Que contribuições as novas tecnologias oferecem à educação? Qual o papel do professor diante dessas mudanças? Poderá o uso do computador facilitar o processo de ensino-aprendizagem? Tentarei articular esses questionamentos com as idéias apresentadas pela Profa. Patrícia Smith Cavalcante em sua palestra “Educação a Distância: os desafios das novas tecnologias para a educação” na disciplina Seminários, coordenada pelo Prof. Luciano Meira do mestrado em Psicologia Cognitiva da UFPE, em 15/08/2002. A proposta desse trabalho é estabelecer um diálogo com o leitor, onde o meu percurso profissional, minhas experiências com a tecnologia num contexto pedagógico serão apresentadas para que o leitor possa ir construindo o lugar de onde falo. Em seguida, sucumbindo aos limites da academia, tentarei apresentar o referencial teórico que baseia a minha prática. A idéia desse título para o trabalho surgiu quando a Profa. Patrícia falava da importância do professor ser um bom comunicador quando usa tecnologias para dar aulas no mundo virtual, como em ambientes de teleconferência. Na hora fiquei inquieta. Será que no mundo pós-moderno o professor desempenharia apenas um papel de animador? Nenhum melhor que Sílvio Santos! Fiquei pensando que talvez a minha posição crítica de que jamais o professor poderia ser substituído pela tecnologia talvez estivesse fora de moda. Em recente encontro sobre tecnologia educacional em Recife – PE, discuti com os educadores essas idéias na palestra Abracadabra, professor (a)!! , disponível em Ambiente Virtual de Estudo do Virtus/UFPE.
Imagem capturada de palestra do Prof. Sílvio Meira (CIN/UFPE), disponível no site http://www.meira.com.
Como, então, poderia o computador realizar a tarefa mágica de ensinar? Compactuo com Chaplin: Mais do que máquinas,
Mas qual a concepção de ensino, de aprendizagem, de construção de sujeito, de desenvolvimento que fundamenta esse modelo de ensino, onde a tecnologia pode ensinar, tão “endeusado” nos ambientes educacionais? Venho discutindo o tema “aprendizagem” já há algum tempo no trabalho com formação de professores (Dificuldades de Aprendizagem) e de psicólogos escolares (Orientação Sexual na Escola) e compartilho com as idéias de Freud.[2] |
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Para Freud, a paixão pelo saber origina-se da curiosidade infantil sobre sua origem. DE ONDE VIEMOS? “Qual é a minha origem em relação ao desejo de vocês?” PARA ONDE VAMOS? “Por que me puseram no mundo, para atender a quais expectativas e esperando que eu me torne o quê?” Freud (in: Três ensaios sobre a sexualidade) nos diz que “A criança se apega aos problemas sexuais com uma intensidade imprevista, e se pode mesmo dizer que esses são os problemas que DESPERTAM sua inteligência.” Ao final do Complexo de Édipo a investigação sexual é reprimida. Porém, parte de sua energia é sublimada em Pulsão de Saber. Agora a criança quer conhecer o mundo. Aprender é aprender com alguém, que será colocado numa determinada posição de suposto saber. Freud (citado por Kupfer, em Freud e a Educação) nos mostrava: “No decorrer do período de latência, são os professores e geralmente as pessoas que têm a tarefa de educar que tomarão para a criança o lugar dos pais, do pai em particular, e que herdarão os sentimentos que a criança dirigia a esse último na ocasião do Complexo de Édipo. Os educadores, investidos da relação afetiva primitivamente dirigida ao pai, se beneficiarão da influência que esse último exercia sobre a criança.” A ênfase freudiana não está concentrada nos conteúdos a serem transmitidos do professor para o aluno, mas no campo que se estabelece entre professor/aluno, uma relação que primeiramente foi dirigida ao pai. Transferência é nome dado pela Psicanálise a este campo. Só assim o professor pode tornar-se a figura a quem serão endereçados os interesses dos alunos. A transferência se produz quando o desejo de saber do aluno se liga à pessoa do professor, que passa a ser depositário de algo que pertence ao aluno, esvaziando-se enquanto pessoa. Cordié (em seu livro “Os atrasados não existem”) nos diz que o professor só pode fazer nascer o amor pelo saber, quando ele próprio conhece essa paixão. Não aprendemos de qualquer um, aprendemos daquele a quem outorgamos confiança e direito de ensinar. Na escola, como na vida, também se aprende por “amor a alguém”. Ensinar não é apenas transmitir conteúdos e aprender não é apenas memorizá-los. Alicia Fernández, em toda sua obra, mostra-nos que para aprender precisamos de dois personagens: o ensinante e o aprendente e do vínculo estabelecido entre eles. Então, precisamos estar atentos para o fato de que nossa subjetividade é fundamental para a relação ensino-aprendizagem com nosso aluno. Nossa subjetividade e a dele. |
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É lógico que todos os alunos foram incentivados a utilizar a internet como fonte de pesquisa, mas não apenas porque estávamos na área de educação. Acredito que os profissionais de todas as áreas devem utilizar esse recurso poderoso (apesar de, às vezes, navegarmos até naufragarmos num mar de informações). O meu objetivo enquanto professora era tentar provocar nos alunos o “tesão” por aprender e ajudá-los a construir o conhecimento na área da Psicologia que estávamos trabalhando. Rubem Alves inspira essa postura: “O educador é parte de uma tarefa mágica, capaz de encantar crianças e adolescentes, o que é bem diferente de simplesmente dar aula. Dar aula é só dar alguma coisa. Ensinar é muito mais fascinante.
Entendo que para o professor que tenha como concepção de ensino a transmissão de informações e aprendizagem como a reprodução dessas informações, o computador pode ser um excelente “professor”, pois pode transmitir informações de uma forma bastante atrativa com recursos de texto, som e imagem. Gabriel, o Pensador denuncia essa situação com a sua costumeira irreverência na música Estudo Errado: Manhê! Tirei um dez na prova me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem me reprova Decorei toda a lição Não errei questão Não aprendi nada de bom Mas tirei dez (boa filhão!) Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci Decorei,
copiei, memorizei, mas não entendi Não aprendo as causa e conseqüências só decoro fatos Desse jeito até história fica chato |
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Uma outra forma de utilização do computador na educação é o software educativo. Sob orientação da Profa. Lúcia Browne Rego, realizei um trabalho de monografia (1997) para a conclusão do meu curso de Psicologia (UFPE) com o tema “O Efeito do Software Educativo no Desenvolvimento da Ortografia pela Criança”. Tive, então, a oportunidade de avaliar diversos software que se propunham a trabalhar o conteúdo especificado, investigando as regras ortográficas para o uso do R. Qual não foi minha surpresa ao encontrar em software premiados erros de programação, uma frágil construção teórica quanto ao conteúdo ortografia, uma concepção de ensino-aprendizagem onde o erro era punido e não tratado como inerente ao processo de ensino-aprendizagem. Apesar das limitações do estudo, utilizamos o software selecionado com crianças de uma escola particular de Recife e todas elas não conseguiram refletir sobre o conteúdo ortográfico trabalhado apenas a partir da interação com o software. Com essas observações, quero enfatizar a utilização da tecnologia como uma ferramenta pedagógica não garante que a aprendizagem ocorra. Muitas escolas públicas não têm acesso à internet e não possuem verba para a aquisição de software educativo e utilizam em seus laboratórios de informática software para edição de textos, por exemplo, sendo o mais conhecido o Word da Microsoft. Como participante do projeto Educom/UFPE, colaborei com a pesquisa “A Apropriação da Informática pela Escola Pública” (de 1993 a 1995), numa escola pública de Recife, com o projeto Jornal Escolar. A partir dessa intervenção pude observar as mudanças que o uso dos computadores produziram nos alunos que participaram do projeto. Percebemos que ao final do trabalho, os alunos já não se interessavam mais pelo computador em si; não perdiam um encontro, mas o motivo não era a máquina; o que eles gostavam era de conversar, criar, escrever. Eis a avaliação de um aluno do projeto: |
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Eu achei ótimo tudo o que aconteceu aqui, aprendi muita coisa sobre computador. Aqui eu e meus colegas aprendemos a não calar a boca quando alguma coisa estava errada aqui no colégio, depois que surgiu o nosso jornal a diretoria teve que olhar para alguns podres que ela fingir não enxergar. Também aprendemos a prestar mais atenção aos erros de português, coisa que muita gente não fazia antes de vir para cá. Eu gostei muito do jeito que (“nome da monitora”) nos ensinou, e acho que o método de ensino em qualquer lugar deveria ser desse mesmo jeito: conversando com o aluno, fazendo com que ele goste de aprender mais e mais, e não do método tradicional, escrevendo no quadro, para os alunos passarem tudo para o caderno, depois o professor explica, ninguém entende nada ... É um “saco”. Existem enormes diferenças entre a sala de aula e a de computação, são enormes, tudo aqui é melhor, ... Por tudo isso, o computador, que era um bicho de sete cabeças, virou até diversão. |
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Analisando essas três experiências com o uso da tecnologia na educação, enfatizo a importância da relação professor-aluno no processo de ensino-aprendizagem. Em todas elas, os comentários dos alunos não enfocavam o artefato tecnológico em si, mas as possibilidades de interação promovidas por ele, tanto entre os alunos, como entre o professor e os alunos e até entre a comunidade de aprendizagem e a sociedade. O que vai possibilitar um bom uso da tecnologia é, essencialmente, as concepções que o professor tem acerca do que é ensinar e do que é aprender. Ou ainda, como esclarece o mestre Bruner (2000) em seu artigo com Olson, é necessário que levemos em consideração a psicologia popular e a pedagogia popular dos professores e dos alunos. Não entendo o uso do computador na educação como a salvação do nosso problemático sistema educacional. Preocupou-me o fato da Profa. Patrícia ter colocado que o objetivo do governo federal seria uma educação universitária a distância, já que não temos espaço físico, falta professor e a demanda é enorme. Essa proposta está sendo colocada não como um paliativo, mas como uma melhor alternativa de ensino. Ressaltou que a proposta não traria uma massificação, mas uma ampliação. Inquieto-me quando vejo esse projeto sendo posto em execução, pois as últimas pesquisas indicam que alunos não se motivam em cursos a distância com mais de 20h/aula e abandonam o trabalho no meio do caminho (informação dada pela própria professora). Entendo como válido o modelo misto com encontros presenciais e virtuais, onde todas as formas de tecnologia poderiam ser utilizadas como ferramentas pedagógicas: do livro texto à internet. Talvez, porém, essa proposta não possa ser “globalizada” para todos os alunos, em todas as culturas.
Para terminar essa primeira parte do trabalho, gostaria que o leitor refletisse sobre as possíveis semelhanças e diferenças existentes entre as duas situações apresentadas a seguir. Uma delas é um desenho feito em 1899 com a proposta de imaginar como seria uma escola no ano 2000; a outra situação é uma foto de uma sala de aula altamente sofisticada em tecnologia, em pleno ano 2000. Qual a concepção de ensino em cada uma delas? Qual a concepção de aprendizagem?
Agora, “falando sério”, pois estamos na academia. |
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[3] O homem é um ser que está sempre em contínua relação de criação e de controle com a natureza, relação esta mediada por instrumentos: é um ser tecnológico. A tecnologia faz parte do arsenal cultural de um povo. “Entender que tecnologia é um produto sócio-cultural e que serve, além disso, como ferramenta física e simbólica para vincular-se e compreender o mundo que nos rodeia é uma derivação importante do pensamento de Vygotsky. ... Encontrar, na tarefa docente cotidiana, um sentido para a tecnologia, um para quê. Este “para quê” tem conexão com a idéia original do verbo tictein, com a idéia de criação, de dar à luz, de produzir.” (Litwin, 1997) O verbo grego tictein, que significa “criar, produzir, conceber, dar à luz”, é a raiz das palavras “técnica” e tecnologia”. Para os gregos, a técnica [techné] tinha um significado amplo, pois envolvia não apenas os instrumentos e as matérias-primas, mas o produtor - autor da idéia -, inserido dentro de um contexto ético e social, onde sempre se indagava como e por que se produzir um valor de uso. Diversos autores situam a origem da Tecnologia Educacional na década de 50, onde a ênfase era voltada para o meio, para o instrumento – “variável mágica que aplicada a todo ensino, a todo aluno, a qualquer grau, para qualquer matéria e com qualquer objetivo, daria os resultados desejados” (Pérez Gómez, 1983 in: Litwin, 1997), o que condiz com o modelo produtivo vigente em que era necessário um grande número de trabalhadores para realizarem tarefas rotineiras, sem questionamentos; era a época da simplificação e da massificação, onde havia um grande distanciamento entre produto/produtor. A escola da modernidade ainda produz um aluno para aquela outra época, “um indivíduo capaz de seguir ordens com atenção, não-questionador, capaz de fazer algo sem se preocupar/interrogar por que é feito desse modo e não de outro, sempre confiante em que há alguém que já pensou por ele como fazer, e capaz de se esforçar para fazer o melhor em seu posto de linha de montagem”. (Toffler, 1981, in: Oliveira, 1996) O modelo de produção baseado em linha de montagem vem sendo gradualmente abandonado e a escola também questiona a sua estrutura, já que congelada há mais de um século, inibe a utilização, de forma crítica e criativa, dos conhecimentos por ela transmitidos. Nas novas relações de trabalho, o trabalhador deve ser capaz de trabalhar cooperativamente, de analisar e sintetizar conhecimentos e de gerar novas soluções a partir da flexibilização do seu pensamento. Essa nova escola vai exigir uma mudança no papel do professor que deverá funcionar como um intermediário no processo de aquisição e elaboração de conhecimentos pelos alunos. A tecnologia vem sendo apontada como uma alternativa de promoção dessa mudança na estrutura escolar. As novas tecnologias, por si mesmas, não transformam as estruturas sociais, incorporam-se a elas. “Produzir tecnologia não é somente ‘inventar um novo aparelho’, é questionar a tecnologia feita para a escola e o que faz a escola com as produções tecnológicas. É vincular tecnologia e didática. É vincular tecnologia e cultura.” (Litwin, 1997) A tecnologia não é uma panacéia para a reforma do ensino, mas ela pode ser um catalisador significativo para a mudança. Para aqueles que procuram soluções simples e inovadoras, a tecnologia não é a resposta. Para aqueles que buscam uma ferramenta poderosa para apoiar ambientes de aprendizagem colaborativos, a tecnologia tem um enorme potencial. O uso do computador, enquanto instrumento tecnológico, na educação está sempre associado a milagres ou a revoluções. O computador, por si só, não é um agente de mudanças. Se para o professor, ensinar é transmitir informação, é fixar regras, o computador, com todos os seus recursos de multimídia (som, imagem, animação), será apenas uma versão moderna da máquina de ensinar skineriana. Nele, softwares, ditos educativos, transmitirão informações de forma muito atrativa, farão exercícios de fixação de conteúdos com um controle preciso sobre a quantidade de erros de cada aluno (sem se preocupar com a qualidade do erro) e proporcionarão a todos a falsa idéia de modernização. O que acontece de fato, na grande maioria das vezes, é uma modernização conservadora, onde o “espírito” revolucionário do uso do computador é subvertido pelo sistema educacional vigente e convertido em instrumento de sua consolidação. O computador só poderá ser um instrumento de auxílio na prática pedagógica do professor se ele estiver preparado para o seu uso. Porém, “a conclusão universal da literatura sobre tecnologia e formação de professores é que a formação de professores, especialmente antes de iniciarem sua carreira, não os está preparando para trabalharem em salas de aula ricas em tecnologia”. (Willis & Mehlinger, 1996, in: Sanhholtz & Ringstaff & Dwyer, 1997). Os treinamentos que existem (capacitações e pós-graduações) concentram-se em hardware e software, e não sobre a conexão entre computadores e currículo. Nas salas de aula ricas em tecnologia, o que ocorre é uma mudança de paradigma, pois o professor tende a ensinar do jeito que aprendeu e neste novo ambiente isto não funciona, já que a instrução passa a ser centrada no aluno, e não no currículo, as tarefas tendem a ser mais colaborativas do que tarefas individuais e a aprendizagem torna-se um processo mais ativo que passivo. A implementação da tecnologia inspira os professores a utilizarem tarefas e materiais mais complexos em sua instrução. Aprender a ensinar utilizando ambientes ricos em tecnologia implica em mudanças muito mais complexas que apenas as tecnológicas, pois a tecnologia é um catalisador para a mudança nos processos em sala de aula, porque propicia um rumo diferente, uma mudança no contexto que sugere formas alternativas de operação. A inovação instrucional envolve não apenas uma mudança nas pessoas, mas também mudanças na cultura organizacional. Os computadores exercem um fascínio sobre as crianças, pois a possibilidade de se representar o real pelo virtual, permite sua leitura sob diversos ângulos, tornando-o muito mais rico e conhecido, já que estimula ao mesmo tempo os diversos sentidos das crianças e as pesquisas já comprovaram que se aprende melhor quando isto ocorre (Oliveira, 1996). Com o uso da tecnologia em sala de aula, aumenta o burburinho entre os alunos, pois eles conversam, questionam, descobrem. O professor já não é mais a única fonte de conhecimento (pois os alunos encontram suas respostas em softwares ou na Internet), já não controla mais quem pergunta, quem responde, já não sabe tudo e tem que estar preparado para este “desinvestimento” de poder. O planejamento de suas aulas não pode mais seguir o esquema tradicional utilizado até então. Pesquisas indicam que o gerenciamento em sala de aula é identificado como o fator mais importante na influência sobre a aprendizagem do aluno em salas ricas em tecnologia (Sanhholtz & Ringstaff & Dwyer, 1997), o que vem apoiar a nossa posição de desmistificação da máquina e valorização da relação professor/aluno. Estudos em Inteligência Artificial (IA) buscam a construção de uma máquina que imite o ser humano. Para isto, os pesquisadores em neurociências procuram esclarecer alguns mecanismos do funcionamento cerebral, como os que comandam o desenrolar das operações cognitivas. Porém, é importante que salientemos que uma máquina não será jamais uma pessoa, “uma máquina não será jamais um sujeito com consciência de si mesmo, não evoluirá, não saberá tirar partido de suas experiências, modificar seu comportamento ou corrigir seus erros” (Cordié, 1996). Os cientistas em IA apresentam como exemplo de uma máquina “pensante” os Sistemas Especialistas, sistemas “inteligentes”, que fornecem respostas aos problemas dos seus usuários, aumentam os seus conhecimentos e corrigem possíveis erros. Ao fazermos uma análise crítica destes sistemas, podemos observar que todas estas modificações acontecem dentro de um sistema fechado e que as articulações entre os conhecimentos são feitas baseadas apenas no mecanismo lógico-formal dos processos cognitivos do ser humano. Porém, desde que Freud nos trouxe “a peste”, sabemos que o ser humano não é constituído apenas pelos mecanismos racionais e conscientes do seu cérebro. Há a dimensão inconsciente que sempre permeia esta constituição. E, máquina alguma, poderá ser o “sujeito” ($) (sujeito barrado pelo recalcamento) de Lacan. Etimologicamente, inteligência vem do latim legere, escolher. A questão da escolha está no centro das operações intelectuais. Cordié (1996) esclarece: “Lacan dá a inter-legere o sentido de ‘ler entre as linhas’. Ele nos lembra, através disso, que o entendimento se situa bem além das palavras e de seu sentido literal; o outro discurso, aquele do inconsciente, impregna não somente os sonhos, mas participa, de forma ativa, nas operações cognitivas. Ser inteligente é saber ler entre as linhas, entender o que é dito além das palavras.” A construção do discurso do sujeito é sempre permeada pelas suas escolhas, pelas suas associações. Para compreender é necessário que se estabeleçam laços e esta articulação, máquina alguma é capaz de fazer, pois a sua “leitura” do contexto é sempre literal. Identificando a linguagem como o instrumento da inteligência, podemos entender que a linguagem humana não pode ser neutra, “não sendo jamais este estoque de palavras armazenadas à maneira de um programa de computador; ela é, desde o início, carregada de afetos em razão da situação mesma em que se encontram o neonato e o bebê” (Cordié, 1996). Compreender, portanto, é uma operação que toca no mais essencial da constituição do ser. Por isso, máquina alguma poderá pensar como um ser humano, pois jamais o conhecimento “produzido” por ela será capaz desta dimensão inconsciente que envolve a inteligência e o processo de aprender. |
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Quando enfatizamos que o lugar da tecnologia na educação vai depender essencialmente da nossa concepção do processo ensino-aprendizagem, estamos ressaltando o caráter de instrumento, de ferramenta cultural que todo objeto tecnológico traz em sua própria constituição. Como nos mostra Cysneiros (1998), teremos sempre reduções e ampliações na nossa leitura de mundo quando usamos uma certa tecnologia. Não poderia ser diferente com o uso dos computadores na escola. Se, como já discutimos, o computador é uma tecnologia que traz ampliações ao processo de ensino-aprendizagem, por que está sendo tão difícil a sua inserção na prática pedagógica dos professores? Talvez, os professores já estejam desencantados com as promessas de mudanças na educação pela inserção de uma ferramenta de apoio, ainda que esta ferramenta seja um computador, com todos os seus recursos e possibilidades, inclusive de interação. Já foi assim com o rádio, com a televisão. Cysneiros (1998) nos traz a idéia do ciclo da introdução de novas tecnologias de Larry Cuban: “Sua principal conclusão é que o uso de artefatos tecnológicos na escola tem sido uma história de insucessos, caracterizada por um ciclo de quatro ou cinco fases, que se inicia com pesquisas mostrando as vantagens educacionais do seu uso, complementadas por um discurso dos proponentes salientando a obsolescência da escola. Após algum tempo são lançadas políticas públicas de introdução da nova tecnologia nos sistemas escolares, terminando pela adoção limitada por professores, sem a ocorrência de ganhos acadêmicos significativos. Em cada ciclo, uma nova seqüência de estudos aponta prováveis causas do pouco sucesso da inovação, tais como falta de recursos, resistência dos professores, burocracia institucional, equipamentos inadequados. Após algum tempo surge outra tecnologia e o ciclo recomeça, com seus defensores argumentando que foram aprendidas as lições do passado, que os novos recursos tecnológicos são mais poderosos e melhores que os anteriores, podendo realizar coisas novas, conforme demonstram novas pesquisas. E o ciclo fecha-se novamente com uso limitado e ganhos educacionais modestos.” Hoje, os professores têm que dar conta da sua área de conhecimento, das contribuições da Pedagogia, das teorias de desenvolvimento cognitivo e emocional, das relações com a cultura, das inovações tecnológicas. Tudo isso atrelado a um ritmo frenético de trabalho, correndo de um lado para outro, com pouco dinheiro para investir em sua formação profissional e em seu lazer. É compreensível que resistam a promessas milagrosas de mudanças quando são apresentados a toda espécie de tecnologia educacional. Sancho (1998) nos alerta para o processo de descontextualização da “cultura” tecnológica, que leva em consideração somente aqueles componentes dos problemas que têm uma solução técnica e desconsidera o impacto provocado pela tecnologia nos indivíduos, na sociedade e no ambiente. No que se refere ao uso do computador como ferramenta pedagógica, os professores sentem-se mais angustiados ainda, pois ele permite inúmeras formas de utilização, já citadas anteriormente, e os professores não estão familiarizados com essa tecnologia. Ainda há o mito de que os computadores poderão substituir os professores. Em seu artigo Novas tecnologias e o reencantamento do mundo, Moran afirma que as tecnologias da educação não substituem o professor, mas modificam algumas de suas funções. Já não cabe a idéia do professor como transmissor de informações. O seu papel é muito mais o de construtor de andaimes para que o aluno, com autonomia, construa o seu conhecimento. Ferreira, em O virtual na escola, traz-nos esse recorte: “Nicholas Negroponte, coordenador do MIT, em entrevista ao programa de televisão Roda Viva, comentou que não nos lembramos do professor da nossa infância que tinha a melhor metodologia de ensino; lembramo-nos daquele que afagou a nossa cabeça quando estávamos tristes ou preocupados. Don Tapscott, autor de best-seller Geração Digital, em entrevista à revista VEJA – Vida Digital (19 de abril de 2000), diz-nos que “os professores, assim como os pais, nunca devem substituir o tempo que passam com as crianças por um computador, pois a chave para uma boa educação ainda é a leitura e as brincadeiras com as crianças.” Porém, quando pensamos naquele professor-transmissor de informações, com suas fichas amareladas que servem para todas as turmas, com seus mesmos textos que devem ser lidos do mesmo jeito, com suas já conhecidas provas, com seu esquema de aula monótono, onde não ocorre o pensamento divergente e não há espaço para a subjetividade, compactuamos com Ramal (2002) quando afirma que esse modelo de professor vai ser substituído na cibercultura. O nosso grande desafio é incorporar os benefícios das tecnologias modernas ao processo de ensino-aprendizagem, quer ocorra em salas de aula tradicionais ou em ambientes virtuais, quer ocorra na interação face a face ou a distância. Citando Caetano Veloso: “Para nossa convivência você também tem que saber se inventar”. Focalizando mais especificamente o uso dos computadores para uma educação a distância, sentimos a necessidade de uma definição do que seria uma educação dessa forma. Moran em seu artigo “O que é educação a distância” nos diz que: “Educação a distância é o processo de ensino-aprendizagem, mediado por tecnologias, no qual professores e alunos estão separados espacial e/ou temporalmente. Apesar de não estarem juntos, de maneira presencial, eles podem estar conectados, interligados por tecnologias, principalmente as telemáticas, como a Internet. Mas também podem seu usados o correio, o rádio, a televisão, o vídeo, o cd-rom, o telefone, o fax e tecnologias semelhantes”. No referido artigo, Moran alega ainda que as tecnologias que promovem a interação têm facilitado o processo de interlocução, em contrapartida com o que ocorre em uma sala de aula convencional, na qual os alunos interagem muito pouco e prevalece o esquema de comunicação numa única direção: o professor fala, os alunos ouvem. Essa interação dos alunos favoreceria a construção do conhecimento. Apesar de concordar com a posição de que um suporte tecnológico que favoreça a interação entre os seus usuários possa ser interessante enquanto instrumento pedagógico, não posso deixar de salientar, mais uma vez, que o seu simples uso não indica uma nova postura na relação professor-aluno, alunos-alunos, comunidade de aprendizagem-sociedade. O que fará a diferença é o olhar do professor diante dessa nova forma de comunicação, a partir dos seus referenciais sobre o ensinar-aprender. Salientamos que as tecnologias de comunicação não mudam necessariamente a relação pedagógica, servindo tanto para reforçar uma visão conservadora como uma mais flexível. Para Moran, em seu artigo Mudar a forma de ensinar e de aprender com tecnologias, a educação é um processo que visa sensibilizar os seus agentes a aprender a aprender, sempre. Os alunos devem ser ajudados na construção do seu lugar no mundo, do seu projeto de vida, em seus aspectos sociais, intelectuais e emocionais. Então, a tecnologia não é o objetivo do processo educacional, mas uma ferramenta que pode favorecer a comunicação e a busca de informações, como textos e imagens, no caso da telemática. No mesmo artigo, Moran nos alerta para o fato do ensino e da aprendizagem no mundo atual exigirem muito mais flexibilidade espaço-temporal, pessoal e de grupo, menos conteúdos rígidos e processos mais maleáveis de pesquisa de informações e de comunicação. Porém, tanta flexibilidade de pesquisa e comunicação exige uma atenção mais forte do professor, pois os alunos tendem a se dispersar no emaranhado de informações da rede e não realizam o processo de interpretação e articulação de idéias, fundamental para a construção de conhecimento. É necessário que o professor atue como mediador nesse processo, promovendo a reflexão crítica, sugerindo pontos de análise e novas pesquisas. Esse novo perfil do professor num ambiente virtual de aprendizagem, no qual ocorrem muitas interações, tem causado um problema interessante: a quantidade de alunos que um professor pode acompanhar. Quando a proposta de ensino-aprendizagem incorpora as tecnologias de comunicação na sua prática, o professor dedica muito do seu tempo para responder às consultas dos alunos, acompanhar seus debates e pesquisas. Litwin (2001) nos mostra que “uma grande quantidade de alunos para atender em consultas pode transformar o docente em uma máquina skinneriana, sem tempo para pesquisar, produzir, dar aulas presenciais e participar de reuniões de trabalho”. Alava (2002) nos mostra que o ciberespaço não é um simples instrumento de difusão da informação, associado a uma possibilidade de interação; é mais que isso; é uma verdadeira tecnologia intelectual, uma ferramenta cognitiva no sentido pleno dado por Vygotsky. Lévy, em Educação e cybercultura, afirma que: “Toda e qualquer reflexão séria sobre o devir dos sistemas de educação e formação na cybercultura deve apoiar-se numa análise prévia da mutação contemporânea da relação com o saber. A esse respeito, a primeira constatação envolve a velocidade do surgimento e da renovação dos saberes e do know-how. Pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das competências adquiridas por uma pessoa no começo de seu percurso profissional serão obsoletas no fim de sua carreira. A segunda constatação, fortemente ligada à primeira, concerne à nova natureza do trabalho, na qual a parte de transação de conhecimentos não pára de crescer. Trabalhar equivale cada vez mais a aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos. Terceira constatação: o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que ampliam, exteriorizam e alteram muitas funções cognitivas humanas: a memória (bancos de dados, hipertextos, fichários digitais [numéricos] de todas as ordens), a imaginação (simulações), a percepção (sensores digitais, telepresença, realidades virtuais), os raciocínios (inteligência artificial, modelização de fenômenos complexos). “ A educação a distância está possibilitando um novo modelo de formação profissional: a formação continuada. Como Lévy colocou no artigo acima, na sociedade atual nunca saberemos o suficiente e estaremos sempre descobrindo coisas novas que acrescentarão idéias e recursos ao nosso trabalho. Como o modelo institucional de “escola” não atende à demanda dos profissionais que não podem estar sujeitos aos seus horários rígidos e seqüências fixas de ensino, os ambientes virtuais de ensino estão surgindo como uma possibilidade mais flexível para que o profissional se capacite em seu próprio ambiente de trabalho ou em sua casa, no horário que lhe for conveniente. Grandes empresas têm utilizado as tecnologias de comunicação com esse propósito, bem como profissionais autônomos em todo o mundo. Já é possível para um médico que trabalhe em regiões menos desenvolvidas economicamente assistir a uma aula e trocar idéias com os melhores especialistas do mundo em sua área, tendo no seu computador recursos de som, imagem e textos, além da interação via Internet. No ambiente educacional que utiliza as novas tecnologias percebemos que ainda temos muito a construir. Pierre Lévy, em Educação e cybercultura, discute a necessidade de termos um novo modelo de pedagogia que favoreça tanto o desenvolvimento de cada aluno, com autonomia e em seu próprio ritmo, como o aprendizado cooperativo em rede: “Nesse quadro, o docente vê-se chamado a tornar-se um animador da inteligência coletiva de seus grupos de alunos, em vez de um dispensador direto de conhecimentos. ... Hoje, pois, as metáforas centrais da relação com o saber são a navegação e o surfe, que implicam uma capacidade para enfrentar as ondas, os turbilhões, as correntes e os ventos contrários numa extensão plana, sem fronteiras e sempre mutante. Em contrapartida, as velhas metáforas da pirâmide (escalar a pirâmide do saber), da escala ou do curso (já todo traçado) têm aquele cheiro gostoso das hierarquias imóveis de outrora.“. Ainda no mesmo artigo, Lévy sugere que, ao contrário da imagem construída pelo senso comum, as tecnologias de informação não isolam as pessoas umas das outras, mas as aproximam: “As páginas Web expressam as idéias, os desejos, os saberes, as ofertas de transação de pessoas e grupos humanos. Atrás do grande hipertexto está borbulhando a multidão e suas relações. No ciberespaço, o saber não pode mais ser concebido como algo abstrato ou transcendente. Está se tornando cada vez mais evidente — e até tangível em tempo real — que esse saber expressa uma população. Não só as páginas Web são assinadas, igualmente às páginas de papel, como também costumam desembocar numa comunicação direta, interativa, via correio digital, fórum eletrônico, ou outras formas de comunicação por mundos virtuais, como os MUDs ou os MOOs. Assim, ao contrário do que a vulgata mediática deixa crer sobre a pretensa “frieza” do ciberespaço, as redes digitais interativas são potentes fatores de personalização ou encarnação do conhecimento.” Uma outra reflexão importante sobre o isolamento provocado pelo uso da tecnologia é apresentada pelo jornalista Gilberto Dimenstein, coordenador do projeto Aprendiz do Futuro, citado por Ferreira no artigo O Virtual na Escola: “O que provoca o isolamento não é a tecnologia – as máquinas apenas acentuam uma tendência nutrida dentro da sociedade. O isolamento é fruto de uma visão individualista, cínica até, sem valores comunitários, na ética e na ótica do “cada um por si e ninguém por todos”. Não se ensina a cooperar, mas apenas competir; o padrão do sucesso é aquele de quem briga para ser mais rico e mais famoso. Mergulhados em seus problemas e agendas lotadas, pais não conversam com os filhos – e, depois, a culpa do isolamento é da tecnologia. A sociedade vai ficando mais moderna, oferece oportunidades, e vamos, paradoxalmente, ficando com menos tempo. Ganhamos visibilidade virtual e invisibilidade real.” Um aspecto interessante que estamos presenciando no mundo pós-moderno é a volta do saber para a comunidade em geral. Nas sociedades em que a escrita não era utilizada para registro do saber, os idosos eram verdadeiras bibliotecas vivas e com a sua morte muito se perdia do conhecimento compartilhado pelo seu povo. Com o advento da escrita, começamos a registrar o conhecimento da sociedade e precisamos de especialistas para decodificá-lo. Com as novas tecnologias de comunicação, esse saber volta a ser compartilhado pelos indivíduos como um todo e não apenas pelos especialistas (antigos monges, modernos cientistas). Porém, ao contrário da época em que a oralidade era a forma de registro desse saber, temos agora a possibilidade de registrá-lo no ciberespaço (região dos mundos virtuais pelo intermédio dos quais as comunidades descobrem e constroem objetos e se conhecem como coletivos inteligentes – definição de Lévy). A tendência das discussões atuais sobre o uso das tecnologias na educação passam do enfoque do uso de multimídias para o ensino de determinados conteúdos ou da substituição do professor pelo computador no processo ensino-aprendizagem (nos dois casos teríamos ‘máquinas de ensinar’) para o enfoque em que os computadores são considerados instrumentos de comunicação, de pesquisa e de produção de mensagens, dentro de um processo de aprendizagem cooperativa. Lévy, em Educação e cybercultura, mostra-nos que “Não se trata aqui de utilizar a qualquer custo as tecnologias, mas sim de acompanhar consciente e deliberadamente uma mudança de civilização que está questionando profundamente as formas institucionais, as mentalidades e a cultura dos sistemas educativos tradicionais e, notadamente, os papéis de professor e aluno.” Devemos estar atentos ao fato de que a maioria dos cursos que utilizam as tecnologias de comunicação com ferramenta pedagógica ainda reproduzem os modelos de ensino-aprendizagem da antiga e familiar sala de aula, tendo como enfoque principal o conteúdo. Precisamos reformular essa forma de trabalhar, nos dois tipos de ambiente, promovendo de maneira mais ampla a construção do conhecimento e a interação entre os membros de uma comunidade de aprendizagem. Moran, em Pedagogia integradora do presencial-virtual, alerta-nos para a importância de sensibilizarmos os alunos para a “paixão” pelo aprender: “É difícil manter a motivação no presencial e muito mais no virtual, se não envolvermos os alunos em processos participativos, afetivos, que inspirem confiança. Os cursos que se limitam à transmissão de informação, de conteúdo, mesmo que esteja brilhantemente produzido, correm o risco da desmotivação a longo prazo e, principalmente, de que a aprendizagem seja só teórica, insuficiente para dar conta da relação teoria/prática. Em sala de aula, se estivermos atentos, podemos mais facilmente obter feedback dos problemas que acontecem e procurar dialogar ou encontrar novas estratégias pedagógicas. No virtual, o aluno está mais distante, normalmente só acessível por e-mail, que é frio, não imediato ou por um telefonema eventual, que é mais direto, mas num curso a distância encarece o custo final.” Moran sugere ainda que tenhamos cursos, sua grande experiência é em universidades, que combinem momentos presenciais e virtuais: “Quando propomos flexibilizar o tempo presencial e virtual damos mais importância ao estarmos juntos. Nada supera a presença física. O virtual é um pálido reflexo das possibilidades de contato e intercâmbio que o presencial propicia e que exploramos pouco. O virtual é mais “cômodo”, facilita o acesso a distância, a comunicação em qualquer momento sem sair do nosso espaço profissional ou familiar. Mas é uma interação muito pobre comparada com a de estarmos juntos.” Como, porém, pode um professor, que aprendeu a ensinar e a aprender de uma forma tão diferente das possibilidades atuais, participar dessa revolução na educação? O que muda no seu papel? Mais uma vez, Moran aponta um caminho: “Muda a relação de espaço, tempo e comunicação com os alunos. O espaço de trocas se estende da sala de aula para o virtual. O tempo de enviar ou receber informações se amplia para qualquer dia da semana. O processo de comunicação se dá na sala de aula, na internet, no e-mail, no chat. É um papel que combina alguns momentos do professor convencional - às vezes é importante dar uma bela aula expositiva – com um papel muito mais destacado de gerente de pesquisa, de estimulador de busca, de coordenador dos resultados. É um papel de animação e coordenação muito mais flexível e constante, que exige muita atenção, sensibilidade, intuição (radar ligado) e domínio tecnológico.” Através da comunicação no ciberespaço professores e alunos construirão uma forma nova de relacionamento. Menos hierarquizada, mais flexível, talvez mais aberta. Diante do longo caminho a percorrer, não nos esqueçamos de Sócrates: "Todo o meu saber consiste em saber que nada sei." Agora, voltemos ao mundo “real”. Tentando articular a minha prática, enquanto educadora e psicóloga, com a teoria com a qual tive contato, pude observar que as tecnologias da sociedade contemporânea em muito auxiliam a minha construção de conhecimento e o meu caminhar nessa vida. A idéia de utilizar o texto virtual surgiu quando queria articular a minha experiência, as coisas interessantes que já havia conhecido, com a discussão que ocorreria no texto. Então, a linguagem escrita ficou sendo uma ferramenta que não abarcaria tudo o que eu queria compartilhar: eu tinha textos, sites, AVEs, música, poesia, leitura de revistas, imagem, piada, vídeo (não consegui inserir essa mídia porque o meu computador não possui a placa para capturar o filme – pensei em um trecho de Tempos Modernos, de Chaplin) e apresentações no PowerPoint - que não foram inseridas devido ao tamanho dos arquivos. Ao reler Lévy, encontrei-me no seu texto com o exemplo do aluno que trouxe um texto virtual para discussão em sala de aula. Coisas do inconsciente coletivo. Acredito que a forma criativa de escrever de Cysneiros me dá coragem de ousar e aproxima-me do mestre amigo. Em Moran, encontro uma postura bem humana, no sentido do presencial, da educação a distância. Talvez a articulação de suas idéias sobre a relação professor-aluno com as de Freud não seja uma coisa proposital, mas nela ancoro a minha visão de ensino-aprendizagem, visão essa ampliada pelas idéias de Kupfer, Cordié e Fernandez. “Imagine que não existam países... fico pensando se você consegue.” Para finalizar, utilizo-me de um trecho de Cysneiros (1998) onde ele relata uma historinha contada de modo mais ou menos gaiato (com uma pitada de ironia) por Ariano Suassuna, sobre duas estudantes universitárias que aplicavam um questionário à gente simples de uma cidade do interior da Paraíba. Chegando à beira do açude local, as universitárias abordaram dois pescadores que acabavam de chegar com alguns peixes, em uma tosca embarcação. Uma das pesquisadoras pergunta: - O senhor sabe quem é o governador do estado? - Sei não moça. - Sabe quem é o prefeito da cidade? - Também não moça. - Conhece algum deputado? - Conheço não moça. Houve um pequeno silêncio, quando uma das meninas comentou casualmente: - Puxa, moço, o senhor não sabe nada, hein? Um dos pescadores pegou um dos peixes pelo rabo e perguntou às forasteiras: - Vocês sabem que peixe é esse? - Sei não, moço. - E esse outro, vocês conhecem? (A mesma resposta negativa). - E esse? E esse aqui? Foi a vez do pescador comentar: Pois é moça, cada um com suas ignorâncias.
Onde buscar mais informação:
[1] Patrícia Vasconcellos Pires Ferreira patricia@caleidoscopio.psc.com [3] Idéias apresentadas na monografia “O Efeito do Software Educativo no Desenvolvimento da Ortografia pela Criança”. |