PELE DE ASNO

Como trabalho de conclusão do curso de Contos de Fadas, coordenado por Carlos Brito, tenho que apresentar para o grupo o conto de fadas que mais marcou minha infância, minha vida. Pensei e me lembrei de Pele de Asno. Ao completar oito anos, minha mãe me deu um livro de Contos de Perrault, traduzido por Monteiro Lobato. Tenho este livro até hoje e a história que li quando criança está transcrita nesta reflexão amorosa que trago agora. É amorosa mesmo, porque não posso falar de contos de fadas sem ser pela linguagem do amor, do amor de mãe-filha, do amor do adormecer ouvindo histórias através da voz amada, do amor que me confortava e me dava coragem para enfrentar os meus medos e sonhos ao acreditar que se tinha dado certo para as personagens daria certo para mim também. É o amor e a segurança de um ninho de amor e a crença de que a vida é bela e no final tudo termina bem.

Foi assim a minha relação inicial com os livros, com as histórias encantadas e esse amor me acompanhou a vida toda, fazendo com que eu adorasse ler, com uma paixão intensa, emocionando-me ao entrar numa livraria, deliciando-me ao folhear as páginas de um livro, libertando-me através das palavras mágicas de uma história ou de um poema.

Com esse mesmo amor, contei histórias para os meus filhos. Histórias de livros, histórias de boca, histórias ouvidas e repetidas no aconchego de minha cama, onde a plenitude se instalava ao vê-los de pijamas, mamadeiras e fraldas, e a minha voz repetia o mesmo ritual de amor que vivi quando a criança ainda era eu. Assim, eu estava dizendo a cada um deles um ‘eu amo você, a vida é bela, tudo vai dar certo e você vai ser feliz para sempre’. Ainda hoje, de vez em quando, repetimos esse mesmo ritual e, magicamente, ficamos completamente preenchidos de amor.

Quando criança, ganhei uma máquina de datilografia rosa-choque. Foi a glória. Ali iniciei a minha carreira de escritora, aprendendo a fazer casas de livros para outras pessoas morarem nelas e nelas sonharem, como conta Lygia Fagundes. Hoje, o notebook ocupou o lugar da minha máquina – que está num lugar de honra no quarto de minha filha – e as histórias não estão apenas nas folhas de papel, mas estão espalhadas pelo mundo através das páginas da internet. Os textos ainda são científicos, em sua maioria, mas, aos poucos, os dedos vão tomando vida própria e toda minha alma vai entrando em transe e a história começa... Era uma vez...

Por que escolhi Pele de Asno como o conto de fadas da minha vida? Além de representar um vínculo amoroso com minha mãe, uma viagem ao tempo seguro da infância, descobri, já adulta, que tive que colocar uma pele de asno para encobrir a minha beleza, o meu potencial criativo, a minha inteligência, a minha liderança, enfim, o meu modo singular de ser no mundo e de brilhar. Não é nada fácil para uma mulher, numa sociedade patriarcal, assumi a sua força. Enfrentei muita exclusão, solidão e isolamento porque era muito inteligente, porque só tirava dez, porque inventava formas incríveis de apresentar meus trabalhos, porque era sempre eleita representante de classe, porque era bem-feita, porque minha família era uma delícia (apesar das dores), porque meu namorado me amava, porque minha poodle era linda, porque me comunicava com o coração. A inveja foi um sentimento muito forte e destrutivo no meu caminhar e fiz o que pude para esconder do mundo e das pessoas que eu amava, que faziam parte do meu círculo pessoal de amizades, o meu brilho, com medo delas fazerem a mesma coisa que as colegas da escola e, depois, do trabalho, usando-me quando precisavam dos meus conhecimentos, do meu cérebro, e me ridicularizando e isolando, machucando o meu coração e a minha alma.

Foi tão forte esse sentimento de exclusão e de uso, de não ser vista e amada como uma pessoa inteira, que troquei de colégio só para não ser mais reconhecida apenas pela minha inteligência. Quantas vezes não fiquei calada para não dar a resposta certa e ser mais uma vez excluída do grupo, desejando com toda a minha essência ser apenas ‘medíocre’!! Quantas vezes não rebatia alguns elogios que surgiram mais tarde nas minhas relações profissionais, sempre apontando algum defeito, para que não fosse mais uma vez rejeitada!!

Depois de muito chão de vida – hoje aos 42 anos – e de muita terapia, pude tirar minha pele de asno, sem medos e sem precisar fugir, e comecei a assumir o meu potencial e as minhas dificuldades com muita tranqüilidade. Como me comunico muito bem, tenho arrasado em palestras, aulas, programas de televisão, artigos e até já consegui colocar na internet um site (www.caleidoscopio.psc.br), onde compartilho o meu caminhar. Trabalhando com mulheres em oficinas que têm o objetivo de resgate do feminino, observo que muitas delas também usam suas peles de asnos para esconderem o seu potencial, pois se sentem ameaçadas pelos seus maridos, seus filhos e até pelas suas amigas. Que esse trabalho possa ajudar cada uma delas a tirar a pele de asno e assumir o seu destino de brilho e felicidade!!

 

Os contos de fadas surgiram na tradição oral dos povos europeus na época em que crianças e adultos se reuniam para ouvir os contadores contarem histórias e divertirem as pessoas. É interessante observar que não foram escritos para crianças, especificamente, mas sempre fizeram parte do imaginário infantil.
Os irmãos Grimm e Perrault estão entre os principais responsáveis pela coleta e registro dessas histórias que vieram do povo, representando os seus sonhos, os seus medos e as suas esperanças. Já Andersen criou suas próprias histórias e conseguiu cativar um público que lhe rende homenagens até os dias de hoje.
Mas, o que há nessas histórias que as tornam mágicas, não saindo do imaginário infantil, séculos e séculos depois?
Vejamos a posição de alguns autores que trabalharam bastante com o tema.
Steiner (2002 : 39) nos aponta, poeticamente, a importância dos contos e mitos:
“Contos e mitos são como um anjo bom que a pátria dá ao homem desde seu nascimento para acompanhá-lo em sua caminhada pela vida, para que lhe seja um fiel companheiro durante essa caminhada e, por oferecer-lhe essa companhia, faça verdadeiramente dessa vida um conto de fadas interiormente animado!”

Von Franz (1990 : 9) também nos traz um posicionamento forte sobre a importância dos contos de fadas:

“Os contos de fada são a expressão mais pura e mais simples dos processos psíquicos do inconsciente coletivo. Conseqüentemente, o valor deles para a investigação científica do inconsciente é sobejamente superior a qualquer outro material”.

Bettelheim (1980 : 32) nos diz que:

“Os contos de fadas, à diferença de qualquer outra forma de literatura, dirigem a criança para a descoberta de sua identidade e comunicação, e também sugerem as experiências que são necessárias para desenvolver ainda mais o seu caráter. Os contos de fadas declaram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa apesar da adversidade – mas apenas se ela não se intimidar com as lutas do destino, sem as quais nunca se adquire verdadeira identidade. Estas histórias prometem à criança que, se ela ousar se engajar nessa busca atemorizante, os poderes benevolentes virão em sua ajuda, e ela o conseguirá.”


Cavalcanti (2002, p. 43) nos faz uma análise poética sobre a magia dos contos de fadas:

“... pensamos no conto de fadas como leitura própria para se ampliar o universo interior, tocando com profundidade nas lutas internas geradas no complexo conjunto dos sentimentos humanos. As histórias que se constituem em contos de fadas extrapolam a dimensão do maravilhoso porque se constroem a partir de imagens metafóricas com infinita capacidade de gerar tensão, provocando não somente o lúdico, mas também o jogo antagônico e a busca de solução para superação dos obstáculos.”

Apesar de Jerome Bruner não ter trabalhado com os contos de fadas, ele nos traz uma importante reflexão sobre a estrutura narrativa na linguagem. Para Bruner (2001 : 43) “a narrativa, a invenção de histórias, é o modo de pensar e sentir que ajuda as crianças e as pessoas a criar uma versão do mundo no qual, psicologicamente, elas podem vislumbrar um lugar para si – um mundo pessoal”. O autor entende a narrativa como um modo de pensamento e como um veículo de produção de significado. Para ele existem duas formas pelas quais os seres humanos organizam e estruturam seu conhecimento do mundo: uma está mais voltada para tratar as coisas físicas (pensamento lógico-científico); a outra, para tratar de pessoas e de suas condições (pensamento narrativo). Bruner acredita que como são características universais, apesar de se manifestarem de formas diferentes em diferentes culturas, têm suas raízes no genoma humano.

Teríamos ainda contribuições de Freud, Winnicott, Klein, Anna Freud, e tantos outros que de alguma forma nos provocaram com suas colocações sobre o lúdico, o inconsciente, o primitivo, o arcaico do mundo infantil e dos contos de fadas.

Claro que a obra de Bruno Bettelheim, “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, é uma referência para quem se apaixona pelo tema. Mas Celso Gutfreind com o seu livro “O Terapeuta e o Lobo” nos amplia a visão com uma belíssima reflexão sobre o uso de ateliês de contos de fadas com crianças que apresentam histórias de separação e abandono e passa a ser uma leitura obrigatória quando falarmos na magia dos contos de fadas. Em seu livro encontramos a belíssima citação de Brett Webb-Mitchell (1995):

“A razão para que existe tanto poder em contar histórias é porque a vida é melhor entendida e tem significado quando a consideramos como uma história contínua. Na verdade, não existe nenhum jeito de viver a vida sem uma história”.

Defendendo a postura junguiana de que os contos de fadas estão relacionados com arquétipos que estão no nosso inconsciente coletivo, trazemos o conceito de Jung sobre o conto de fada (Dicionário junguino, pág. 130):

“Aquilo que recolhe e exprime os desejos mais profundos e as ânsias mais secretas dos homens, e o lugar em que os desejos se realizam e as ânsias são ultrapassadas. Enquanto são interpretados por Jung como efeitos da imaginação coletiva, os contos de fada tornam-se emblemas dos processos psíquicos do inconsciente coletivo e da possível elaboração por parte do Eu, e portanto expressões que o comportamento propriamente humano assume em situações típicas (arquétipo). Por tais razões entende-se que o Eu deva ‘resolver-se’ com os contos de fada, e portanto tomar consciência dos contos de fada sobre os quais está em certo sentido fundamentado.

O estudo dos motivos que ocorrem nos contos de fada acaba representando um dos filões de pesquisa da psicologia analítica. A constituição, neste sentido, de uma verdadeira e própria psicologia comparada não seria um fim em si mesma, assim como o contar os contos de fada não teria escopo de mero entretenimento. Os resultados de tais pesquisas comparadas, que vêm primeiramente a constituir uma verdadeira e própria psicologia das formas simbólicas, são com efeito transferidos na obra de interpretação do inconsciente, e portanto na amplificação que resulta necessária numa abordagem de compreensão dos conteúdos psíquicos que se apresentam por intermédio dos sonhos e dos delírios.”

Jung estudou muito a relação dos seres humanos e seus símbolos, quer no mundo das artes, das religiões ou das tradições culturais. Em ‘O homem e seus símbolos’, Jung (1977 : 93), afirma:

“Os símbolos culturais são aqueles que foram empregados para expressar ‘verdades eternas’(...). Passaram por inúmeras transformações e mesmo por um longo processo de elaboração mais ou menos consciente, tornando-se assim imagens coletivas aceitas pelas sociedades civilizadas.

Estes símbolos culturais guardam, no entanto, muito da sua numinosidade original ou ‘magia’. Sabe-se que podem evocar reações emotivas profundas em algumas pessoas, e esta carga psíquica os faz funcionar um pouco como preconceitos. São um fator que deve ser levado em conta pelos psicólogos. Seria insensato rejeitá-los pelo fato de, em termos racionais, parecerem absurdos ou despropositados. Constituem-se em elementos importantes da nossa estrutura mental e forças vitais na edificação da sociedade humana. Erradicá-los seria perda das mais graves.”

Então, podemos compreender a importância dos contos de fadas na vida das crianças. Isso nos remete a um questionamento doloroso: por que estamos tirando os contos de fadas das vidas das crianças, quer na vida em família que nas oportunidades de leitura nas escolas? Que geração de humanos estamos ajudando a se desenvolver, sem espaço para a fantasia, o lúdico, a capacidade de simbolização?

Ainda há tempo de realizarmos um verdadeiro renascimento do universo simbólico infantil, trazendo para o cotidiano das crianças as histórias de fadas, de bruxas, de medos e de sonhos, pois através deles as crianças de todos os lugares do mundo voltarão a acreditar que o mundo é bom e que serão felizes para sempre, como nos garante a estrutura narrativas dos mágicos contos de fadas.

O conto Pele de Asno mantém a estrutura clássica dos contos de fadas. Acredito que para cada pessoa, essa divisão das partes do conto se faça de uma maneira singular. Para mim, a estrutura de Pele de Asno seria:

Situação inicial: É marcada pela felicidade no reino e desestruturação dessa harmonia pela morte da rainha e pelo juramento do rei.

Conflito: O momento de maior conflito na história é quando o rei se declara para a sua filha, obrigando-a a um casamento indesejado, fazendo com que ela tente por todas as formas evitar a tragédia de casar-se com seu próprio pai.

Motivação: Quando todas as suas tentativas de conciliação da situação falham, Pele de Asno não se submete e resolve sair pelo mundo, construindo seu próprio destino. Oculta seu potencial do mundo, mas tem consciência de que é uma princesa, levando consigo os seus belos vestidos.

Clímax: O seu destino começa a mudar quando o príncipe a vê, sem disfarces, e se apaixona pela mulher que realmente é. A partir desse momento toda a história é um relato de construção das possibilidades para o encontro final.

Desfecho: O final feliz do conto acontece quando Pele de Asno deixa cair sua capa e se mostra para o príncipe, e para todos do reino, com todo o seu esplendor e beleza, casando-se e sendo ‘feliz para sempre’.

Essa seqüência se faz necessária para que a criança vá aos poucos fazendo as viagens para o seu mundo interior e a sua realidade externa. É quase como um processo de nascimento físico, de parto, como discuti no texto “Os Contos de Fadas e a Psicologia Transpessoal” .

Mas vamos à versão do conto que ouvi quando criança, ressaltando que há várias, inclusive uma em que o pai cede a mão de sua filha para seu velho primeiro ministro, numa tentativa grotesca de evitar o tema do incesto. Vamos a Lobato, contando a história.

 

Pele de Asno

Era uma vez um rei tão bom tão amado pelo povo e tão respeitado pelos seus vizinhos que se tornou o mais feliz de todos os monarcas. Teve ainda a felicidade de casar-se com uma princesa tão bela quanto virtuosa, a qual lhe deu uma filha só, mas tão encantadora que os pais viviam num perfeito enlevo.

No palácio reinava a abundância e o bom gosto. Os ministros eram dos mais prudentes e hábeis; os cortesãos, delicadíssimos; os criados, dos mais fiéis. As enormes cavalariças abrigavam os mais belos cavalos do mundo e mostravam os melhores arreios, embora toda a gente estranhasse que o animal de maior importância ali, fosse um asno de compridíssimas orelhas. Não era, entretanto, por simples capricho que o rei lhe dera um posto de tal distinção. Esse asno bem merecia tais honras, porque era na realidade um asno maravilhoso; basta dizer que diariamente, sua baia amanhecia recoberta de moedas de ouro, que o rei mandava recolher.

Mas como não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, aconteceu que certo dia a rainha caiu de cama com uma doença misteriosa que nenhum médico atinava curar. A tristeza no palácio foi imensa. O rei, desesperado, fez promessas em todos os templos do reino, nos quais ofereceu sua própria vida em troca da cura da amada esposa. Mas tudo em vão. Afinal, sentindo aproximar-se a sua derradeira hora, a rainha chamou o esposo e disse-lhe entre lágrimas:
- Meu amigo, permiti-me que faça antes de morrer uma recomendação: e é que se de novo casardes...

Aqui o rei a interrompeu, apertando-lhe as mãos e banhando-as em lágrimas, como a dizer que nunca semelhante idéia lhe poderia passar pela cabeça. “Não, não, minha cara esposa; antes recomendai-me que vos siga no túmulo!”

- O reino, continuou a rainha com serena firmeza, pede sucessores para o trono e eu não vos dei senão uma filha; tereis, portanto, de casar-vos de novo – e eu vos peço que só vos caseis se encontrardes uma princesa mais bela e mais bem dotada do que eu. Se me jurardes isto, morrerei contente.

É de crer que a rainha possuísse grande amor-próprio, e que se obrigou o esposo a este juramento foi por não admitir que houvesse outra princesa capaz de excedê-la em dotes (uma mãe sabe que sua filha herda suas características; dessa forma ela estava plantando a semente do incesto; isso nos remete ao fato de nos casos de incesto, as filhas declararem que suas mães sabiam do abuso e eram coniventes; será que isso não as estariam remetendo à sua própria atuação do seu Complexo de Édipo com o seu próprio pai, projetando-se na filha e protegendo-se da culpa?). Mas o rei jurou e ela instantes depois exalava o último suspiro.

A dor do esposo foi imensa; por muitos dias outra coisa não fez senão chorar e lamentar-se. Por fim foi-se acalmando, porque as grandes dores não duram muito, e um dia recebeu uma representação dos seus ministros pedindo-lhe que se casasse de novo. Isto o fez derramar novas lágrimas de dor reavivada e a resposta foi que jurara casar-se de novo unicamente no caso de aparecer uma princesa mais bela e mais bem dotada do que a falecida, o que era impossível. Os ministros alegaram que isso de beleza era tolice, e que para bem do reino só se fazia necessário uma rainha virtuosa e bastante fecunda (reprodutora, isso não estaria valendo até hoje?), que lhe desse numerosos filhos e assim sossegasse o povo quanto à sucessão da coroa. Alegaram também que a princesa real possuía todas as qualidades para tornar-se uma grande rainha (Hera), mas que, como fosse mulher, logo casaria com um príncipe de fora e seria lavada para outras terras. Os descendentes dessa linhagem, vendo que ali no reino não havia herdeiro para o trono, poderiam provocar guerras de sucessão grandemente desastrosas para todos.

O rei tudo ouviu; ponderou aquelas sábias considerações e prometeu que tomaria nova esposa. E realmente procurou entre as princesas em ponto de casamento uma que lhe conviesse. Todos os dias os ministros traziam-lhe retratos de princesas dos reinos vizinhos – mas o rei sacudia a cabeça. Nenhuma se aproximava da querida defunta. O tempo corria e à medida que o tempo corria a jovem princesa tornava-se mais e mais bela, começando já a exceder a própria mãe (artigo de Freud que fala sobre a dificuldade do filho superar o pai com seu êxito, provocando um auto-boicote). O rei pôs tento naquilo e como já andasse com o juízo meio abalado, entrou a sentir pela filha um amor violento, que nada tinha de amor paterno (incesto). Por fim, não podendo mais ocultar seus sentimentos, declarou que só com ela se casaria (mais uma vez o conto de fadas protege a criança ao inverter o ‘jogo do Édipo’).

A jovem princesa, que era virtuosíssima, quase desmaiou quando ouviu semelhante declaração. Lançou-se aos pés do pai e o conjurou com toda a eloqüência a não cometer esse horrível crime.

O rei foi consultar um drúida para pôr-se em paz com a consciência, e esse druida, que era um grande ambicioso e só desejava tornar-se um dos favoritos de Sua Majestade, convenceu-o de que não havia mal nenhum naquele casamento e que além de vantajoso para todos ainda constituía até uma obra pia . O rei abraçou-o e voltou para o palácio mais decidido do que nunca e a princesa recebeu ordem de preparar-se para o casamento.

A moça, desesperada, só teve uma idéia – correr a consultar a Fada Lilás , sua madrinha. Para isso partiu naquela mesma noite, num carrinho puxado por um carneiro que conhecia todas as estradas. A fada queria muito à princesa e logo que a viu chegar foi dizendo que já sabia de tudo.

- Sim, minha filha, seria um grande erro desposar teu pai. Mas há um jeito de conciliar as coisas sem contrariá-lo de frente. Basta que concordes no casamento, mas que exijas como condição um vestido cor do tempo. Nem com todas as suas riquezas e todo o seu poder conseguirá ele tal vestido.

A princesa agradeceu à sua madrinha e voltou ao palácio, onde declarou ao rei que sim, que se casaria com ele, mas com a condição de ser presenteada com um vestido cor do tempo . O rei ficou encantado com a resposta e reunindo imediatamente os mais hábeis alfaiates do reino, ordenou-lhes que apresentassem aquele vestido; em caso contrário iriam todos para a forca (hoje os pais realizam os desejos de consumo de suas filhas também como uma forma de sedução; o jogo continua o mesmo).

Não foi preciso tanto. Dois dias depois os alfaiates voltavam com o vestido encomendado – uma beleza de vestido, leve como as manhãs e azul como o céu . A princesa desapontou e correu de novo em procura de sua madrinha. Que fazer? “Peça agora um vestido cor da lua ”, aconselhou a fada – e a moça pediu ao rei um vestido cor da lua, o qual foi encomendado incontinenti.

No dia seguinte o novo vestido estava pronto e igualzinho à cor da lua. A princesa se desesperou e estava a lamentar-se quando a fada lhe apareceu e disse: “Ou muito me engano, ou se pedires um vestido cor do sol o rei ficará atrapalhado, porque é impossível conseguir-se um vestido cor do sol – e, quando nada, ganharás tempo.”

A princesa assim fez – pediu ao rei um vestido cor do sol, o qual foi sem demora encomendado (o simbolismo das três vezes) . E para que os alfaiates pudessem fornecê-lo, o rei lhes deu todos os diamantes e rubis de sua própria coroa para eu fossem empregados como enfeites. Quando os alfaiates trouxeram esse vestido, todos do palácio tiveram que fechar os olhos – tal era o esplendor do vestido. Nunca aparecera na corte maravilha mais bem trabalhada.

A princesa sentiu-se confusa e, pretextando que o vestido lhe tinha feito mal aos olhos, retirou-se para o quarto, onde a esperava a boa fada madrinha.

- Minha filha, coragem! Disse ela. O rei teima em seus projetos e os nossos estratagemas estão falhando. Creio, entretanto, que se lhe pedires a pele do asno que produz todo o ouro que sustenta a grandeza desta corte, ele vacilará. Vai. Vai pedir-lhe a pele do asno.

A moça, muito contente e esperançosa, correu a pedir ao pai a pele do asno. O rei admirou-se daquele capricho, mas sem demora deu ordem para o sacrifício do asno, cuja pele foi apresentada à princesa.
A moça correu para o quarto a descabelar-se, no maior dos desesperos, mas sua madrinha não teve dificuldade em acalmá-la.

- Que tens, minha filha? Fica sabendo que foi ótimo isso. Envolve-te nessa pele e sai pelo mundo. Quem tudo sacrifica pela virtude é sempre recompensado pelos deuses. Vai. Eu farei que o que te pertence te acompanhe. E aqui está esta minha vara de condão. Sempre que bateres com ela no chão, verás aparecer as coisas que te fazem serventia.

A princesa abraçou a madrinha, pedindo-lhe que não a abandonasse nunca. Depois envolveu-se na pele de asno , sujou a cara com a fuligem da chaminé e saiu do palácio sem ser percebida.

O desaparecimento da princesa causou grande sensação. O rei, que já havia ordenado uma festa magnífica para o dia do casamento, caiu no maior desespero. Mandou que saíssem m procura da filha mais de mil mosqueteiros. Mas tudo foi inútil. A varinha de condão tinha a propriedade de tornar a princesa invisível a todos os seus perseguidores.

Logo que deixou o palácio a princesa foi andando, andando, andando até muito longe, em procura duma casa onde empregar-se. Todos lhe davam esmolas, mas ninguém a queria receber. Aquela cara suja e aquele vestuário de pele de asno repugnavam a toda a gente. Por fim chegou aos arredores duma cidade onde havia uma chácara. Justamente andavam ali à procura de uma criada que fizesse os serviços mais grosseiros, como lavar o cocho dos porcos, guardar os gansos e outras coisas assim (sair da posição de princesa e ir ao mundo em busca de seu próprio sustento). Vendo aquela vagabunda tão sujinha a dona da chácara propôs-se a empregá-la – o que a princesa aceitou, pois estava cansadíssima.

A mísera donzela teve que ficar a um canto da cozinha, sofrendo que toda a criadagem caçoasse de sua pessoa do modo mais estúpido – e tudo por causa da tal pele que lhe servia de vestuário. Por fim, acostumou-se, e com tanto capricho deu conta de sua obrigação que a dona da chácara começou a vê-la com melhores olhos.

Um dia em que se sentara ao pé dum tanque teve a idéia de mirar-se ao espelho da água e assustou-se com o horrível aspecto da sua sujeira. Lavou-se então e foi clareando até ficar como era – linda e branca como a lua. Logo depois teve de vestir novamente a horrenda pele de asno para voltar para casa (quantas mulheres são vivas e vibrantes na rua e murchas e sem vida em casa?).

No dia seguinte não havia trabalho por ser dia de festa e então a princesa, por meio dum toque da varinha, fez surgirem os seus pertences de toalete e divertiu-se em pentear-se e enfeitar-se com os seus mais belos atavios . Seu quartinho era tão pequeno que a cauda dos vestidos não podia desdobrar-se. Com justa razão a princesa admirou a própria beleza e teve assim um dia feliz. Resolveu depois disso que todas horas de folga seriam empregadas em vestir seus lindo vestidos e enfeitar-se – mas sempre às ocultas do mundo, dentro das quatro paredes daquele quartinho. Ficava às vezes tão maravilhosamente linda que até suspirava por não haver ali ninguém que a visse.

Num desses dias de folga em que Pele de Asno (era conhecida por esse nome) tinha vestido o seu vestido cor do sol, aconteceu deter-se ali o filho do rei, que saíra à caça. Era um formoso príncipe, ídolo do povo e queridíssimo de seus pais. A chacareira mostrou-lhe tudo, as aves que criava, as plantações que fazia, e como o príncipe fosse muito curioso, percorreu todas as dependências, tudo examinando. Ao passar por certo corredor encontrou uma porta fechada e teve a curiosidade de espiar pelo buraco da fechadura – e viu lá dentro uma visão de beleza que o deixou deslumbrado. Era Pele de Asno no seu vestido cor do sol.

Preocupadíssimo, o príncipe retirou-se dali e foi indagar quem morava naquele cômodo escuro. Responderam-lhe ser uma pastora imunda de nome Pele de Asno, assim chamada em virtude de uma pele de asno que lhe servia de vestido; disseram ainda que era uma criatura tão suja que ninguém tinha ânimo de aproximar-se dela ou com ela falar; apenas por caridade a haviam tomado para pastora de ovelhas e de gansos.

O príncipe compreendeu logo a inutilidade de questionar aquela gente estúpida e voltou para a corte de coração transtornado. Não lhe saía da imaginação a maravilhosa divindade vislumbrada por uns instantes pelo buraco da fechadura. Chegou até a arrepender-se de não haver arrombado a porta. E tal foi a sua excitação que caiu com febre cerebral, ficando malíssimo. A rainha mostrou-se desesperada com o estado daquele seu filho único e prometeu mil recompensas a quem pudesse curá-lo.

Acudiram os melhores médicos do reino e depois de muito exame verificaram que o mal do príncipe provinha duma intensa preocupação moral. A rainha foi avisada disso e indo ter com o filho pediu-lhe que confessasse lealmente o que tinha no coração. Declarou que, fosse o que fosse, tudo ela faria pro amor dele; que se era a coroa o que ele desejava, seu pai certo que a cederia sem o menor pesar; que se desejava como esposa alguma princesa, que a teria, ainda que para isso fosse necessário declarar uma guerra; mas que pelo amor de Deus tudo lhe confessasse, pois do contraria ela morreria também.

- Minha mãe, respondeu o príncipe com voz moribunda; não sou nenhum filho desnaturado que queira pôr na cabeça a coroa ainda em vida de seu pai. Ao contrário; meus votos são para que ele viva longos anos. Minha mãe bem sabe que não há filho mais obediente e meigo do que eu.

- Sim, meu filho, mas tua vida nos é por demais preciosa e queremos saber o que te preocupa, que tudo faremos para te salvar a vida – e salvando tua vida salvaremos também as nossas.

- Pois bem, minha mãe; direi a verdade. O que quero é isto só – que Pele de Asno me faça um bolo para matar meu desejo.

A rainha ficou atônita de ouvi aquele estranho pedido, com menção duma criatura desconhecida e de nome tão feio.

- Quem é Pele de Asno, meu filho?

Um dos homens do palácio, que estivera já na chácara, respondeu:

- Senhora, Pele de Asno é uma pastora imunda, de pele encardida de sujeira, que guarda carneiros e gansos numa das chácaras de propriedade real.

- Não importa, disse a rainha. Meu filho numa de suas caçadas comeu talvez algum bolo preparado por essa criatura e agora está com essa fantasia de doente. Mandem que Pele de Asno lhe prepare sem demora um desses bolos.

Emissários partiram a galope para a chácara em procura de Pele de Asno, a fim de encomendar o bolo desejado.

É preciso que se diga: no momento em que o príncipe espiou pelo buraco da fechadura , no dia da sua visita à chácara, a princesa havia percebido a manobra, e depois, chegando à janelinha, pôde vê-lo quando já se afastava dali – e muito admirou o garbo e a beleza varonil do príncipe. Dizem até que suspirou – e que depois disso suspirava sempre que se recordava daquele momento. Seja como for, quando Pele de Asno recebeu a encomenda do bolo ficou agitada de pressentimentos e correu pressurosa a fechar-se em seu quartinho a fim de pôr mãos à tarefa. Para isso lavou-se, penteou-se, vestiu o mais belo vestido e entrou a amassar a mais alva e pura farinha com a manteiga e os ovos mais frescos. Em certo momento, não se sabe se de propósito ou por acaso, deixou cair um anel que trazia no dedo. Depois de pronto o bolo, ocultou-se de novo sob a horrível pele e abriu a porta para entregar a encomenda aos emissários, aos quais timidamente perguntou como estava passando o príncipe. Os orgulhosos emissários nem deram resposta; tomaram o bolo e partiram a galope para o palácio.

O príncipe recebeu o bolo com avidez e o comeu com tal vivacidade que os médicos presentes ficaram mal impressionados, não achando aquilo natural. Logo depois começou a tossir com desespero, como se alguma coisa o estivesse asfixiando. Era o anel. Tirou-o da boca e viu tratar-se de uma jóia de rara beleza, que só poderia servir num dedinho extremamente delicado.

O príncipe beijou-o mil vezes e colocou-o à sua cabeceira, para de novo mirá-lo e beijá-lo sempre que estivesse só. Atormentava-o agora o desejo de conhecer a dona do anel, mas tinha receio de contar o que havia visto pelo buraco da fechadura certo de que todos motejariam dele. E torturado de muitos sentimentos contraditórios acabou piorando; sua febre subiu. Os médicos então disseram à rainha que a doença do príncipe era amor recolhido.

Imediatamente a rainha e o rei dirigiram-se para o quarto do querido doente.

- Meu filho! Disseram eles. Sê bondoso para com teus pais e dize o nome daquela que te conquistou o coração, pois juramos aceitar a tua escolha, ainda que recaia na mais humilde serva.

O príncipe, enternecido com aquelas palavras, respondeu:

- Meu pai e minha mãe, eu não quero contrair uma aliança que vos desagrade, e para demonstrar o que digo declaro que esposarei a dona deste anel. Creio que a dona dum dedinho que nele caiba não pode ser nenhuma rústica indigna de nós.
O rei e a rainha tomaram o anel, examinaram-no atentamente e foram da mesma opinião, isto é, que a dona daquela jóia não podia ser uma qualquer. Em seguida o rei abraçou o filho e retirou-se, e mandou que se fizesse uma proclamação anunciando que a moça em cujo dedo coubesse o anel seria a esposa do herdeiro do trono. Houve então uma verdadeira romaria ao palácio, de moças casadouras. Vieram em primeiro lugar várias princesas; depois vieram as duquesas, as marquesas e as baronesas – mas nenhuma conseguiu ajustar o anel a nenhum dos seus dedos. Depois vieram as mais lindas moças da cidade, não pertencentes à nobreza – e nenhuma apresentou dedo em que se ajustasse o anel. O príncipe já estava melhor e fazia ele mesmo a prova.

Vieram finalmente inúmeras moças de baixa condição, criadas e camareiras, e com todas sucedeu o mesmo. O príncipe mandou que viessem também as cozinheiras e guardadoras de gado – e nada, nada.

- Só falta vir essa Pele de Asno que me preparou o bolo, advertiu o príncipe, e todos riram-se, dizendo que uma tal sujeira de criatura nem merecia pôr o pé no palácio.

- Quero que a tragam, declarou o príncipe; não há razão para que venham todas menos ela.

Os cortesãos obedeceram e foram buscá-la, mas rindo-se da excentricidade do príncipe.

Pele de Asno, que já amava o príncipe, sentiu o coração bater quando soube da barulheira que ia pela corte por causa do seu anel e, desconfiada de que também viriam buscá-la, preparou-se da melhor maneira e vestiu o seu mais lindo vestido. Depois recobriu-se com a pele de asno e ficou à espera. Nisto chegaram os mensageiros com o recado chamando-a – e esses mensageiros riram-se a morrer daquele horror de criatura. “Do palácio te chamam, ó sujeira! para casar com o filho do rei, ah! ah! ah!”

O príncipe desapontou quando Pele de Asno foi introduzida em seu quarto.

- É você mesma a criatura que mora naquele quartinho dos fundos da chácara dos gansos?

- Sim, senhor príncipe, respondeu ela.

- Mostre-me sua mão, disse o príncipe, apenas por desencargo de consciência e suspirando, desanimado.

O que aconteceu então foi um assombro para todos. Ao receber a ordem de mostrar a mão, Pele de Asno espichou de dentro da horrível pele de asno uma delicada mãozinha rosada em cujo dedo médio o anel entrou como uma luva. Nisto a pele de asno caiu dos seus ombros e aos olhos de todos surgiu uma criatura de beleza arrebatadora. O príncipe lançou-se fora da cama e, ajoelhado aos seus pés, abraçou-a com ternura infinita; a seguir o rei e a rainha fizeram o mesmo, perguntando-lhe se queria receber o príncipe como esposo (mais uma vez ela assume uma posição ativa da situação e faz suas escolhas). A princesa, cheia de confusão, ia abrindo a boca para responder, quando o teto se fendeu e a Fada Lilás surgiu num carro maravilhoso, tecido de pétalas de lilases, e contou aos presentes toda a história da princesa.

A alegria dos soberanos foi imensa ao saberem que Pele de Asno era uma princesa de sangue real e portanto digna de ser a esposa do herdeiro do trono – e mais uma vez a abraçaram e beijaram.

O casamento realizou-se pouco depois com grandes festas e o velho rei aproveitou a oportunidade para entregar o trono ao seu amado filho. O príncipe não queria, mas o rei o forçou a esse passo – e para comemorar tão grande acontecimento foram decretados três meses de festas contínuas que ficaram célebres nos anais daquele reino.

 

O conto Pele de Asno é um conto um tanto quanto desconhecido pela maioria das pessoas e das crianças. Este fato nos leva à pergunta: por que Pele de Asno foi banido?
Existem algumas possíveis respostas. Em primeiro lugar, Pele de Asno nos fala da relação incestuosa entre um pai e sua filha, relação esta aprovada pela Igreja em troca de favores políticos. Há aqui duas denúncias: existe o abuso sexual nas relações de pais-filhas e a Igreja é uma instituição corrompida.

Uma outra característica que diferencia Pele de Asno de outros contos é que a heroína é uma mulher que não se submete às torturas e humilhações que lhe são impostas por seu grupo social, rebelando-se contra as regras e ordens e construindo o seu próprio destino. Isso não é algo muito aceito e aprovado pela sociedade patriarcal que insiste na subserviência da mulher aos costumes de sua época.

Apesar de esconder sua beleza e sua realeza das pessoas com as quais passa a conviver, Pele de Asno, em seu íntimo, tem consciência de seu poder e de sua força. Acreditando ainda na sua possibilidade de felicidade, arma estratégias para que a vida lhe devolva o lugar que de direito lhe pertence, o de princesa, deixando pistas para que o príncipe a descubra. Não é o príncipe que lhe tira a pele de asno; é a própria princesa que a deixa cair, assumindo todo o seu brilho. Em momento algum temos a imagem da mulher passiva que espera pelo seu príncipe e herói para lhe libertar de seu sofrimento. Pele de Asno vai à luta pela sua liberdade, pela sua felicidade, conquistando com sua inteligência o seu lugar no mundo.

Quando pede ao rei os seus vestidos – Céu/Tempo, Lua e Sol -, a princesa demonstra sua profunda conexão espiritual; já a pele de asno vai demonstrar a sua profunda conexão com a natureza. Dessa forma, em Pele de Asno, o Céu e a Terra se encontram e juntam suas forças.

Tatar (2004 : 228) traz a versão da história que termina assim:

“É difícil acreditar no conto de Pele de Asno. Mas enquanto houver nesse mundo crianças, mães e avós, ele não será esquecido.”

A autora comenta, então, que aqui há uma sugestão de que Pele de Asno será sempre perpetuada através das mulheres contadoras de histórias. É muito bom poder compartilhar dessa idéia das mulheres como as grandes contadoras de histórias da humanidade (até porque as tomografias e ressonâncias comprovaram que o cérebro feminino tem as áreas de linguagem bem mais desenvolvidas que o cérebro dos homens). Porém, há uma referência à história ter uma moral para mocinhas que haviam perdido suas mães de que não devem nem aceitar a sedução de seus pais, nem tentar seduzi-los, mantendo-se assim as rígidas tradições sociais da época.

Não sinto assim no meu coração. Não foi assim que a história ficou registrada na minha infância: nada de abuso sexual, nada de incesto, nada de sedução. Apenas a necessidade de esconder suas qualidades, a coragem de não se submeter e a força para construir o seu próprio caminho.

Foi dessa forma que Pele de Asno me acalentou na infância e me redimiu na vida adulta. Para ela o meu amor, a minha reverência e a minha gratidão.

 

Referências Bibliográficas

Bettelheim, B. (1980). A psicanálise dos contos de fadas.– Rio de Janeiro: Paz e Terra
Bruner, J. (2001). A cultura da educação. Porto Alegre: Artmed
Cavalcanti, J. (2002). Caminhos da literatura infantil e juvenil: dinâmicas e vivências na ação pedagógica. – São Paulo: Paulus
Chevalier, J.; Gheerbrant, A. (2003). Dicionário de símbolos: (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 18ª. ed. – Rio de Janeiro: José Olympio
Gutfreind, C. (2003). O terapeuta e o lobo: a utilização do conto na psicoterapia da criança. – São Paulo: Casa do Psicólogo
Jung, C. G. (1977). O homem e seus símbolos. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira
Pieri, P. F. (2002). Dicionário junguiano. – São Paulo: Paulus
Propp, V. (2002). As raízes históricas do conto maravilhoso. – 2ª. ed. – São Paulo: Martins Fontes
Steiner, R. (2002). Os contos de fadas: sua poesia e sua interpretação. – São Paulo: Antroposófica; Federação das Escolas Waldorf no Brasil
Tatar, M. (2004). Contos de fadas: edição comentada e ilustrada. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
Von Franz, M. L. (1990). A interpretação dos contos de fada. – São Paulo: Paulus