a mesma tem
uma excelente formação teórica sobre as relações
existentes entre afetividade e cognição, o que promove
uma escuta mais ampla das diferenças existentes nas crianças
quanto aos motivos das suas dificuldades de aprendizagem (conforme
transcrição do encontro com a Professora 3, detalhada
nas observações das Crianças 6, 7, 8 e 9, a seguir).
Professora 4
A Professora 4 (Escola 3) é Fonoaudióloga, concluindo
Especialização em Psicomotricidade Relacional. Trabalha
há dez anos ensinando crianças. Compartilha com a Professora
3 o trabalho com duas turmas da 2ª. série, sendo a área
de Matemática seu foco de interesse. No seu desenho de uma
situação de aprendizagem apresentou duas situações:
em uma, um adulto ensina uma criança a amarrar o sapato; em
outra, uma criança brinca com material dourado (Anexo C –
Fig. 4).
Na atividade de associação de palavras, fez as seguintes
relações:
Tabela 8 – Professora 4 - Associação
de palavras
Escola
|
Proteção. |
| Casa |
Aconchego. |
| Criança |
Vida. |
| Família |
Desafio. |
| Professor |
Luz. |
| Brincar |
Brincar. |
| Esconder |
Brincar. |
| Mostrar |
Verdade. |
| Ensinar |
Trocar. |
| Aprender |
Trocar. |
Na atividade em que teria que completar as frases fez as seguintes
associações:
Tabela 9 – Professora 4 – Completação
de frases
| O bom aluno é aquele que... |
está aberto para trocar. |
| A professora boa é aquela que... |
busca alternativas para cada aluno. |
| A boa escola é aquela que... |
dá espaço para o aluno e a professora viverem
suas histórias. |
| Eu me sinto fracassada quando... |
não sinto repercussão do que falo ou faço
no meu aluno. |
| Eu gostaria de ensinar... |
às crianças a viverem a vida e descobrirem ela
a partir de suas necessidades. Buscaríamos conteúdos
que as auxiliariam na vida. |
| Eu gostaria de aprender... |
cada vez mais a atender a diversidade na minha sala. |
No nosso registro pessoal sobre a Professora 4 observamos, a partir
de seus relatos sobre as dificuldades dos alunos, que há uma
paixão pelo que faz e uma crença no potencial de realização
dos seus alunos: a criança não é um problema,
mas está vivendo um momento crítico e é um desafio
seu ajudá-la a atravessar esse momento difícil, investindo,
sobretudo, em rotas alternativas de ensino-aprendizagem. A professora
apresentou excelentes estratégias de intervenção
com seus alunos para que os mesmos superassem as dificuldades de conteúdo
(conforme transcrição do encontro com a Professora 4,
detalhada nas observações das Crianças 6, 7,
8 e 9, a seguir).
De uma maneira geral as professoras indicariam um acompanhamento
psicológico para as crianças selecionadas para o trabalho,
pois para elas estava claro que existiria uma relação
entre a dificuldade de aprendizagem da criança e suas dificuldades
“emocionais”.
Muitas vezes elas não sabiam identificar exatamente quais
as questões relacionadas à esfera afetiva, mas sabiam
que não se tratavam de dificuldades estritamente pedagógicas.
Criança 1 – Entrevista com a Professora
A Criança 1 é um menino de oito anos; estuda na Escola
1. É filho único. A Professora 1 (P1) acha que sua dificuldade
é “emocional”, conforme detalhamento em entrevista
([1]). Eis o trecho da entrevista em que ela conversa com a pesquisadora
sobre seu aluno.
[1] P1: Ele estuda aqui desde o Jardim II e ficava abrindo a porta
toda hora; é de fundo emocional. Em laudo, ele não tem
nada assim de deficiência, esquizofrenia [a única criança
em que se usou esse termo]; mas ele tem uma defasagem sim, principalmente
na questão da lógica. Tipo: ele tá contando de
2 em 2, 1 – 2 – 3 – 5; às vezes, mesmo com
o concreto ele não consegue; tem que ser um trabalho devagar,
no ritmo dele. É como se os conteúdos fossem fluidos
para ele; chegassem lá e diluíssem; às vezes
ficava alguma coisa, ele absorvia; às vezes, não; depende
do dia; se ele tá agitado, se ele não tá agitado.
Isso em relação à Matemática é
o que eu sinto em relação à Português e
às outras matérias. Ele tem uma memória visual
muito grande; é raro errar num ditado porque aonde ele ver
essa palavra... ou se ele errar, só erra uma vez; jamais ele
vai errar outra vez essa mesma palavra. Mas em Matemática e
no tipo de socialização dele em sala, ele tem problemas,
tem esse comprometimento. Não é em todo momento que
ele é chamado, solicitado para trabalhar junto com os colegas
(a professora faz gestos de afastamento com as mãos). Os colegas
se escolhem para trabalhar em dupla e se sobrar algum vai com ele,
senão... eu tenho sempre que ir encaixando, hoje ele vai ficar
aqui... Não é que ele seja excluído, não
é isso; mas como fica muito nítido que ele precisa de
mais alguma coisa, eu tenho que tá sempre com ele, ele tá
sempre me solicitando, é uma ajuda mais individual. Mas ele
é assim, é como eu tô dizendo, é de dia.
Hoje ele tá bem, amanhã não; depende de como
ele vem de casa; se em casa ele teve uma manhã tranqüila,
se ele levantou bem ou não. Às vezes ele usa palavras,
termos, que ele não conhece; você percebe nitidamente
que... às vezes até coincide dele empregar na hora certa,
mas ele não sabe o que é aquilo.
[2] Pesquisadora: Produção de texto?
[3] P1: Não tem essa coisa, não é nem ‘começo,
meio, fim’, mas não tem uma lógica, uma arrumação.
[4]Pesquisadora: Quebra-cabeça?
[5] P1: Não; já vi com material de encaixe; quebra-cabeça,
algumas vezes eu já tentei, mas ele começa, eu ajudo,
monta umas duas, mas ele não quer fazer, esquece, não
tá a fim, não quer fazer e não faz; e material
de encaixe, também; ele não consegue montar um carro,
um foguete.
[6] Pesquisadora: Atividades artísticas? Desenhar?
[7] P1: Ele gosta muito de desenhar, mas ele é mais de escrever.
Agora ele tá numa fase de escrever em todas as paredes, na
sala, no mural, atrás do encosto da cadeira; [o que ele quer
dizer com isso?, pergunto-me]; ele gosta de escrever coisas dos outros;
não é nada de útil, de conteúdo; é
‘fulano é feio’, ‘fulano namora com fulana’;
coisas que ele sabe e eu não sei que até que ponto ele
sabe. A gente tá trabalhando agora com ele a questão
do limite, das regras mesmo da sociedade, a placa da contramão,
‘o que significa contramão?’, ‘você
pode passar?’, ‘ir para a contramão?’, ‘não,
é proibido’, ‘se tiver uma porta com um traço
no meio é para o quê?, é proibido o quê?,
você entrar ou que é perigoso?’; a gente tá
indo por causa do limite; ele tá muito aguçado sexualmente;
então, comigo ou com as próprias alunas da sala. [Refletimos
que em seus desenhos não houve a inscrição de
um terceiro personagem, remetendo-nos a falhas na sua estruturação
do superego, na internalização de limites.]
[8] Pesquisadora: Vocês têm algum trabalho de Orientação
Sexual?
[9] P1: Não com a gente. Quando acontece a gente trabalha com
livros-texto, algum trabalho de corpo, que eles estão se descobrindo,
o trabalho é com a gente e as crianças e quando está
assim uma coisa muita acima da ossada da gente, a gente chama a Psicóloga
para nos ajudar em sala também. [O que sabem os professores
sobre as idéias de Freud sobre a origem do saber?]
[10] Pesquisadora: Educação Física ele aceita?
Gosta?
[11] P1: Gosta. Aceita.
[12] Pesquisadora: E as questões de higiene?
[13] P1: Perfeito, não tem nenhuma falta de higiene, na sala,
vem arrumado.
[14] Pesquisadora: Por exemplo, pegar em argila, com tinta... ele
fica meio constrangido? [Essas perguntas mostram uma possibilidade
de interpretação da pesquisadora]
[15] P1: É, com tinta ele gosta, mas com argila não;
inclusive a gente fez um trabalho bem legal e ele não... você
percebe ele com nojo .
[16] Pesquisadora: Tinta a dedo ele usa?
[17] P1: Ele pega; também com cola colorida, numa boa. Mas
também não é muito de se melecar não;
enquanto os outros meninos gostam mais de se melecar do que de pintar
no papel, ele não. A gente faz muito um trabalho de corpo,
de toque para socialização do grupo. (...) Ele é
mais de passar nos outros do que se deixar tocar.
[18] Pesquisadora: Uma coisa que ele faz bem, além da memória
que você disse que é excelente.
[19] P1: Da ortografia ele é muito bom. Oralmente ele também
é muito bom. Ele é muito, também, de repetição.
Então, às vezes, você diz assim: ‘Criança
1 (em substituição ao nome verdadeiro, para garantir
a privacidade da criança em questão), vá lanchar’
e ele diz ‘Criança 1 (em substituição ao
nome verdadeiro, para garantir a privacidade da criança em
questão) vai lanchar’. Então, eu digo ‘Criança
1 (em substituição ao nome verdadeiro, para garantir
a privacidade da criança em questão), eu não
tô mandando você ir lanchar. Eu tô pedindo para
você ir lanchar e estou afirmando que agora é a hora
do lanche’. Aí ele diz “Agora é a hora do
lanche’.
[20] Pesquisadora: Sem ser de brincadeira?
[21] P1: Sem ser de brincadeira, normalmente. Eu dou um comando para
ele executar e ele repete o que eu tô falando. [sem desejo?
ecolalia?] Ele já tem todo o acompanhamento de fono, terapeuta,
psicopedagoga; isso já vem há muito tempo. A equipe
já entrou em contato com a escola, com a Psicóloga.
[por que as escolas não permitem que as professoras troquem
informações com as equipes de acompanhamento das crianças?]
[22] Pesquisadora: Quais as dificuldades escolares? Você trouxe
o material dele, né? Você já colocou um pouquinho.
Em Matemática, em Português, Produção de
Texto. Se eu perguntar, vê se tem sentido, se alguma coisa que
ele tenha que se organizar para ele é estressante? Se organizar
no sentido de arrumar as coisas no juízo.
[23] P1: É, eu acho.
[24] Pesquisadora: Em ortografia ele não precisa disso.
[25] P1: É.
[26] Pesquisadora: A tabuada, por exemplo, ele poderia ser excelente.
[27] P1: É.
[28] Pesquisadora: Agora, alguma coisa que ele tenha que juntar as
coisas no juízo dele, para dar uma arrumação,
se implicar, ele dá uma rezinha?
[29] P1: Acho que sim. Acho que se ele tivesse até esse controle
do corpo, também (ele é muito grande e um pouco gordo,
o que o deixa meio desengonçado). Ele tá aqui e o caderno
cai. Ele é muito grande, também. Então, coisa
da estrutura corporal, do equilíbrio corporal. Acho que parte
muito disso, também. E da organização familiar,
também. O que a gente sabe é que ele é filho
único, é tudo na hora que ele quer, mamãe tá
na hora, o sapatinho é mamãe que bota, a comidinha só
falta mamãe dar na boca. [objeto da mãe, sem poder ser
sujeito?; como nos mostra Cordié (1996)] Então, quando
chega na sala tem o coletivo, não é só ele, apesar
da gente dar um atendimento também individual. Mas tia ‘Professora
1’ (em substituição ao nome verdadeiro, para garantir
a privacidade da professora em questão) está diante
de vinte e uma crianças, então dificulta.
[30] Pesquisadora: Você começou a notar a dificuldade
dele quando?
[31] P1: Olha, desde o começo. Na verdade, a equipe passou.
Mas desde o primeiro dia de aula eu já tinha notado essa coisa
do abstrato, da abstração que ele não tem, precisa
ser tudo no concreto, realmente, tudo muito claro. Ele não
consegue ver, na parte de interpretação, as entrelinhas.
[Exatamente a definição de inteligência de Lacan,
citada por Cordié (1996).] Então, apesar de não
ter sido trabalhado assim, mas ele quer aquela interpretação
que é mais localização no texto. A coisa da leitura
entrelinhas, do significado, da moral da história, ele não
consegue captar. [acho que ele não consegue interpretar, atribuir
significado]
[32] Pesquisadora: Contos de Fadas?
[33] P1: A gente trabalhou, inclusive agora, fábulas; ele também
não consegue.
[34] Pesquisadora: Porque fábulas têm moral. Mas e contos
de fadas?
[35] P1: Já, já tentei, mas eu percebo que ele entende,
mas quando é para repassar, ou num texto ou oral, ele não
consegue. Se ele começa um texto, ele não termina. [ah!
se os professores soubessem os significados dos contos de fadas!]
[36] Pesquisadora: Você me mostra o caderno dele?
[37] P1: Mostro. Essa aqui foi uma atividade que nós fizemos
hoje. Algumas coisas ele até conseguiu. Por exemplo, multiplicação
não. Eu percebo que quando os números são muito
grandes, fica mais difícil. Eu percebo que quando tem uma atividade
muito grande para ele fazer ou copiar, ele desiste, como no quebra-cabeça,
no meio do caminho; então, eu tenho que terminar por ele. [como
é para ele ser autor?]
[38] Pesquisadora: Na dificuldade ele desiste?
[39] P1: Desiste. Ele diz: ‘Ah! Tia eu não quero mais.’.
[40] Pesquisadora: Você termina para ele?
[41] P1: Não. De copiar. Tipo um exercício no quadro
de dez questões; então ele copia até a 3ª.,
4ª. e aí ele se desinteressa e ele tem que copiar porque
vai para a condução e aí eu termino copiando.
Ele responde normalmente. Mas as palavras muito emendadas, tudo junto
(mostra o caderno). [colado, como ele é colado à sua
mãe?]
[42] Pesquisadora: Ele não usa cursiva?
[43] P1: Não, bastão. Ele não consegue realmente
a cursiva. [Há tantos estudos de análise de desenhos
que apontam as curvas associadas com emoção, singularidade,
marca pessoal, ser sujeito-autor.]
[44] Pesquisadora: O caderno é limpíssimo!
[45] P1: Limpíssimo e organizado. Ele é muito carinhoso,
também; muito simpático, muito carismático (comentários
realizados pela professora enquanto folheava o caderno). O desenho
também tem ausência de algumas coisas.
[46] Pesquisadora: A família aceita a dificuldade?
[47] P1: Não. A mãe dele não aceita muito não.
A gente entra mais em contato com o grupo que o ajuda, até
prefere.
[48] Pesquisadora: A mãe não aceita o quê?
[49] P1: É assim. Em casa, as tarefas de casa vêm perfeitas,
coisas que a gente sabe que não é dele. Às vezes
até está com a letra dele, mas ela deve está
ditando. A gente percebe que a produção dele na sala
não bate. Então a gente tem que ir com muita sutileza
para conversar com a mãe porque ela acha que não, que
ele não tem nenhum probleminha. Então a gente prefere
conversar realmente com o grupo que o ajuda, já que ela aceitou
colocar ele num grupo. Também ela não aceita tirar ele
desse grupo, até para renovar, pois desde o Jardim II que ele
está com esse mesmo grupo.
[50] Pesquisadora: Como é ordenar para ele?
[51] P1: Às vezes consegue, às vezes não.
[52] Pesquisadora: Nem três, por exemplo?
[53] P1: Consegue, mas números muito grandes ele não
consegue. (Olhando o caderno, encontramos uma folha com uma parte
pintada de vermelho.) Isso daqui é uma atividade que ele não
estava a fim de fazer. Agora também é uma criança
muito inquieta que precisa gastar muita energia.
[54] Pesquisadora: Ele lê?
[55] P1: Não. Ele lê, mas não é muito de
gostar de ler não.
[56] Pesquisadora: Vocês estimulam?
[57] P1: Estimulamos. A gente tem um projeto que é o ‘Leio
e Repasso’. Todas as sextas-feiras eles levam um livro e na
segunda-feira eles repassam de alguma forma: ou apresentando o próprio
resumo, ou um desenho ou uma apresentação.
[58] Pesquisadora: Quais as possibilidades para a superação
dessas dificuldades?
[59] P1: Para a Criança 1 eu indicaria um acompanhamento psicológico,
com uma nova equipe, mas a mãe não aceita nem o problema
nem a mudança. Ele está muito aguçado pelo sexo.
Estamos trabalhando a questão dos limites através das
placas de trânsito. Tenho insistido nos nossos ‘combinados’.
Na questão da sexualidade tento não despertar, [não
precisa porque já está lá, já existe;
ah! se os professores soubessem um pouco das idéias de Freud
sobre sexualidade infantil...] eu só respondo. Nas aulas de
Ciências eu trouxe fotos do meu parto. Uma mãe trouxe
“Mamãe botou um ovo” e li o livro na sala.
[60] Pesquisadora: Você conhece o livro “Casa da Barriga”?
Fala sobre a visão do bebê do seu processo de nascimento
a partir do útero.
[61] P1: Não, mas vou procurar. Eu gostaria que a escola promovesse
uma educação inclusiva de verdade. Mas eu não
estudei uma coisa específica para isso e eu queria mais. O
tempo de trabalho com as crianças também é curto.
Seria bom que a criança pudesse ter um horário só
com a professora.
Criança 1 - Entrevista
Apesar de ter apenas oito anos, a Criança 1 apresenta um
corpo grande em relação aos colegas de sua idade. Percebemos
que ele não nos olhou diretamente (‘olhar nos olhos’),
direcionando sempre seu foco para objetos na sala de entrevista. Mostrou-se
disposto a participar.
No início da entrevista explicamos que este era um trabalho
para a nossa escola e que faríamos algumas perguntas e solicitaríamos
alguns desenhos. Começamos com a solicitação
da narrativa de sua história de vida. A Criança 1 (C1)
não respondeu bem a essa sugestão e tivemos que fazer
algumas perguntas para que falasse um pouco sobre si mesma. Soubemos,
então, que gosta de comer pizza com Coca-Cola gelada, torce
pelo Sport Club Recife (time de futebol local), gosta de jogar no
computador – principalmente os jogos Mario e The Sims -, não
gosta de jogar bola.
Tentamos estabelecer um diálogo com o objetivo de observarmos
melhor sua intenção de comunicação.
[1] Pesquisadora: Qual é o nome de seu melhor amigo?
[2] C1: Qualquer coisa. Ah! Aqui na escola é I. e lá
em casa eu não tenho amigo não; no prédio não
tem.
[3] Pesquisadora: Você gosta de ser criança?
[4] C1: Gosto.
[5] Pesquisadora: Você já queria ser gente grande?
[6] C1: Hã, hã.
[7] Pesquisadora: Você prefere ser criança ou gente grande?
[8] C1: Criança.
[9] Pesquisadora: Sorvete?
[10] C1: De morango.
Insistimos em perguntas sobre as comidas que mais gostava, mas não
houve nenhuma afirmativa espontânea, mas as informações
só nos apareceram através de perguntas diretas à
Criança 1. Enquanto mexia na caixa de giz de cera, evitando
o nosso olhar, respondeu, afirmativamente, que gostava de comer sopa,
arroz, feijão, chiclete e brigadeiro.
Sugerimos que fizesse, então, um desenho da situação
de aprendizagem planejada para a pesquisa. Perguntou-nos se poderia
desenhar qualquer coisa e respondemos afirmativamente. Antes de começar
a desenhar nos perguntou se conhecíamos os professores de capoeira
e de xadrez da escola; respondemos que não e citamos os profissionais
da escola que conhecíamos. Baixou a cabeça e começou
a desenhar.
Enquanto desenhava nos perguntou se trabalhávamos numa determinada
escola. Desenhou uma situação em que um professor de
capoeira ensinava a seu aluno o jogo. No desenho os rostos estão
felizes, mas não há contato entre o professor e o aluno.
Sua assinatura do desenho, sempre sugerida pela pesquisadora com o
objetivo de resgatar a questão da autoria (de acordo com as
idéias de Alícia Fernandez), apresentou uma mistura
de letras em bastão e cursiva, sendo todas as letras soltas
umas das outras (Anexo D – Fig. 5).
Em seguida, solicitamos que desenhasse a sua família. Desenhou
duas figuras humanas (Anexo D – Fig. 6). Perguntamos se havia
notado que não tinha se desenhado no desenho de sua família;
respondeu ‘me desenhei’ e desviou a atenção
para a caixa de giz de cera.
Continuamos, então, com o roteiro da entrevista.
[11] Pesquisadora: Diga-me uma coisa que você faz bem, que é
federa.
[12] C1: Computador. Ele fica no meu quarto, não, no da minha
mãe. Eu durmo no meu quarto. Ah, Tia! [associação
clara da minha imagem com uma professora da escola ou com alguma das
profissionais que realizam seu acompanhamento terapêutico].
Tem a professora de informática.
Olha para a câmera e pergunta para que a mesma serve; respondo
que é para nos filmar; fica olhando para toda a sala, evitando
entregar-se ao momento da entrevista.
[13] Pesquisadora: Diga-me uma coisa que você tem dificuldade
de fazer.
[14] C1: Matemática.
[15] Pesquisadora: Tu achas? Tu tens? Tu achas chato?
[16] C1: Não. Não.
[17] Pesquisadora: Tu tens ou não tens dificuldade?
[18] C1: Não tenho.
[19] Pesquisadora: Mas eu quero uma você me diga uma coisa que
você tem dificuldade de fazer. Pensa aí.
[20] C1: A bandeira do Brasil; eu não sei fazer (gesticula
como se desenhasse a bandeira).
Observamos como a resposta é desconectada da pergunta, apontando
para uma dificuldade de interpretar.
Começamos, então, a seqüência de associação
de palavras, retratada na Tabela 10.
Tabela 10 – Criança 1 - Associação
de palavras
Escola
|
É, bonita. |
| Casa |
É, bonita. |
| Criança |
É, bonita. |
| Família |
Também. |
| Professor |
Também, é bonita. |
| Brincar |
Também, é bonita (levanta-se da cadeira e depois
se senta de novo). |
| Esconder |
Também, é bonita.Pesquisadora: Esconder é
bonito?Não, é feio. |
| Mostrar |
O quê?Pesquisadora: É feio? É bonito? Ou
outra palavra?É bonito. |
| Ensinar |
É bonito. |
| Aprender |
É bonito (respondeu de pé, olhando para a porta). |
Na atividade de completar as frases com a primeira coisa que lhe
viesse à cabeça, o aluno já manifestava a sua
vontade de ir embora da sala de entrevista.
Tabela 11 – Criança 1 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
nada. |
| Eu mudaria no professor... |
não, não mudaria. |
| Eu mudaria na minha família... |
não, não mudaria a minha família. |
| Eu mudaria em mim... |
não. |
| Eu gostaria de aprender... |
jogar no computador. |
Observamos aqui que a Criança 1 diz que gostaria de aprender
a fazer exatamente o que disse que era o que mais sabia fazer.
Ao terminar de completar as frases a Criança 1 se dirige para
a porta para ir embora.
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
1, escrevemos:
“Há algo no ar; psicose (?); o comprometimento emocional
é mais grave; pareceu-me que não há sujeito;
repete o desejo do outro.”
Criança 2 – Entrevista com a Professora
A Criança 2 é uma menina de oito anos; estuda na Escola
1. É filha única. A Professora 1 acha que sua dificuldade
é “emocional”. Eis o trecho da entrevista em que
ela conversa com a pesquisadora sobre sua aluna.
[1] P1: Estuda no colégio há muito tempo. Também
é uma criança que tem acompanhamento; agora a psicóloga
dela teve neném. É muito emocional. É filha única.
Os pais dela já são mais idosos. A mãe vem tendo
uns probleminhas de possessividade; é uma relação
meio simbiótica, entre ela e a mãe; ela não solicita
muito o pai, ela não fala muito no pai. E já começa
pelo nome dela. Ela não se aceita, na verdade. O nome dela
não é H., é H (com um acento na grafia do nome),
que é o nome da bisavó ou de uma tia que morreu. Mas
ela não se chama pelo nome com a grafia acentuada, nem a família
dela chama; todo mundo chama pela forma sem a acentuação.
Na verdade foi ela quem impôs isso para a família e a
família aceitou. [Está aparecendo muito a palavra ‘verdade’
no discurso da professora; inconsciente, o que a professora captou
de não-verdade na história de H?] Já começa
aí uma mistura. Ela também é uma criança
que é muito do concreto. Ela não se aceita, ela se acha
gorda, ela se acha burra, é um complexo de inferioridade muito
grande [Observamos que essa informação está de
acordo com o desenho realizado pela criança – Anexo D].
A gente tem tentado levantar a auto-estima. A cursiva só está
aparecendo agora.”
[2] Pesquisadora: Você acha que ela tem uma estrutura menos
comprometida que a Criança 1?
[3] P1: Menos, com certeza. Ela consegue fazer só. Tem a coisa
da dependência também. Está sempre com a mãe
do lado fazendo as tarefas, tem tudo na mão. Ela tem que cortar
esse cordão umbilical que ainda não foi cortado.
[3] Pesquisadora: Você acha que a Criança 1 já
cortou?
[4] P1: Não, não. Mas a Criança 2 já consegue
trabalhar sozinha. Tenho trabalhado a independência dela; eu
tinha que sentar do lado nem que fosse para fazer companhia. Ela tinha
horror a Matemática: ‘pra quê Matemática?’;
‘eu odeio Matemática!’. Ela adora gramática.
Estamos fazendo um Projeto sobre o mundo dos animais e ela tem lido
muito sobre o cavalo-marinho. Ela é uma criança que
tem um ritmo mais lento. [Em relação a quê?] A
Criança 1, eu tenho as minhas dúvidas. Os dois eu acho
que é o emocional bloqueando o cognitivo, alguma coisa que
bloqueia a aprendizagem.
[5] Pesquisadora: Uma coisa que ela faz bem...
[6] P1: Gramática [A Professora 1 se refere mais a conteúdos
de sala de aula]. Ela consegue arrumar um texto em termos de lógica
e coerência. Agora também tem Matemática; ela
está legal; cortei o cordão umbilical comigo na sala
[A Professora 1 se referiu que a Criança 2 tinha uma ligação
dessa com a mãe e agora fala sobre o corte do cordão
com ela; há um indício de que a Professora 1 ‘sabe’,
de algum modo, que existe uma transferência entre as figuras
parentais-professora].
[7] Pesquisadora: Aglutina e segmenta?
[8] P1: Sim, mais aglutina [uma referência à relação
inconsciente entre cordão umbilical-dificuldade de separação
– escrita com aglutinações, pois torna-se ‘proibido’
separar]. Ela ainda tem dificuldade com o sistema de numeração
decimal. Está no processo de passar do bastão para a
cursiva. Quando trabalhamos uma vivência com argila no Dia das
Mães, ela e a mãe tentaram não se melar muito.
Ela gosta muito de Artes e não gosta muito das aulas de Capoeira,
apesar de gostar das de Educação Física, porque
é muito jogo (lúdico). Eu estou muito feliz com o crescimento
dela.
[9] Pesquisadora: Você acha que se ela deslanchasse no emocional,
ela seguiria tranqüila?
[10] P1: Acho. Acho que o problema dela é todo emocional.
[11] Pesquisadora: Quais as possibilidades para a superação
dessas dificuldades?
[12] P1: Para a Criança 2 eu indicaria um acompanhamento psicológico
e uma professora particular, mas a mãe não aceita.
Criança 2 – Entrevista
A Criança 2 (C2) chegou olhando para baixo e, ao ver o papel
e a caixa de giz de cera, começou logo a desenhar. Chamou-nos
a atenção os seus cabelos em desalinho; poderíamos
considerá-la ‘gordinha’.
Deixamo-la desenhar e não lhe fizemos perguntas sobre sua história
de vida. Fez o desenho (Anexo D – Fig. 7) e comentou:
[1] C2: Eu sei fazer livros com papel. Desenho e grampeio.
Resolvemos seguir seu ‘discurso’ e providenciamos papel
e clipes, simulando um livro. Ela fica muito concentrada no desenho
e leva em torno de 10min. para concluí-lo tendo o cuidado de
não deixar transparência alguma. Assinou o desenho com
letra em bastão.
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem prevista para a pesquisa, sugerindo que poderia desenhar
‘qualquer coisa’.
[2] C2: Mas eu não sei desenhar essa coisa.
[3] Pesquisadora: Você pode desenhar do jeito que quiser.
[4] C2: Tem lápis cor da pele?
[5] Pesquisadora: Qual é a cor da pele? As pessoas têm
peles de cores diferentes: há pele negra, pele branca, pele
amarela, pele vermelha... Qual é a cor que você quer?
[6] C2: Tem gente de pele vermelha?
[7] Pesquisadora: Nunca vi uma pessoa assim, mas tenho a informação
de que os índios norte-americanos tinham essa cor de pele.
Fez o desenho (Anexo D - Fig. 8) de uma professora ensinando, ‘coisas
de escola’, a uma aluna. Assinou o desenho usando a cor azul,
mas comentou:
[8] C2: Eu preferia o rosa. Na aula de Artes a professora só
bota para desenhar.
[9] Pesquisadora: Você gosta de mexer com tinta ou argila?
[10] C2: Gosto de mexer com tinta, mas não gosto muito de mexer
com argila [corrobora a percepção da professora na atividade
do dia das mães]. Só teve uma coisa que eu enjoei de
desenhar: figuras geométricas, porque teve uma semana que só
foi isso. [quantas dicas para planejamento pedagógico!]
Solicitamos o desenho da família. Desenhou a mãe, ela
e o pai (Anexo D – Fig. 9). Os pais ficaram enormes, parecem
gigantes, e ela bem pequena; todos sorriem; sua roupa não é
pintada [o que está querendo me revelar?]; o pai está
pintado de marrom, a mãe de mostarda e ela de cor da pele (como
se usa nas salas de aula das nossas escolas).
Na atividade de associação de palavras, fez as seguintes
relações:
Tabela 12 – Criança 2 - Associação
de palavras
Escola
|
Parque. |
| Casa |
(inaudível) |
| Criança |
Adulto. |
| Família |
(demora em responder) Cadeira. |
| Professor |
Professor, estudo. |
| Brincar |
Não brincar. |
| Esconder |
Não esconder. |
| Mostrar |
Não mostrar. |
| Ensinar |
Não ensinar. |
| Aprender |
Não aprender. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações.
Tabela 12 – Criança 2 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
Eu não mudaria na minha escola.(depois de
insistirmos na frase afirmativa) que tirasse aquela catraca. |
| Eu mudaria no professor... |
Eu não mudaria no meu professor.(depois de insistirmos
na frase afirmativa) nada. |
| Eu mudaria na minha família... |
Eu não sei disso também. Nada.(depois de insistirmos
na frase afirmativa e sugerirmos algumas perguntas) no lugar de
sopa, hambúrguer, poder tomar sorvete, minha mãe
não trabalhar.Comentamos, então: “Tá
vendo que tem coisa para mudar na sua família!!” |
| Eu mudaria em mim... |
ter irmão. |
| Eu gostaria de aprender... |
mais. |
Ao terminar de completar as frases a Criança 2 perguntou-nos:
[11] C2: Por que é que todo mundo da minha sala está
vindo para cá?
Expliquei que sua professora havia concordado em me ajudar num trabalho
que eu tinha que fazer com crianças de segunda série
para apresentar na minha aula e estava enviando alguns alunos dela
para a sala da entrevista.
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
2, escrevemos:
“Muito reprimida, falando muito baixo; tem muita repressão
aí. Há um peso enorme, uma tristeza profunda; desleixo
corporal, olhar para baixo, esconde o desenho, esconde-se; pais
repressores?”.
Criança 3 – Entrevista com a Professora
A Criança 3 é uma menina de oito anos; estuda na Escola
1. Tem mais uma irmã. Sua família segue uma religião
bem tradicional. A Professora 1 acha que sua dificuldade é
emocional. Eis o trecho da entrevista em que ela conversa com a pesquisadora
sobre sua aluna.
[1] P1: Já é uma característica diferente dos
outros dois alunos (Criança 1 e Criança 2). Ela suja
muito, ela rasga muito, ela amassa muito. Na verdade, até então,
ela não tinha apresentado dificuldade. A gente sempre notou
uma lentidão em relação à turma. E esse
ano, essa coisa do número, a gente não sabe se aconteceu
alguma coisa, o setenta, ela não conseguia registrar o 70;
no ditado de números ela não conhece 60 e 70, nem as
famílias 600 e 700; às vezes, ela reconhecia o número,
mas não sabia escrever. Ela é muito lenta, a letra dela
é muito grande, é desproporcional.
[2] Pesquisadora: A criança é pequenininha?
[3] P1: É. Ela esquece muito o caderno.
[4] Pesquisadora: Uma coisa que ela faz bem.
[5] P1: Uma produção de texto. Às vezes ela consegue,
às vezes não. Ela acha muito que tudo é errado.
Ela não comemora os aniversários dos colegas na sala
de aula, não canta Parabéns, mas come tudo. Ela lidera
algumas colegas de sala, como a Criança 2. Ela é muito
entrosada na sala. Tem uma irmã de 4 anos. A mãe é
Pediatra e já está fazendo alguns exames nela, pois
já percebeu essa coisa da lentidão.
[6] Pesquisadora: Você diria que tem alguma coisa?
[7] P1: Não sei explicar. É muito também de dia.
Às vezes ela não está disposta a fazer nada.
[8] Pesquisadora: Se fosse alguma coisa orgânica ou ‘cognitiva’
já instalada, você acha que teria essa oscilação?
[9] P1: Não, não é orgânico. Eu acho que
é emocional, mas eu ainda não consegui descobrir o que
é, porque passa a imagem de uma família perfeita, ‘perfeita’.
[10] Pesquisadora: Talvez seja aí. [Podemos observar aqui como
uma intervenção na pesquisa pode favorecer uma reflexão
por parte do pesquisado]
[11] P1: Você percebe que tem... O pai é mais presente
que a mãe. Trabalha com alguma coisa da igreja deles. Eu percebo
que ela quer se libertar mais, envolver-se mais como criança.
Mas, ao mesmo tempo, ela não pode, ela entra nesse conflito.
[excelente leitura da professora]
[12] Pesquisadora: Ela pode brincar?
[13] P1: Às vezes, sim; às vezes, não. Depende
da brincadeira. Nós desenvolvemos na escola algumas atividades
de Psicomotricidade Relacional e ela fica em conflito. Ela não
participa de atividades que se assemelhem a ‘festas carnais’,
na leitura dela, e fica tentando manipular as amigas mais próximas
dizendo ‘se você brincar eu não vou ser mais sua
amiga’.
[14] Pesquisadora: As três crianças que você selecionou
para o nosso trabalho não são muito entrosadas na sala
de aula, não é?
[15] P1: Não, sempre precisam da minha ajuda. A Criança
3 não joga Capoeira; vai, olha, mas não participa.
[16] Pesquisadora: Uma coisa que ela faz bem...
[17] P1: Desenhar, contar histórias (mais oral). Ela ainda
emenda as palavras e também em relação à
limpeza que ela borra muito.
[18] Pesquisadora: Em relação a números, conjuntos,
operações matemáticas?
[19] P1: Ela tem dificuldades em relação à quantificação
e à ordenação; também tem dificuldades
no sistema de numeração decimal. Consegue resolver problemas
de adição, mas de subtração é muito
raro ela conseguir entender.
[20] Pesquisadora: Você percebe alguma diferença neles,
entre resolver a conta e resolver o problema?
[21] P1: Percebo. Tipo, algumas crianças na sala estão
muito ligadas ao concreto, a gente trabalha a elaboração
de problemas, tipo assim ‘em um saco de figurinhas tem 300 figurinhas’
e elas não se permitem porque num saco de figurinhas não
pode ter 300 figurinhas; é impossível, pois um saco
só tem 4 ou 5, no máximo. Já algumas outras crianças
conseguem perceber que isso é uma hipótese. Principalmente
a Criança 3 não consegue. Eles não conseguem
identificar a conta, interpretar o problema. Eu tenho sempre que puxar
para o concreto. A Criança 3 não segmenta. Todas as
três crianças estão alfabetizadas. Quando os textos
são longos, ela se perde. Os textos produzidos são curtos.
A Criança 1 não consegue.
[22] Pesquisadora: Quais as possibilidades para a superação
dessas dificuldades?
[23] P1: Para a Criança 3 eu indicaria um acompanhamento psicológico.
Criança 3 – Entrevista
A Criança 3 (C3) chegou olhando para tudo, demonstrando muita
curiosidade, e falando muito. É bem magrinha.
Quando lhe pedimos para falar um pouco de si, de sua história
de vida, contou-nos:
[1] C3: Quando eu era pequenininha, eu era muito chorona. Tenho
só uma irmã. Gosto de brincar de pular corda, de casinha,
de cidade e de floresta. [os opostos: anjo/diabo; mundo/família]
[2] Pesquisadora: Você gosta de dançar?
[3] C3: Gosto. Minha aula preferida é a de Artes porque eu
gosto muito de desenhar e de pintar.
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem (Anexo D – Fig. 10) prevista para a pesquisa, sugerindo
que poderia desenhar ‘qualquer coisa’. A Criança
3 respondeu, ao pegar nos lápis de cera:
[4] C3: Eu sempre quero ter cuidado com os meus lápis lá
de casa. Eu sempre tenho cuidado. Até com os da escola eu tenho.
Começou a desenhar muito concentrada e, depois de algum tempo
falou:
[5] C3: Eu tenho vários primos e primas.
[6] Pesquisadora: Você gosta deles?
[7] C3: Gosto.
[8] Pesquisadora: Todo mundo é bonzinho?
[9] C3: Todo mundo. Tem algumas meninas lá da minha sala que
me perturbam e eu digo que é melhor as meninas da minha religião
do que as daqui da escola.
[10] Pesquisadora: Você tem uma religião, é?
[11] C3: Hã, hã! Mas eu acho que você não
conhece essa religião.
[12] Pesquisadora: Qual é?
[13] C3: (respondeu o nome da religião, não revelada
para proteger a identidade da criança).
[14] Pesquisadora: Mas eu já ouvi falar.
[15] C3: Já?
[16] Pesquisadora: Mas eu não conheço muita coisa.
[17] C3: Eu conheço. Fala sobre Jesus, fala sobre Deus.
[18] Pesquisadora: Outras religiões também falam sobre
Jesus e Deus.
Fez o desenho de uma professora ensinando, ‘coisas de escola’,
a uma aluna. Desenhou jogos, um quadro, a aluna numa cadeira que parece
com uma outra pessoa. A professora foi desenhada bem grande e não
olhava em direção à aluna, que não foi
desenhada com detalhes no rosto.
Solicitamos o desenho da família (Anexo D – Fig. 11).
Desenhou a mãe, o pai (sem os braços), a irmã
e ela. O pai tem nome religioso. Nenhuma face foi desenhada.
Começamos, então, um diálogo, fora do roteiro
da entrevista.
[19] Pesquisadora: Por que você acha as meninas de sua religião
mais legais do que as meninas da escola?
[20] C3: Porque as meninas da minha escola me chateiam, dizendo que
eu vou namorar com L. E eu falo que não vou namorar e finjo
que eu tenho namorado para enganar elas. Que eu digo que é
G., [nome de anjo na Bíblia; nome religioso como o nome de
seu pai] o meu boneco.
Sorrimos e ela sorriu também, colocando a mão na boca.
[21] Pesquisadora: E L., aqui da escola, paquera com você? Você
acha que ela paquera?
[22] C3: (Fica em silêncio por um tempo). Não.
[23] Pesquisadora: Você não dá uma paqueradinha
com ele?
[24] C3: Não (bem disfarçado).
[25] Pesquisadora: Ele é chato?
[26] C3: Não.
[27] Pesquisadora: Ele é legal?
[28] C3: Ai de mim! Às vezes ele me chateia. Às vezes
dizem ‘Você gosta de R. ou de L.?’. Aí eu
digo: ‘R. me deixa normal, mas L. ... eu desmaio’.
[29] Pesquisadora: Ele é bonito, né?
[30] C3: Porque desde a primeira série que eu falava para L.
que ele era bonito, que ele ficou correndo atrás de mim. Aí
eu fui lá dentro da sala e perguntei: ‘Por que você
tava correndo atrás de mim?’. Eu pensava que ele queria
paquerar (abraça-se muito enquanto conta essa história).
[31] Pesquisadora: E o que ele queria com você?
[32] C3: Eu não sei.
[33] Pesquisadora: Ele não disse?
[34] C3: Não.
[35] Pesquisadora: Mas de verdade, cá entre nós, você
acha que ele dá uma paquerada com você?
[36] C3: Não (balançando a cabeça com veemência,
com um olhar sapeca e um sorriso maroto).
[37] Pesquisadora: E você dá uma paqueradinha com ele?
[38] C3: Não.
[39] Pesquisadora: Então, por que você inventou essa
história de G.?
[40] C3: Para enganar as meninas.
A Criança 3 olhou para o seu desenho da família e comentou:
[41] C3: Só que eu me errei. No desenho, eu estou embaixo (referindo-se
a estar menor que sua irmã mais nova).
Procuramos continuar com a entrevista, de acordo com o roteiro.
[42] Pesquisadora: Diz uma coisa que você faz muito bem.
[43] C3: Eu sou boa de fazer Matemática e de desenhar.
[44] Pesquisadora: Uma coisa que você tem muita dificuldade
para fazer.
[45] C3: Muita dificuldade... é encarar o jeito, as coisas
difíceis das pessoas, como droga.
[46] Pesquisadora: E que outras coisas das pessoas você tem
dificuldade de encarar?
[48] C3: ... É briga entre eu e minha irmã. Eu quero
uma coisa e ela quer outra. Aí eu não gosto de ter briga.
Aí a gente resolve e pronto (levantou-se e ficou arrumando
o giz de cera).
Partimos para as atividades previstas para a entrevista e na atividade
de associação de palavras, fez as seguintes relações:
Tabela 14 – Criança 3 - Associação
de palavras
Escola
|
Nome de sua escola (omitido por questões
éticas). |
| Casa |
Eu gosto muito da minha casa porque é bem grande e eu
brinco com a minha caixinha, eu brinco de qualquer coisa. |
| Criança |
Eu gosto de todas as crianças e eu tenho muita pena das
crianças de rua que dá vontade de eu governar o
mundo e proibir os adolescentes namorarem e o governo pegar todas
as crianças de todos os países.Pesquisadora: E o
que é que você acharia legal se os adolescentes fossem
proibidos de namorar?Porque nessa idade de namorar, o adolescente
é muito novo. Isso aí é coisa para adulto,
não para adolescente.Pesquisadora: Você acha que
só pode dar beijo na boca se for adulto?Só se for
adulto. [Mais uma vez surge a questão da sexualidade] |
| Família |
Eu gosto da minha família e da família que me
respeita.Pesquisadora: Eles respeitam você na sua casa?Uma
vizinha minha chamada F., a família dela respeita muito
eu.Pesquisadora: E a sua família respeita você?Me
respeita, mas às vezes eles me dão palmada porque
eu faço coisas que são erradas.Pesquisadora: Você
acha que sua irmã menor respeita você?Mais ou menos.
Ela é muito menor, mas eu gosto muito dela. |
| Professor |
Minha professora é L; meu professor de natação
se chama S. Eu tô querendo dançar balé porque
eu gosto muito de dançar. [A criança vive um conflito,
pois esse seu desejo de dançar não é aceito
pela família, devido às questões religiosas.] |
| Brincar |
Eu gosto de brincar de pular corda, casinha e de boneca.
|
| Esconder |
Eu gosto de brincar de esconde-esconde; quando me chamam para
tomar banho, eu me escondo como um cachorro (baixou o tom da voz). |
| Mostrar |
Como assim, mostrar? O que eu gosto de mostrar não é
coisa secreta não. Eu gosto de mostrar comida que todo
mundo fica olhando só para comer, gosto de mostrar coisas
bonitas. Pesquisadora: E se você fosse mostrar uma coisa
bem secreta? Um tratado do rei. Mas bem secreto mesmo, era uma
boneca bem lindíssima para as crianças. |
| Ensinar |
Ensinar a ler, a escrever, ensinar tarefas. |
| Aprender |
Eu gosto de aprender tudo. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações:
Tabela 15 – Criança 3 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
não namorar, não brigar e não
ficar acompanhando os outros, feito Leonardo fez hoje e Fred,
aquele pitoco. |
| Eu mudaria no professor... |
que ela ficasse só vigiando a gente; eu mudaria também
que ela me ensinasse como meu pai me ensina.Pesquisadora: Como
é que seu pai lhe ensina?Umas contas de Matemática,
porque nem era de antigamente; foram os homens agora que inventaram.Pesquisadora:
Você gosta quando seu pai lhe ensina Matemática?Hã!
Hã! |
| Eu mudaria na minha família... |
eu queria melhorar na minha família que parassem de
brigar e todo mundo ficasse alegre, indo para qualquer lugar.
[Uma possibilidade de referência às interdições
familiares]Pesquisadora: E você não pode ir para
qualquer lugar?Pode, se tiver dinheiro e tempo.Pesquisadora: E
o que é mais difícil de ter lá: dinheiro
ou tempo?Dinheiro. |
| Eu mudaria em mim... |
que eu pegasse mais as roupas novas do reino [Mais um significante
religioso?], ajudasse mais as pessoas e não ser muito trelosa,
feito a minha mãe que desde pequenininha não era
trelosa e minha avó disse que ela nunca levou uma lapada. |
| Eu gostaria de aprender... |
eu já disse que gostaria de aprender todas as coisas
dos países e falar todas as línguas. [Levantamos
a possibilidade do significante ‘língua’ aqui
está sendo usado como uma possibilidade de comunicação
com todas as pessoas, sem o impedimento das barreiras religiosas.] |
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
3, escrevemos:
“Há uma desarmonia entre a energia da criança
e a estrutura repressora da família, extremamente ligada
a valores religiosos rígidos; a questão sexual está
muito ligada a seu não-saber.”
Criança 4 – Entrevista com a Professora
A Criança 4 é uma menina de oito anos; estuda na Escola
2. Não tem irmãos e seus pais são separados.
Seu pai está longe e quase na tem contato com ele, que é
cabeleireiro e garçom. Sua mãe é dentista e está
gerenciando uma clínica em outro estado. Está morando
com os tios e deverá ir morar com a mãe no final do
ano letivo. A Professora 2 acha que sua dificuldade é “emocional”.
Eis o trecho da entrevista em que ela conversa com a pesquisadora
sobre sua aluna.
[1] P2: Ela tem dificuldades na linguagem escrita; na linguagem
oral fica ansiosa. É como eu; tenta organizar o pensamento
para não dizer o que o outro não espera, para atender
à expectativa do outro [isso ficou claro quando a professora
respondeu a parte da entrevista relacionada às suas questões].
Ela tenta organizar e aí falta espontaneidade nessa hora; aí
termina atropelando. Ela consegue organizar um texto, mas tem muita
segmentação na escrita; ela segmenta o que não
deve e aglutina o que era para ser separado. [Levantamos a possibilidade
de seu inconsciente está apenas denunciando a sua estrutura
de vida familiar e fizemos a intervenção a seguir, o
que nos remete ao conceito, já discutido na seção
de Introdução, de que todo momento de pesquisa é
uma possibilidade de reflexão para o pesquisador e para o participante.].
[2] Pesquisadora: Você sabe se os pais dela são separados?
[hipótese já bastante discutida na literatura psicopedagógica]
[3] P3: São separados desde ela muito nova, com menos de dois
anos de idade. A mãe morava com ela aqui e foi para um outro
estado trabalhar e a deixou na casa da tia. O pai não tem contato;
ela só sabe que ele está vivo. Qualquer coisinha na
sala de aula desestabiliza; acho que isso atrapalha um pouco na execução
das atividades. Ela fala muito do contexto familiar dela (os tios).
Uma vez ela me disse assim: ‘Meu pai se separou da minha mãe
porque ele bebia muito e batia na minha mãe’. Infelizmente
ela não tem acompanhamento psicológico.
[4] Pesquisadora: Uma coisa que ela faz bem.
[5] P2: Ela se relaciona bem com os amigos e sempre reconhece quando
errou. [Essa professora já saiu da proposta de ‘conteúdo
escolar’, apesar de ter apontado uma dificuldade da aluna com
algo relacionado aos conteúdos do programa escolar.] Noutro
dia ela destruiu uma árvore de espuma que estava enfeitando
o pátio da escola e assumiu que foi ela.
[6] Pesquisadora: Veja que a árvore é um símbolo.
[7] P2: É. Apesar de só termos nove alunos na sala de
aula, a carga emocional é enorme. Organizei a brincadeira de
‘Mamãe e seus pintinhos’; nessa brincadeira a mãe
diz ‘Eu vou lhe proteger.’ e foi muito difícil
para a turma.
A Professora 2 mostrou o desenho que a Criança 4 fez logo após
a brincadeira e comentou:
[8] P2: Nos seus desenhos a figura humana se apresenta sempre sem
algum membro do corpo; ou falta perna ou falta braço; os cabelos
são sempre bem arrumadinhos.
A Professora 2 apresentou uma produção de texto da Criança
4 em que ela contava uma história e concluiu, como moral, que
‘ser chato não vale nada’. Nesse momento a Professora
2 argumentou que esse é mais um indício da necessidade
da Criança 4 de sempre agradar as outras pessoas. Observamos
também uma frase em que o personagem da história afirmava
‘- Mãe, eu não quero isso.’ Perguntamo-nos,
então, o que seria esse ‘isso’. A Professora 2
comentou erros de concordância verbal. [Esse conteúdo
não foi apontado por nenhuma outra professora, o que ressalta
a sua dificuldade de trabalhar com crianças de segunda série,
como seu próprio depoimento inicial.]
A Professora 2 apresentou uma atividade de matemática da Criança
4, onde houve a necessidade de raciocínio lógico e afirmou
que ela se saiu muito bem. Em seguida, comentou:
[9] P2: A sala, no início do ano, apresentou bastante dificuldades
em Matemática e aí eu me esmerei muito nessa área
e abandonei, um pouco, a Língua Portuguesa. Eu poderia ter
trabalhado muito mais. Mas eu fiquei muito ansiosa e angustiada por
causa das colocações de alguns pais.
Voltando a falar sobre a Criança 4, a Professora 2 continuou:
[10] P2: Ela já se apropriou da técnica da subtração.
A linguagem foi meio atrapalhada, com livrinhos de histórias
na sala. Ela não se concentra muito para terminar o livro;
ela antecipa o final da história; pelo começo ela já
sabe como vai terminar. O que ela gosta muito é de possibilidades,
que é multiplicação – combinar uma blusa
com várias saias – e análise combinatória.
Sistema de numeração é tranqüilo. Às
vezes se atrapalha na resolução de problemas porque
pega uma palavra e já interpreta; por exemplo, ‘a mais’
e faz ‘soma’. Produz texto com coerência.
[11] Pesquisadora: O que a escola pode fazer para ajudá-la
a superar suas dificuldades?
[12] P2: Ah! Acho que a escola pode chamar a família e indicar
um acompanhamento com uma Psicopedadoga, pois a concentração
dela é muito alterada. Acho que os tios não aceitam
a idéia porque pensam assim: ‘Se ela vai ser acompanhada
por uma profissional, então é porque alguma coisa está
muito grave na cabeça dela’. Ela gosta muito de servir
e se dispersa com facilidade na sala.
[13] Pesquisadora: Que intervenção pedagógica
poderia ser feita?
[14] P2: Acho que tornar as coisas mais lúdicas dentro da sala
de aula e isso é responsabilidade minha. [Esse depoimento da
professora aponta para a sua concepção do processo de
ensino-aprendizagem como algo resultante da interação
do investimento da criança e da professora.] Trazer textos
que apresentassem uma estrutura meio atropelada, uma lingüística
meio atropelada, que sugerisse a ela ler e corrigir e ir encaminhando
mais. O ideal era eu sentar com ela depois de cada produção
de texto e ajudá-la a reestruturar.
Criança 4 – Entrevista
A Criança 4 (C4) chegou olhando para tudo, demonstrando muita
curiosidade, e falando muito. É um pouco gordinha, com olhos
muito vivos. Teve dificuldade para ficar sentada, pois sua ansiedade
provocava uma inquietação motora.
Quando lhe pedimos para falar um pouco de si, de sua história
de vida, contou-nos:
[1] C4: Sou filha única. Minha mãe está morando
em outro estado (não identificado por questões éticas)
e no final do ano eu vou morar com ela. Meus pais são divorciados
há quatro anos. Só... só... só... só
falo com meu pai por telefone. Ele mora em outro estado (não
identificado por questões éticas). Eu já morei
em quatro cidades. Meu pai é garçom e cabeleireiro;
minha mãe é dentista e diretora de uma clínica.
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem (Anexo D – Fig. 12) prevista para a pesquisa, sugerindo
que poderia desenhar ‘qualquer coisa’. A Criança
4 nos pediu um lápis grafite para desenhar e não gostou
quando dissemos que só tínhamos giz de cera. Desenhou
uma professora e uma aluna, bem distantes uma da outra e desenhou
no quadro ‘1+1’ e a professora perguntando ‘Quanto
é 1+1?’. Quando terminou o desenho comentou que era na
escola, a professora e ela. Pediu uma caneta, com cara bem pidona,
para assinar o seu nome e ficou chateada quando não a conseguiu.
Solicitamos o desenho da família (Anexo D – Fig. 13).
Desenhou o tio, um árvore, ela, a tia e uma casa. Todos estão
sem face desenhada, sem identidade. Pegou a caneta da nossa mão
e assinou seu nome no desenho.
Procuramos continuar com a entrevista, de acordo com o roteiro.
[2] Pesquisadora: Diz uma coisa que você faz muito bem.
[3] C4: Assistir TV e nadar.
[4] Pesquisadora: Uma coisa que você tem muita dificuldade para
fazer.
[5] C4: Desenhar, Matemática, estudar vezes (fazendo alusão
à multiplicação) e dividir.
Partimos para as atividades previstas para a entrevista e na atividade
de associação de palavras, fez as seguintes relações:
Tabela 16 – Criança 4 - Associação
de palavras
Escola
|
Aprender. |
| Casa |
Família. |
| Criança |
Estudar. |
| Família |
Casa. |
| Professor |
Tia. |
| Brincar |
Desenhar. |
| Esconder |
Pega-pega. |
| Mostrar |
Enxerida. |
| Ensinar |
Aprender. |
| Aprender |
Gastar energia. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações.
Tabela 17 – Criança 4 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
o recreio para uma hora. |
| Eu mudaria no professor... |
nada. |
| Eu mudaria na minha família... |
nada. |
| Eu mudaria em mim... |
meus olhos para verdes. |
| Eu gostaria de aprender... |
matemática. |
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
4, escrevemos:
“É muito ansiosa; faz tudo muito rápido.”
Criança 5 – Entrevista com a Professora
A Criança 5 é uma menina de oito anos; estuda na Escola
2. Tem um irmão mais novo e mora com os pais num sítio
próximo à região metropolitana. Seu pai trabalha
com jardinagem e sua mãe é professora. A Professora
2 acha que sua dificuldade é emocional. Eis o trecho da entrevista
em que ela conversa com a pesquisadora sobre sua aluna.
[1] P2: Ela já vinha da primeira série com dificuldades.
Ganhou um irmãozinho há dois anos e, a partir disso,
ela ficou bastante mexida. O irmão dorme no quarto dos pais
e ela não; antes era muito mais mimada, era o centro das atenções.
Na área de Linguagem ela tem alguma dificuldade, mas na área
de Matemática ela tem bem mais. Em Linguagem, apresenta ainda
transcrição fonética, escreve até o final
da linha e não se liga na separação correta das
sílabas, não estabelece hipóteses quanto ao texto.
Eu não sei se é por medo de se arriscar ou se ela realmente
não está formulando nada sobre o texto. Ela produz textos
com muita dificuldade.”
[2] Pesquisadora: E oralmente, ela consegue?
[3] P2: Consegue. Ela tem muita dificuldade em colocar no papel. Na
roda da segunda-feira, ela traz muito o gosto do pai, o gosto da mãe,
o que aconteceu com o irmão. [Perguntamo-nos se a criança
não se coloca como sujeito desejante.] A mãe trabalha
três expedientes. Nós só tivemos contato com a
mãe dela duas vezes. A mãe é exatamente a Criança
5. Diante do marido ela não fala como é que ela acha.
O marido é um aristocrata: ‘É isso.’. A
Criança 5 queria fazer judô; ele disse que não,
que ela teria que fazer balé [Levantamos a possibilidade do
pai perceber alguma coisa quanto à feminilidade dela?]. A mãe
não concordou com ele, mas diante da gente, ela olhou para
ele, demonstrou na face aquela frustração, mas também
não disse. A Criança 5 é muito apegada com o
pai. A mãe dela disse: ‘Para ela só existe o pai;
ela gosta muito do pai; o que o pai diz é ordem.’.
[4] Pesquisadora: Ela lê e interpreta tudo?
[5] P2: Ela tem muita dificuldade em interpretar os problemas e não
consegue armar a conta, também.
A Professora 2 nos mostrou um texto produzido pela Criança
5, onde a mesma abordava as dificuldades de se lidar com as diferenças.
O ambiente da escola estava muito tumultuado porque era aniversário
da diretora e paramos a entrevista sem nos aprofundarmos mais em alguns
outros pontos que poderíamos ter discutido.
Criança 5 – Entrevista
A Criança 5 (C5) chegou desviando o olhar. É magrinha
e me pareceu ser um menino.
Quando lhe pedimos para falar um pouco de si, de sua história
de vida, contou-nos:
[1] C5: Tenho um irmão V., moro com meus pais, gosto de brincar,
estudar, ver TV, andar de bicicleta, passear com ‘o meu cachorrinha’
[Mais uma vez surge a questão da identidade sexual da criança,
pois levantamos a possibilidade da questão de sua identidade
sexual está projetada no animal de estimação?],
aquela que é tipo salsichinha. Também tenho passarinho.
Moro num sítio, que não é em Recife, mas eu não
sei dizer onde é; tenho amigos e minha família. Eu queria
muito ter um irmão. Minha mãe não fica com V.;
quem fica é a empregada. Minha trabalha como professora em
escolas e trabalha três expedientes; o meu pai trabalha com
plantas. Eu gosto de animais. Antes eu tinha ratinhos da índia.
[Percebemos que a Criança 5 tinha muita dificuldade em achar
as palavras, como quando alguém tem um derrame e tem como seqüela
uma afasia na formação das frases.]
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem (Anexo D – Fig. 14) prevista para a pesquisa, sugerindo
que poderia desenhar ‘qualquer coisa’. Desenhou uma professora
e um menino; no desenho da calça da professora colocou um zíper.
[Um símbolo de algo ligado ao sexual?].
Solicitamos o desenho da família (Anexo D – Fig. 15).
Desenhou o pai, com o irmão no ombro, a mãe e ela. Todos
foram desenhados com a cor marrom; apenas ela foi desenhada com a
cor vermelha.
Procuramos continuar com a entrevista, de acordo com o roteiro.
[2] Pesquisadora: Diz uma coisa que você faz muito bem, que
é federa.
[3] C5: Com animais (precisou ser muito estimulada para dar a resposta).
[4] Pesquisadora: Uma coisa que você tem muita dificuldade para
fazer.
[5] C5: Às vezes, de brincar. Às vezes minha prima chega
e diz “Vamos brincar de alguma coisa?’ e eu tenho dificuldade
de pensar [Essa sua colocação embasa as idéias
de Fernandez (2001a)]. Pega-pega é a brincadeira que mais gosto.
Partimos para as atividades previstas para a entrevista e na atividade
de associação de palavras, fez as seguintes relações:
Tabela 18 – Criança 5 - Associação
de palavras
Escola
|
Sim... boa (demorou a responder). |
| Casa |
Ótima. |
| Criança |
Mais ou menos...Pesquisadora: Não precisa dizer se é
bom, ótimo ou mais ou menos. Quando você pensa em
criança, pensa em quê?Penso em brincar. |
| Família |
Amor. |
| Professor |
Estudar. |
| Brincar |
Brincar direito, não empurrar as pessoas. |
| Esconder |
... Como assim? Mais ou menos? Se esconder dos pais ou da brincadeira?Pesquisadora:
Esconder... O que é que você pensa?Se for esconder
do pai, não é bom. Agora se for da brincadeira...Pesquisadora:
Como é se esconder do pai?É assim... O pai chega
e encontra você... Aí lá na minha vó
tem a Av. 2; aí meu pai, quer dizer, chega e me encontra
lá; aí ele diz: ‘Vá para casa que eu
quero encontrar você lá.’. Você fica
com medo e se esconde dele. [medo de abuso sexual? de quê?]Pesquisadora:
Por que é que você se escondeu?Por causa da pisa
que eles iam levar. [afastou-se da dor, tornando-a impessoal]Pesquisadora:
Seu pai bate em você?Eu não gosto de bater, ele não
gosta de bater não. [não respondeu à pergunta,
desviou a resposta]Pesquisadora: Ele já bateu alguma vez?Já.Pesquisadora:
Já levou alguma pisa?Ah! Não. Meu irmão apanha
mais. Mas minha mãe leva muita tapa dele [dele, pai?].Pesquisadora:
Dele quem?Do meu irmão. Ele também bate em mim.
Meu irmão adora guaraná. |
| Mostrar |
Mostrar o que você fez para o seu pai... de ruim. Como,
você tá brincando aqui e aí você chega
lá e mostra: ‘Papai, ele me empurrou.’ Aí,
‘Quem?’. ‘Ele.’, já que ele já
sabe qual é, que ela disse há muito tempo, como
a mãe de I. (uma colega da sala de aula). Pesquisadora:
Eu não entendi.Quer dizer, a mãe de I. chega aqui.Pesquisadora:
Quem é I.?É uma menina daqui. A mãe dela
chega. Ela diz ‘Foi aquele.’ (gaguejou ao falar isso).
Ela não mostra o certo, ela mostra o errado. Aí
é o que era para acontecer com um, acontece com o outro
que não fez nada.Pesquisadora: Me explica direito essa
história.Assim, a mãe de I. chega e I. diz para
ela assim: ‘Olha tem um menino me batendo na escola.’.
A mãe chega aqui apavorada e diz ‘Qual foi?’.
Ela faz uma brincadeira e depois diz o errado; depois o errado,
o que foi o errado diz ‘Fui eu.’, assume o que ele
fez. (essa história aconteceu de verdade na escola, poucos
dias antes, mas o tema não foi violência, mas jogos
sexuais) Pesquisadora: Você acha que a gente deve contar
todas as coisas erradas que a gente faz pro pai?Hã! Hã!
Porque senão acontece alguma coisa com outros. |
| Ensinar |
Ensinar como meu irmão, eu tô
ensinando para ele e ele me ensina. |
| Aprender |
Como aprender na escola. Antes eu não sabia ler porque
eu estudava noutra escola que era muito ruim; eu já era
da alfabetização e ainda não sabia ler, não
sabia escrever. Aí na hora que eu vim para cá deu
tudo certo. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações.
Tabela 19 – Criança 5 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
estudar. Pesquisadora: Como assim? Assim, eu venho
aqui, aí eu não sabia ler, eu não sabia nada.
Aí eu venho aqui... e diz ‘Aqui a gente ensina tudo.’.
Aí, daqui a pouco, quando eu chego em casa, eu não
sei mais ler; eu tava lendo tudo e daqui a pouco não sei
mais ler. (O que é não pode saber-ler-denunciar
em casa?) Pesquisadora: Você conseguia ler na escola e não
conseguia ler em casa?Era. Aí minha mãe foi lá
e me tirou dessa escola. Aí chegou na outra, eu não
conseguia ler em nenhum lugar. Aí, depois, eu consegui
ler em casa e na escola.Ah! Eu também queria que tivesse
uma piscina aqui. |
| Eu mudaria no professor... |
vir de tamanco alto. |
| Eu mudaria na minha família... |
meu passarinho não se acidentasse. Pesquisadora: E em
seu pai, sua mãe, seu irmão, você? Que meu
irmão não desse em ninguém. |
| Eu mudaria em mim... |
nada. |
| Eu gostaria de aprender... |
a estudar. |
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
5, escrevemos:
“Estava com as mãos frias. Meio travada; desenhou
um menino aprendendo; quando ela entrou na sala, tive a impressão
de que era um menino. Colocou a data como ‘5ª. feira/11/2003’;
não se localiza direito no tempo; tensa; o olhar é
para longe; tem muita dificuldade em achar as palavras para construir
o seu discurso, a sua fala.”
Criança 6 – Entrevista com a Professora
A Criança 6 é um menino de nove anos; estuda na Escola
3. Tem uma irmã de 14 anos, do primeiro casamento do pai; ela
mora com a mãe dela. O pai é engenheiro e agricultor.
A mãe é arquiteta. A Professora 3 e a Professora 4 acham
que sua dificuldade é “emocional”.
Eis o trecho da entrevista em que a Professora 4 conversa com a
pesquisadora sobre seu aluno (ela só trabalha com ele Matemática).
[1] P4: Ele veio de outra escola, aprovado com notas altas, mas na
sondagem ele não correspondeu; fizemos novamente e nada. Quando
começamos as aulas da segunda série, trabalhamos com
números pequenos na resolução de problemas. Então,
a mãe procurou a escola questionando que tudo estava fácil
demais. Perguntamos a ela se ele sabia interpretar o problema e saber
que operação usar – ele nunca sabe -. A mãe,
então, compreendeu. [Observamos, aqui, a importância
da fundamentação teórica para uma professora.]
Estamos procurando resgatar nele estratégias para resolução
de problemas; a formalização dos algoritmos é
secundária. Trabalhamos a composição do 10 de
diversas formas, usando aquelas barrinhas coloridas, tipo 6+4, 5+5,
7+3, e ele tem dificuldade. Quando é uma atividade que requer
que ele solte, que ele deixe bem livre esse pensamento, onde experimente...
Experimentar, para ele, é muito difícil; tudo tem que
tá muito arrumado, formalizado. [Haverá o medo de perder
o controle?]
[2] Pesquisadora: Ele é filho único?
[3] P4: Acho que sim; só tem ele na escola (na entrevista com
a Professora 3 e com Criança 6 descobrimos que ele é
filho único desse casamento do pai, mas que tem uma irmã
de 14 anos do primeiro casamento dele).
[4] Pesquisadora: Ele argumenta?
[5] P4: Ele não faz para lhe afrontar e diz ‘tá,
Tia’; mas algo que é maior que ele... [Observamos aqui
a professora compreende que as causas para os limites de seu aluno
podem ser mais complexas do que as explicações superficiais.]
Ele é mais disperso do que...
[6] Pesquisadora: Ele questiona?
[7] P4: Não. Em Matemática, que é a minha área
com a turma, ele é muito formalizado. Agora, no final do ano,
é que ele está ousando experimentar.
[8] Pesquisadora: Na segunda série vocês já trazem
probleminhas, né? Como é ele?
[9] P4: Difícil. Sempre há aquele probleminha –
tinha X, perdeu Y, ficou com quantas? -. Uma das coisas que fiz com
ele foi, tinha um problema e colocava: quais as informações
que você tem nesse problema, qual a informação
que você precisa descobrir e depois ele fazia o registro e a
resposta. Isso porque eu notava que ele precisava de um direcionamento
para descobrir esse problema e não apenas para ver, na última
frasezinha, quantos a mais e descobrir a operação; ele
precisava entender esse problema. [Observamos como a professora planeja
outras intervenções pedagógicas para que o aluno
construa o seu conhecimento.] Fiz também muito com ele assim:
eu dava uma pergunta e ele ia fazer o problema; assim ‘quantos
lápis eu tinha?’ e ele ia pensar num problema que tivesse
essa pergunta; e os outros faziam problemas diferentes e eles viam
que uma mesma pergunta podia ter operações de adição,
de subtração, com idéias diferentes. Fiz também
a operação para eles construírem o problema.
Já trabalhamos com as quatro operações, porém,
na divisão, utilizamos a estratégia de decomposição;
o algoritmo formal eles vão trabalhar na terceira série.
Ele não é muito cuidadoso; perde, esquece, às
vezes não traz o material. Em Matemática, ele não
tem essa curiosidade. É o contrário. Eu tô sempre
estimulando, fazendo perguntas; é sempre buscando, buscando,
junto com ele, outras possibilidades que ele não vê.
Ele ‘viaja’ tanto. Sinto que tem algo que precisamos investigar.”
Realizamos, também, entrevista com a Professora 3 que nos trouxe
uma visão das dificuldades da Criança 6 em outros contextos
de sala de aula.
[10] P3: Ele tem muita dificuldade de concentração.
‘O bicho é bom!!’ Ele fez um texto que falava da
história da família dele, com um pai que só vive
para o trabalho. Dá vontade de chorar. Os pais trabalham muito
e a mãe assume que por vezes deixa a Criança 6 de lado
por causa do trabalho; ela assume, também, que deixa muito
a desejar em relação à Criança 6. Eles
procuram cobrir essa ausência dando coisas materiais. Ele é
filho do segundo casamento do pai e tem uma irmã do primeiro
casamento e se dão bem. A mãe não quer ter outros
filhos e diz ‘Ele já é suficiente’. [Perguntamo-nos,
suficiente pra quê?]
[11] Pesquisadora: Então, a dificuldade dele é mais
em concentração?
[12] P3: Quando ele concentra, você não acredita. Em
Projetos ele se sai muito bem porque ele é ligado em tudo [incoerente
para quem não se concentra!!]. Ele pega as coisas com facilidade.
Não traz nenhuma pesquisa que mandamos para casa. Uma coisa
que me chama a atenção é que todas as respostas
dele ficam pela metade. Eu não quero achar que é pura
falta de concentração não, sabe?! [Mais uma vez,
a formação da professora faz a diferença na sua
compreensão das dificuldades do aluno.]
[13] Pesquisadora: Interpretação de problemas...
[14] P3: Não sei.
[15] Pesquisadora: Produção de textos...
[16] P3: Sempre muito coerente, erros ortográficos normais.
[17] Pesquisadora: O que você acha que poderia ser feito para
ajudá-lo?
[18] P3: Terapia, mas é diferente. Ele tem uma história
muito difícil, teve o rótulo de ‘preguiçoso’.
Eu não acredito nisso. [Esta professora acredita no potencial
de seus alunos, buscando alternativas para superar o problema de aprendizagem
dos mesmos.] Pedagogicamente, tarefas específicas para ele.
No início do ano, não existia letra maiúscula,
pontuação, ainda aglutinava.
Criança 6 – Entrevista
A Criança 6 (C6) chegou desviando o olhar e falando muito baixo.
Quando lhe pedimos para falar um pouco de si, de sua história
de vida, contou-nos:
[1] C6: Tenho uma irmã de 14 anos; ela mora com a mãe
dela. O meu pai é engenheiro e agricultor. A minha mãe
é arquiteta. A gente tem um sítio e eu gosto de ir para
lá. Gosto de assistir TV, de andar de bicicleta, de jogar hóquei,
de pintar e desenhar.
[2] Pesquisadora: Às vezes, você se sente muito sozinho?
[3] C6: (balançou a cabeça afirmativamente)
[4] Pesquisadora: Você fica com quem em casa?
[5] C6: Com minha vó, de vez em quando, e com a empregada.
[7] Pesquisadora: Me diz uma coisa legal que aconteceu, acontece na
tua vida.
[8] C6: Quando eu ganhei minha bicicleta.
[9] Pesquisadora: Me diz uma coisa chata que aconteceu, acontece na
tua vida.
[10] C6: Ter uma irmã que arreta.
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem (Anexo D – Fig. 16) prevista para a pesquisa, sugerindo
que poderia desenhar ‘qualquer coisa’. Desenhou uma piscina
enorme, com uma pessoa nadando e outra na borda, olhando; utilizou
as cores preto e azul; não há pés e mãos.
Comentou que gosta de nadar.
Solicitamos o desenho da família (Anexo D – Fig. 17).
Desenhou duas nuvens azuis com um sol amarelo (bem fraquinho) no meio;
chão verde; pai, mãe, irmã, ele; sem mão
e sem pés; todas as figuras humanas estão ligadas por
uma linha; o pai, a mãe e a irmã estão com cabelos
na cor marrom e ele é o único com cabelos na cor preta.
Procuramos continuar com a entrevista, de acordo com o roteiro.
[11] Pesquisadora: Diz uma coisa que você faz muito bem, que
é federa.
[12] C6: Comer.
[13] Pesquisadora: Uma coisa que você tem muita dificuldade
para fazer.
[14] C6: Jogar futebol.
Partimos para as atividades previstas para a entrevista e na atividade
de associação de palavras, fez as seguintes relações:
Tabela 20 – Criança 6 - Associação
de palavras
Escola
|
Estudar. |
| Casa |
(demorou) Dormir. |
| Criança |
Brincar. |
| Família |
Unida. |
| Professor |
Dar aula. |
| Brincar |
Criança. |
| Esconder |
Sapecar. |
| Mostrar |
(demorou) Não sei mostrar. Deixa eu pensar... exibir.
[Mais uma vez, esse depoimento corrobora as idéias de Alícia
Fernandez sobre ‘não poder mostrar’ e com o
relato da professora de que ele é bom e que faz produções
sempre incompletas; o que será que ele não pode
revelar?] |
| Ensinar |
Deixa eu pensar... aprender. [Uma frase maravilhosa
para uma criança que construiu o sintoma ‘problema
de aprendizagem’!!!!] |
| Aprender |
Ensinar. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações.
Tabela 21 – Criança 6 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
(demorou) não sei. Como assim, em que sentido?
Pesquisadora: O que você quiser mudar. Por exemplo, ter
mais aulas de alguma coisa...Ah! Ter mais aulas de Artes.
|
| Eu mudaria no professor... |
nada. |
| Eu mudaria na minha família... |
nada.Pesquisadora: Olha que se eu fosse o gênio da lâmpada
de Aladim, você já teria perdido muitas oportunidades
de mudar coisas que poderiam ficar melhores... |
| Eu mudaria em mim... |
(demorou) não sei. Ser mais alto. Pesquisadora: Vem cá.
Vamos comparar os nossos tamanhos... Tá vendo como você
não é tão baixinho assim. É quase
do meu tamanho. É, mais meu pai tem 1,80m. Pesquisadora:
Uma pessoa alta parece ser forte? Grande? Ninguém mexe
com elas? É. Pesquisadora: Quando uma pessoa é baixinha,
as pessoas mexem, né? É. Pesquisadora: Quer dizer
que tu querias ser bem forte, bem alto, para ninguém mexer
contigo?É. |
| Eu gostaria de aprender... |
inglês. Eu faço, mas sou muito ruim. Faço
no ABA (sorriu tristemente). |
Voltamos à história do gênio da lâmpada
de Aladim e insistimos que fizesse um pedido; falou apenas ‘Deixa
eu pensar...’, respondemos ‘Pensa mesmo...’, mas
não conseguiu desejar coisa alguma.
Perguntamos se sabia por qual motivo havia mudado de escola e respondeu
que não sabia e “Minha mãe que quis”.
Tentamos investigar se tinha consciência de suas dificuldades
pedagógicas e estabelecemos esse último diálogo:
[15] Pesquisadora: Qual é a sua maior dificuldade nas matérias
da escola?
[16] C6: Tenho mais dificuldade em Português. Eu acho. Também
tenho em interpretação de texto.
[17] Pesquisadora: Me diz uma coisa bem legal que você gosta
de fazer com seu pai.
[18] C6: Ir para o sítio.
[19] Pesquisadora: Me diz uma coisa bem legal que você gosta
de fazer com sua mãe.
[20] C6: Não sei. (demorou) Ir para o shopping.
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
6, escrevemos:
“Criança muito inteligente, mas como se não
tivesse o ‘direito’ de ocupar o seu lugar na vida, de
existir. Desejo interditado.”
Criança 7 – Entrevista com a Professora
A Criança 7 é uma menina de nove anos; estuda na Escola
3. Tem um irmão de 21 anos. O pai é médico de
‘pereba’. A mãe fica em casa. A Professora 3 e
a Professora 4 acham que sua dificuldade é “emocional”.
Eis o trecho da entrevista em que a Professora 4 conversa com a
pesquisadora sobre sua aluna.
[1] P4: Pensando nela hoje, como aluna da segunda série, eu
não diria que ela apresenta dificuldade. É uma aluna
muito boa, introvertida, atenta. Da forma dela, sabe dizer o que quer
e o que não quer, sabe botar limite. Uma coisa que me deixa
intrigada nela é a questão da escrita dela, do trabalho
dela no espaço gráfico, pois isso não condiz
com as potencialidades. A letra não combina com ela. Parece
que é outra criança que registrou. Ela tem uma história
de dificuldades, mas na segunda série ela não repetiu.
Agora, ela tem um ritmo mais lento que os outros, é uma criança
que tem esse ritmo, mas é uma criança comprometida com
o que faz. [Excelente formação pedagógica e como
essa formação faz diferença na hora de compreender
a singularidade do aluno e não incluí-lo numa massa
uniforme.] Ela é curiosa, participa. Ela sabe dizer qual o
material que está trazendo. A família é muito
presente.
Realizamos, também, entrevista com a Professora 3 que nos trouxe
uma visão das dificuldades da Criança 7 em outros contextos
de sala de aula.
[2] P3: Com relação à concentração,
ela é quem mais me chama atenção, das quatro
crianças selecionadas. Como Criança 7 tem um mundo particular
que às vezes a gente tá falando, falando e ela ficando
olhando longe. A gente fala ‘Criança 7, Criança
7, você está escutando?’ e ela responde ‘Tô,
Tia, tô escutando.’. Ela é responsável.
O que me chama atenção é esse desligamento dela
do mundo (a Professora 3 tem especialização em Educação
Especial). Ela produz bons textos. A questão principal é
a ortografia, mas melhorou muito, e uma questão de coordenação
motora, tem uma letra enorme (mesmo comentário da Professora
4). Não sei se tem alguma coisa a mais por trás dessa
letra. [A formação pedagógica fazendo a diferença.]
Ela não tem dificuldade de se relacionar, mas por ela não
se expor, ela sempre escolhe ‘aquelas’ mais calminhas
para ficar junto dela.
[3] Pesquisadora: Me diz uma coisa que ela faz bem.
[4] P3: Pintar, ela não desenha tão bem, mas ela pinta
muito bem e também é organizada.
[5] Pesquisadora: A família é presente?
[6] P3: É muito presente. A mãe é ansiosa com
relação a esse jeito dela, com esse desligamento. Ela
percebe claramente. Ela não tem acompanhamento, mas ela já
procurou uma terapia ou uma Psicomotricidade Relacional, mas ela ainda
não foi.
[7] Pesquisadora: Tu achas alguma coisa ‘muiiiiiiiito’
estranha nesse desligamento ou é uma coisinha leve?
[8] P3: ‘Muiiiiiiiito’ estranha.
[9] Pesquisadora:Por que você está acostumada a trabalhar
com quem ‘viaja’...
[10] P3: Não a esse ponto, mas que às vezes me lembra,
me lembra, me lembra. Quando eu bati o olho! Não tem nada de
estereotipia, com certeza não, mas o desligamento... Não
sei se é alguma coisa de TDA (Transtorno de Déficit
de Atenção).
[11] Pesquisadora: Tu acreditas nisso?
[12] P: Acredito, acredito.
[13] Pesquisadora: Eu tenho tanta resistência a isso....
[14] P3: Acredito porque eu tenho um lá (na outra escola, onde
trabalha com crianças especiais) que tem.
[15] Pesquisadora: Eu acho que tem tanto de ‘emocional’.
[16] P3: Agora eu não acho legal medicação. Mas
eu acho que uma coisa dirigida, neurologicamente, para um psiquiatra,
eu acho sim.
[17] Pesquisadora: O que poderia ser feito para ajudá-la?
[18] P3: Trabalho de Psicomotricidade Relacional. Nem pensei em falar
nada de TDA, para não rotular a menina porque eu sinto a angústia
da mãe com relação a achar que ela é especial,
de alguma forma. Fazer uma Psicomotricidade Relacional, uma terapia
num espaço onde ela pudesse botar pra fora o que ela não
consegue com a gente nem com a família.
Criança 7 – Entrevista
A Criança 7 (C7) chegou desviando o olhar e falando muito,
muito baixo. Quando lhe pedimos para falar um pouco de si, de sua
história de vida, contou-nos:
[1] C7: Tenho um irmão de 21 anos. O meu pai é médico
de pereba e a minha mãe fica em casa. O que mais gosto de fazer
é desenhar; gosto de brincar de boneca; faço dança
popular; já fiz balé. Às vezes, acontece uma
coisa engraçada. Eu sonho e quando eu acordo parece que é
verdade. [Não seria essa a forma dela de me falar sobre o seu
desligamento? qual será o seu mundo da lua?]
[2] Pesquisadora: Uma coisa que tu tens medo...
[3] C7: De escuro.
[4] Pesquisadora: Hoje, você tem medo que aconteça o
que no escuro?
[5] C7: (demorou) De me machucar.
[6] Pesquisadora: Tu tens medo de morrer?
[7] C7: Tenho.
[8] Pesquisadora: Tu tens medo que teu pai morra?
[9] C7: Tenho.
[10] Pesquisadora: Tu tens medo que tua mãe morra?
[11] C7: Tenho.
[12] Pesquisadora: Tu pensas muito nisso?
[13] C7: Às vezes. Tem vezes que eu até choro. Penso
o dia inteiro.
[14] Pesquisadora: Teu pai é mais velho?
[15] C7: É.
[16] Pesquisadora: Tu choras quando desse medo?
[17] (não consegui registrar a resposta)
Comentou, então, que tinha um cachorro.
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem (Anexo D – Fig. 18) prevista para a pesquisa, sugerindo
que poderia desenhar ‘qualquer coisa’. Desenhou, no canto
superior esquerdo do papel, uma sala de aula com uma professora e
uma aluna; as figuras humanas são desenhadas como ‘boneco
palito’ na cor preta; colocou contas no quadro.
Solicitamos o desenho da família (Anexo D – Fig. 19).
Desenhou a mãe, o pai, ela e o irmão (um pouco mais
afastado); todos são ‘bonecos palito’, pintados
de preto e estão sorrindo; ela é a única que
está com o cabelo marrom.
Procuramos continuar com a entrevista, de acordo com o roteiro.
[18] Pesquisadora: Diz uma coisa que você faz muito bem, que
é federa.
[19] C7: Pintar, desenhar... (ficou pensativa) [O que corrobora a
opinião da professora.)
[20] Pesquisadora: Uma coisa que você tem muita dificuldade
para fazer.
[21] C7: Tarefas da escola. Hoje mesmo, na tarefa de Português.
[22] Pesquisadora: Quando você tem uma dificuldade, você
desiste?
[23] C7: Eu peço ajuda.
[24] Pesquisadora: A quem?
[25] C7: Minha mãe, tia Professora 4.
Partimos para as atividades previstas para a entrevista e na atividade
de associação de palavras, fez as seguintes relações:
Tabela 21 – Criança 7 - Associação
de palavras
Escola
|
Estudar. |
| Casa |
Morar. |
| Criança |
Brincar. |
| Família |
(demorou um pouco) Se reunir. |
| Professor |
Ensinar. |
| Brincar |
(demorou um pouco) Correr. |
| Esconder |
(demorou um pouco) Se esconder? Brincar de esconde-esconde.Pesquisadora:
Você perguntou se era de se esconder ou... Esconder algum
objeto. Pesquisadora: Se fosse esconder algum objeto, o que é
que você lembraria? Caça-tesouro. |
| Mostrar |
Mostrar um objeto. |
| Ensinar |
Aprender. |
| Aprender |
A coisa que ensinou. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações.
Tabela 23 – Criança 7 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
não jogar coisa no chão. |
| Eu mudaria no professor... |
nada, tá perfeita. |
| Eu mudaria na minha família... |
meu irmão não pegar mais na minha orelha, não
me aperrear. |
| Eu mudaria em mim... |
trazer as coisas no dia certo. |
| Eu gostaria de aprender... |
fazer conta de dividir. |
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
7, escrevemos:
“Criança meiga, corpo frágil, fala baixa.
Lembrou-me a criança do filme Sexto Sentido”.
Criança 8 – Entrevista com a Professora
A Criança 8 é um menino de nove anos; estuda na Escola
3. É filho único. Mora só com a mãe, pois
os pais são separados; disse que gosta de ser filho único,
mas sente vontade de ter irmãos quando se sente sozinho. Os
pais são analistas de sistemas. A mãe tem um namorado
e o pai vive com uma outra mulher (usou uma voz infantilizada para
falar sobre o tema da separação dos pais). A Professora
3 e a Professora 4 acham que sua dificuldade é “emocional”.
Eis o trecho da entrevista em que a Professora 4 conversa com a pesquisadora
sobre sua aluna.
[1] P4: Todos os cadernos da Criança 8 são muito desmantelados.
[2] Pesquisadora: Ele gosta muito de desenhar?
[3] P4: Gosta muiiiiiiito.
[4] Pesquisadora: Você vê a Criança 8 como uma
criança com dificuldades?
[5] P4: Não que em Matemática ele não dê
respostas, muitas das metas dele estão alcançadas (a
escola não trabalha com notas, mas com metas a serem atingidas).
O que me inquieta nele é um pouco de descompromisso, sabe?
Você fala, ele só escuta você quando quer. Agora,
quando ele quer, ele pega e faz em um minuto. Parece que ele tá
fazendo Ramain. No começo do ano, a Criança 8 fazia
acompanhamento pedagógico com professoras, já que ele
tinha tido muita dificuldade na primeira série. Mas já
no meio do ano a gente disse que não precisava. O problema
dele não é peda... não é conteúdo.
[A professora percebe que existe o sintoma ‘problema de aprendizagem’.]
Ele mesmo diz que precisa ter mais atenção [de quem?]
e concentração. Ele diz que o que ele faz no Ramain
é exercício de concentração e atenção.
Ele é bom na área social, porém parece que para
ele o outro não tem muito valor.
[6] Pesquisadora: Ele brinca na sala?
[7] P4: O tempo inteiro. Quando ele mão tem mais gente pra
brincar, ele brinca com o desenho [A criança está tentando
um caminho de autoria através do brincar com o desenho.]; aí
ele começa a desenhar, a desenhar. Os pais são separados;
eu vejo muito pouco os dois. Ele é muito dominador da mãe.
Ele está querendo descobrir o corpo, trazer novos nomes e tudo.
[Mais uma vez, a questão da sexualidade.] Eles, os alunos,
estão o tempo todo dizendo que querem falar sobre isso e a
escola não acorda para isso. [Pensamos sobre como os conteúdos
selecionados pelas escolas não refletem o real interesse do
aluno e sobre como as escolas não trabalham questões
fundamentais para o desenvolvimento da criança, como as referentes
à sexualidade e à morte!]
Realizamos, também, entrevista com a Professora 3 que nos trouxe
uma visão das dificuldades da Criança 8 em outros contextos
de sala de aula, pois trabalha a disciplina de Língua Portuguesa.
[8] Pesquisadora: Quais são as dificuldades dele?
[9] P3: Todos. Agora a dificuldade maior é a questão
da concentração dele. [Qual será o seu mundo
da lua?] Por não se concentrar no que está fazendo,
por viajar de diversas formas, cada um na sua, não consegue,
muitas vezes, saber aquilo que sabe e que eles podem. Basicamente,
todos eles, é isso. [A professora generalizou a situação
dele para a das outras crianças com dificuldades.] Agora, a
Criança 8, tem uma dificuldade motora, a letra dele é
mal desenhada; a movimentação ele conhece, mas não
consegue fazer a movimentação correta. Ele tem uma visão
assim, cultural, uma visão de mundo muito ampliada. Coisas
assim que você pergunta da União Soviética, ele
já ouviu falar e já ouviu falar mesmo. Mas as coisas
que se relacionam ao aprendizado escolar, nem sempre chamam a atenção
dele, nem sempre agrada, ele precisa de coisas que extrapolam mesmo
para poder funcionar. [Esta professora sabe que os alunos precisam
ter uma ‘pergunta’ a responder para quererem buscar informação
e transformá-la em conhecimento, como nos diz Fernandez (2001a).]
[10] Pesquisadora: Como assim?
[11] P3: Se a gente for dar o conteúdo, por exemplo, verbo
– não verbo é uma ação -, para ele
compreender aquilo na frase, no texto, para passar aquilo para o passado,
[o que do passado ele não quer ver?], é complicado,
principalmente se esse texto for muito organizado; se for um texto
de que passe pelas coisas que ele gosta, até funciona; mas
se for uma leitura padronizada não. [Lembramo-nos de Vygotsky
com o seu conceito de aprendizagem significativa.] A ortografia dele,
as questões gramaticais, parágrafos, pontuação,
é tudo muito tumultuado. Para ele ter uma idéia, uma
coerência de idéias para fazer um texto... mas essa questão
da coesão textual é complicado.
[12] Pesquisadora: Poderíamos dizer que a questão de
regras para ele é difícil?
[13] P3: É difícil.
[14] Pesquisadora: Criatividade é mais solto?
[15] P3: É.
[16] Pesquisadora: Mas quando chega nas regras...
[17] P3: É. E, por sinal, eu percebo, a cada ano, como essa
coisa de regra, principalmente ortográfica, é forte
para eles não identificarem e usarem no texto. Se eu falo o
nome ‘regra’, a regra ortográfica, vamos fazer
alguns problemas sobre algumas regras, vamos fazer descobertas sobre
coisas que sempre acontecem, mas que não são regras
ortográficas, são pistas que ajudam na hora da dúvida,
essas coisas eles erram menos, mas M antes de P e B, que é
uma regra, é uma coisa incrível, como eles sabem que
tem o nome regra... [Não será porque quando há
contextualização fica mais fácil?]
[18] Pesquisadora: Eu tô pensando, numa escola mais tradicional,
que as crianças estão mais acostumadas a se submeterem
a regras sem explicação...
[19] P3: É, pode ser. Mas o que passou na minha cabeça,
foi uma coisa bem, talvez, freudiana, bem psicanalítica, mas
foi a questão de infringir mesmo, a necessidade de infringir.
[20] Pesquisadora: Mas isso que você tá falando é
das crianças com dificuldades?
[21] P3: Também, também. A Criança 7, por exemplo,
é muito dócil, se submete a tudo, tudo que você
pede, as amigas adoram fazer ela de cacimba, mas não adianta
dizer que é para ela escrever M antes de P e B, o RR, o SS;
se você perguntar, ela vai dizer, mas na hora de colocar...
Nenhum deles se submete. [A forma deles se fazerem sujeitos no mundo.]
[22] Pesquisadora: Voltando à Criança 8...
[23] P3: Ele é um pouco dissimulado. Ele gosta de ser bebê
para conseguir as coisas que ele quer. Ele dissimula muito na relação,
tanto com o adulto quanto com a criança, pra gente ceder. Mas
na verdade ele não é bebê e ele sabe muito bem
disso.
[24] Pesquisadora: Já o entrevistei e ele fez voz de bebê
quando falou da separação dos pais. O que me veio foi
se ele não faria isso quando ele se sentia numa situação
de desafio, quando ele se sente inseguro.
[25] P3:Principalmente quando a gente tá cobrando.
[26] Pesquisadora: Aí ele dá ré...
[27] P3: É isso mesmo.
[28] Pesquisadora: É uma forma de defesa.
[29] P3: De se sentir aceito naquele momento.
[30] Pesquisadora: Ele pensa que estando mais frágil, as pessoas
cedem mais.
[31] P3: Ele tem dificuldade de se relacionar (posição
diferente da Professora 4) por conta dessa dissimulação.
Aí, às vezes, os meninos se chateiam, não querem
chegar junto porque dizem que ele é sonso, que ele faz as coisas
e não assume. [Como será o jogo dele com os pais?]
[32] Pesquisadora: Ele gosta de ler?
[33] P3: Gosta, principalmente leitura informativa.
[34] Pesquisadora: Então, a dificuldade dele em Português
seria em relação a regras ortográficas?
[35] P3: Principalmente. Ele não aglutina, não segmenta,
tem coerência textual. Se ele contar para você uma história,
você vai viajar mesmo na história dele. Os personagens
são muito estranhos, não são personagens comuns,
você vê que são de uma leitura elaborada, ele lê
muito. Ele fica muito só em casa e lê muito. Essa coisa
da separação dos pais marcou muito porque na biografia
dele, é de partir o coração, ele colocou que
a coisa mais importante da vida dele foi a separação
dos pais, que isso deixou ele muito traumatizado, mas que agora ele
já tava superando.
[36] Pesquisadora: Me diz uma coisa que ela faz bem.
[37] P3: Criatividade nos textos, contar uma história. A maioria
é textos bons, mas às vezes não é nada
com nada. Ele terminou a primeira etapa bem, mas caiu muito na segunda
etapa. Eu chamei a mãe e ela disse que o pai estava fora do
circuito e que ela não estava dando conta sozinha. Ele não
está mais com aulas particulares nem com terapia, só
com Ramain. Mas depois disso o pai chegou mais perto e as coisas melhoraram
90%.
[38] Pesquisadora: O que poderia ser feito para ajudá-lo?
[39] P3: Terapia.
[40] Pesquisadora: E a escola?
[41] P3: Elogios. Agora se você chegar junto e detonar, sabe
que dali não sai mais nada.
Criança 8 – Entrevista
A Criança 8 (C8) chegou curioso e demonstrando interesse
me participar. Começamos o nosso diálogo.
[1] Pesquisadora: Qual é o teu time?
[2] C8: Eu não tenho um time; eu sou metade dois times. [Perfeito
para uma representação simbólica da separação
dos pais e as duas casas, as duas famílias.]
[3] Pesquisadora: Como é ser metade de dois times?
[4] C8: Eu tenho parte de família e parte de colégio;
a parte de família é do Náutico, a parte do colégio
é do Sport.
[5] Pesquisadora: Como é que é isso?
[6] C8: É assim, eu sou dos dois times ao mesmo tempo.
[7] Pesquisadora: Me fala um pouco da tua vida.
[8] C8: Eu adoro jogar game boy, qualquer tipo de videogame. Sou filho
único, mas meus primos moram no mesmo prédio. Acho massa
ser filho único, mas queria ter irmãos quando não
tenho com quem brincar e fico sem nada pra fazer. Moro com minha mãe.
Os meus pais são Analistas de Sistemas.
Estimulei-o a falar sobre os novos relacionamentos dos pais e ele
falou sobre o namorado da mãe, procurando disfarçar
o ciúme, mas se traiu quando falou que era ‘Bom! Bom!
Bom!’ que a mãe tivesse namorado, com voz infantilizada.
Falou que queria que a mãe casasse com ele, pois ele lhe daria
um canário.
Ele tem um quarto só para si, com TV e game boy, e uma estante
cheia de livros. Gosta de ler, mais ou menos. O que mais gosta de
fazer é assistir televisão. Alguns dias acha as tarefas
‘facílimas’ e outras bem difíceis. A mãe
viajou e ele ficou com o pai. Faz inglês e Ramain.
[9] Pesquisadora: Teu pai se casou de novo?
[10] C8: Mais ou menos.
[11] Pesquisadora: Como é assim ser mais ou menos casado?
[12] C8: Ele tá morando com uma pessoa.
[13] Pesquisadora: Ela é massa?
[14] C8: Massa! Massa! Massa! (voz infantilizada)
[15] Pesquisadora: Tu gostas de ir para a casa de teu pai?
[16] C8: Gosto. Acho bommmmm! (mais uma vez, voz infantilizada) Lá
eu tenho amigos.
[17] Pesquisadora: Quando teus pais se separaram, tu tinhas quantos
anos?
[18] C8: Eu ‘acho’ que eu tinha dois anos, eu não
sei realmente não.
[19] Pesquisadora: E como foi isso para você? Foi chato? Foi
triste?
[20] C8: Muito triste.
[21] Pesquisadora: Tu querias que eles continuassem casados?
[22] C8: Queria. Eu pedi para eles mais de dez vezes.
[23] Pesquisadora: Por que eles se separaram?
[24] C8: Ah! Isso eu não sei, nunca soube. Quer dizer, eu já
soube, mas já me esqueci. Eu me esqueço. [O depoimento
desta criança corrobora as idéias discutidas por Fernandez
(2001a) no que se refere às diversas significações
do ‘não-saber’.]
[25] Pesquisadora: Como assim?
[26] C8: Não sei. Às vezes, eu falo e aí passa
dois dias e eu esqueço.
[27] Pesquisadora: Acontece isso outras vezes com você? Quando
você sabe uma coisa e aí não é muito legal
e você esquece?
[28] C8: (balança a cabeça dizendo que sim)
[29] Pesquisadora: E na escola, já aconteceu? De você
saber uma coisa e esquecer?
[30] C8: (balança a cabeça afirmativamente e sorri)
[31] Pesquisadora: Eita! Aí é ruim, né? Aí
a gente se ferra! (em tom de brincadeira)
[32] C8: (sorrindo) É muito ruim. Mas foi há muito tempo
atrás e foi só numa matéria. Hoje, às
vezes, eu me esqueço, mas sobre matéria, eu não
me esqueço mais não. Tem coisa que já faz mais
anos e eu me lembro.
[33] Pesquisadora: Quando é que você se esquece mais?
[34] C8: Mais ou menos no final de semana.
[35] Pesquisadora: Como assim?
[36] C8: Às vezes, no final de semana. Durante a semana eu
fui para o Festival Mundial do Circo com a escola e no final de semana
eu fui com meu pai.
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem (Anexo D – Fig. 20) prevista para a pesquisa, sugerindo
que poderia desenhar ‘qualquer coisa’. Desenhou uma sala
de aula com um professor apontando para o quadro e lá está
desenhado o mundo. O aluno está ajoelhado, dizendo ‘Eu’.
Estranhei a posição do aluno e comecei a conversar com
ele sobre o desenho.
[37] Pesquisadora: Ele tá ajoelhado, né? Será
que ele se sente culpado por alguma coisa?
[38] C8: Não.
[39] Pesquisadora: Será que está de castigo?
[40] C8: Não.
[41] Pesquisadora: Por que é que ele está de joelho?
[42] C8: (desenhou uma cadeira) Agora já sei. Ele caiu da cadeira
e foi falar para a tia ‘Eu SEI’; eu só escrevi
‘EU’ porque tava sem espaço.
Solicitamos o desenho da família (Anexo D – Fig. 21)
e comentou que era muito fácil porque gostava muito de desenhar
sua família. Só desenhou os rostos; pai, mãe,
primos e ele (só se desenhou, quando perguntei se não
pertencia àquela família); na boca dos homens desenhou
algo como dentes. Começamos novo diálogo.
[43] C8: Eu preciso desenhar a família do meu pai ou a família
da minha mãe?
[44] Pesquisadora: Você vai desenhar a SUA família. Qual
é a sua família?
[45] C8: Eu tenho família por parte de pai e por parte de mãe.
[46] Pesquisadora: Mas qual é a SUA família? Você
pertence a que família?
[47] C8: À família M. e G. (sobrenomes dos pais).
[48] Pesquisadora: Essa é a família de seu pai e a família
de sua mãe. Mas qual é a ‘suazinha’? Qual
é a sua família?
[49] C8: (sacode os ombros e faz a expressão de que não
sabe) [Graças à videografia percebi este e outros detalhes
importantes.] Não sei, tem meu primo, minha prima.
[50] Pesquisadora: Mas a família menorzinha, qual é?
[51] C8: Meu primo menorzinho.
[52] Pesquisadora: Você desenhou eles por que eles são
menores ou por que são mais perto?
[53] C8: Porque são menores [um significante, vários
significados].
[54] Pesquisadora: Qual é a família mais perto de você?
[55] C8: É a minha mãe.
[56] Pesquisadora: E tu não estás nessa família,
não?
[57] C8: Tô, eu vou me desenhar.
Procuramos continuar com a entrevista, de acordo com o roteiro.
[58] Pesquisadora: Diz uma coisa que você faz muito bem, que
é federa.
[59] C8: Jogar game boy. O pessoal da Turma C é bem melhor.
[60] Pesquisadora: Uma coisa que você tem muita dificuldade
para fazer.
[61] C8: Português.
Partimos para as atividades previstas para a entrevista e na atividade
de associação de palavras, fez as seguintes relações:
Tabela 23 – Criança 8 - Associação
de palavras
Escola
|
J. P. e L. (nomes de amigos) |
| Casa |
Minha mãe. |
| Criança |
Meus amigos. |
| Família |
Meu pai. |
| Professor |
Professora 3. |
| Brincar |
Game boy. |
| Esconder |
Pique-esconde. |
| Mostrar |
Mostrar um painel. |
| Ensinar |
Para alguém |
| Aprender |
A aprender. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações.
Tabela 25 – Criança 8 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
Português. |
| Eu mudaria no professor... |
para a Professora X (nome de uma antiga professora) |
| Eu mudaria na minha família... |
de hábitos. Eu e meu pai somos muito diferentes. Eu e
minha mãe comemos carne e meu pai só come verdura. |
| Eu mudaria em mim... |
meus hábitos. Não brincar na hora da aula, não
conversar. |
| Eu gostaria de aprender... |
Chinês, pra viajar para a China e para outros lugares
que falasse chinês. |
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
8, escrevemos:
“Criança muito esperta e curiosa, sem conseguir achar
o seu lugar no mundo, sua origem (de onde vim?), sem saber para onde
vai.”
Criança 9 – Entrevista com a Professora
A Criança 9 é um menino de nove anos; estuda na Escola
3. Tem mais dois irmãos. A Professora 3 e a Professora 4 acham
que sua dificuldade é “emocional”.
Eis o trecho da entrevista em que a Professora 4 conversa com a
pesquisadora sobre seu aluno.
[1] P4: Ele repetiu a primeira série. Eu diria que ele tem
uma dificuldade de aprendizagem porque o desenvolvimento dele é
muito instável. Então, porque tem um rebatimento profundo
no emocional, quando ele está bem, tá tudo maravilhoso,
de vento em popa, é visível. Quando ele tá desarrumado,
meu Deus do céu!
[2] Pesquisadora: Como é que ele fica desarrumado?
[3] P4: Ele fica angustiado, qualquer desafio bobo, que ele pode,
irrita, angustia, não consegue copiar do quadro. É uma
ansiedade contida. Às vezes, por qualquer coisa, ele começa
a chorar e se aperreia e se abusa. É muito interessante e claro
isso. Ele tem um irmão mais velho que bate nele. Ele adora
brincar. Na sala, ele se envolve mais quando trabalha com projetos
de ciências. A mãe o pega muito tarde na escola.
Realizamos, também, entrevista com a Professora 3 que nos trouxe
uma visão das dificuldades da Criança 9 em outros contextos
de sala de aula, pois trabalha a disciplina de Língua Portuguesa.
[4] P3: Ele é muito bom em Português. Também tem
a coisa de sair de órbita, quando alguma coisa não vai
bem em casa. Ele é repetente e isso é uma carga muito
grande.
[5] Pesquisadora: Você sabe por que ele repetiu?
[6] P3: Ao certo, não. Mas acho que passa pela questão
emocional, acho que não tinha uma responsabilidade, como ele
tem hoje, com as tarefas de casa. Acho que o processo de alfabetização
dele foi truncado e continuou na primeira série.
[7] Pesquisadora: Como assim, ‘responsabilidade’?
[8] P3: Quando acontece alguma coisa em casa, ele fica uma semana
sem fazer nada. Mas ele tem responsabilidade e assume que vai fazer.
Ele adora colecionar coisas. Agora, ele tá passando por um
momento de desorganização em casa, ele tá pegando
as coisas (‘roubando’). [ainda bem que a professora entende!!]
Não sei o que está passando agora na família,
mas a história familiar é complicada. A mãe e
o pai têm uma relação muito difícil, uma
relação de amor e ódio. Tão quebrando
panelas, não sei se batem, mas jogam coisas um no outro.
[9] Pesquisadora: Na entrevista dele comigo, ele falou algo sobre
se esconder para não apanhar...
[10] P3: Pois é.
A Professora 3 se levantou e pegou uma pasta dele, mostrando-me um
desenho. Comentei que ele havia demorado muito fazendo os desenhos
da pesquisa e que não havia deixado nada transparente, tudo
tinha que ser preenchido. [O que não pode ser mostrado, revelado?]
[11] Pesquisadora: Ai! Que lindo! Porque bate exatamente com essa
questão de tirar as coisas, nenhum vazio, tudo tem que ser
preenchido.
[12] P3: Ele é dos que pinta com mais força. Num texto
que ele fez, perguntei o que ele tava querendo dizer com ‘o
escuro’. É subserviente demais. Nas relações,
ele é sempre o pior. Ele levou um livro para casa e precisava
depois dizer qual era o personagem do livro que ele mais se identificou
e o porquê. Ele disse que era o ‘João Bobão’,
porque ‘ele é a mesma coisa que eu, é bobão,
igual a mim’. Ele sempre é o inferior. Ele tem irmãos.
A mãe sempre que fala comigo é muito eufórica:
‘Como vai o meu filho? Não diga não, porque eu
já sei.’. Eu respondo: ‘Não, pelo contrário,
a Criança 9 é um dos meus melhores alunos em Português!’.
Ela respondeu: ‘Tá falando do meu filho?! Não,
minha filha, você tá confundindo, não é
o meu não.’.
[13] Pesquisadora: Me diz uma coisa que ela faz bem.
[14] P3: Desenhar, pintar, é organizado, faz texto bom. Agora,
emocionalmente, é um bebê. É como se ele tivesse
um ambiente feliz na escola e pesado em casa.
[15] Pesquisadora: O que poderia ser feito para ajudá-lo?
[16] P3: Uma terapia, mas não é com ele não,
é com a mãe, o pai. (risos) Já foi indicado terapia,
mas eles são muito resistentes e não foram porque é
como se fosse um atestado de incompetência de ter um filho doente.
[17] Pesquisadora: Ou ele assume esse lugar para garantir a saúde
da família...
Criança 9 – Entrevista
A Criança 9 (C9) chegou curioso e um pouco inseguro. Começamos
o nosso diálogo.
[1] Pesquisadora: Qual é o teu time?
[2] C9: Sport.
[3] Pesquisadora: O que tu mais gostas de fazer?
[4] C9: Brincar, jogar bola, ir para casa dos meus primos.
Pedi que falasse sobre sua vida.
[5] C9: Eu tenho dois irmãos. Tem minha mãe... ela não
trabalha, só fica fazendo chocolate em casa. Meu pai trabalha
com computador.
[6] Pesquisadora: Tem mais alguma coisa da tua vida que tu queiras
me contar?
[7] C9: Tem um monte de coisa, mas eu me esqueço (voz travada,
baixa, olhar para longe, chupou dedo). [Mais uma vez a teoria vem
ao nosso encontro como um suporte para interpretação,
pois nos lembramos de Fernandez (2001a) quando nos aponta para o não-saber
como uma construção para a impossibilidade do lembrar-dizer-denunciar.]
[8] Pesquisadora: Por exemplo?
[9] C9: Aulas-passeio.
Contou que dorme no mesmo quarto com os irmãos.
Solicitamos, em seguida, que desenhasse a situação de
aprendizagem (Anexo D – Fig. 22) prevista para a pesquisa, sugerindo
que poderia desenhar ‘qualquer coisa’. Pediu preto, régua
e cor de pele. Passou uma linha dividindo o papel ao meio e desenhou,
durante quinze minutos, assobiando enquanto desenhava, um sol –
com componentes em amarelo e vermelho -, três nuvens cinza,
duas árvores separadas, um índio com uma lança
apontando para uma das árvores (o índio é maior
que as árvores), há um pedaço grande de terra
marrom.
Começamos mais um diálogo.
[10] C9: Tem que ser uma pessoa aprendendo e outra... e outra... ensinando?
[11] Pesquisadora: Foi o que eu te pedi para fazer, né? Quando
você desenhou o índio com a lança é por
que você acha que ele não precisa de ninguém para
ensinar a ele, é?
[12] C9: É.
[13] Pesquisadora: Como é que ele aprende isso?
[14] C9: Como é que ele aprende?
[15] Pesquisadora: Como é que ele aprende se não tem
ninguém para ensinar? Existem algumas coisas que a gente aprende
só?
[16] C9: Como no jogo de videogame que a gente não tem ninguém
para ensinar, a gente vai e aprende.
[17] Pesquisadora: Esse índio tá aprendendo só?
[8] C9: Tá.
Solicitamos o desenho da família (Anexo D – Fig. 23).
Enquanto desenhava, comentou:
[9] C9: Eu sou meio marrom e vou pegar essa cor (marrom claro).
Demorou muito desenhando e desenhou ele, um irmão, outro irmão,
a mãe (loira) e o pai. Não há transparências,
tudo é preenchido. No desenho da família tivemos a impressão
de ver duas faces em seu rosto. [Suas duas realidades: família
e escola?]
Começou a tossir secamente.
[10] Pesquisadora: Tu tens asma?
[11] C9: Às vezes. O que minha mãe acha estranho é
que em todo desenho que eu faço, eu me pareço magro.
[12] Pesquisadora: E você não é magro, não?
[13] C9: Sou meio gordinho.
[14] Pesquisadora: Você se sente magro no desenho?
[15] (Balança a cabeça afirmativamente.)
[16] Pesquisadora: Você queria ser mais magrinho?
[17] (Balança a cabeça afirmativamente.)
Fez questão de mostrar os seus desenhos para a câmera
de filmar.
Procuramos continuar com a entrevista, de acordo com o roteiro.
[18] Pesquisadora: Diz uma coisa que você faz muito bem, que
é federa.
[19] C9: Desenhar.
[20] Pesquisadora: Uma coisa que você tem muita dificuldade
para fazer.
[21] C9: Minhas tarefas e ficar mais calmo.
Partimos para as atividades previstas para a entrevista e na atividade
de associação de palavras, fez as seguintes relações:
Tabela 26 – Criança 9 - Associação
de palavras
Escola
|
Estudar. |
| Casa |
Morar. |
| Criança |
Pessoa pequena. |
| Família |
Pessoas numa casa só. [que pena!] |
| Professor |
Uma pessoa que ensine. |
| Brincar |
Jogar bola, ir no parque. |
| Esconder |
Esconder de uma pessoa que quer bater em você. |
| Mostrar |
Mostrar qualquer coisa que você fez... um desenho... uma
coisa errada que você fez. [por isso tudo precisa ficar
encoberto, não transparente?] |
| Ensinar |
Aprender. |
| Aprender |
Uma pessoa você a fazer uma coisa, como brincar, plantar
sementes e outras coisas. |
Na atividade de completar as frases apresentou essas associações.
Tabela 27 – Criança 9 – Completação
de frases
Eu mudaria na escola...
|
para a terceira série (é repetente). |
| Eu mudaria no professor... |
professora mais legal, mais calma e outras coisas. |
| Eu mudaria na minha família... |
para o meu pai não fumar muito e não beber muito
porque ele fica brigando com a minha mãe e eu não
gosto. [Cenas de violência familiar que ele precisa esconder?] |
| Eu mudaria em mim... |
ser mais comportado porque eu fico conversando um pouquinho,
não conversar muito, prestar mais atenção
nas tarefas e outras coisas eu mudaria em mim. |
| Eu gostaria de aprender... |
aprender coisas novas, aprender a desenhar bem, muito bem mesmo,
a jogar futebol – eu gosto de jogar futebol -, a ser mais
paciente e só. |
No nosso registro livre, logo após a entrevista com a Criança
9, escrevemos:
“Criança sem energia, enfrentando um mundo muito pesado.
Há uma grande pressão dos irmãos.”
Após a realização de todas as entrevistas,
fizemos os seguintes registros pessoais:
“É tão óbvia a compreensão das
professoras sobre as dificuldades afetivas de seus alunos e o reflexo
desse processo na relação de ensino-aprendizagem!
Elas não sabem identificar exatamente quais são essas
questões, mas sabem que não se tratam apenas de dificuldades
pedagógicas.
Quanto às crianças, temas como separação
dos pais, sexualidade, violência física, medo, morte
e busca por seu lugar no mundo corroboram os dados da literatura
sobre o tema.
Sentimos como se cada entrevista, com professora ou aluno, possibilitasse
uma re-significação sobre o sintoma e isso foi muito
gratificante. Porém, sentimos muito por não termos
tido acesso às famílias, para que tivéssemos
a oportunidade de escutá-las e ajudá-las a re-elaborar
esse sintoma dentro da dinâmica familiar.
A cada entrevista, um aprendizado. Não saímos os
mesmos, como comentou a Professora 3:
‘Agora mesmo, quando você falou de TDHA, me plantou
a dúvida, eu também não vou sair hoje do mesmo
jeito que cheguei.’
AMÁLGAMA ... palavra cujo significado tem apresentado um
novo sentido para mim.”
4.2 Síntese Interpretativa
Os dados obtidos passaram por análise interpretativa baseando-se
fundamentalmente nos dados de observação das sessões
(gravações e anotações da pesquisadora)
e nas interpretações dos desenhos realizados pelas professoras
e pelas crianças.
Optamos por transcrever os momentos das entrevistas com as professoras
e com as crianças porque gostaríamos de apresentar o
nosso trabalho como uma história, uma boa história,
que possibilitasse um ‘diálogo’ com o leitor, onde,
através desse diálogo, seriam construídas diversas
interpretações para cada um daqueles que tivesse acesso
a todo esse material. Apresentamos aqui apenas algumas das diversas
possibilidades de interpretação e deixamos para os leitores
a alternativa de novos caminhos.
Relacionamos as respostas das professoras no quadro do Anexo E e
os seus desenhos no Anexo C. Dessa forma, possibilitamos uma visão
geral das respostas de cada professora, assim como o que encontramos
em cada uma das atividades sugeridas, facilitando assim um cruzamento
de informações. O mesmo procedimento foi realizado na
estruturação dos dados das crianças entrevistadas,
com suas respostas relacionadas no Anexo F e seus desenhos impressos
no Anexo D.
Uma descrição detalhada dos diálogos construídos
ao longo das entrevistas, com professoras e crianças, foi realizada
na seção anterior, onde colocamos possíveis hipóteses
de interpretação, a partir de nosso referencial teórico
e de nossa experiência profissional.
Pretendemos, nessa seção, apontar o que descobrimos,
o que aprendemos, ou ainda, o que nos ensinaram as crianças
que não aprendiam na escola, bem como as suas professoras.
Salientamos, aqui, as palavras de Maud Manoni, citada por Fernandez
(2001a, p. 54): “A teoria permite encontrar ulteriormente as
palavras, a explicação para o que ocorreu em uma situação
que envolve o inconsciente do analista e de seu paciente”, pois
entendemos que, apesar do enquadre da nossa pesquisa não ser
um enquadre clínico, estávamos, nós e os participantes,
inteiros, com nossas dimensões consciente e inconsciente, nos
nossos momentos de interação. Percebemos que um corpo
teórico nos deu a base de sustentação para nossa
interpretação dos dados, mas também fomos buscar
outras teorias que referendassem o que encontramos na pesquisa.
Todo o percurso da pesquisa nos mostrou que optamos pela abordagem
adequada – metodologia qualitativa – para a nossa proposta
de trabalho, pois compartilhamos as idéias de Rey (2002) quando
entende que a pesquisa se baseia numa construção do
relacionamento mantido entre o pesquisado e o pesquisador e que a
interpretação das informações construídas
nessa interação não se refere a nenhuma categoria
universal e invariável do marco teórico adotado, mas
que revela a unicidade, a singularidade e a complexidade do ‘sujeito’
estudado. Encontramos, ainda, em Rey (2002, p. 55) uma fundamentação
para a nossa postura de pesquisadora:
“O sujeito pesquisado é ativo no curso da pesquisa,
ele não é simplesmente um reservatório de respostas,
prontas a expressar-se diante da pergunta tecnicamente bem-formulada.
(...)
O potencial de uma pergunta não termina em seus limites,
mas se desenvolve durante os diálogos que se sucedem na pesquisa.
O diálogo não representa só um processo que
favorece o bem-estar emocional dos sujeitos que participam na pesquisa,
mas é fonte essencial para o pensamento e, portanto, elemento
imprescindível para a qualidade da informação
produzida na pesquisa.”.
Encontramos esse processo diversas vezes em nossa pesquisa, quando
uma resposta do participante – professora ou criança
– levava-nos a novas cadeias de interpretação,
estabelecendo conexões com outras perguntas, ou ainda quando
nossas intervenções promoviam reflexões nas professoras
ou nas crianças, como podemos observar, nesse recorte do diálogo
com a Professora 1, sobre a Criança 3:
[4] Pesquisadora: Uma coisa que ela faz bem.
[5] P1: Uma produção de texto. Às vezes ela
consegue, às vezes não. Ela acha muito que tudo é
errado. Ela não comemora os aniversários dos colegas
na sala de aula, não canta Parabéns, mas come tudo.
Ela lidera algumas colegas de sala, como a Criança 2. Ela
é muito entrosada na sala. Tem uma irmã de 4 anos.
A mãe é Pediatra e já está fazendo alguns
exames nela, pois já percebeu essa coisa da lentidão.
[6] Pesquisadora: Você diria que tem alguma coisa?
[7] P1: Não sei explicar. É muito também de
dia. Às vezes ela não está disposta a fazer
nada.
[8] Pesquisadora: Se fosse alguma coisa orgânica ou ‘cognitiva’
já instalada, você acha que teria essa oscilação?
[9] P1: Não, não é orgânico. Eu acho
que é emocional, mas eu ainda não consegui descobrir
o que é, porque passa a imagem de uma família perfeita,
‘perfeita’.
[10] Pesquisadora: Talvez seja aí. [Podemos observar aqui
como uma intervenção na pesquisa pode favorecer uma
reflexão por parte do pesquisado];
ou ainda, quando solicitamos que a Criança 6 associasse uma
palavra à palavra “Mostrar” e ela respondeu “Não
sei mostrar. Deixa eu pensar... exibir.”, o que permitiu, ainda
que por um momento, estabelecer-se como um sujeito que pensa.
As entrevistas possibilitaram para as professoras uma oportunidade
de reflexão sobre:
(a) seu trabalho, como no recorte do diálogo com a Professora
4 sobre a Criança 6:
[8] Pesquisadora: Na segunda série vocês já
trazem probleminhas, né? Como é ele?
[9] P4: Difícil. Sempre há aquele probleminha –
tinha X, perdeu Y, ficou com quantas? -. Uma das coisas que fiz
com ele foi, tinha um problema e colocava: quais as informações
que você tem nesse problema, qual a informação
que você precisa descobrir e depois ele fazia o registro e
a resposta. Isso porque eu notava que ele precisava de um direcionamento
para descobrir esse problema e não apenas para ver, na última
frasezinha, quantos a mais e descobrir a operação;
ele precisava entender esse problema. [Observamos como a professora
planeja outras intervenções pedagógicas para
que o aluno construa o seu conhecimento.]
(b) o seu modo de estar no mundo, como observamos nesse recorte
da entrevista com a Professora 2 sobre a Criança 4:
[1] P2: Ela tem dificuldades na linguagem escrita; na linguagem
oral fica ansiosa. É como eu; tenta organizar o pensamento
para não dizer o que o outro não espera, para atender
à expectativa do outro [isso ficou claro quando a professora
respondeu a parte da entrevista relacionada às suas questões].
Ela tenta organizar e aí falta espontaneidade nessa hora;
aí termina atropelando. Ela consegue organizar um texto,
mas tem muita segmentação na escrita; ela segmenta
o que não deve e aglutina o que era para ser separado.
Salientamos o momento em que a Professora 3 comentou sobre algo que
havíamos falado a respeito de Transtornos de Déficit
de Atenção e Hiperatividade:
“Agora mesmo, quando você falou de TDAH, me plantou
a dúvida, eu também não vou sair hoje do mesmo
jeito que cheguei.”.
O uso da filmagem em vídeo para análise posterior,
mostrou-se um rico recurso metodológico, pois tivemos a oportunidade
de construir hipóteses a partir da observação
de certos detalhes do filme, como observamos no recorte do diálogo
da Pesquisadora com a Criança 8:
[48] Pesquisadora: Essa é a família de seu pai e
a família de sua mãe. Mas qual é a ‘suazinha’?
Qual é a sua família?
[49] C8: (sacode os ombros e faz a expressão de que não
sabe) [Graças à videografia percebi este e outros
detalhes importantes.] Não sei, tem meu primo, minha prima.
Observamos que nos desenhos das professoras sobre uma situação
de ensino-aprendizagem o tema predominante foi a aprendizagem em situação
escolar (Anexo C). Essa informação aponta uma tendência
das professoras entrevistadas de representarem o conceito de aprendizagem
como algo vinculado ao ambiente escolar, apesar de trabalharem baseadas
em propostas de ensino-aprendizagem que articulam o processo de aprender
como algo além do espaço escolar. Ainda analisando os
desenhos de uma situação de ensino-aprendizagem, fazendo
o recorte para os desenhos das crianças (Anexo D), observamos
que as crianças entrevistadas, assim como as professoras, representam
o aprender como algo associado ao que acontece em uma sala de aula
da escola. Porém, todas as situações de sala
de aula representadas pelas crianças apresentaram cenas que
traduzem o processo de ensino-aprendizagem como transmissão
de informações de alguém que sabe (o professor)
para alguém que não sabe (os alunos). Chamou-nos a atenção
a distância física que há entre os professores
e os alunos nos desenhos das crianças, assim como essas crianças
posicionam os aprendizes longe do objeto do conhecimento, que aparece
sempre como algo no quadro da sala. Já nos desenhos das professoras,
em todas as cenas de ensino-aprendizagem em sala de aula, os professores
e alunos estão numa situação de construção
de conhecimento, onde não há um distanciamento, inclusive
físico, do professor para o aluno.
Propomos aqui que essa diferença de representação
do processo de construção de conhecimento, tendo as
professoras apresentado uma visão de construção
de conhecimento e as crianças uma de transmissão de
informação, aponta-nos uma possibilidade de dicotomia
entre a proposta teórica das professoras – baseada numa
visão construtivista – e a prática de sala de
aula, tão bem apreendida pelas crianças, onde ainda
impera a forma tradicional de ensino. Observamos que as crianças
sempre colocaram as suas dificuldades em atividades escolares e o
seu potencial em realizações fora do ambiente da escola.
A representação do conhecimento escolar como algo distante
e inacessível pelas crianças que apresentam problemas
de aprendizagem escolar, processo simbolizado através dos seus
desenhos, confirma a posição discutida por Alícia
Fernandez (2001b), no que se refere à necessidade do aprendiz
perceber-se como sujeito-autor para que possa construir o seu próprio
conhecimento.
Conforme podemos observar no quadro geral apresentado no Anexo E (Respostas
das professoras), as associações realizadas pelas professoras
para as palavras propostas podem ser consideradas de natureza positiva,
ou seja, associações que permitem interpretar a natureza
do vínculo entre tais professoras e a profissão, o local
de trabalho e as crianças o que nos sugere uma boa relação
com a profissão.
Na atividade em que as professoras deveriam completar algumas frases
nos chamou a atenção a situação em que
a Professora 1 explicita “Eu me sinto fracassada quando... eu
não consigo passar a idéia que eu queria”, pois
entendemos que a língua capturou sua representação
pessoal do processo de ensino-aprendizagem, como transmissão
de informação do professor para o aluno, apesar de todos
os seus esforços de apresentar um discurso coerente com a abordagem
construtivista. Esse recorte corrobora nosso registro pessoal sobre
a Professora 1 quando afirmamos que “Percebemos, também,
que há um certo policiamento seu para adotar posturas ‘pedagogicamente’
corretas, com as atividades em que se supõe uma fundamentação
no Construtivismo...”. A Professora 2 completou a mesma frase
com “Eu me sinto fracassada quando... não sou ouvida”.
Esse depoimento confirma o nosso registro pessoal quando afirmamos
que “Sentimo-nos como, nos nossos passados momentos de Psicóloga
Escolar, ouvíamos as professoras relatando, além das
dificuldades dos alunos, as suas próprias dificuldades”.
Esses dois recortes dos nossos registros pessoais em concordância
com os discursos das professoras apontam para a eficácia dessa
abordagem no nosso enquadre de pesquisa.
Quando solicitamos que as professoras completassem a frase “Eu
gostaria de aprender...”, todas deram respostas relacionadas
à atividade profissional (Anexo E). Apenas a Professora 4 se
colocou como co-autora, junto com seu aluno, do processo de ensino-aprendizagem,
como observamos no seu depoimento “A boa escola é aquela
que... dá espaço para o aluno e a professora viverem
suas histórias”. Também foi ela quem abordou a
necessidade das crianças vivenciarem na escola possibilidades
de articulação com suas próprias vidas, como
observamos na sua fala “Eu gostaria de ensinar... às
crianças a viverem a vida e descobrirem ela a partir de suas
necessidades. Buscaríamos conteúdos que as auxiliariam
na vida”. Podemos observar que apesar das discussões
pedagógicas atuais apontarem para o conceito de aprendizagem
como algo além do aprendizado de conteúdos de sala de
aula, as professoras ainda têm a representação
de uma articulação entre o processo de aprender e a
profissão.
Observamos, a partir das entrevistas, que as professoras com uma
maior formação profissional (com grau de especialista,
por exemplo) apontaram intervenções pedagógicas
mais precisas, no sentido de propor novas possibilidades para que
a criança com problema de aprendizagem pudesse re-elaborar
suas dificuldades e construir o seu conhecimento, implicando-se, também,
no problema de aprendizagem da criança, como podemos verificar
no recorte do diálogo da Professora 4 com a Pesquisadora sobre
a Criança 6:
[1] P4: Ele veio de outra escola, aprovado com notas altas, mas
na sondagem ele não correspondeu; fizemos novamente e nada.
Quando começamos as aulas da segunda série, trabalhamos
com números pequenos na resolução de problemas.
Então, a mãe procurou a escola questionando que tudo
estava fácil demais. Perguntamos a ela se ele sabia interpretar
o problema e saber que operação usar – ele nunca
sabe -. A mãe, então, compreendeu. [Observamos, aqui,
a importância da fundamentação teórica
para uma professora.] Estamos procurando resgatar nele estratégias
para resolução de problemas; a formalização
dos algoritmos é secundária. Trabalhamos a composição
do 10 de diversas formas, usando aquelas barrinhas coloridas, tipo
6+4, 5+5, 7+3, e ele tem dificuldade. Quando é uma atividade
que requer que ele solte, que ele deixe bem livre esse pensamento,
onde experimente... Experimentar, para ele, é muito difícil;
tudo tem que tá muito arrumado, formalizado. [Haverá
o medo de perder o controle?]
(...)
[6] Pesquisadora: Ele questiona?
[7] P4: Não. Em Matemática, que é a minha área
com a turma, ele é muito formalizado. Agora, no final do
ano, é que ele está ousando experimentar.
[8] Pesquisadora: Na segunda série vocês já
trazem probleminhas, né? Como é ele?
[9] P4: Difícil. Sempre há aquele probleminha –
tinha X, perdeu Y, ficou com quantas? -. Uma das coisas que fiz
com ele foi, tinha um problema e colocava: quais as informações
que você tem nesse problema, qual a informação
que você precisa descobrir e depois ele fazia o registro e
a resposta. Isso porque eu notava que ele precisava de um direcionamento
para descobrir esse problema e não apenas para ver, na última
frasezinha, quantos a mais e descobrir a operação;
ele precisava entender esse problema. [Observamos como a professora
planeja outras intervenções pedagógicas para
que o aluno construa o seu conhecimento.] Fiz também muito
com ele assim: eu dava uma pergunta e ele ia fazer o problema; assim
‘quantos lápis eu tinha?’ e ele ia pensar num
problema que tivesse essa pergunta; e os outros faziam problemas
diferentes e eles viam que uma mesma pergunta podia ter operações
de adição, de subtração, com idéias
diferentes. Fiz também a operação para eles
construírem o problema. Já trabalhamos com as quatro
operações, porém, na divisão, utilizamos
a estratégia de decomposição; o algoritmo formal
eles vão trabalhar na terceira série. Ele não
é muito cuidadoso; perde, esquece, às vezes não
traz o material. Em Matemática, ele não tem essa curiosidade.
É o contrário. Eu tô sempre estimulando, fazendo
perguntas; é sempre buscando, buscando, junto com ele, outras
possibilidades que ele não vê. Ele ‘viaja’
tanto. Sinto que tem algo que precisamos investigar.”.
Esse dado ratifica a importância da formação
profissional dos professores para que possam compreender e intervir
de forma mais ampla nas situações singulares que ocorrem
em uma sala de aula. Verificamos também, pelas informações
das professoras, que a criança com problemas de aprendizagem
manifesta este sintoma em todas as áreas de aprendizagem escolar,
não ficando restrita a um conteúdo específico.
Porém, a Professora 3, trouxe-nos uma reflexão interessante,
na conversa sobre a Criança 8, em que aponta a dispersão
como uma característica geral de todas as crianças como
problemas de aprendizagem:
[9] P3: Todos. Agora a dificuldade maior é a questão
da concentração dele. [Qual será o seu mundo
da lua?] Por não se concentrar no que está fazendo,
por viajar de diversas formas, cada um na sua, não consegue,
muitas vezes, saber aquilo que sabe e que eles podem. Basicamente,
todos eles, é isso. [A professora generalizou a situação
dele para a das outras crianças com dificuldades.]
Essa sua posição fez-nos refletir sobre o que pensa
uma criança que apresenta o sintoma problema de aprendizagem
escolar, em que ‘mundo’ está quando fisicamente
encontra-se sentada em uma sala de aula. No nosso roteiro de entrevista
com as crianças perguntamos sobre coisas que faziam bem. Todas
apresentaram como respostas realizações fora da escola.
Porém, quando perguntamos sobre o que tinham dificuldade de
realizar trouxeram situações da aprendizagem escolar,
no que se refere a conteúdos programáticos. Já
a Criança 5 nos trouxe um depoimento que articula a sua fala
com as idéias propostas por Fernandez (2001b) e Cordié
(1996): “... eu tenho dificuldade de pensar”.
A Professora 3, falando sobre a Criança 8, também nos
trouxe outra análise sobre uma linha comum para as crianças
com problemas de aprendizagem, quando coloca a questão de regras
e limites:
[12] Pesquisadora: Poderíamos dizer que a questão
de regras para ele é difícil?
[13] P3: É difícil.
[14] Pesquisadora: Criatividade é mais solto?
[15] P3: É.
[16] Pesquisadora: Mas quando chega nas regras...
[17] P3: É. E, por sinal, eu percebo, a cada ano, como essa
coisa de regra, principalmente ortográfica, é forte
para eles não identificarem e usarem no texto. Se eu falo
o nome ‘regra’, a regra ortográfica, vamos fazer
alguns problemas sobre algumas regras, vamos fazer descobertas sobre
coisas que sempre acontecem, mas que não são regras
ortográficas, são pistas que ajudam na hora da dúvida,
essas coisas eles erram menos, mas M antes de P e B, que é
uma regra, é uma coisa incrível, como eles sabem que
tem o nome regra... [Não será porque quando há
contextualização fica mais fácil?]
[18] Pesquisadora: Eu tô pensando, numa escola mais tradicional,
que as crianças estão mais acostumadas a se submeterem
a regras sem explicação...
[19] P3: É, pode ser. Mas o que passou na minha cabeça,
foi uma coisa bem, talvez, freudiana, bem psicanalítica,
mas foi a questão de infringir mesmo, a necessidade de infringir.
[20] Pesquisadora: Mas isso que você tá falando é
das crianças com dificuldades?
[21] P3: Também, também. A Criança 7, por exemplo,
é muito dócil, se submete a tudo, tudo que você
pede, as amigas adoram fazer ela de cacimba, mas não adianta
dizer que é para ela escrever M antes de P e B, o RR, o SS;
se você perguntar, ela vai dizer, mas na hora de colocar...
Nenhum deles se submete. [A forma deles se fazerem sujeitos no mundo.]
Essa sua reflexão nos levou à pergunta “o
que nos ensina a criança que não aprende?”.
Das nossas entrevistas com as professoras podemos concluir que as
mesmas já dispõem de um conhecimento sobre os problemas
de aprendizagem de seus alunos tendo como um dos componentes relevantes
a dimensão afetiva. Observamos que as professoras, de uma forma
geral, indicaram um acompanhamento psicológico para as crianças
com problemas de aprendizagem, o que nos fornece um indicador da compreensão
das mesmas sobre o problema de aprendizagem das crianças como
algo que extrapola o ambiente escolar, sendo necessária uma
maior implicação da família e da própria
criança. Porém, faz-se necessária uma maior sistematização
desse conhecimento, resultando em intervenções pedagógicas
mais fundamentadas num corpo teórico que entenda o problema
de aprendizagem como um ponto tecido pela articulação
das dimensões afetiva e cognitiva do sujeito. A Tabela 28,
a seguir, retrata as posições das Professoras em relação
às crianças analisadas:
Tabela 28 – Posições das Professoras
sobre as causas do problema de aprendizagem
| Professora |
Criança |
Dimensão afetiva |
Indicação |
| Professora 1 |
Criança 1 |
“É de fundo emocional.” |
“Eu indicaria um acompanhamento psicológico.” |
| |
Criança 2 |
“É muito emocional.”“Eu acho que é
o emocional bloqueando o cognitivo, alguma coisa que bloqueia
a aprendizagem.” |
“Eu indicaria um acompanhamento psicológico e uma
professora particular.” |
| |
Criança 3 |
“Não, não é orgânico. Eu acho
que é emocional, mas eu ainda não consegui descobrir
o que é.” |
“Eu indicaria um acompanhamento psicológico.” |
| Professora 2 |
Criança 4 |
“Qualquer coisinha na sala de aula desestabiliza; acho
que isso atrapalha um pouco na execução das atividades.
Ela fala muito do contexto familiar dela (os tios). Uma vez ela
me disse assim: ‘Meu pai se separou da minha mãe
porque ele bebia muito e batia na minha mãe’. Infelizmente
ela não tem acompanhamento psicológico.” |
“Ah! Acho que a escola pode chamar a família e
indicar um acompanhamento com uma Psicopedadoga, pois a concentração
dela é muito alterada. Acho que os tios não aceitam
a idéia porque pensam assim: ‘Se ela vai ser acompanhada
por uma profissional, então é porque alguma coisa
está muito grave na cabeça dela’. Ela gosta
muito de servir e se dispersa com facilidade na sala.” |
| |
Criança 5 |
“Ela já vinha da primeira série com dificuldades.
Ganhou um irmãozinho há dois anos e, a partir disso,
ela ficou bastante mexida. O irmão dorme no quarto dos
pais e ela não; antes era muito mais mimada, era o centro
das atenções.” |
[O nosso contato com a professora foi bastante prejudicado
devido à realização de outras atividades
que estavam acontecendo na escola e nas quais ela estava envolvida.] |
| Professora 3 |
Criança 6 |
“Uma coisa que me chama a atenção é
que todas as respostas dele ficam pela metade. Eu não quero
achar que é pura falta de concentração não,
sabe?! [Mais uma vez, a formação da professora faz
a diferença na sua compreensão das dificuldades
do aluno.]” |
“Terapia, mas é diferente. Ele tem uma história
muito difícil, teve o rótulo de ‘preguiçoso’.
Eu não acredito nisso. [Esta professora acredita no potencial
de seus alunos, buscando alternativas para superar o problema
de aprendizagem dos mesmos.] Pedagogicamente, tarefas específicas
para ele.” |
| |
Criança 7 |
“O que me chama atenção é esse desligamento
dela do mundo (a Professora 3 tem especialização
em Educação Especial).” |
“Trabalho de Psicomotricidade Relacional. Nem pensei em
falar nada de TDA, para não rotular a menina porque eu
sinto a angústia da mãe com relação
a achar que ela é especial, de alguma forma. Fazer uma
Psicomotricidade Relacional, uma terapia num espaço onde
ela pudesse botar pra fora o que ela não consegue com a
gente nem com a família.” |
| |
Criança 8 |
“Agora a dificuldade maior é a questão da
concentração dele.”“Mas as coisas que
se relacionam ao aprendizado escolar, nem sempre chamam a atenção
dele, nem sempre agrada, ele precisa de coisas que extrapolam
mesmo para poder funcionar. [Esta professora sabe que os alunos
precisam ter uma ‘pergunta’ a responder para quererem
buscar informação e transformá-la em conhecimento,
como nos diz Fernandez (2001a).]”“Ele é um
pouco dissimulado. Ele gosta de ser bebê para conseguir
as coisas que ele quer. Ele dissimula muito na relação,
tanto com o adulto quanto com a criança, pra gente ceder.
Mas na verdade ele não é bebê e ele sabe muito
bem disso.”“Essa coisa da separação
dos pais marcou muito porque na biografia dele, é de partir
o coração, ele colocou que a coisa mais importante
da vida dele foi a separação dos pais, que isso
deixou ele muito traumatizado, mas que agora ele já tava
superando.” |
Terapia e elogios. |
| |
Criança 9 |
“Também tem a coisa de sair de órbita, quando
alguma coisa não vai bem em casa.”“Ele adora
colecionar coisas. Agora, ele tá passando por um momento
de desorganização em casa, ele tá pegando
as coisas (‘roubando’). [ainda bem que a professora
entende!!] Não sei o que está passando agora na
família, mas a história familiar é complicada.
A mãe e o pai têm uma relação muito
difícil, uma relação de amor e ódio.
Tão quebrando panelas, não sei se batem, mas jogam
coisas um no outro.” |
“Uma terapia, mas não é com ele não,
é com a mãe, o pai. (risos) Já foi indicado
terapia, mas eles são muito resistentes e não foram
porque é como se fosse um atestado de incompetência
de ter um filho doente.” |
| Professora 4 |
Criança 6 |
Ele não faz para lhe afrontar e diz ‘tá,
Tia’; mas algo que é maior que ele... [Observamos
aqui a professora compreende que as causas para os limites de
seu aluno podem ser mais complexas do que as explicações
superficiais.] |
“Sinto que tem algo que precisamos investigar.” |
| |
Criança 7 |
“Uma coisa que me deixa intrigada nela é a questão
da escrita dela, do trabalho dela no espaço gráfico,
pois isso não condiz com as potencialidades. A letra não
combina com ela. Parece que é outra criança que
registrou. Ela tem uma história de dificuldades, mas na
segunda série ela não repetiu.” |
“Agora, ela tem um ritmo mais lento que os outros, é
uma criança que tem esse ritmo, mas é uma criança
comprometida com o que faz. [Excelente formação
pedagógica e como essa formação faz diferença
na hora de compreender a singularidade do aluno e não incluí-lo
numa massa uniforme.]” |
| |
Criança 8 |
“O que me inquieta nele é um pouco de descompromisso,
sabe? Você fala, ele só escuta você quando
quer. Agora, quando ele quer, ele pega e faz em um minuto. Parece
que ele tá fazendo Ramain. No começo do ano, a Criança
8 fazia acompanhamento pedagógico com professoras, já
que ele tinha tido muita dificuldade na primeira série.
Mas já no meio do ano a gente disse que não precisava.
O problema dele não é peda... não é
conteúdo. [A professora percebe que existe o sintoma ‘problema
de aprendizagem’.] Ele mesmo diz que precisa ter mais atenção
[de quem?] e concentração. Ele diz que o que ele
faz no Ramain é exercício de concentração
e atenção. Ele é bom na área social,
porém parece que para ele o outro não tem muito
valor.” |
[Não conversamos sobre a possibilidade de intervenção.] |
| |
Criança 9 |
“Eu diria que ele tem uma dificuldade de aprendizagem
porque o desenvolvimento dele é muito instável.
Então, porque tem um rebatimento profundo no emocional,
quando ele está bem, tá tudo maravilhoso, de vento
e popa, é visível. Quando ele tá desarrumado,
meu Deus do céu!”“Ele fica angustiado, qualquer
desafio bobo, que ele pode, irrita, angustia, não consegue
copiar do quadro. É uma ansiedade contida. Às vezes,
por qualquer coisa, ele começa a chorar e se aperreia e
se abusa. É muito interessante e claro isso. Ele tem um
irmão mais velho que bate nele. Ele adora brincar. Na sala,
ele se envolve mais quando trabalha com projetos de ciências.
A mãe o pega muito tarde na escola.” |
[Não conversamos sobre a possibilidade de intervenção.] |
Observamos que de acordo com nossas posições teóricas
e experiência como Psicóloga Escolar e Clínica
(no âmbito da Psicopedagogia, mais especificamente), as professoras
apresentaram uma compreensão do problema de aprendizagem das
crianças coerente com a nossa interpretação,
após os nossos encontros com as professoras e com as crianças.
De alguma forma, o significante intuição, discutido
na tese de mestrado de Araújo (2003), veio-nos como referencial,
pois a autora assume a opção de tratar o fenômeno
intuitivo como algo complexo e multirreferencial, resultante de um
tipo de percepção baseado em diferentes níveis
de consciência, num processo que recebe influências internas
e externas. Entendemos que na nossa pesquisa encontramos uma pista
que nos levaria a um estudo mais aprofundado sobre a intuição
das professoras quando ‘perceberam’ e ‘compreenderam’
o problema de aprendizagem de seus alunos, tomando como base não
apenas os seus conhecimentos pedagógicos sobre o tema, ainda
que não tão aprofundados. Discutindo as idéias
de Bergson (1979), Araújo (2003, p. 46) nos esclarece:
“(...) para Bergson, a intuição seria uma espécie
de ‘simpatia pela qual nos transportamos para o interior de
um objeto para coincidir com o que ele tem de único e, conseqüentemente,
de inexprimível’. E assim a vivência intuitiva
se expressaria na coincidência do sujeito e do objeto, sendo
o objeto algo que não pertence a uma espécie de coisas,
mas algo que seria captado na sua individualidade, naquilo que carrega
de unicidade.
Vale ressaltar, também, que a expressão ‘simpatia’
para Bergson é a atitude adequada para vivenciar o ato de
intuição, pois simpatia vem de synpathos que significa
sofrer junto, ou ainda, segundo Cunha (1999, p. 723) ‘tendência
ou inclinação que reúne duas ou mais pessoas’
(p. 173). Simpatia, portanto, é a abertura do sujeito de
se colocar na posição de algo ou de alguém,
de sentir como esse algo ou alguém sente, sem medo de compartilhar
o “sofrimento” do outro. Só a capacidade de abrir-se
dessa forma possibilita o acontecimento da intuição,
que por sua parte não tem na linguagem uma expressão
adequada à experiência.”
Acreditamos que as professoras tiveram algo de intuitivo, dentro
da perspectiva acima, nas análises das situações
de cada um de seus alunos com problemas de aprendizagem, como podemos
observar no recorte da entrevista em que a Professora 4 fala sobre
a Criança 6 e afirma “Sinto que tem algo que precisamos
investigar.”.
Um ponto importante, colocado pelas professoras, foi a dificuldade
de interpretação das crianças com problemas de
aprendizagem escolar, tanto no que se refere à interpretação
de textos quanto à interpretação de problemas
matemáticos, como podemos observar:
(a) Professora 1 – Criança 1:
“Ele não consegue ver, na parte de interpretação,
as entrelinhas. [Exatamente a definição de inteligência
de Lacan, citada por Cordié (1996).] Então, apesar
de não ter sido trabalhado assim, mas ele quer aquela interpretação
que é mais localização no texto. A coisa da
leitura entrelinhas, do significado, da moral da história,
ele não consegue captar. [acho que ele não consegue
interpretar, atribuir significado]”;
(b) Professora 4 – Criança 6:
“Quando começamos as aulas da segunda série,
trabalhamos com números pequenos na resolução
de problemas. Então, a mãe procurou a escola questionando
que tudo estava fácil demais. Perguntamos a ela se ele sabia
interpretar o problema e saber que operação usar –
ele nunca sabe -. A mãe, então, compreendeu. [Observamos,
aqui, a importância da fundamentação teórica
para uma professora.]”.
Essa reflexão nos remete às idéias de Fernandez
(2001a, p. 55) quando a autora coloca a importância de assumirmos
nossa autoria de pensamento para conseguirmos aprender:
“(...) a psicopedagogia tem como propósito abrir espaços
objetivos e subjetivos de autoria de pensamento; fazer pensável
as situações, o que não é fácil,
já que o pensamento não é somente produção
cognitiva, mas é um entrelaçamento inteligência-desejo,
dramatizado, representado, mostrado e produzido em um corpo. Por
isso, muito mais importante que os conteúdos pensados é
o espaço que possibilita fazer pensável um determinado
conteúdo. Para esse lugar estaremos dirigindo nossa intervenção,
nosso olhar.”
Das nove crianças entrevistadas, cinco são o único
filho do casal. Podemos olhar esse dado como uma característica
da nossa sociedade atual, com famílias menos numerosas. Porém,
levantamos a possibilidade desse dado denunciar alguma fratura na
relação familiar que favorecesse a opção
da criança para denunciar o seu sofrimento através do
sintoma ‘problema de aprendizagem’. Fizemos ainda uma
conexão com o relato que a Professora 3 nos fez de um diálogo
seu com a mãe da Criança 6, onde ela diz que não
quer outros filhos pois “ele já é suficiente”.
Perguntamo-nos: suficiente pra quê? Conectamo-nos, então,
com as posições defendidas por Cordié (1996)
quando nos relata casos clínicos em que as crianças
não conseguem aprender porque estão na posição
de ‘objeto’ de sua mãe e não podem se colocar
como ‘sujeitos’ de sua própria vida (mais uma vez
nos surge a questão da autoria, conforme discutido na seção
de Introdução, tão bem colocada por Fernandez
(2001a, 2001b)). Encontramos em Dolto (1998) mais uma possibilidade
de interpretação:
“O filho único não vive as reviravoltas da
vida e, mais profundamente, de si mesmo. Acaba sentindo-se um “objeto”
precioso e vendo-se como tal, com os olhos dos adultos. Sente então
esse desrespeito pelo valor humano, tão fortemente traduzido
pela atitude de posse dos pais e avós que disputam o único
rebento. Ele é o filho do Senhor e da Senhora X, o neto da
Senhora Y, e não mais um ser humano com direito a vida própria.
Torna-se cada vez mais um objeto, e poderia resumir assim seu estado
de espírito: “Me peguem ou não, tanto um como
o outro, estou pouco me lixando. (p. 76)
O filho único, entupido de comida, de instrução,
de tudo, não tem tempo para desejar as coisas de que o cumulam,
pois sempre antecipam seus desejos, com o que fica em desvantagem.
(p. 77)”.
Observamos que a atividade proposta para as crianças de contar
a sua história de vida não produziu os dados esperados,
pois as crianças precisaram de incentivo adicional da pesquisadora
para produzirem os seus relatos. Lembremo-nos das idéias defendidas
por Bruner (2001) no que se refere à importância da narrativa
como um modo de pensar que possibilita a criação de
um mundo pessoal, onde há um lugar para si, um mundo de significados.
Colocamos a reflexão de que talvez esse seja um resultado esperado,
pois essas crianças apresentam o sintoma ‘problema de
aprendizagem’ e, de acordo com Fernandez (2001b), têm
dificuldades de contar sua história de vida e ocupar o seu
lugar no mundo, assumindo seu processo de autoria (de pensamento,
de vida, de desejo...).
A Criança 1 foi a que apresentou maior dificuldade de interação
com a pesquisadora, apresentando um tipo de comportamento na atividade
que nos leva a pensar em dificuldade importante de se assumir como
sujeito-autor. No recorte da entrevista com a pesquisadora, onde perguntamos
o nome de seu melhor amigo e responde ‘qualquer coisa’.
Ao ser solicitada para associar palavras às apresentadas repetiu
‘É, bonita’. Pelas colocações da
Professora 1, já esperávamos uma criança com
alguns traços de comprometimento em sua possibilidade de autoria,
pois todo o seu discurso apontou para uma criança que não
poderia assumir sua autoria enquanto sujeito, como nos recortes abaixo:
[1] Em laudo, ele não tem nada assim de deficiência,
esquizofrenia; mas ele tem uma defasagem sim, principalmente na
questão da lógica.
[19] ... Ele é muito, também, de repetição.
[21] ... Eu dou um comando para ele executar e ele repete o que
eu tô falando.
[29] ... é tudo na hora que ele quer, mamãe tá
na hora, o sapatinho é mamãe que bota, a comidinha
só falta mamãe colocar na boca.
[49] ... as tarefas de casa vêm perfeitas, coisas que a gente
sabe que não é dele. Às vezes até está
com a letra dele, mas ela deve estar ditando.
A teia de significações vai sendo construída
pela Professora 1, por nós, pesquisadora, e a Criança
1, não-sendo, vai conseguindo ser, ou seja, através
do seu sintoma ‘problema de aprendizagem’ vai construindo
sua singularidade. Conectamo-nos com as reflexões de Dolle
(1993, p. 120-121):
“O gesto, até mesmo discreto, o brilho no olhar, etc.,
são tão expressivos, quanto as palavras. Dito de outro
modo, a afetividade em ato, fala àquele que a recebe porque
ela tem um sentido e informa sobre o estado daquele que a leva a
falar, sobre suas intenções, seus julgamentos, sua
disposição de espírito com relação
ao destinatário, etc. E a atenção prestada,
com todo o cuidado, a essas múltiplas manifestações,
quase sempre fugitivas, desenvolve uma sensibilidade de tal maneira
em vigília permanente que o sujeito que a cultiva faz com
que ela venha a adquirir uma sutileza discriminativa de qualidade
tão rara que ele aumenta sua capacidade de abertura a outrem,
de escuta e compreensão, e sobretudo de sofrimento. Seja
como for, a afetividade é sensibilidade ao sentido e às
significações que ainda nenhuma semântica racional
conseguiu penetrar e nenhuma metodologia foi capaz de revelar”.
Nas nossas entrevistas com as crianças percebemos que as mesmas
encontraram fissuras na estrutura do seu sintoma ‘problema de
aprendizagem’ e conseguiram, ainda que sutilmente, anunciar
as pistas de seu mal-estar, como podemos observar através de
seus desenhos e de seus discursos.
No desenho de sua família, a Criança 1 não colocou
o seu pai. Os seus pais são casados e vivem juntos. Perguntamo-nos,
então, o que quer revelar quando o omite? A literatura especializada
nos traria algumas possibilidades de interpretação:
a sua ligação com a mãe está muito ‘colada’
e não há espaço para um terceiro, o que também
dificultaria sua internalização de limites (a Professora
1 falou muito sobre esses aspectos na nossa entrevista sobre a Criança
1). Freitas e Cunha (2000, p. 514) apontam para uma outra possibilidade
de desvalorização da figura paterna quando afirmam que
“A desvalorização implica intentos de negação,
que é indicada, freqüentemente, pela omissão total
de uma figura ou de detalhes da mesma.”. Se uma dessas pistas
for verdadeira, teremos uma criança impossibilitada de assumir-se
como sujeito-autor de sua própria vida, do seu desejo e do
seu pensar.
A Criança 2 desenhou sua família com os pais sendo
figuras muito maiores do que ela. Mais uma vez, recorremos a Freitas
e Cunha (2000, p. 514) quando comentam que o tamanho das figuras talvez
seja a variável mais importante a ser analisada sobre a dinâmica
familiar, pois “uma grande figura materna sugere uma mãe
dominante”. De acordo com o relato da Professora 1 sobre a Criança
2 a relação mãe-filha é muito intensa:
“É filha única. Os pais dela já são
mais idosos. A mãe vem tendo uns probleminhas de possessividade;
é uma relação meio simbiótica, entre ela
e a mãe.”. Observamos que, mais uma vez, o inconsciente
tenta revelar-se através da produção simbólica
– o desenho da família – e que precisamos estar
atentos para interpretarmos sua linguagem e compreendermos o que ele
denuncia/anuncia.
A Criança 3 trouxe-nos ‘falas’ em que denuncia
sua ânsia por mais liberdade e por menos preconceito, anunciando
sua dificuldade de submeter-se a um controle religioso rígido,
tão evidente em sua entrevista: “Eu mudaria na minha
família... eu queria melhorar na minha família que parassem
de brigar e todo mundo ficasse alegre, indo para qualquer lugar.”,
ou ainda, “Eu gostaria de aprender todas as coisas dos países
e falar todas as línguas.”. No seu desenho de família
desenhou todos os membros sem detalhes de face e seu pai sem braços.
Perguntamo-nos se não gostaria de anunciar, simbolicamente,
que não pode mostrar a sua ‘cara’, o que sente,
o que pensa.
A Criança 4 desenhou como sua família sua situação
familiar atual, vivendo com seus tios, já que seus pais são
separados e não estão vivendo na cidade. Colocou uma
árvore entre ela e seu tio e desenhou uma casa depois de sua
tia. Freitas e Cunha (2000) ressaltam que “podem, também,
ser colocadas barreiras entre as figuras denotando um bloqueio de
energia emocional” (p. 517), ou ainda, “o distanciamento
afetivo pode ter uma representação simbólica
pela interposição de elementos extras entre membros
da família, que denunciam uma interferência no canal
de comunicação ou no intercâmbio afetivo”
(p. 514). Acreditamos que esse distanciamento reflete as suas dificuldades
do momento quanto à sua estrutura familiar.
A Criança 5 fez o desenho de sua família com todos
os membro da mesma cor, com a exceção dela; além
disso, ela não desenhou sua face, apesar de ter desenhado as
faces dos pais. Esse detalhe nos remete, mais uma vez, a Freitas e
Cunha (2000, p. 514) quando ressaltam que “o sujeito que se
sente rejeitado, não atendido, carente, desenhará a
si mesmo (caso se inclua na representação familiar)
de um modo diferente daquele que se percebe como o filho preferido”.
Lembremo-nos das colocações da Professora 2, quando
relatava as dificuldades que a Criança 5 apresentou quando
do nascimento de seu irmão menor. No seu desenho de uma situação
de ensino-aprendizagem a Criança 5 desenhou um zíper
na calça da professora, o que interpretamos como uma pista
para as suas questões relativas à sexualidade, anunciadas/denunciadas
durante a entrevista. No seu discurso, a Criança 5 também
anunciou muitos de seus ‘não-ditos’, como observamos
nos recortes a seguir:
(a) Recorte 1: Associar palavra a ‘Esconder’
Pesquisadora: Como é se esconder do pai?
É assim... O pai chega e encontra você... Aí
lá na minha vó tem a Av. 2; aí meu pai, quer
dizer, chega e me encontra lá; aí ele diz: ‘Vá
para casa que eu quero encontrar você lá.’. Você
fica com medo e se esconde dele. [medo de abuso sexual? de quê?]
Pesquisadora: Por que é que você se escondeu?
Por causa da pisa que eles iam levar. [afastou-se da dor, tornando-a
impessoal]
Pesquisadora: Seu pai bate em você?
Eu não gosto de bater, ele não gosta de bater não.
[não respondeu à pergunta, desviou a resposta]
Pesquisadora: Ele já bateu alguma vez?
Já.
Pesquisadora: Já levou alguma pisa?
Ah! Não. Meu irmão apanha mais. Mas minha mãe
leva muita tapa dele [dele, pai?].
Pesquisadora: Dele quem?
Do meu irmão. Ele também bate em mim. Meu irmão
adora guaraná
(b) Recorte 2: Associar palavra a ‘Mostrar’
Mostrar o que você fez para o seu pai... de ruim. Como,
você tá brincando aqui e aí você chega
lá e mostra: ‘Papai, ele me empurrou.’ Aí,
‘Quem?’. ‘Ele.’, já que ele já
sabe qual é, que ela disse há muito tempo, como a
mãe de I. (uma colega da sala de aula).
Pesquisadora: Eu não entendi.
Quer dizer, a mãe de I. chega aqui.
Pesquisadora: Quem é I.?
É uma menina daqui. A mãe dela chega. Ela diz ‘Foi
aquele.’ (gaguejou ao falar isso). Ela não mostra o
certo, ela mostra o errado. Aí é o que era para acontecer
com um, acontece com o outro que não fez nada.
Pesquisadora: Me explica direito essa história.
Assim, a mãe de I. chega e I. diz para ela assim: ‘Olha
tem um menino me batendo na escola.’. A mãe chega aqui
apavorada e diz ‘Qual foi?’. Ela faz uma brincadeira
e depois diz o errado; depois o errado, o que foi o errado diz ‘Fui
eu.’, assume o que ele fez. (essa história aconteceu
de verdade na escola, poucos dias antes, mas o tema não foi
violência, mas jogos sexuais)
Pesquisadora: Você acha que a gente deve contar todas as coisas
erradas que a gente faz pro pai?
Hã! Hã! Porque senão acontece alguma coisa
com outros.
A Criança 6 desenhou seu pai, sua mãe, sua irmã
(do primeiro casamento do pai) e a si própria. Ele é
a única pessoa com cabelos pretos; todos estão sem mãos
e pés e há uma linha ligando todas as figuras; o chão
também foi desenhado. O desenho foi realizado na parte inferior
do papel. Mais uma vez, recorremos a Freitas e Cunha (2000, p. 514)
para fundamentar uma possibilidade de interpretação
quando afirmam que “a localização é considerada
em termos do simbolismo do espaço, na folha em que o sujeito
desenha, em que a parte superior representa a expressão da
fantasia, e a inferior, de ausência de fantasia, de energia,
como zona de depressão”. Essa criança não
consegue produzir respostas completas – conforme relato da Professora
3 – e respondeu com a seguinte afirmação à
atividade de associação à palavra ‘Mostrar’:
“Não sei mostrar. Deixa eu pensar... exibir.”.
Perguntamo-nos o que ele não pode exibir?
A Criança 7 desenhou sua família na parte superior
do papel, o que de acordo com Freitas e Cunha (2000, p. 514) estaria
associada à sua expressão de fantasia. Essa análise
está de acordo com o relato da Professora 3 quando afirma perceber
o estado de desligamento da criança. Podemos também
observar no recorte de sua entrevista como o mundo da fantasia está
sempre presente em seu pensamento: “Às vezes, acontece
uma coisa engraçada. Eu sonho e quando eu acordo parece que
é verdade”. [Não seria essa a forma dela de me
falar sobre o seu desligamento? qual será o seu mundo da lua?]
Perguntamo-nos de que pensamentos se ocupa quando vai para o seu próprio
mundo?
A Criança 8 desenhou sua família e não se incluiu
no desenho. Lembramos que seus pais são separados e teve muita
dificuldade para identificar a sua família. Freitas e Cunha
(2000) ressaltam que no desenho “a omissão do sujeito
é explicada por ausência de poder ou de influência
na família” (p. 516) e que “há omissão
do próprio sujeito na representação da família,
quando ele não se sente nela incluído, dela não
participa, não recebe afeto ou se há um problema de
rejeição” (p. 514). A separação
dos pais é algo que ela ainda não elaborou, referindo-se
a tal evento, com voz infantilizada, como o que de pior lhe aconteceu.
Trazemos aqui um recorte de sua fala, quando afirma que não
sabe o motivo da separação: “Ah! Isso eu não
sei, nunca soube. Quer dizer, eu já soube, mas já me
esqueci.”. O que ele não pode compreender, saber?
A Criança 9 demorou muito tempo desenhando uma situação
de ensino-aprendizagem e só colocou apenas uma pessoa; utilizou
a metade esquerda do papel, relacionado ao passado, de acordo com
Freitas e Cunha (2000). Ele é uma criança que está
enfrentando problemas de violência familiar e, talvez, não
se veja com muitas possibilidades de futuro; há muita dificuldade
de relacionamento na família, brigas entre os pais e com seus
irmãos, o que poderia ser uma pista para a ausência de
outras pessoas na situação de interação
que exige o ensinar e o aprender. Nos seus desenhos não há
transparências e tudo é preenchido. Perguntamo-nos o
que tenta esconder? Apresentamos um recorte de sua fala em nossa entrevista,
quando anuncia seus segredos:
(a) Momento 1: Entrevista
[6] Pesquisadora: Tem mais alguma coisa da tua vida que tu queiras
me contar?
[7] C9: Tem um monte de coisa, mas eu me esqueço (voz travada,
baixa, olhar para longe, chupou dedo). [Mais uma vez a teoria vem
ao nosso encontro como um suporte para interpretação,
pois nos lembramos de Fernandez (2001a) quando nos aponta para o
não-saber como uma construção para a impossibilidade
do lembrar-dizer-denunciar.];
(b) Momento 2: Associar palavra à palavra ‘Mostrar’
Mostrar qualquer coisa que você fez... um desenho... uma
coisa errada que você fez. [por isso tudo precisa ficar encoberto,
não transparente?].
A interpretação dos desenhos, principalmente os das
crianças, trouxe-nos ricas contribuições para
a possibilidade de compreensão do sintoma da criança,
pois os desenhos sugeriram muitos ‘não-ditos’ que
foram corroborados nas entrevistas com as professoras e até
com as próprias crianças, por caminhos não tão
claros. Freitas; Cunha (2000, p. 513) nos dizem que:
“Não existe um roteiro padronizado para a interpretação
do desenho da família, embora haja certa concordância
entre autores sobre algumas hipóteses interpretativas. A
impressão geral transmitida pelo desenho parece ser explícita
ou implicitamente valorizada por vários autores.”.
Mais uma vez, ressaltamos que apresentamos apenas algumas das diversas
possibilidades de interpretação dos dados.
Os temas que surgiram como aspectos relevantes para a compreensão
dos problemas de aprendizagem das crianças, a partir de nossa
análise das entrevistas com as crianças e as professoras
e de nossas interpretações dos desenhos, corroboraram
a perspectiva dos autores citados como referência, porém,
numa discussão mais específica sobre o tema ‘problema
de aprendizagem, Freud, Fernandez, Cordié, Paim, Dolto:
· Criança 1 – dificuldade de assumir-se como
sujeito desejante, como autor de sua vida (repetindo a ‘fala’
do outro); impossibilidade de entender sua origem (questões
sexuais), seu lugar na estrutura familiar (a mãe ‘fala’
por ele, não desenhou o pai ou não se desenhou no desenho
da família); grande dificuldade de interação
com os outros;
· Criança 2 – o corpo denuncia a sua impossibilidade
de ocupar o seu lugar no mundo, apresentando uma postura corporal
submissa (curva-se toda para desenhar, fala muito baixo); no desenho
de sua família colocou-se como uma figura muito menor do que
seus pais, que parecem enormes;
· Criança 3 – as questões sobre a sexualidade,
o prazer, a culpa; não pode aprender o que deseja porque isso
é pecado; não pode mostrar o que sente porque isso é
pecado; mas sabe que sente e, então, não aprende, não
mostra, não denuncia;
· Criança 4 – o seu lugar na família não
está muito claro, pois ainda não consegue definir qual
é a sua família; há a questão do que não
pode denunciar, como a violência do pai com a mãe e,
talvez, a opção sexual do pai; mais uma vez, a impossibilidade
de assumir-se como sujeito-autor e a recusa a exibir o que sabe;
· Criança 5 – surge a impossibilidade de pensar
- “eu não sei pensar”; talvez não possa
denunciar alguma tipo de violência que sofre (física
ou sexual); há também a questão da construção
de uma identidade sexual (na sua estrutura familiar a mãe trabalha
três expedientes e o pai trabalha em casa com jardinagem); fala
muito em ‘segredos’;
· Criança 6 – fica-nos claro que é muito
inteligente (“o bicho é bom!” – depoimento
da Professora 3), mas que há algo que não pode ser interpretado,
compreendido, aprendido; leva-nos à pergunta: o que ele não
pode saber?; não consegue fazer tarefas completas, deixando
sempre os textos pela metade; há ainda a questão da
solidão e de já ser ‘suficiente’ para a
mãe; será que sente que não existe um lugar para
ele nessa família?;
· Criança 7 – há um grande medo da morte,
pois seu pai já é mais velho (“penso nisso o dia
inteiro”); vive muito num mundo de fantasias; suas professoras
pontuaram que seu ritmo é mais lento e que há um grande
desligamento; talvez, o seu pensar em conteúdos escolares esteja
sendo atropelado pelo seu “pensar” em medos e fantasias;
· Criança 8 – a criança diz que precisa
ter ‘atenção’; perguntamo-nos de quem, já
que seus pais são separados e ainda não sabe qual o
seu lugar nessa família, nem qual a sua nova estrutura familiar;
há a questão da sexualidade, manifesta no seu desejo
de conhecer o corpo (sua origem, seu lugar no desejo dos pais); manifestou
sua dificuldade em aceitar a separação dos pais e não
consegue aprender verbos no ‘passado’, por exemplo; perguntamo-nos,
qual passado não quer conhecer/lembrar? (“eu já
soube, mas já me esqueci”);
· Criança 9 – surge claramente a questão
da violência familiar como algo que o tensiona e que não
pode ser denunciado/revelado; nos seus desenhos, nada fica transparente,
tudo é preenchido; em seu desenho de uma situação
de ensino-aprendizagem apresentou um único personagem, o que
nos aponta a sua dificuldade de relacionamento e de ter um ‘ensinante’
como guia, já que sua relação com o pai é
muito conturbada.
O nosso registro pessoal ao final de todas as entrevistas aponta
para o nosso sentimento quanto ao trabalho realizado:
“Sentimos como se cada entrevista, com professora ou aluno,
possibilitasse uma re-significação sobre o sintoma
e isso foi muito gratificante. Porém, sentimos muito por
não termos tido acesso às famílias, para que
tivéssemos a oportunidade de escutá-las e ajudá-las
a re-elaborar esse sintoma dentro da dinâmica familiar.”
Entendemos que o contato com as famílias em muito enriqueceria
o nosso trabalho, já que o sintoma ‘problema de aprendizagem’
se constitui na criança a partir, basicamente, de suas relações
familiares, e sugerimos que as próximas pesquisas sobre o tema
incluam essa intervenção, pois teríamos a oportunidade
de uma compreensão mais ampla sobre as causas do problema de
aprendizagem de cada criança.
Concluímos que as crianças que escolheram essa maneira
para traduzir a sua dor – o problema de aprendizagem escolar
como sintoma -, foram ‘inteligentes’ ao optarem pelo uso
da linguagem valorizada na nossa sociedade – o sucesso escolar
ou profissional -, pois através dela estão revelando
suas perguntas secretas: qual o meu lugar no mundo? qual o meu lugar
no desejo de vocês? de onde eu vim? para onde eu vou? o que
não posso saber? o que não posso mostrar que sei? por
que não posso contar a minha história? por que não
posso ser sujeito-autor?
Não oferecemos respostas fechadas. Vislumbramos possibilidades
de interpretação. Que cada um possa construir a sua
própria teia de significações, resgatando, sempre,
a sua autoria de pensamento e de desejo.
James (2001, p. 26) resume bem o nosso sentimento quando da conclusão
desse texto:
“Evidência objetiva e certeza são, sem dúvida,
ideais muito bons para se trabalhar, mas onde neste planeta iluminado
pela lua e visitado pelos sonhos são encontrados?”
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