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Trabalho coordenado pelas Psicólogas Valéria Morais
INTRODUÇÃO Este foi um trabalho realizado com os alunos de 1as. e 2as. séries do Ensino Fundamental I, sob a orientação do Serviço de Psicologia, em uma escola particular da cidade de Recife – PE no ano de 1999, com o objetivo de esclarecer as principais dúvidas das crianças quanto à sexualidade, visto que esse tema estava sendo trazido com freqüência por alguns professores e alunos. As psicólogas entraram em sala de aula e realizaram as atividades com a presença da professora da turma. O projeto abordou os cuidados básicos com o corpo, as questões da reprodução (enfatizando que a humana envolve carinho e responsabilidade), as questões de gênero e as relações entre o corpo, as emoções e o lugar de cada um no mundo.
JUSTIFICATIVA Percebemos a necessidade de um projeto que abordasse o tema a parir da enorme demanda dos professores, pedindo-nos orientação sobre como agir com determinadas situações que ocorriam em sala de aula e, também, pelas constantes “queixas” dos alunos quanto a brincadeiras com seus colegas ocorridas durante os recreios. Além da demanda concreta, desenvolvíamos o desejo de trabalhar esse tema pois a nossa fundamentação teórica da teoria de desenvolvimento de Freud, apontava-nos para uma re-leitura das comuns dificuldades de aprendizagem. Somados a esses dois fatores tínhamos as constantes denúncias de abuso sexual veiculadas nos meios de comunicação e a erotização precoce das crianças de nossa sociedade com cenas de sexo explícito nos programas de “sessão da tarde”, sem que isso tudo esteja sendo discutido com elas. Entendemos que cabe fundamentalmente às famílias de nossos alunos a transmissão de valores morais, mas a escola é um espaço de discussão e nossa omissão frente a algum tema já é uma forma de transmissão dos nossos preconceitos. Por isso, vale a pena fazermos a distinção entre Orientação e Educação sexual. Na primeira situação discutimos com as crianças fundamentalmente as informações sobre as questões relativas à sexualidade; já na segunda situação, a família repassa os seus próprios valores, o que acha certo e errado.
OBJETIVO GERAL Favorecer para as crianças um espaço de discussão de questões relativas à sexualidade humana.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS O Serviço de Psicologia pretendeu: · Abordar os cuidados básicos com o corpo;
METODOLOGIA Público Alvo: Crianças de 1as. e 2as. séries do ensino fundamental (de 7 a 9 anos) Material Utilizado: · Fantoches em papel da figura de um menino e de uma menina; Atividades Desenvolvidas PROJETO: DE ONDE VIEMOS? QUEM SOMOS? · Circular para os pais (Anexo 1);
DISCUSSÃO Enviamos uma circular (Anexo 1) para cerca de 300 pais. Nenhuma família nos procurou para mais esclarecimentos. Alguns pais ao nos encontrarem no corredor comentavam que haviam achado muito boa a iniciativa da escola. Nas brincadeiras com o corpo, pedíamos para que fossem dizendo parte do corpo e que teriam que indicar a parte citada. Em todas as turmas apareceu algum aluno dizendo partes do corpo ligadas à sexualidade (“pitoca”, “florzinha”, “peito”, “bunda”). Aceitávamos a palavra e informávamos um outro nome que também se usava (pênis, vagina, seio, nádegas). As crianças riam muito durante essa atividade. Em algumas turmas sugerimos que fizessem, com massinha de modelar, a parte do seu corpo que mais gostavam (poderiam dá-la a alguém ou guardá-la para si) e a que menos gostavam (poderiam guardá-la ou jogá-la no lixo). As crianças modelaram bastante e participaram ativamente do trabalho. Em outras turmas sugerimos que fizesse um desenho de um corpo humano, como podemos ver nas figuras a seguir.
Em seguida, mostrávamos a caixa de perguntas e dizíamos que a deixaríamos ali para que colocassem perguntas ou comentários sobre “De onde viemos?Quem somos? O que é ser homem e ser mulher? Como o nosso corpo fica quando estamos tristes? E alegres?” A caixa era coberta com papel colorida e desenhamos interrogações por toda a caixa. Algumas crianças colocaram na urna desenhos sobre o que sabiam sobre “sexo”.
No encontro seguinte, distribuímos papel madeira e as crianças em grupo faziam o contorno do corpo de uma delas e saiam desenhando as partes do corpo, tendo que decidir se era homem ou mulher. Alguns grupos optaram por desenhar as roupas da figura humana; já outros grupos preferiram desenhar a figura humana nua e colocaram pênis e um coração, por exemplo. Os desenhos ficaram expostos nas paredes das salas durante a realização do projeto. Como os nossos encontros com as crianças ocorriam semanalmente,
pedimos às professoras que incentivassem as crianças
a colocarem seus comentários nas urnas. A partir das perguntas
que surgiram, elaboramos as respostas para cada grupo. Eis algumas
das questões levantadas.
Começamos, então, a leitura do livro “De onde vêm os bebês?” que traz a reprodução humana, junto com a reprodução das flores, das galinhas, dos cachorros, tudo com trabalhos em dobradura de papel.
Durante a realização dessas atividades, uma mãe nos procurou e nos pediu para que seu filho não assistisse ao filme, pois ele era muito ingênuo e se chocaria com esse assunto. Tentamos argumentar e ela se mostrou irredutível. Ao analisarmos o desenho dessa criança da figura humana, observamos uma enorme repressão na região genital, já que ele começou o seu desenho, virou o papel e refez a figura humana do outro lado.
Um casal nos procurou dizendo que sua filha estava sem dormir porque havia assistido a um filme na escola com cena de sexo explícito e estava muito assustada. Conversamos com a criança e observamos que uma empregada da família estava falando sobre suas relações sexuais para a criança e a forma que ela encontrou para denunciar isso aos pais foi através das atividades da escola. Passamos a informação para a família e questionamos juntos o porquê dela ter admitido que a escola teria a conduta de exibir filmes pornôs para crianças pequenas. Para provocarmos a discussão sobre os papéis masculino e feminino na nossa sociedade apresentamos cartazes com desenhos provocativos baseados no livro “Menino Brinca de Boneca?”. Discutimos muito e em seguida distribuímos uma ficha que permitisse uma reflexão individual sobre o tema (Anexo 2). Num próximo encontro exibimos o filme Mulan e discutimos sobre o papel da mulher ontem e hoje e nos diversos lugares do mundo. No trabalho com as emoções e o corpo, pedimos as crianças que identificassem que emoções poderiam estar retratadas nas fotos apresentadas. Depois pedimos para que representassem como ficavam quando estavam tristes, alegres, com medo, com raiva. Pontuamos que uma mesma emoção poderia ser expressa de forma diferente por diferentes pessoas e que precisávamos estar atentos a isso. Distribuímos, então, os crachás com as emoções (alegria, tristeza, raiva, normal) e pedimos que cada um pegasse um crachá que representasse como estava se sentindo. Nós e a professora também participamos da atividade. Combinamos que todos os dias eles iriam pegar um crachá de acordo com o seu sentimento, que poderia ser trocado durante o dia, e que iriam prestar atenção nos crachás dos colegas para ajudarem quando fosse preciso, pois dessa forma estariam aprendendo a respeitar os seus próprios sentimentos e os dos colegas. A última atividade foi baseada nas colocações de Françoise Dolto, de que é preciso que nos situemos no mundo para sabermos quem somos. Por isso, introduzimos o desenho da árvore genealógica de cada criança que foi preenchida junto com a família, fechando, assim, o ciclo do projeto DE ONDE VIEMOS/ QUEM SOMOS? Ao final do trabalho realizamos com todas as crianças um momento de avaliação e os resultados foram muito positivos:
CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) apontarem o tema Sexualidade como Tema Transversal, encontramos certa resistência por parte de alguns pais e de alguns professores. Entendemos que o tema sexualidade não mexe só com a parte da informação, mas com questões subjetivas tanto do lado dos professores, como do lado das famílias e crianças. Mas acreditamos que a verdade não adoece. Entendemos como objetivos alcançados: · Esclarecimento das questões levantadas pelas crianças. Achamos que poderíamos ter mobilizado mais os pais com uma palestra que apresentasse o trabalho. Já para os professores, poderíamos tê-los engajado mais nas atividades, discutindo mais a nossa fundamentação teórica e as questões subjetivas inerentes à sexualidade. Esse trabalho vem preencher uma lacuna na área educacional, pois o material que encontramos nas nossas pesquisas bibliográficas apontavam sempre para o trabalho com adolescentes e para a prevenção da gravidez precoce e de doenças sexualmente transmissíveis. Referenciais importantes foram os livros de Marta Suplicy e a Revista Nova Escola. Esperamos que outros educadores aproveitem e reflitam sobre o tema. "A escola querendo ou não, depara-se com situações
em que é exigida uma intervenção. Seja no cotidiano
de uma sala de aula, no recreio, quando proíbe ou permite certas
manifestações, seja quando opta por informar, reprimir
ou ignorar. Não podemos esquecer que a omissão também
é uma forma de educação. Ignorar é dizer
que o sexo é feio e não conversável"
BIBLIOGRAFIA De onde viemos?
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