A INFLUÊNCIA DA TECNOLOGIA NAS RELAÇÕES FAMILIARES

Patrícia Vasconcellos Pires Ferreira

Os recursos tecnológicos da sociedade pós-moderna mudaram para sempre a nossa concepção de tempo e espaço. Hoje, podemos trocar informações com pessoas em qualquer lugar do mundo, quase que instantaneamente, desde que tenhamos computadores “plugados” na grande rede mundial, a Internet. Texto, som, imagem trafegam pela rede a velocidades nunca antes imaginadas. Já estamos preocupados com o analfabetismo digital.

Estamos vivendo a era da informação. Já não nos basta a formação acadêmica concluída com um curso de graduação numa boa universidade. Temos que continuar aprendendo sempre e não apenas novos conteúdos relacionados a nossa área de atuação, mas temos que aprender a selecionar informações relevantes, a articular essas informações.
Compramos pela Internet; fazemos consulta médica pela Internet; pesquisamos na Internet. Mas, será que podemos estabelecer uma verdadeira (real) relação humana no mundo virtual dos computadores? Será que podemos estabelecer uma verdadeira (real) relação de ensino-aprendizagem entre aluno-professor, tendo como paradigma a tão famosa “educação à distância”?

No mundo do século XXI, a tecnologia tem sido a nova forma para não enfrentarmos a sempre tão dura realidade. Através da tecnologia nos relacionamos com o mundo de sonhos e fantasia que ela nos apresenta. Preferimos o simulacro (reprodução técnica) ao real, a imagem ao objeto.
Nos famosos chats da Internet, crianças, jovens, adultos e idosos também “vivem” o auge da simulação: no mundo virtual, ou das possibilidades, podemos criar personagens, inventar roteiros para a história de nossa vida virtual. As informações fornecidas não precisam ser fidedignas à nossa vida real, já que não podem ser checadas.

Os videogames reforçam a nossa onipotência, devolvendo-nos o mito de Narciso perdido na nossa tenra infância.

Dessa forma, vamos como que driblando a nossa castração e os nossos limites e desenvolvendo um individualismo cínico onde o outro, enquanto ser humano, vai perdendo, cada vez mais, o rosto, diluindo-se em telas, estatísticas ou números. Até a televisão estimula a nossa passividade frente à sociedade: somos apenas espectadores, não nos implicamos como agentes transformadores.

Com tantos recursos tecnológicos desenvolvidos para facilitar a comunicação entre as pessoas, como o telefone celular, os computadores em rede, o fax, a televisão, o videocassete, será a tecnologia a nossa máscara do isolamento?

Gilberto Dimenstein, em sua coluna na Folha de São Paulo (em 28 de maio de 2000), pontua a mudança de comportamento dos jovens americanos que estão com falta de disposição para o ritual do convívio social:

“Conversa-se bem à distância e administra-se mal a proximidade, uma óbvia e-diotice. Os seres humanos perdem, e as máquinas ganham interatividade. Difícil encontrar pessoa, especialmente entre os mais jovens, hábil em contar boas histórias, fazer relatos interessantes sobre suas experiências, na admirável tecnologia do bate-papo.
Nada é mais interativo (nenhum software chega perto) do que uma boa conversa, movida a sorriso e olhares reais.”

Os ambientes virtuais de convívio até tentam simular nossos ambientes de convívio social: temos sala de bate-papo, sala dos professores, mural, hora do recreio. Mas precisamos estar atentos para o aspecto da simulação, do parece que é, mas não é. Não podemos igualar a emoção de uma experiência de uma simulação do vôo de ultraleve com a do vôo na realidade, com o vento batendo no rosto e o gostoso cheiro do mar.

É claro que é fantástica a possibilidade da videoconferência, permitindo que pessoas de várias partes do mundo tenham acesso a uma informação relevante e discutam sobre ela. Porém, uma palestra ao vivo do mesmo conferencista apresenta uma enorme diferença. Também é maravilhosa a oportunidade de pessoas de lugares distantes poderem realizar um curso on-line. Mas, nada poderá substituir o carinho de um bom professor.

E, enquanto pais e educadores, reflitamos um pouco: quantas vezes deixamos que a tecnologia fizesse a intermediação das nossas relações com nossos filhos? Quantas festas e momentos importantes deixamos de estar presentes e pedimos para que filmassem e fotografassem as nossas crianças? Quantas vezes monitoramos as suas tarefas escolares via celular? (agora temos até escola 24h no ar, filmando/vigiando nossos filhos!!) Quantas vezes ligamos a televisão para que a mesma fizesse o papel de babá e tomasse conta de nossos filhos? Quantas vezes colocamos uma fita cassete ou de vídeo para contar uma história ou cantar uma música na hora de dormir? Quantas vezes colocamos um videogame para que essa maquininha brincasse com nossos filhos em nosso lugar?

Os recursos tecnológicos são instrumentos culturais da nossa época e devemos fazer a apropriação deles. Podemos assistir a programas de televisão ao lado dos nossos filhos, comentando com eles cenas interessantes; podemos jogar videogames – e sempre perdermos – com nossos filhos; podemos navegar na Internet em busca de informações para seus trabalhos escolares ou providenciarmos um software educativo que lhes mostre imagens dos vulcões de Vênus, por exemplo.

Mas não podemos deixar de brincar com nossos filhos, não podemos deixar de contar-lhes histórias, não podemos deixar de tocar-lhes, não podemos deixar de falar-lhes, não podemos deixar de ouvir as suas confidências, não podemos deixar de fazer com que acreditem que a vida é bela.

Se a missão parece impossível, na nossa atual sociedade competitiva e de sucesso, Chaplin nos mostra o caminho:

“Mais do que máquinas,
precisamos de humanidade.
Mais do que inteligência,
precisamos de afeição e doçura.
Sem essas virtudes a vida será de violência
e tudo estará perdido.”

 

Bel. em Ciência da Computação e em Psicologia, Psicóloga Clínica, Especialista em Informática na Educação e em Psicologia Transpessoal, Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva da UFPE.
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