Atividade do projeto
A Apropriação da Informática pela Escola Pública Patrícia Vasconcellos Paulo Gileno Cysneiros Lúcia Carvalho Este trabalho teve por objetivo a elaboração de um jornal escolar com a ajuda do computador, como proposta de intervenção junto a alunos de uma escola pública, para a apropriação da informática. Na nossa abordagem, acreditamos no aluno como construtor do seu próprio conhecimento e no resgate do saber do aluno para a articulação deste conhecimento. Procuramos promover um espaço de liberdade, criatividade e respeito para que os alunos pudessem utilizar o computador (com o processador de textos Word 6.0) como uma ferramenta no seu processo de produção. Observamos que este ambiente de prazer foi mais importante para a realização do nosso trabalho, bem como a relação afetiva construída entre os alunos e as facilitadoras, do que o próprio recurso da informática. A informática na educação tem sido destaque em revistas, congressos, reuniões e escolas. O computador tem sido colocado como o grande responsável pela revolução da sociedade, reduzindo distâncias, aproximando pessoas e permitindo uma nova abordagem no processo de ensino-aprendizagem. Em seus livros Logo: Computadores e Educação* (1985) e A Máquina das Crianças (1994), Seymour Papert usa a metáfora de que o computador é o Proteu* das máquinas, pois não se presta apenas a um uso restrito, podendo ser utilizado das mais diversas formas, levantando a questão do seu uso tanto sob a ótica da “modernização conservadora” como sob uma mudança de paradigmas no processo ensino/aprendizagem. A “modernização conservadora” caracteriza-se pelo uso do computador como mais uma ferramenta de apoio tecnológico para a reprodução do processo de ensino/aprendizagem vigente na grande maioria das escolas, onde o professor é visto como o detentor de um saber que deve ser transmitido aos seus alunos, numa seqüência coerente e lógica, na maioria das vezes preso a um rígido programa curricular. Nesta abordagem os alunos recebem passivamente os conteúdos e os assimilam, sendo usados recursos de memorização, dentre eles, exercícios de fixação que se tornam muito mais atraentes com as técnicas de multimídia do computador, onde são integrados som, imagem e texto - e de avaliação, onde o erro não é visto como um componente do processo de aprendizagem, e, portanto, deve ser banido, através das notas baixas dadas ao aluno. Num enfoque construtivista - um “novo” paradigma de aprendizagem - , em que se atribui ao sujeito um papel ativo, o aluno é elemento fundamental no processo de aprendizagem. Em situações escolares, é ele quem delimita, organiza e reorganiza os dados, os conteúdos propostos para sua assimilação; é ele, o aluno quem constrói o seu aprender. Cabe ao professor criar situações para que se desenvolva esse processo de construção pelo aluno. É da interação entre professor-alunos-objeto de conhecimento que surgirá a situação de ensino-aprendizagem. Uma outra questão que podemos levantar acerca do uso do computador nas escolas, refere-se à chamada “alfabetização em informática”, com laboratórios de informática, na maioria das vezes com um serviço terceirizado por uma empresa especialista em Informática Educativa cujo objetivo é ensinar o manejo das máquinas e suas principais ferramentas de uso universal (editores de textos, planilhas eletrônicas, gerenciadores de bancos de dados). Estas empresas funcionam como um apêndice da escola, com professores, planejamento e material didático próprios para ensinarem “a disciplina de informática”, responsabilizando-se até pela manutenção, e atualização tecnológica dos computadores. Os professores da própria escola ficam alheios a este processo, o que contribui mais ainda para a mitificação do computador e o seu distanciamento por parte dos professores. O seu uso, portanto, continua restrito quando se trata de suporte para o ensino e aprendizagem das disciplinas dos currículos, ministradas pelos professores das escolas. Cysneiros (1996) aponta para o fato de ser aparentemente mais confortável esta forma de introdução do computador na escola:
Já no que diz respeito especificamente à maioria das escolas públicas brasileiras existem outros agravantes. O computador é uma tecnologia inexistente; alguns defendem a posição de que se falta giz e merenda, não deveria haver computadores. Outros argumentam que se esta tecnologia não chegar para os alunos das classes sociais menos favorecidas, aumentará ainda mais o fosso que os separará de condições melhores de trabalho. Algumas escolas públicas, com o apoio dos diversos governos, tentam diminuir a distância provocada pelo uso da tecnologia nas escolas particulares e introduzem, também, os seus laboratórios de informática, com o objetivo de profissionalizar os seus alunos para um mercado de trabalho que tem como pré-requisito a familiarização com computadores, reproduzindo, desta forma, o modelo adotado pelas escolas particulares. O projeto A APROPRIAÇÃO DA INFORMÁTICA PELA ESCOLA PÚBLICA* , realizado em uma escola da rede municipal de ensino da cidade do Recife, teve como linha mestra a orientação de que o computador não pode ser visto como “a” ferramenta de trabalho nem o simples uso em sala de aula é suficiente para provocar mudanças qualitativas no processo ensino/aprendizagem. Assim, o projeto priorizou a apropriação da informática pelo professor da própria escola, acreditando que o computador só poderá contribuir para uma mudança no processo ensino-aprendizagem, se o professor conduzir este processo e modificar a sua prática. Nesta abordagem o professor é visto como um agente facilitador de conhecimentos para o aluno - o verdadeiro agente construtor - , edificados a partir das relações existente entre o professor e os alunos e entre os próprios alunos. O que realmente importa é quanto o computador pode ajudar o aluno a desenvolver a sua criatividade, o seu senso crítico, a sua capacidade de analisar, generalizar e sintetizar, que serão as verdadeiras ferramentas de trabalho no novo modelo de sociedade que está sendo construído. Deste modo, sob a orientação de professores de português da escola, monitores trabalharam com alunos das 8as séries (por solicitação da Secretaria de Educação) na elaboração de um jornal escolar, por sugestão de alguns professores. Fez-se necessária a atuação dos monitores sob o argumento de que os professores da escola não tinham “tempo disponível” para explorar coisas novas, visto que viviam correndo de uma escola para outra, dando aula, muitas vezes, nos três turnos - os professores-táxi. A escola localizava-se em um bairro residencial da periferia da cidade do Recife. Os muros da escola, apesar de pintados sofriam pixações. As salas de aula eram pouco ventiladas, com quadro-negro e cadeiras dispostas na forma tradicional. A biblioteca era um pequeno cubículo com grades, sendo também utilizada para os alunos ficarem de castigo (que tipos de associações estas crianças farão com livros, ler e descobrir ?!). Não havia espaço físico para as crianças brincarem, nem havia tempo para recreio, apenas para merenda. Já o laboratório de informática da escola era uma sala preparada para o uso de computadores: tinha arcondicionados, mesas novas, cadeiras giratórias, teto rebaixado em gesso, iluminação adequada. Estas condições do ambiente em muito contrastavam com as salas de aula tradicionais da escola. Vale salientar que o laboratório foi financiado e construído pela própria Secretaria de Educação do Município. A postura da direção e da administração
da escola para com os alunos era ambivalente: em alguns momentos tratavam
os alunos com atenção, o que demonstrava um esforço
para seguir as capacitações construtivistas oferecidas
pela Secretaria de Educação municipal, e em outros momentos
negavam aos alunos a expressão de seus desejos, possibilidades
e impossibilidades. O primeiro contato com o computador foi feito em dois encontros; o computador era, até então, um “bicho de sete cabeças”. Os alunos pegavam no disquete com um cuidado exagerado, mal o colocavam no drive. Em razão disso, resolvemos conversar sobre o que era o computador, seus componentes de hardware e software. Colocamos, então, os alunos no Word e pedimos para que escrevessem algumas informações sobre eles, o que achavam do computador, se gostavam de escrever, quais as primeiras dificuldades encontradas para produzir um texto. Explicamos para eles que o nosso objetivo não era ensinar informática, mas verificar, junto com eles, até que ponto o computador poderia ajudar, através do uso de um editor de textos, na criação e elaboração de um jornal escolar. Após os dois encontros iniciais, discutimos sentados no chão com os alunos, e com vários exemplares de jornais locais, o que era um jornal, qual sua função, quais suas seções, etc. Observamos que no início deste encontro os alunos se mantiveram muito calados, olhando para baixo quando lhes perguntávamos algo; percebemos que de tanto ouvirem “cala a boca menino” e “silêncio” na sala de aula tradicional, acabaram internalizando o conceito de que não podem manifestar suas opiniões e questionar. Colocamos, então, para eles, o que fazer com os recursos computacionais de um editor de textos se as idéias não surgiam... Esta postura se modificou a partir do momento em que nós, monitores e alunos, começamos a falar um pouco sobre nós mesmos - quem somos, nossos desejos e dificuldades para realizá-los -, fazendo com que surgissem discussões acerca das questões levantadas. Esta relação “interativa” parece ter criado uma empatia desmistificadora do nosso papel enquanto monitores “detentores” de um saber, como se o fato de termos nos tornado mais acessíveis como pessoas tivesse tornado o próprio saber mais acessível para estes alunos, facilitando, assim, as discussões posteriores sobre os conteúdos do jornal. Assim, pensamos no quanto o objeto de conhecimento atrela-se ao ensinante e ao aprendiz na construção de uma aprendizagem. Resolvemos, então, como seria o NOSSO jornal, que seções teria, quais os alunos responsáveis por cada uma delas e qual seria o seu nome, enfatizando sempre que, no que diz respeito à informação, ela evolui de acordo com a própria evolução dos conhecimentos.Um dos alunos trouxe como tema para o jornal a sugestão de uma pesquisa entre eles sobre a questão do casamento por dinheiro ou por amor. Neste momento, conversamos sobre a imagem que a mídia passa sobe o pobre e o rico, principalmente em novelas, onde o rico é infeliz, o filho é drogado, a mulher o trai; já o pobre, tem casa limpa, filhos felizes e uma esposa maravilhosa; questionamos o que havia por trás dessa mensagem. Vimos as dificuldades da escola quanto à merenda escolar, limpeza dos banheiros, livros para adolescentes na biblioteca, melhor tratamento aos alunos por parte dos funcionários. Ao final do encontro, perguntamos aos alunos se eles não estavam frustados por não terem trabalhado no computador durante todo o tempo; a resposta foi “Não senti, não; adorei poder conversar assim, no chão, e dizer o que eu acho sobre as coisas; ainda por cima, foi muito descontraído”. Apesar da inibição inicial, com o tempo os alunos foram se soltando mais; conversavam entre si, com os monitores, discutiam as matérias. O ambiente era de muita descontração. Percebemos que os alunos escreviam com prazer e energia. Vale salientar que não estavam escrevendo uma redação mandada pela professora de português, tinham um objetivo específico (o jornal) e escreviam sobre o que gostavam já que haviam escolhido o tema. Destacamos que durante todos os encontros o riso e a alegria se fizeram presentes, o que provocou comentários entre os alunos de como era diferente o clima na aula de computação, e de como era gostoso aprender assim. O primeiro número do jornal teve como temas problemas no bairro da escola, jogos escolares, poesia, política escolar (questões sobre o funcionamento da merenda, relacionamento direção/alunos, etc), pesquisa sobre a AIDS - realizada num posto de saúde vizinho à escola -, pesquisa entre os alunos para saber se o casamento deveria ser por amor ou por dinheiro e sobre diversões no bairro. Estes temas causaram grande confusão na escola, pois mexeram com as relações de poder, gerando conflito entre a direção da escola e os alunos que escreveram o texto sobre política escolar. Os alunos insistiram em manter a matéria, afirmando “Agora é que tem que sair mesmo!”, não aceitando a censura. A direção da escola mão aceitou a sugestão de “réplica” no número seguinte do jornal. Para este segundo número, os alunos fizeram visitas a um shopping center local (onde um grupo da escola fazia a apresentação de um trabalho sobre o período da invasão dos holandeses a Pernambuco), à UFPE (Biblioteca Central, Centro de Educação, Núcleo de Processamento de Dados) e assistiram ao filme Sociedade dos Poetas Mortos. A cada evento, produziam em casa, no papel, textos sobre os mesmos que eram otimizados nas aulas com o computador, através do uso do editor de textos. As visitas feitas pelo grupo ao shopping e à UFPE foram fundamentais para manter o grupo motivado, visto que o computador não apresentava mais, por si só, nenhuma novidade, como pôde ser observado pela irregularidade na freqüência às aulas em outras turmas do projeto que apenas utilizaram os computadores e não participaram das “aulas-passeio”. No shopping, os alunos visitaram a exposição do grupo da escola, viram vitrines (questionando preços) e lancharam em uma das lojas de uma cadeia internacional de fast food (pela primeira vez, ficando muito entusiasmados). Na visita à UFPE, os alunos acessaram os computadores da biblioteca da Fundação Getúlio Vargas (questionaram a diferença da Biblioteca Central da UFPE para a biblioteca da escola deles), conheceram computadores de grande porte, scanearam suas fotos, entraram na Internet (enviaram mensagem em comemoração aos 170 anos do jornal local Diário de Pernambuco) e visitaram virtualmente um museu de dinossauros nos EUA, via WWW. Os textos produzidos foram longos e muito ricos. Os alunos comentaram “antes a gente não gostava de escrever; hoje a gente escreve mais e melhor; quero logo chegar em casa para começar a escrever sobre as visitas”. A escolha do filme Sociedade dos Poetas Mortos (selecionado
pelas monitoras para ser apresentado na escola porque mostrava que
“aprender pode ser gostoso”) sofreu várias críticas
por parte da supervisora pedagógica da escola, sob o argumento
de que os alunos não conseguiriam entender o filme. No início
da exibição, os alunos se mostraram inquietos; mas,
durante a exibição foram se envolvendo e no final mal
falavam. Escreveram as suas críticas ao filme e nos mostraram
que entenderam bem sua mensagem, como podemos verificar: “Como
disse o diretor do filme ‘meninos de 16 anos não pensam
por si mesmo’ ele quis dizer que eles pensavam pelos alunos
ou manipulavam os alunos a pensarem como eles querem”; “eu
acho que este filme tentou nos mostrar que nós temos o direito
de escolher o que queremos fazer da nossa vida”;”... seria
ótimo que tivéssemos professores como esse aqui no colégio,...,
o aluno é tratado como um ser que só pode receber ordens,
e não tem opinião própria, e quando tem uma opinião
contrária à da diretoria, logo é discriminado
(...) sofre humilhações (...) e é vítima
de perseguições por parte dos seus “superiores”.
Isto já aconteceu aqui na escola, quando duas colegas, só
porque escreveram a mais pura verdade, foram chamadas à diretoria
e levaram a maior bronca, isso à beira do século 21...”. Percebemos que ao final do trabalho, os alunos já
não se interessavam mais pelo computador; não perdiam
um encontro, mas o motivo não era a máquina; o que eles
gostavam era de conversar, criar, escrever; preocupavam-se muito com
a qualidade do layout dos trabalhos produzidos; por exemplo, utilizavam
o corretor ortográfico do editor de textos. Aproveitamos para
discutir com eles o fato do computador corrigir apenas alguns erros
de sintaxe e não corrigir erros de semântica, pois não
ocorre interpretação de significados. Na nossa avaliação, percebemos uma grande
evolução na forma de se expressar de todos os alunos
do grupo de trabalho; eles se colocaram mais, criticaram mais, re-escreveram
mais. Ficaram mais seguros, mais soltos, mexendo nos computadores
com desenvoltura. O clima de trabalho na sala de aula foi excelente.
Questionamos, então, até que ponto o uso de uma ferramenta
de edição de textos, com todos os seus recursos disponíveis,
é o responsável por tal mudança. O fato de estarmos
numa sala limpa, fresca, com móveis de qualidade não
poderia interferir? O fato dos alunos serem respeitados enquanto cidadãos,
tendo os seus pontos de vista ouvidos, questionados, aceitos, não
poderia interferir? O fato de terem uma atenção praticamente
individualizada não poderia interferir?
Referências CYSNEIROS, P. G. (1996) La Assimilación de la Informatica
por parte de la Escuela. In: Informatica Educativa, vol. 9, n. 1,
pp. 45-55, Bogotá, Colômbia, Universidad de los Andes
01. O original é de 1980. |