Disse,
tá dizido; prometeu, tá prometado
Começo o trabalho com o um título
que retrata a fala de meu irmão quando era ainda criança
pequena, reivindicando o passeio prometido por nossa mãe. Apesar
de ainda não refletir sobre a forma como dizia o que queria
fazer, apesar de ainda não refletir sobre a influência
da cultura em sua curta vida, fica-me óbvio, a partir dos referenciais
teóricos do sócio-interacionismo e do estruturalismo,
o quanto ele já havia “apreendido” da língua
e da cultura nas quais estava imerso desde antes do seu nascimento
biológico.
O estudo da Psicolingüística abriu-me um campo novo,
apesar de muito denso. Tudo era muito novo para mim e os conceitos
ainda não estavam conectados (para não negar o meu passado
na informática) na minha forma de ver o mundo.
Dor (XXXX) afirma que a visão estruturalista em lingüística
surgiu a partir da idéia de Ferdinand de Saussure a respeito
da dimensão sincrônica no estudo da língua. Na
concepção de Saussure o estudo da língua não
pode ser reduzido a uma abordagem puramente história, ou diacrônica,
visto que “a história da palavra não permite dar
conta de sua significação presente, pois esta significação
depende do sistema da língua”. Esse sistema é
formado por um certo conjunto de leis de equilíbrio e princípios
que estão relacionados diretamente com a sincronia da língua.
A língua é uma estrutura, porque além dos elementos
supõe leis que governam esses elementos entre si.
Arrivé (1999) traz os conceitos de língua, linguagem
e fala de Saussure:
“A língua é um sistema de signos que exprimem
idéias, e por isso é comparável à escrita,
ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos simbólicos, às
fórmulas de polidez, aos sinais militares etc. etc. Ela é
apenas o mais importante desses sistemas.
(...)
Mas o que é a língua? Para nós, ela não
se confunde com a linguagem: ela é apenas uma parte determinada
da linguagem, essencial, é verdade. É ao mesmo tempo
um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções
necessárias, adotadas por um corpo social, para permitir
o exercício dessa faculdade entre os indivíduos. Tomada
no seu todo, a linguagem é multiforme e heterogênea,
situada em vários campos; ao mesmo tempo física, fisiológica
e psíquica, pertence ao domínio individual e ao domínio
social; não se deixa classificar em nenhuma categoria dos
fatos humanos, porque não se sabe como depreender a sua unidade.
A língua, ao contrário, é um todo em si e um
princípio de classificação. Logo que lhe damos
o primeiro lugar entre os fatos de linguagem, introduzimos uma ordem
natural em um conjunto que não se presta a nenhuma outra
classificação.
(...)
A linguagem representa dois fatores: a língua e a fala. A
língua é para nós a linguagem menos a fala.
Ela é o conjunto dos hábitos lingüísticos
que permitem a um sujeito compreender e fazer-se compreender.
(...)
Separando a língua da fala, separam-se ao mesmo tempo: 1)
o que é social do que é individual; 2) o que é
essencial do que é acessório ou mais ou menos acidental.
(...)
A faculdade da linguagem é um fato distinto da língua,
mas que não pode se exercer sem ela. Por fala designa-se
o ato do indivíduo que realiza a sua faculdade por meio da
convenção social que é a língua.”
Toda a visão estruturalista da língua apresentada por
Saussure tem por base o conceito de signo lingüístico.
Para ele, não se poderia pensar uma unidade lingüística
como uma associação de um termo a uma coisa. O signo
lingüístico une um conceito a uma imagem acústica.
Dor (XXXX), citando Saussure precisa:
“O signo lingüístico une, não uma coisa
e um nome, mas um conceito e uma imagem acústica. Esta última
não é o som material, coisa puramente física,
mas a marca física desse som, a representação
que nos é dada por nossos sentidos; ela é sensorial,
e se nos ocorre chamá-la ‘material’, é
apenas neste sentido e por oposição ao outro termo
da associação, o conceito, geralmente mais abstrato.”
Para Saussure, a língua é um sistema de relações;
é uma forma (e não uma substância) que se impõe
ao sujeito por coerção social. Não existem idéias
pré-formadas, não existem sons pré-formados.
Dor (XXXX) esclarece bem esses conceitos:
“As unidades lingüísticas enquanto entidades
‘psíquicas’ participam, assim, do registro da
‘língua’ e não procedem da fala. É
por esta razão que a ‘linguagem’ deve ser considerada
como a utilização/articulação de uma
‘língua falada’ por um sujeito.”
Na língua, as relações entre as faces do signo
lingüístico (conceito/imagem acústica) são,
aparentemente, fixas; porém, na linguagem essas relações
são possíveis de modificações. Saussure
substitui conceito por significado e imagem acústica por significante,
onde o signo lingüístico passa a ser a relação
de um significado com um significante. A figura abaixo (Figura 1),
extraída de Dor (XXXX), ilustra bem o sistema de relações
em um signo lingüístico, a partir da concepção
de Saussure.
Figura 1 – Signo lingüístico na concepção
de Saussure
O signo lingüístico, de acordo com Saussure, apresenta
as propriedades de:
· arbitrariedade do signo;
· imutabilidade do signo;
· alteração do signo;
· caráter linear do significante.
A relação entre o significado e o significante é
arbitrária, pois parece não existir uma condição
pré-existente para unir um conceito e a imagem acústica
que o representa. Porém, o lingüista suíço
escorrega no seu argumento para comprovar sua afirmação:
ressalta que um mesmo conceito é representado por imagens acústicas
diferentes de uma língua para outra. Porém, como Arrivé
(1999) discute, esse argumento supõe que o conceito de uma
determinada imagem acústica em uma língua, em uma certa
comunidade, seria exatamente igual ao conceito da língua em
uma outra comunidade, diferente da primeira. Citando o próprio
Saussure, o autor destaca:
“Se as idéias fossem predeterminadas no espírito
humano antes de serem valores de língua, uma das coisas que
aconteceria forçosamente é que os termos de uma língua
corresponderiam exatamente aos de outra.
francês alemão
cher lieb, theuer (também moral)
Não há correspondência exata.”
Isso, porém, não invalida a propriedade da arbitrariedade
do signo lingüístico; o mesmo, apenas, continua não-demonstrado.
O arbitrário só vale para o conjunto de uma determinada
comunidade lingüística, como esclarece Dor (XXXX), citando
Saussure:
“A palavra arbitrário não deve dar a idéia
de que o significante depende da livre escolha do sujeito falante.
(...) Queremos dizer que ele é imotivado, isto é,
arbitrário em relação ao significado, com o
qual não tem nenhuma ligação natural na realidade.”
Pensando nessa relação arbitrária, lembrei-me
das perguntas das crianças quando estão aprendendo a
falar, ou melhor, a apreender o seu mundo, e veio-me ao coração
a linda história de Ruth Rocha “Marcelo, marmelo, martelo”,
da qual transcrevo um trecho para ilustrar essa propriedade.
“E Marcelo continuou
pensando: ‘Pois é, está tudo
errado! Bola é bola, porque é redonda. Mas bolo
nem sempre é redondo. E por que será que a bola
não é a mulher do bolo? E bule? E belo? E bala?
Eu acho que as coisas deviam ter nome mais apropriado. Cadeira,
por exemplo. Devia chamar sentador, não cadeira, que não
quer dizer nada. E travesseiro? Devia chamar cabeceiro, lógico!
Também, agora, eu só vou falar assim”. |
E como o editor de textos Word, da Microsoft, do meu computador não
entende de crianças e de poesia, já aponta com um sublinhado
vermelho as palavras erradas, mas lógicas, que Marcelo usou
para dar um novo nome às coisas. Coisas da língua, coisas
da cultura. Linguagem, Marcelo, é outra coisa.
Apesar do significante ser livremente escolhido com relação
ao significado que representa numa certa comunidade lingüística,
uma vez escolhido, este significante é imposto à massa
falante e, então, torna-se imutável.
É através da arbitrariedade do signo que toda uma comunidade
é submetida à sua língua, como Saussure, citado
por Dor (XXXX), denuncia:
“Não somente um indivíduo seria incapaz, se
quisesse, de modificar no que quer que seja a escolha que foi feita,
mas também a própria massa não pode exercer
soberania sobre uma única palavra; ela está ligada
à língua tal como ela é.”
Ludwig Wittgenstein já alertava para a força da linguagem
no processo de “assujeitamento” do homem: “Os limites
da minha linguagem denotam os limites do meu mundo”.
Já que o signo é arbitrário, para que perdure
numa certa comunidade é necessário que seja instalado
tradicionalmente nessa comunidade e isso se faz através da
ação do tempo. Saussure, citado por Dor (XXXX), observa:
“Existe uma ligação entre dois fatores antinômicos:
a convenção arbitrária do signo, em virtude
da qual a escolha é livre, e o tempo, graças ao qual
o signo é fixado. É por ser arbitrário que
o signo não conhece outra lei que a tradição
e é por fundar-se na tradição que pode ser
arbitrário.”
Porém, o mesmo tempo que fixa um signo, possibilita a sua
transformação. Dor (XXXX) aponta para a alteração
nas duas faces do signo lingüístico:
“Esta alteração do signo atinge simultaneamente
o significante e o significado. No nível do significante,
trata-se, sobretudo, de uma alteração fonética;
ao passo que ao nível do significado, trata-se de uma modificação
do conceito enquanto tal. Dito de outra forma, a alteração
do significado será coextensiva a uma modificação
da compreensão e da extensão do conceito. De maneira
geral, a alteração do signo é sempre da ordem
de um deslocamento da relação entre significado e
significante (de acordo com Saussure).”
Lembro-me, mais uma vez, do meu irmão que quando criança
pedia à sua babá: “Ita!!!!!!!!! Me dá minha
buaca.” Depois, esse pedido pôde ser feito de uma outra
forma: “Rita!!!!!!!!! Me dá minha cueca.” Ou ainda,
da minha enorme frustração ao fazê-lo tentar repetir
o meu nome “Patrícia”, ao que ele respondia “Tital”.
O tempo se encarregou das modificações necessárias,
apesar do significante “Tital”, hoje, ter um significado
muito maior do o referente “Patrícia”, associada
à minha pessoa como era na nossa infância, já
que em nossa família (nossa pequena comunidade lingüística),
está relacionado “à nossa infância querida,
que os tempos não trazem mais”, para citar Casimiro de
Abreu.
Dor (XXXX) discute, mais uma vez, o efeito do tempo na língua,
quando aborda o caráter linear do significante:
“Se a alteração do signo está diretamente
ligada à prática da língua no tempo, a influência
do fator tempo é intrinsecamente dependente da natureza do
significante. O significante por si só já é
uma seqüência fonética que se desdobra no tempo.
A fala, a articulação não é outra coisa
senão o ato mesmo que presentifica este desenrolar temporal
do significante. Esta extensão temporal do significante dá
origem a uma propriedade fundamental da língua. Com efeito,
a língua desdobra-se numa direção orientada
que chamamos de o eixo das oposições ou eixo sintagmático.
É esta seqüência orientada na organização
significante que Lacan designa como cadeia significante.”
Além dos seus elementos, os signos lingüísticos,
a língua tem os seus princípios; é o conjunto
desses dois aspectos que forma a estrutura da língua. Na cadeia
de significantes há as concatenações (dimensão
sintagmática) significativas e as substituições
(dimensão paradigmática), onde as últimas podem
intervir em elementos significativos.
Mafra (2000) esclarece as idéias de Saussure quanto a essas
duas dimensões:
“No eixo associativo, mais tarde chamado de paradigmático,
estar-se-á diante da substituição de um termo
em ausência. ‘(...) elas fazem parte desse tesouro interior
que constitui a língua de cada indivíduo’. No
eixo sintagmático, no entanto, encontramos a noção
de contexto e ligação dos termos que estão
presentes e que elidem a possibilidade da elocução
de dois elementos simultaneamente”.
Dor (XXXX) aponta as duas grandes inovações de Saussure
no estudo da língua: os signos lingüísticos e o
duplo corte do sistema da linguagem. O autor, assumindo as idéias
de Jakobson, ainda esclarece:
“Falar implica efetuar duas séries de operações
simultâneas: de um lado selecionar um certo número
de unidades lingüísticas no léxico; por outro
lado, combinar as unidades lingüísticas escolhidas.
(...)
A seleção, que supõe a escolha de um termo
entre outros, implica uma possibilidade de substituição
dos termos entre si. Quanto à combinação, ela
requer um certo tipo de articulação das unidades lingüísticas,
a começar pela configuração de uma certa ordem
nas unidades de significação.”
Para que um sujeito fale e seja compreendido pela sua comunidade
lingüística é necessário que haja um código
comum entre seus participantes (Jakobson, YYYY): “quem fala
seleciona palavras e as combina em frases, de acordo com o sistema
sintático da língua que utiliza; as frases, por sua
vez, são combinadas em enunciados”. Está criado
o discurso. Porém, a liberdade para o sujeito criar o seu próprio
discurso está limitada a algumas regras e segue um curso, bem
descrito por Jakobson (YYYY):
“Existe, pois, na combinação de unidades lingüísticas,
uma escala ascendente de liberdade. Na combinação
de traços distintivos em fonemas, a liberdade individual
do que fala é nula; o código já estabeleceu
todas as possibilidades que podem ser utilizadas na língua
em questão. A liberdade de combinar fonemas em palavras está
circunscrita: está limitada à situação
marginal da criação de palavras. Ao formar frases
com palavras, o que fala sofre menor coação. E, finalmente,
na combinação de frases em enunciados, cessa a ação
das regras coercitivas da sintaxe e a liberdade de qualquer indivíduo
para criar novos contextos cresce substancialmente, embora não
se deva subestimar o número de enunciados estereotipados.”
Jakobson (YYYY), especificando mais o processo de combinação,
afirma que:
“Qualquer unidade lingüística serve, ao mesmo
tempo, de contexto para unidades mais simples e/ou encontra seu
próprio contexto em unidade lingüística mais
complexa”; (...) uma seleção entre termos alternativos
implica a possibilidade de substituir um pelo outro, equivalente
ao primeiro num aspecto e diferente em outro.
(...)
Os constituintes de um contexto têm um estatuto de contigüidade,
enquanto num grupo de substituição os signos estão
ligados entre si por diferentes graus de similaridade, que oscilam
entre a equivalência dos sinônimos e o fundo comum dos
antônimos”.
Jakobson estudou a afasia, uma perturbação da linguagem,
classificando-a a partir do sistema – de seleção
ou de combinação - que foi deteriorado. Dor (XXXX) esclarece
as idéias de Jakobson:
“Quando a deteriorização recai sobre a escolha
lexical (seleção), o afásico encontra dificilmente
as palavras. Ele utiliza então, freqüentemente, no lugar
da palavra procurada uma palavra que se encontra numa relação
de contigüidade com esta. Inversamente, quando é a articulação
dos termos lexicais (combinação) que está deteriorada,
o afásico procede por similitude.”
Para os afásicos com deficiência no processo de seleção,
o contexto constitui fator indispensável e decisivo. Palavras-chaves
podem ser eliminadas ou trocadas por substitutos anafóricos
abstratos. Jakobson (YYYY) afirma que “um afásico desse
tipo não pode passar de sua palavra aos seus sinônimos
ou circunlocuções equivalentes, nem a seus heterônimos,
isto é, expressões equivalentes em outras línguas”.
Já nos afásicos com deficiência no contexto, a
extensão e a variedade das frases diminuem.
Eis um exemplo de uma construção de linguagem de um
afásico (Figura 2), em conseqüência de um acidente
vascular cerebral.
Figura 2 - Construção de linguagem de um afásico
Então, todo discurso se constrói segundo os dois eixos
básicos: seleções e combinações,
onde, no primeiro, ocorrem as operações metafóricas
e, no segundo, ocorrem as operações metonímicas.
Jakobson, citado por Dor (XXXX), esclarece:
“O desenvolvimento de um discurso pode se dar ao longo de duas
linhas semânticas diferentes: um tema leva a outro, quer por
similaridade, quer por contigüidade. Sem dúvida, seria
melhor falar de processo metafórico no primeiro caso, e de
processo metonímico no segundo caso, já que encontram
sua expressão mais condensada, um na metáfora, outro
na metonímia”.
O quadro abaixo (Figura 3), extraído de Dor (XXXX), resume
bem o que vem sendo discutido até aqui, quanto ao corte da
linguagem:
Figura 3 – Eixos da linguagem
Um outro conceito introduzido por Saussure (1989) foi o conceito
de valor lingüístico.
“A arbitrariedade do signo nos faz compreender melhor que
o fato social pode, por si só, criar um sistema lingüístico.
A coletividade é necessária para estabelecer os valores
cuja única razão de ser está no uso e no consenso
geral: o indivíduo, por si só, é incapaz de
fixar um que seja.
(...)
A língua é um sistema em que todos os termos são
solidários e o valor de um resulta tão-somente da
presença simultânea de outros.”
O esquema da Figura 4, extraído de Saussure (1989) ilustra
bem a idéia de valor de um signo lingüístico na
relação com outros.
Figura 4 - Valor lingüístico
De acordo com Saussure (1989), um valor é constituído
por uma coisa dessemelhante, suscetível de ser trocada por
outra cujo valor resta determinar e por coisas semelhantes que se
podem comparar com aquela cujo valor está em causa.
Analisando o valor lingüístico a partir de uma perspectiva
conceitual (o significado), Saussure (1989) afirma que:
“A parte conceitual do valor é constituída
unicamente por relações e diferenças com os
outros termos da língua”.
Porém, Saussure (1989) faz também uma relação
com o aspecto material (o significante) do valor lingüístico:
“O que importa na palavra não é o som em si,
mas as diferenças fônicas que permitem distinguir essa
palavra de todas as outras, pois são elas que levam à
significação”.
Considerando o signo lingüístico na sua totalidade, tomando
o significado e o significante, Saussure (1989) sintetiza a noção
de valor:
“Um sistema lingüístico é uma série
de diferenças de sons combinadas com uma série de
diferenças de idéias; mas essa confrontação
de um certo número de signos acústicos com outras
tantas divisões feitas na massa do pensamento engendra um
sistema de valores; e é tal sistema que constitui o vínculo
efetivo entre os elementos fônicos e psíquicos no interior
de cada signo.”
Lembrando Milton Nascimento, “não existiria som, senão
houvesse o silêncio”.
Chego a Vygotsky (ou Vigotski? mais uma vez a língua nos captura!!)
apresentando as suas idéias sobre como o social interage com
individual, discutidas, principalmente, a partir do seu texto “Pensamento
e Palavra” (2000b). Góes (2000) apresenta a idéia
de Vygotsky sobre a gênese social do desenvolvimento pela identificação
de mecanismos pelos quais o plano intersubjetivo eleva as formas de
ação individual. Segundo a autora, para o mestre soviético,
“o desenvolvimento é alicerçado sobre o plano
das interações; o sujeito faz sua, uma ação
que tem um significado compartilhado.”
Para Vygotsky, ‘no princípio não era o Verbo’
e, sim, ‘no princípio era a Ação’.
Mas, o que acontece para que a Ação se faça Verbo?
Como as funções psicológicas, que emergem da
ação entre os sujeitos, transformam-se para constituir
o funcionamento interno? Góes (2000) afirma que “longe
de ser uma cópia do plano externo, o funcionamento interno
resulta de uma apropriação das formas de ação,
que é dependente tanto de estratégias e conhecimentos
dominados pelo sujeito quanto de ocorrências no contexto interativo.”
Sirgado (2000) aponta para o ponto da psicologia soviética,
citando Leontiev, que a diferencia das demais correntes psicológicas:
“A corrente sócio-histórica concebe o psiquismo
humano como uma construção social, resultado da apropriação,
por parte dos indivíduos, das produções culturais
da sociedade pela mediação dessa mesma sociedade.”
O conceito de mediação, tão central nos trabalhos
de Vygotsky, está relacionado com qualquer intervenção
de um terceiro “elemento” que possibilite a interação
entre os “termos” de uma relação.
Vygotsky aponta dois tipos de mediadores externos: os instrumentos,
orientados para regular as ações sobre os objetos, e
os signos, orientados para regular as ações sobre o
psiquismo das pessoas.
Vygotsky aprofundou seus estudos na relação entre o
pensamento e o sistema de signos da linguagem.
Oliveira (1992) afirma que o processo de internalização
é um processo de constituição da subjetividade
a partir de situações de intersubjetividade:
“A passagem do nível interpsicológico para
o nível intrapsicológico envolve, assim, relações
interpessoais densas, mediadas simbolicamente, e não trocas
mecânicas limitadas a um patamar puramente intelectual.
(...)
A questão de formação da consciência
e a questão da constituição da subjetividade
a partir de situações de intersubjetividade nos remetem
à mediação simbólica e, conseqüentemente,
à importância da linguagem no desenvolvimento psicológico
do homem.”
Baquero (2001), citando Vygotsky, discute as funções
da linguagem:
“A função inicial da linguagem é comunicativa.
A linguagem é antes de tudo um meio de comunicação
social, um meio de expressão e de compreensão. Geralmente,
na análise por decomposição de elementos, esta
função da linguagem também se separa da intelectual
e ambas eram atribuídas à linguagem, como se disséssemos,
paralela e independentemente uma da outra. Sabe-se que a linguagem
combina a função comunicativa com a de pensar, mas
não se investigou, nem se investiga que relação
existe entre ambas as funções, o que condiciona sua
coincidência na linguagem, como se desenvolvem, nem como estão
unidas estruturalmente entre si.”
Para Vygotsky, o pensamento e a linguagem têm raízes
diversas. Porém, ao longo da evolução desses
dois campos vão formando conexões, que também
se modificam. Há no desenvolvimento da criança um período
pré-lingüístico do pensamento (na utilização
de instrumentos e na inteligência prática) e um período
pré-intelectual da fala (no alívio emocional e na função
social). Só depois, surgem o pensamento verbal e a linguagem
racional (transformação do biológico no sócio-histórico).
No desenvolvimento da espécie humana esse encontro se deu
devido à necessidade do grupo humano de agir coletivamente,
como na caça, por exemplo. Para que isso fosse possível,
teve que ser criado um sistema de comunicação que permitisse
troca de informações específicas e ação
no mundo com base em significados que fossem compartilhados por todos
os participantes do grupo que estivessem envolvidos na atividade proposta.
No desenvolvimento da criança esse mesmo caminho é percorrido
a partir de sua inserção num grupo cultural, onde possa
interagir com membros mais maduros dessa cultura, que já utilizem
um sistema de linguagem estruturado, fazendo-se necessário
o salto qualitativo para o pensamento verbal.
Vygotsky (2000a) afirma que:
“Embora a inteligência prática e o uso de signos
possam operar independentemente em crianças pequenas, a unidade
dialética desses sistemas no adulto humano constitui a verdadeira
essência no comportamento humano complexo. Nossa análise
atribui à atividade simbólica uma função
organizadora específica que invade o processo do uso de instrumento
e produz formas fundamentalmente novas formas de comportamento.”
Essa idéia pode ser demonstrada no esquema abaixo:
Para ele, o desenvolvimento do pensamento é determinado pela
linguagem, ou seja, pelos instrumentos lingüísticos do
pensamento e pela experiência sócio-cultural da criança,
sendo o crescimento intelectual da criança estritamente dependente
de seu domínio dos meios sociais de pensamento, isto é,
da linguagem. Dessa forma, o próprio desenvolvimento ocorre
do biológico para o sócio-histórico.
Vygotsky (2000b) esclarece o seu conceito de pensamento verbal:
“O pensamento verbal não é uma forma de comportamento
natural e inata, mas é determinado por um processo histórico-cultural
e tem propriedades e leis específicas que não podem
ser encontradas nas formas naturais de pensamento e fala”.
Para Vygotsky a cultura não é um sistema estático
ao qual o indivíduo se submete, mas um ‘palco de negociações’,
onde seus participantes estão em constante processo de recriação
e reinterpretação de informações, conceitos
e significados.
O mestre soviético procurou estudar todo esse processo de
desenvolvimento da linguagem e do pensamento através do estudo
de unidades, entendo que cada unidade conteria as propriedades do
todo; a unidade do pensamento verbal escolhida foi o significado das
palavras.
Em seu famoso livro Pensamento e Linguagem, Vygotsky (2000b), afirma:
“O significado de uma palavra representa um amálgama
tão estreito do pensamento e da linguagem que fica difícil
dizer se se trata de um fenômeno da fala ou de um fenômeno
do pensamento. Uma palavra sem significado é um som vazio;
o significado, portanto, é um critério da ‘palavra’,
seu componente indispensável. Pareceria, então, que
o significado poderia ser visto como um fenômeno da fala.
Mas, do ponto de vista da psicologia, o significado de cada palavra
é uma generalização ou um conceito. E como
as generalizações e os conceitos são inegavelmente
atos do pensamento, podemos considerar o significado como um fenômeno
do pensamento. Daí não decorre, entretanto, que o
significado pertença formalmente a duas esferas diferentes
da vida psíquica. O significado das palavras é um
fenômeno de pensamento apenas na medida em que o pensamento
ganha corpo por meio da fala, e só é um fenômeno
da fala na medida em que está ligada ao pensamento, sendo
iluminada por ele. É um fenômeno do pensamento verbal
ou da fala significativa – uma união da palavra e do
pensamento.”
Os estudos dos pesquisadores soviéticos apontaram para uma
descoberta importante para a psicologia: o significado das palavras
evolui. As escolas de psicologia da época entendiam que o significado
de uma palavra era associado a ela através da repetição
simultânea de um determinado som e de um determinado objeto.
Vygotsky (2000b) argumenta que:
“Não é simplesmente o conteúdo de uma
palavra que se altera, mas o modo pelo qual a realidade é
generalizada e refletida em uma palavra.
(...)
Os significados das palavras são formações
dinâmicas, e não estáticas. Modificam-se à
medida que a criança se desenvolve e também de acordo
com as várias formas pelas quais o pensamento funciona.”
Então, se os significados das palavras se modificam durante
o desenvolvimento da criança, as relações entre
pensamentos e palavras também se transformam e cada estágio
no desenvolvimento do significado de uma palavra tem sua própria
relação particular entre o pensamento e a fala.
Vygotsky (2000b) resume assim suas conclusões sobre a relação
entre o pensamento e a palavra:
“A relação entre o pensamento e a palavra não
é uma coisa, mas um processo, um movimento contínuo
de vaivém do pensamento para a palavra e vice-versa. Nesse
processo, a relação entre o pensamento e a palavra
passa por transformações que, em si mesmas, podem
se consideradas um desenvolvimento no sentido funcional. O pensamento
não é simplesmente expresso em palavras; é
por meio delas que ele passa a existir. Cada pensamento tende a
relacionar alguma coisa com outra, a estabelecer uma relação
entre as coisas. Cada pensamento se move, amadurece e se desenvolve,
desempenha uma função, resolve um problema. Esse fluxo
de pensamento ocorre como um movimento interior através de
uma série de planos. A análise da interação
do pensamento e da palavra deve começar com uma investigação
das fases e dos planos diferentes que um pensamento percorre antes
de ser expresso em palavras.”
Os dois planos da fala relacionados por Vygotsky são o interior
(semântico e significativo) e o exterior (fonético).
Apesar dos dois planos formarem uma verdadeira unidade, cada um deles
tem leis próprias e um movimento independente.
Na fala exterior, a criança vai da parte para o todo: primeiro
fala uma palavra, depois duas, até que consegue formar frases.
No plano semântico, a criança parte do todo para as partes,
iniciando por seu pensamento indiferenciado (uma frase) até
chegar aos significados das palavras, enquanto unidades.
Isso já mostra a diferença entre os aspectos vocal
e semântico da fala. Vygotsky (2000b), poeticamente, ilustra
essa diferença:
“Exatamente por surgir de um todo indistinto e amorfo, o
pensamento da criança deve encontrar expressão em
uma única palavra. À medida que o seu pensamento se
torna mais diferenciado, a criança perde a capacidade de
expressá-lo em uma única palavra, passando a formar
um todo composto. Inversamente, o avanço da fala em direção
ao todo diferenciado de uma frase auxilia o pensamento da criança
a progredir de um todo homogêneo para partes bem definidas.
O pensamento e a palavra não provêm de um único
modelo.”
Como nos estudos de Piaget, Vygotsky também constatou que
as crianças usam formas gramaticais mais sofisticadas, ainda
sem as compreenderem logicamente. A gramática precede a lógica
(Vygotsky, 2000b). Porém, a divergência entre os aspectos
semântico e fonético da fala também é encontrada
em adultos. Para o mestre soviético uma correspondência
literal entre esses aspectos só é possível de
ser encontrada na matemática, pois na fala cotidiana:
“Qualquer parte de uma frase pode tornar-se o predicado psicológico,
a parte que carrega a ênfase temática; por outro lado,
significados totalmente diferentes podem ocultar-se por trás
de uma estrutura gramatical. A harmonia entre a organização
sintática e a organização psicológica
não é tão predominante quanto se imagina –
pelo contrário, é um requisito raramente encontrado.
(...)
Por trás das palavras existe a gramática independente
do pensamento, a sintaxe dos significados das palavras. O enunciado
mais simples, longe de refletir uma correspondência constante
e rígida entre o som e o significado, é na verdade
um processo. As expressões verbais não podem surgir
plenamente formadas; devem se desenvolver gradativamente. Esse complexo
processo de transição do significado para o som deve,
ele próprio, ser desenvolvido e aperfeiçoado. A criança
deve aprender a distinguir entre a semântica e a fonética
e compreender a natureza dessa diferença.”
No início, para a criança a palavra faz parte do objeto
que ela nomeia, ou melhor dizendo, conceitua. Nessa fase, elas explicam
o nome dos objetos pelo seu atributo. Aqui cabe bem o exemplo de “Marcelo,
marmelo, martelo”, de Ruth Rocha, quando diz que cadeira deveria
se chamar sentador, devido à função que possui:
serve para sentar.
Com o tempo e o seu desenvolvimento, a criança começa
a diferenciar os planos vocal e semântico da fala, relacionando-os
de forma diferente em cada etapa do seu desenvolvimento. A comunicação
da criança com o seu meio, através da linguagem, está
diretamente relacionada com a diferenciação dos significados
das palavras na sua fala e na sua consciência.
Para explicar como ocorre essa diferenciação, Vygotsky
(2000b) afirma que:
“Na estrutura semântica de uma palavra, fazemos uma
distinção entre referente e significado; de modo correspondente,
distinguimos o nominativo de uma palavra de sua função
significativa. Quando comparamos essas relações estruturais
e funcionais nos estágios primitivo, intermediário
e avançado do desenvolvimento, descobrimos a seguinte regularidade
genética: a princípio só existe a função
nominativa; e, semanticamente, só existe a referência
objetiva; a significação, independente da nomeação
e o significado independente da referência surgem posteriormente
e se desenvolvem ao longo de trajetórias que tentamos rastrear
e descrever.
Só quando esse desenvolvimento se completa é que a
criança se torna de fato capaz de formular o seu próprio
pensamento e de compreender a fala dos outros. Até então,
a sua utilização das palavras coincide com a dos adultos
em sua referência objetiva, mas não em seu significado.”
Mais uma vez, prevalece a sabedoria popular: “as aparências
enganam”. Não se pode confundir a simples expressão
de uma palavra pela criança com a real compreensão do
seu significado por ela, como tão bem foi demonstrado pelos
estudos dos pesquisadores soviéticos.
Porém, existe um outro plano em que as relações
entre pensamento e palavra precisam ser aprofundadas: o da fala interior.
Para Vygotsky (2000b) a fala interior não pode ser confundida
com a memória verbal – apesar da memória ser uma
de suas características -; também não é
apenar o ‘pronunciar’ silencioso de palavras. Para ele,
“a fala interior tem uma formação específica,
com suas leis próprias, que mantém relações
complexas com as outras formas de atividade de fala”. Em seu
objetivo básico a fala interior e a fala exterior diferem:
a fala interior é para si mesmo e a fala exterior é
para os outros. A fala exterior consiste na tradução
do pensamento em palavras, na sua materialização e objetivação.
Na fala interior o processo é inverso, ou seja, a fala é
interiorizada em pensamento.
Mas como investigar o processo de interiorização da
fala? Vygotsky encontrou o caminho de investigação através
do estudo da fala egocêntrica, a partir das observações
de Jean Piaget. Porém, os dois expoentes do estudo do pensamento
e da linguagem divergiram quanto à direção do
movimento da fala egocêntrica. Vygotsky (2000b), analisando
as conclusões de Piaget, diz que:
“Piaget argumenta que a fala egocêntrica da criança
é uma expressão direta do egocentrismo do seu pensamento,
o qual, por sua vez, é um meio-termo entre o autismo primitivo
do seu pensamento e a sua socialização gradual. À
medida que a criança cresce, o autismo desaparece e a socialização
evolui, levando ao declínio do egocentrismo no seu pensamento
e na sua fala.
Segundo a concepção de Piaget, em sua fala egocêntrica
a criança não se adapta ao pensamento dos adultos.
O seu pensamento permanece totalmente egocêntrico, o que torna
a sua conversa incompreensível para os outros. A fala egocêntrica
não tem nenhuma função no pensamento ou na
atividade realista da criança – limita-se a acompanhá-los.”
Os estudos de Vygotsky apontaram para um caminho no sentido inverso:
a fala egocêntrica é um estágio de desenvolvimento
que precede a fala interior. Para o soviético:
“A fala egocêntrica é um fenômeno de transição
das funções interpsíquicas para as intrapsíquicas,
isto é, da atividade social e coletiva da criança
para a sua atividade mais individualizada – um padrão
de desenvolvimento comum a todas as funções psicológicas
superiores. A fala para si mesmo origina-se da fala para os outros.
Uma vez que o curso do desenvolvimento da criança caracteriza-se
por uma individualização gradual, essa tendência
reflete-se na função e na estrutura da fala.
(...)
A função da fala egocêntrica é semelhante
à da fala interior: não se limita a acompanhar a atividade
da criança; está a serviço da orientação
mental, da compreensão consciente; ajuda a superar dificuldades;
é uma fala para si mesmo, íntima e convenientemente
relacionada com o pensamento da criança.”
O esquema abaixo ilustra o desenvolvimento da fala, de acordo com
Vygotsky:

A criança se utiliza da fala egocêntrica para acompanhar
sua atividade, realizar uma descarga emocional e planejar a atividade.
Nesse planejamento, surge o elo com o processo psíquico superior:
o pensamento. A fala é interiorizada psicologicamente antes
de ser interiorizada fisicamente.
Se para Piaget a fala egocêntrica desaparece quando a criança
supera a sua fase de egocentrismo, para Vygotsky ela se desenvolve
numa curva ascendente, transformando-se em fala interior.
Durante o desenvolvimento da criança a freqüência
de vocalização da fala egocêntrica diminui; porém,
a sua estrutura e a sua função evoluem. Isso indica
que o aparente desaparecimento da fala egocêntrica ‘esconde’
o nascimento de uma nova forma de fala, uma fala para si mesmo que
não encontra expressão na fala exterior. “A decrescente
vocalização da fala egocêntrica indica o desenvolvimento
de uma abstração do som, a aquisição de
uma nova capacidade: a de ‘pensar as palavras’, ao invés
de pronunciá-las.” (Vygotsky, 2000b).
Os pesquisadores soviéticos realizaram diversos estudos de
investigação com o objetivo de verificar essa transição
da fala exterior para a fala interior, através da fala egocêntrica.
Segundo Vygotsky (2000b), todos esses estudos possibilitaram essa
conclusão: “Tanto subjetiva como objetivamente, a fala
egocêntrica representa uma transição da fala para
os outros à fala para si mesmo. Já tem função
de fala interior, mas em sua expressão continua semelhante
à fala social”.
Porém, as diferenças entre a fala exterior e a fala
interior não podem ser resumidas à ausência de
vocalização apenas. Há, na última, uma
sintaxe especial que, se fosse vocalizada, pareceria desconexa e incompleta.
Na fala exterior, freqüentemente, o objetivo é a comunicação
com o outro. Então, o que é dito precisa ser explicado
nos mínimos detalhes: o que se fala, de quem se fala –
sujeito e predicado estão sempre presentes. Como na fala interior
o outro é a própria pessoa que está produzindo
a ‘fala’, algumas omissões e abreviações
são possíveis. Esse fato também é possível
na fala exterior quando todos os participantes sabem de quem se fala
e/ou do que se fala. Quando os pensamentos dos participantes de um
ato de comunicação são os mesmos, a função
da fala se reduz ao mínimo, como diriam os poetas, ‘até
chegar à linguagem do olhar’.
Mais uma vez, o lado artístico do cientista Vygotsky, assume
a liderança na sua forma de ‘falar’ e permite essa
construção lingüística que mais parece um
texto poético (Vygotsky, 2000b):
“Aqueles que estão acostumados ao pensamento solitário
e independente não apreendem com facilidade os pensamentos
alheios, e são muito parciais quanto aos seus próprios;
mas as pessoas que mantêm um contato mais estreito apreendem
os complexos significados que transmitem uma à outra, por
meio de uma comunicação ‘lacônica e clara’,
que faz uso mínimo de palavras.”
Mas no universo da escrita as propriedades são um pouco diferentes,
pois a comunicação escrita se baseia no significado
formal das palavras e, já que o interlocutor está ausente,
necessita de um número muito maior de palavras, do que a fala
oral, para transmitir uma mesma idéia. “Na escrita, como
o tom da voz e o conhecimento do assunto são excluídos,
somos obrigados a utilizar muito mais palavras, e com maior exatidão.
A escrita é a forma de fala mais elaborada.” (Vygotsky,
2000b)
Diria o mestre soviético, (Vygotsky, 2000b):
“A fala interior é uma fala quase sem palavras.
Com a sintaxe e o som reduzidos ao mínimo, o significado
passa cada vez mais para o primeiro plano. A fala interior opera
com a semântica, e não com a fonética.”
A sintaxe dos significados na fala interior possui três propriedades
principais: (1) há o predomínio do sentido de uma palavra
sobre o seu significado; (2) há o processo de aglutinação,
onde uma palavra é composta para expressar idéias complexas;
(3) há uma saturação de sentidos em uma única
palavra, pois seriam necessárias muitas palavras para explicá-la
na fala exterior.
As relações entre significado e sentido de uma palavra,
merecem uma discussão mais aprofundada. Vygotsky (2000b), citando
Paulhan, define o sentido de uma palavra como a soma de todos os eventos
psicológicos que a palavra desperta; ou ainda, como um fenômeno
complexo, móvel e variável, modificado de acordo com
as situações e a mente que o utiliza, sendo quase ilimitado.
O sentido de uma palavra é adquirido no contexto em que é
empregada; contextos diferentes dar-lhe-ão sentidos diferentes.
O significado, visto como uma potencialidade, como uma virtualidade,
permanece estável ao longo de todas as suas variações
de sentido.
Oliveira (2001) discute ainda a questão do significado e do
sentido de uma palavra:
“O significado propriamente dito refere-se ao sistema de
relações objetivas que se formou no processo de desenvolvimento
da palavra, consistindo num núcleo relativamente estável
de compreensão da palavra, compartilhado por todas as pessoas
que a utilizam. O sentido, por sua vez, refere-se ao significado
da palavra para cada indivíduo, composto por relações
que dizem respeito ao contexto de uso da palavra e as vivências
afetivas do indivíduo.”
Oliveira (1992), citando Vygotsky, discute a questão do significado
na linguagem de acordo com o autor soviético:
“O significado é componente essencial da palavra sendo,
ao mesmo tempo, um ato de pensamento, na medida em que o significado
de uma palavra já é, em si, uma generalização.
Isto é, no significado da palavra é que o pensamento
e a fala se unem em pensamento verbal.
(...)
É no significado que se encontra a unidade das duas funções
básicas da linguagem: o intercâmbio social e o pensamento
generalizante. São os significados que vão propiciar
a mediação simbólica entre o indivíduo
e o mundo real, constituindo-se no ‘filtro’ através
do qual o indivíduo é capaz de compreender o mundo
e agir sobre ele.
(...)
Já o sentido da palavra liga seu significado objetivo ao
contexto de uso da língua e aos motivos afetivos e pessoais
dos seus usuários. Relaciona-se com o fato de que a experiência
individual é sempre mais complexa do que a generalização
contida nos signos.”
Oliveira (2001) esclarece a função da linguagem de
intercâmbio social, como derivada da necessidade do homem de
se comunicar com os seus semelhantes; já a função
de pensamento generalizante é derivada da necessidade do homem
de ordenamento do real, agrupando-se todas as ocorrências de
uma mesma classe de objetos, eventos e situações sob
uma mesma categoria conceitual. A autora argumenta que é essa
função de pensamento generalizante que “torna
a linguagem um instrumento de pensamento: a linguagem fornece os conceitos
e as formas de organização do real que constituem a
mediação entre o sujeito e o objeto de conhecimento”.
Lembro-me da palavra ‘rede’, que já me causou
tantas confusões de sentido. Como tenho ‘um pé
na informática’, o significado de ‘rede’
para mim, durante um longo tempo, era o de rede de computadores; porém,
na minha trajetória profissional, coloquei “um outro
pé na educação” e, então, ‘rede’
passou a ser a rede governamental de ensino. Foram muitas as confusões,
pois dizer que ‘a rede não funciona’, faz sentido,
quase sempre, nos dois contextos. Levei um tempo para perceber que
os educadores não utilizavam ‘rede’ como a minha
‘rede’ original!! Além disso, como nordestina que
sou, não dispenso uma ‘rede’ para uma boa soneca!
Nesse caso, o contexto ajuda a atribuir o sentido da palavra.
Afirma Vygotsky (2000b):
“Esse enriquecimento das palavras que o sentido lhes confere
a partir do contexto é a lei fundamental da dinâmica
do significado das palavras.
(...)
Uma palavra deriva o seu sentido do parágrafo; o parágrafo,
do livro; o livro, do conjunto de obras do autor.
(...)
Paulhan prestou ainda mais um serviço à psicologia
ao analisar a relação entre a palavra e o sentido,
mostrando que ambos são muito mais independentes entre si
do que a palavra e o significado. Há muito se sabe que as
palavras podem mudar de sentido. Recentemente ficou demonstrado
que o sentido pode modificar as palavras, ou melhor, que as idéias
freqüentemente mudam de nome. Da mesma forma que o sentido
de uma palavra está relacionado com toda a palavra, e não
com os sons isolados, o sentido de uma frase está relacionado
com toda a frase, e não com palavras isoladas. Portanto,
uma palavra pode às vezes ser substituída por outra
sem que haja qualquer alteração de sentido. As palavras
e os sentidos são relativamente independentes entre si.
Na fala interior, o predomínio do sentido sobre o significado,
da frase sobre a palavra e do contexto sobre a frase constitui a
regra.”
Apesar da fala exterior já conter algumas características
da fala interior, esta não é o aspecto interior da fala
exterior, assim como, a fala exterior não é uma mera
vocalização da fala interior. A fala interior é
uma função da fala autônoma. Continua sendo fala,
visto que é o pensamento ligado por palavras. Se na fala exterior
o pensamento é expresso por palavras, na fala interior as palavras
morrem à medida que geram o pensamento. A fala interior é,
em grande parte, um pensamento que expressa significados puros. (Vygotsky,
2000b).
O pensamento seria o plano mais interiorizado da fala interior, do
pensamento verbal. Para Vygotsky (2000b):
“Todos os pensamentos criam uma conexão, preenchem
uma função, resolvem um problema. O fluxo do pensamento
não é acompanhado por uma manifestação
simultânea da fala. (...) O pensamento tem sua própria
estrutura, e a transição dele para a fala não
é uma coisa fácil.”
Vygotsky (2000b) afirma, assumindo uma postura bastante freudiana,
que “todas as frases que dizemos na vida real possuem algum
tipo de subtexto, um pensamento oculto por trás delas. (...)
Assim, uma frase pode expressar vários pensamentos, um pensamento
pode ser expresso por meio de várias frases.”
Como passar da totalidade do pensamento para as unidades separadas
e seqüenciadas das palavras em uma frase? Para Vygotsky, essa
transição se dá pelo significado. Lembrando,
que na fala sempre existe um pensamento oculto, um outro texto, não
é possível uma transição direta do pensamento
para a palavra. O pensamento passa, então, primeiro pelos significados
e, depois, pelas palavras.
Mas o que gera o pensamento? Vygotsky (2000b), mais uma vez poeticamente,
traz uma contribuição não muito discutida pelos
que estudam a sua obra:
“O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação,
isto é, por nossos desejos e necessidades, nossos interesses
e emoções. Por trás de cada pensamento há
uma tendência afetivo-volitiva, que traz em si a resposta
ao último ‘por que’ de nossa análise do
pensamento. Uma compreensão plena e verdadeira do pensamento
de outrem só é possível quando entendemos sua
base afetivo-volitiva.”
É exatamente este o trabalho do psicólogo clínico:
compreender, a partir da fala exterior, o que pensa o seu cliente
e quais as origens desse pensamento. Sempre, um enigma a decifrar.
Ou, dito de outra forma (Vygotsky, 2000b):
“Para compreender a fala de outrem não basta entender
as suas palavras – temos que compreender o seu pensamento.
Mas nem mesmo isso é suficiente – também é
preciso que conheçamos a sua motivação. Nenhuma
análise psicológica de um enunciado estará
completa antes de se ter atingido esse plano.”
O quadro abaixo resume o fluxo do desenvolvimento do pensamento verbal:

Vygotsky (2000b) reconhece que, na sua época (ainda hoje é
assim), “o significado e todo o aspecto interior da linguagem
– o aspecto voltado para a pessoa, não para o mundo exterior
– tem sido até agora um território desconhecido”.
Oliveira (1992), citando Vygotsky, discute a idéia rejeitada
pelo mestre soviético de divisão entre o intelecto e
o afeto:
“A separação do intelecto e do afeto, enquanto
objetos de estudo, é uma das principais deficiências
da psicologia tradicional, uma vez que esta apresenta o processo
do pensamento como um fluxo autônomo de ‘pensamentos
que pensam a si próprios’, dissociado da plenitude
da vida, das necessidades e dos interesses pessoais, das inclinações
e dos impulsos daquele que pensa. Esse pensamento sem significado,
incapaz de modificar qualquer coisa na vida ou na conduta de uma
pessoa, como alguma espécie de força primeva a exercer
influência sobre a vida pessoal, de um modo misterioso e inexplicável.
Assim, fecham-se as portas à questão da causa e origem
de nossos pensamentos, uma vez que a análise determinista
exigiria o esclarecimento das forças motrizes que dirigem
o pensamento para esse ou aquele canal. Justamente por isso a antiga
abordagem impede qualquer estudo fecundo do processo inverso, ou
seja, a influência do pensamento sobre o afeto e a volição”.
Oliveira (1992) apresenta como a psicologia soviética explica
o processo de formação da consciência, a partir
do processo de internalização da fala:
“O processo de internalização, isto é,
de construção de um plano intrapsicológico
a partir de material interpsicológico, de relações
sociais, é o processo mesmo de formação da
consciência humana.
(...)
A consciência representaria, assim, um salto qualitativo na
filogênese, sendo o componente mais elevado na hierarquia
das funções psicológicas humanas. Seria a própria
essência da psique humana, constituída por uma inter-relação
dinâmica, e em transformação ao longo do desenvolvimento,
entre intelecto e afeto, atividade no mundo e representação
simbólica, controle dos próprios processos psicológicos,
subjetividade e interação social.”
Para o encerramento da discussão de Vygotsky (2000b), um trecho
de seu texto científico/poético:
“A relação entre o pensamento e a palavra é
um processo vivo; o pensamento nasce através das palavras.
Uma palavra desprovida de pensamento é uma coisa morta e
um pensamento não expresso por palavras permanece uma sombra.
(...)
A característica fundamental das palavras é uma reflexão
generalizada da realidade. (...) O pensamento e a linguagem refletem
a realidade de uma forma diferente daquela da percepção,
são a chave para a compreensão da natureza da consciência
humana. As palavras desempenham um papel central não só
no desenvolvimento do pensamento, mas também na evolução
histórica da consciência como um todo. Uma palavra
é um microcosmo da natureza humana.”
Questões para discussão
Saussure fala em estrutura; Vygotsky em desenvolvimento. Os dois
ressaltam a importância da cultura, mais especificamente da
linguagem, como forma de mediação do sujeito com o mundo
que o cerca. Através da linguagem o sujeito se constitui, ao
mesmo tempo em que transforma a realidade na qual está inserido.
Porém, Vygotsky reconhece que ainda são necessárias
muitas pesquisas para que se possa compreender o processo de constituição
da vida intrapsíquica do ser humano, visto que a grande ênfase
da sua escola de psicologia é o homem a partir da cultura.
Mas, como conceber os processos maturacionais de todas as crianças
como sendo os mesmos, independentes da história de vida de
cada uma em particular? Faço a opção da Psicanálise
que privilegia a noção de estrutura, assumindo que não
há um desenvolvimento igual ao outro, seja físico, social,
emocional, ou ainda, espiritual (este último a partir da minha
trajetória de vida).
Para a Psicanálise, o processo de desenvolvimento de cada
criança necessita da linguagem e da fala para ser acionado.
Essa postura é totalmente compatível com as idéias
de Vygotsky, discutidas ao longo desse trabalho.
Um outro ponto a ser levantado é que as teorias sobre como
as crianças se transformam são construídas por
adultos: as crianças são observadas, analisadas e as
pesquisas fornecem os resultados a partir do referencial teórico
adotado. Porém, cada criança é sempre mais do
que qualquer teoria consegue capturar.
Apesar da Psicanálise enfatizar a importância de se
dar a palavra à própria criança, para que ela
diga o que pensa e sente, não nega a importância do meio
no qual a criança está inserida para a sua constituição
enquanto sujeito. Mrech (1998) afirma:
“A criança internaliza a palavra dos adultos que convivem
com ela. Ela acaba por acreditar na imagem que fazem dela. Assim,
como os adultos costumam acreditar que a sua imagem a respeito da
criança é a própria criança.”
Fico pensando que o pensamento usa como ‘matéria-prima’
as palavras que conhece, conhecimento esse construído a partir
das relações intersubjetivas do sujeito. Então,
qual seria a ‘matéria-prima’, ou ainda o ‘banco-de-dados’
de palavras/significados/sentidos, que uma criança disporia,
sendo inserida num meio social desfavorável?
Tanto Saussure como Vygotsky reconhecem que a algo de social (língua
e significado, respectivamente) e algo de individual (linguagem e
sentido, respectivamente) na língua/linguagem.
Para Saussure, o signo lingüístico é a unidade
de análise; já para Vygotsky a unidade de análise
é a palavra. Ambos consideram a língua como um sistema,
visto que possui tanto elementos como princípios que os governam.
A língua como algo vivo, em constante transformação,
é apresentada pelas duas abordagens, pois Saussure defende
a idéia da mutabilidade do signo lingüístico (tanto
na face do significado quanto na do significante) e Vygotsky acredita
que os significados das palavras se transformam ao longo do tempo.
Jakobson defende que a liberdade para se criar um discurso não
é ilimitada, estando bastante restrita na criação
dos fonemas de uma palavra, mais aberta na geração de
frases que se libertam na construção de um enunciado.
Vygotsky nos traz a idéia do pensamento amorfo no seu início
– quando a criança só pronuncia uma palavra –
transformando-se em um pensamento estruturado em subunidades –
quando a criança já pronuncia frases inteiras, tendo
a liberdade de compô-las a partir de seus referenciais. Teriam
algumas semelhanças os caminhos sugeridos pelos dois teóricos?
Lembro-me do filme Neil, onde uma criança perde a mãe
muito cedo e cresce sozinha numa floresta sem contato com outros seres
humanos. Como é belo o seu processo de aquisição
da língua!
Toda a beleza das línguas portuguesa e ‘brasileira’
foi tão bem capturada no filme Caramuru – a invenção
do Brasil, quando índios (brasileiros) e portugueses começam
a estabelecer um processo de comunicação, onde significado
e sentido entram num jogo que confunde os interlocutores.
Capra afirma em sua obra que nos falta palavras para especificar
as relações provenientes das descobertas da física
quântica. Penso nos sem-teto, nos sem-terra, nos sem-comida,
nos sem-palavras ...
‘Espelho o que dizem que sou’, diz a Psicanálise.
‘Sou constituído pela linguagem que conheço’,
dizem Saussure e Vygotsky. ‘Tudo é linguagem’,
diz Fraçoise Dolto.
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